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Fabrício Dela Torre Vital
A Humanidade e os Césares - Mário Roso de Luna
A Humanidade e os Césares
M.RO..rODE II,~ HUMANIDADE e uv". ## Suscitações Teosóficas
Da Guerra
Um só mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros! JOÃO, xv, 12. Eu combato pela alma. sua coroa é de louros. Cante-me versos, poeta: prostra-te, mundo, a meus pés! (SPROCED' "I Ollla M"n~a" • ## Obras De Don Mario Roso De LunaKinethórizon, instrumento de Astronomia popular para conhecer, sem professor, as constelações. - 2 pesetas. Preparação para o estudo da Fantasia Humana, sob o duplo aspecto da vigília e do sonho.-(Esgotada.) Projeto de uma Escola-Modelo para a educação e ensino de jovens anormais.-(Esgotada.) Rumo à Gnose.-Ciência e Teosofia.-3 pesetas. No Umbral do Mistério (continuação de Rumo à Gnose).-3 pesetas. Conferências teosóficas na América do Sul.-Dois volumes: 8 pesetas. A Ciência Hierática dos Maias.-Estudo dos códices mexicanos do Anáhuac.-2 pesetas. Dicionário enciclopédico da Língua Castelhano (em colaboração). Evolution solaire, et séries astro-chimiques (traduzida para o francês, por Túro y Gisbert).-4 pesetas. Pelo campo da eletricidade (tradução da obra de Dary, A travers l'électricité.) Beethoven, teósofo, edição privada.-(Esgotada.) A Humanidade e os Césares. -Suscitações teosóficas com motivo da guerra atual.-3 pesetas. ## A Humanidade E Os Césares(SUSCITAÇÕES TEOSÓFICAS COM MOTIVO DA GUERRA ATUAL) BIBLIOTECA DAS MARAVILHAS. - Tomo 1.-Pela Astúrias tenebrosa.-O tesouro dos lagos de Somiedo, narrativa ocultista.-6 pesetas. Outros tomos, em impressão, da BIBLIOTECA DAS MARAVILHAS: Tomo II.-As gentes do outro mundo. Tomos III e IV. - Wagner mitólogo e ocultista: O Drama lírico de Wagner e os Mistérios da antiguidade. Tomo V.-A Atlântida, continente histórico. Tomo VI.-A Química como ciência da água. Tomo VII -A Magia e seus perigos. 1 ## Biblioteca Teosófica
M. Roso De Luna
1 É propriedade do autor. ## I
A Humanidade,
E Os Césares
(Suscitações Teosóficas
Com Motivo Da Guerra Atual)
Madrid
Livraria Da Viúva De Pueyo
Rua da Abada, nº 11. Imprensa de Juan Pueyo, Luna, 2). Telefone 14-30.-MADRID. 1916 ## A Don Alfredo VicentiAo mestre de jornalistas e literatos, que em 1892 publicou no El Globo um artigo pra primavera; ao espelho de cavalheiros e modelo de amigos; ao incompreendido TEMPLÁRIO, enfim, seu adorador devotíssimo, M. Roso DE LUNA. Maio de 1916 ~~"/> -'- - '/>" . .. ""... \ , . , ' / t> ~ ~ ;,""-,,,_/ ## Carta AbertaS. D. Mario Roso de Luna. Meu querido amigo: Bem sabe você que estou doente há mais de duas semanas e que não dá sinais de melhora tão desagradável enfermidade. Isso me impede agradá-lo, como seria meu desejo, atendendo ao seu pedido, que tanto me honra, de escrever um prólogo ao seu novo livro A Humanidade e os Césares. O que poderia eu dizer nesse prólogo, que não imaginassem aqueles que leem os títulos sugestivos de seus capítulos, síntese maravilhosa das teorias históricas que você propõe, audaciosas e revolucionárias como tudo que sai de sua pena forte e renovadora? Quantos o conhecem – e são milhões de homens que leem – sabem que você é um de nossos pensadores mais profundos, um de nossos sábios mais eminentes, um de nossos oradores mais eloquentes, algo que compendia todas as riquezas do talento e do gênio em uma resultante / ,,/ t ## Carta Aberta
Carta Aberta
que é algo mais que o gênio: o vidente. Agora saberão, quando passarem seus olhos pelas páginas de seu livro, que você é um historiador que não precisa das fontes de Heródoto, nem dos antecessores de Tácito para construir um verdadeiro período humano-histórico que, abrangendo todas as idades – as mais remotas e as modernas – demonstra que em todos os tempos houve / homens, césares /, ansiosos de domínio, de poder e de riqueza e / homens – livres / que têm trabalhado silenciosamente para destruir esse tripe yugo de escravidão e assegurar às raças e aos povos sua liberdade e sua autonomia individual. Caiu o poder persa, caiu o egípcio, e antes caiu o indostânico, como seguramente caiu, envolto em uma mágica catástrofe, o atlântico. Alexandre sucumbiu para que seu poder sucumbisse, e o orgulho de Augusto foi maculado pela morte vergonhosa de Constantino XIII ao entregar ao árabe Maomé II a bela Istambul. O império alemão, lutando com os sucessores de São Pedro, durante séculos, claudicou em Canossa perante o pontífice Gregório VII. Mas o que mais? nos dias de nossos avós viu-se abaixar o poder de Bonaparte, que, por um momento, pôde ser considerado – novo Deus-Senhor do planeta Terra. De todos esses poderes levantados e caídos – tendo por base o sangue, a ignorância, a miséria e a dor da humanidade – você fala em seu livro com verbo cálido e entonação de santo reformador austero, e os julga como devem ser julgados, a saber, que / nenhum poder que vá contra a lei do homem, que é a lei do mistério, prevalecerá nem terá firmeza na terra./ Esse outro poder moderno que nasceu na Prússia e se alimentou e cresceu na pátria de Goethe, morrerá também por lei de Deus – do Deus que rejeita esses poderes – e por virtude do esforço humano, que não quer voltar aos dias do feudalismo que tanto afligiram as gerações mortas e ainda fazem estremecer as que vivem. Querido Rosoyo, que tanto admiro e quero pelo sábio e pelo bom que você é, não posso dizer de seu livro o que gostaria de dizer, porque precisaria estar bom para isso e dispor de muito tempo para fazer um resumo de sua doutrina. Tenha a certeza de que fez algo que não perecerá como perecem os poderes que se fundamentam na força, e que sua nova ciência histórico-filosófica pode rir dos sábios com selo oficial e dos gênios da Academia, que já sabemos o que valem. É a ciência de um amanhã próximo, Seu, e admirador sincero 10 ## W Aldo A. InsúaMadrid 21 Maio 1916, ## Ii
Preliminar
Homem sou que mal pensa. Quero dizer que maldito seja quem atribua a este livrinho qualquer caráter sectário, nem menos de parcialidade manifesta para com um ou outro dos dois poderosos grupos de nações que lutam titaneamente pelo império ou contra o império do planeta. Nossas nobres preferências pela causa dos aliados contra a dos impérios centrais, que não temos lealmente por que ocultar, não nascem, não, de motivos bastardos, nem ao menos de motivos patrióticos. Como espanhol, julgando o eterno uso egoísta de homens e de povos, acaso nossas simpatias poderiam antes estar do outro lado: Portugal sempre manteve um notório desvio em direção à ideia lógica, científica, historicamente fatal e indeclinável de uma grande Pátria íbera de mar a mar, pátria que haverá de se restaurar no futuro, sem o emprego da força e mediante ## A Humanidade E Os Césares15 ## M. Roso De Lunapactos honrados, assim que a Espanha se tiver limpado de sua lepra tradicional. A França, apesar de suas nobílissimas qualidades e da gallardía com que sempre se sacrificou e se sacrifíca pelas boas causas da liberdade e da justiça, tem dado a Espanha em todo tempo um duro trato como a uma irmã menor e deserdada, invadindo-a no passado com Napoleão e hoje regateando-a, a modo de lojistas, uma zona de influência marroquina duas ou três vezes trocada por sucessivos tratados mesquinhos, metendo-a, além disso, também por impulso inglês, nessa tristíssima aventura marroquina, contra toda justiça, aventura que a sangra, a desonra e a humilha, e digo "contra toda justiça", porque só com iniciativas generosas e com o envio, por exemplo, de médicos, professores e homens de ciência é que poderia tirar o Marrocos da abjeção, rompendo aquele statu quo que tanto foi defendido por Cánovas... A Bélgica, por sua vez, também não tem sido justa, como pode ser demonstrado, em seus empreendimentos congoleses com aqueles infelizes negros do interior, até o ponto em que sua atual desgraça, às claras cruel e injusta por parte de seu invasor teutão, talvez, talvez tenha um pequeno precedente naquelas nebulosas esferas que os teósofos chamamos de karma coletivo, ou que cada homem e povo colhe o que plantou. Quanto à Rússia, ainda são recentes suas crueldades com os infelizes deportados revolucionários na Sibéria e naquelas prisões dantescas em que alguns destes foram ¡horrivelmente devorados por ratos!; e em relação, enfim, à Inglaterra, senhora natural do mundo contemporâneo; porque, com defeitos e tudo, é a mais gallarda, a mais justa escola de tolerância e de liberdades cívicas; e o asilo único da verdadeira liberdade, seus pecados de orgulho, mercantilismo e egoísmo, bastante reconhecidos hoje por ela em seu foro interno após a dura lição das perdas y das humilhações que esta guerra lhe tem dado o levaram a manter sempre frente a Espanha, entre desprezos ao estilo Chamberlain, esse duvidoso equívoco de Gibraltar, onde ainda tremula a bandeira inglesa, por culpa dos péssimos políticos espanhóis, que bem poderiam ter encontrado uma fórmula que, deixando salvo a eterna soberania espanhola sobre o Penhão, desse, no entanto, à Inglaterra as facilidades que ela indiscutivelmente precisa para assegurar a liberdade de sua rota para a Índia por algo que, em direito genuíno poderíamos chamar servidão de passagem, como as tantas que no Direito privado estão reconhecidas, e graças à qual Inglaterra tem, sem dúvida, direito a usar praticamente Gibraltar, pelo que chamaríamos 17 ## A Humanidade E Os Césares
M. Roso De Luna
também expropriação forçada por motivo de utilidade pública, conceitos estes que não sei se faço bem em apontar, já que neste livro mal poderiam receber a adequada defesa e desenvolvimento. Mas não: por patriotas que sejamos – e não o somos muito, visto que além de sofrer os mais detestáveis políticos, consentimos, mansos e submissos como ninguém, a completa mediatização do país, não já pelo poder eclesiástico, romano, mas pelo jesuítico que está por trás – o dever de quem teosoficamente pensamos que o único dogma da Humanidade é o da Fraternidade Universal, não é outro senão o de nos sentirmos antes homens do que espanhóis, alemães ou franceses; e como homens pensar e sentir; e como homens falar claramente, dizendo que essas últimas denominações particularistas são algo assim como as nuances nas flores, ou as imensas variedades dos seres que têm de se integrar na Unidade Suprema se o mundo há de ser um verdadeiro Cosmos ou Harmonia, integração na unidade suprema, digo, do único substantivo verdade: o substantivo Homem, frente ao qual as desinências de espanhol, inglês ou russo são meros adjetivos no excelsíssimo âmbito da Filosofia: Quem, que não seja um infeliz, se atreverá a apontar com o dedo, não já a pátria, mas a Raça, de seres como Rama, Hermes, Krishna, Buddha ou Jesus?… Shakespeare é do mundo; Cervantes, Goethe, Beethoven, Wagner... do mundo, e só do mundo são também, e isto posto, como manter, a título de patriotismos, que frequentemente são armas de dois gumes, esse funesto equívoco de ter por mundiais ou mundanos esses Irmãos Maiores e divinos Guias de todos os homens, e acreditar, no entanto, que, frente a seus ensinamentos de Fraternidade Universal, possam sequer ser nomeados os respectivos patriotismos?… Não. O patriotismo, o amor à casa grande, ou solar dos nossos antepassados, como todos os afetos familiares, é divino quando é doce, secreto, inefável e incomensurável; e maldito quando, em seu nome, menosprezamos os demais homens, que sentem igualmente seus respectivos amores patrios e até de região e de povo nativo. Quem toleraria de bom grado em sociedade um ente... que em todo momento estivesse, com razão Ou sem ela, enaltecendo seu povo e deprimindo os vizinhos? ... Por isso mesmo, dentro do paralelismo Científico que mantêm sempre a filogênese e a ontogenia, passada esta guerra não deveriam ser admitidos no mundanário concertado aqueles homens ou povos que enaltecêssem sua terra, os seus, desprezando os demais... A Alemanha sobretudo, que tanto barulho tem feito nestes dias de loucura Igual à Inglaterra, à França sobretudo, 18 ## M. Roso De Lunaque ontem se tenha dito ou amanhã se possa dizer deverá ser considerado pelos corações fraternais dos homens dignos de tal título como uma instigação ao crime de lesa Humanidade; dessa Majestade, a maior a única talvez cujo trono deve ser erguido sobre a terra. Aqueles outros jovens espíritos, em contrapartida, cujo desenvolvimento evolutivo ainda não lhes permita sentir o poder avassalador de tais verdades, deverão ser tratados, sem que eles o saibam, como em tutela de menores, sorrindo-nos, como de coisas de crianças, quando os ouvirmos querer enaltecer sua pátria sobre as outras, com a infantilidade graficamente estereotipada naquela cantiga asturiana de: O melhor do mundo, Europa; o melhor da Europa, Espanha; o melhor da Espanha, Astúrias; o melhor das Astúrias, Pravia! ou aquilo de: Não há pátria como minha pátria, nem terra como Aragão. ou, enfim, aquela impiedade, tantas vezes proferida por lábios que se dizem cristãos, de: ## A Humanidade E Os Césares19 A Virgem do Pilar diz que não quer ser francesa; que quer ser capitã da tropa aragonesa, já que, como augusto Capitão general dos Exércitos espanhóis, creio, ostenta até a doce estatura de sua escultura quase egípcia... Aqueles amigos das nações aliadas na luta contra os Impérios centrais que pretendem lançar um véu sobre os excelsos, os indiscutíveis, os mil vezes superiores méritos científicos da Alemanha contemporânea prejudicam sua causa, “jogam pedras contra o próprio telhado", como vulgarmente se diz. É preciso confessar, SIM, sem rodeios; a ciência alemã, a filosofia alemã, a música alemã, a química e as indústrias alemãs, a disciplina alemã, etc., etc., não têm rival hoje no mundo. Negá-lo é ser sectário ou estar cego. Mas é, ai!, que o supremo mérito humano não está aqui, nem pode estar. Grandes e salvadoras são a indústria e o comércio; sublime é a Ciência; divino, celestial, é a Arte em todas as suas manifestações; mas, acima de tudo isso estarão sempre o conceito de Amor e o de Humanidade, sem os quais aquelas outras coisas são funestas mentiras preparando rapidamente nossa queda no abismo. Sábios foram, de fato, aqueles 20 ## M. Roso De Lunatitanes angélicos que, cheios de ciência, se levantaram contra a Divindade na lenda bíblica cantada por Milton; tão colossal era seu saber e seu poder, que uns aos outros lançavam na luta montes e até pedaços de astros", ¡Faltos de amor, quanto sobrados de orgulho, desse mesmo orgulho egoísta, companheiro quase inevitável da ciência; no entanto, NÃO PREVALECERAM, E em seu lugar, segundo o épico inglês, foram chamados à nova vida da Evolução outros seres de barro, os homens, mais modestos, sim, mas com missão tão augusta, não obstante, que dela chegou a dizer São Paulo: «Pois que, haveis esquecido que nós julgaremos os anjos do céu?» Feliz vivia, conta o Gênesis, o primeiro casal humano em um paraíso de delícias, Carecia ainda de razão. Como que não tinha comido ainda do fruto da simbólica Árvore do Conhecimento... do Conhecimento do Bem e do Mal, que é tanto arma salvadora quando vai acompanhada de amorosa espiritualidade fraternal, quanto arma de perdição, quando é empregada em destruições e egoísmos!... É verdade que «quem acrescenta ciência, acrescenta dor», segundo se diz mais adiante na sublime lenda do povo hebreu; mas esta não é senão uma verdade a meio caminho, porque a Ciência é arma de dois gumes, que, ou salva ou mata, inexoravelmente, porque a verdade por inteiro é o ## A Humanidade E Os Césares... ## I21 que a Ciência e só a Ciência é a terrível Esfinge com quem hão de topar todos os Édipos humanos em seu caminho. Quando diante da Esfinge científica se chega por lei de evolução, todos os caminhos já se reduzem a um só e duplo caminho: o Caminho da Mão Direita ou da Salvação pela Ciência com Amor, ou o Caminho da Mão Esquerda da perdição da ciência do esforço humano, que, como novo Titã, cai ao abismo..., ao abismo evolutivo onde haverá de esperar eras incontáveis a um novo ciclo de redempções ulteriores. Isto é a eterna luta entre o concreto e o abstrato, essa luta entre a mera Ciência sem Virtude e a Ciência, pelo Amor à Humanidade, transcendida. Nela não estão ainda suficientemente iluminados, ai!, tampouco, ainda que estejam infinitamente mais que seus rivais, os povos que combatem contra os Impérios centrais, porque em seu positivismo egoísta desprezaram, vãos, as luzes da Teosofia, luzes do Oriente, como as do sol renascido; mas todas foram necromanticamente pisoteadas conscientemente pela Alta direção desses Impérios centrais armados do férreo braço do militarismo prussiano, sendo tal pisoteamento tão evidente, que quase não há por que pontuá-lo, pois que se inspira todo nele naquele princípio de perdição e de maldição formulada por Nietzsche, esse triste ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
invejoso do divino Wagner, esse pseudofilósofo de sentimentos perversos, quando estampou aquela: -«Sede cruéis!... assim falava Zaratustra», mentira criminosa, oposta em tudo ao verdadeiro discurso daquele efetivo Zaratustra de Jesus, quando diz: -«Um só mandamento vos dou: amai-vos uns aos outros!» Porque tudo o mais que se disse, e que convém pontuar, para uso principalmente dos enganados espanhóis, não são senão comentários desta Negra-Máxima de ruína, resumo de outras que copio de diversas partes, onde têm desabafado sua triste ciência sem amor pessoas às quais, só com escárnio da Humanidade, se pode considerar como grandes, pois sua grandeza é bem pequena sem dúvida. Aqui está todo um florilégio dessa kultur anticristã e funesta que ameaçou subverter o mundo: "No emprego da violência não há limites..." (Clauzevitz, 1832.) "Uma guerra de necessidade justifica todos os meios." (Treitschke, 1896.) "É preciso que não reste ao povo invadido senão 10 olhos para chorar." (Bismarck, 1870.) "A paz perpétua não é sequer um belo sonho. A guerra faz parte da ordem universal instituída por Deus." (Moltke, 1880.) "Alemanha, graças à sua faculdade de organização, chegou a uma etapa de civilização mais elevada que a dos outros países... A guerra os fará partícipes dela." (Professor Ostwald, 1914.) "Semeemos, com a ajuda dos nossos dirigíveis, o terror e a morte nas populações." (Erzberger, deputado do Reichstag, 1914.) "Antes de tudo, sejam duros." (Mommsen, 1903.) "A guerra é um instrumento de progresso. Escolham a hora do ataque." (Bernhardi, 1912.) "A Kultur não exclui o selvagerismo sangrento; ela sublima o demoníaco." (Thomas Mann, 1914.) "Não temos que nos desculpar por nada... Somos, intelectual e moralmente, superiores a todos, e sem par... Faremos uma limpeza total desta vez." (Professor Lasson, 1914.) "Não dêem quartel ao inimigo; sejam tão terríveis quanto os hunos de Átila." (Guillermo II, 1900.) "Pode-se fuzilar os prisioneiros... Pode-se obrigar os reféns a expor suas vidas." (Manual do grande Estado-Maior alemão, 1902.) "Será preciso que a civilização erga seus templos sobre montanhas de cadáveres, sobre mares de lágrimas, sobre estertores de moribundos? — Sim." (Marechal von Heeseler, 1915) "Todos os prisioneiros serão condenados à morte. Os feridos, com ou sem armas, serão executados também. Os prisioneiros, mesmo em grandes massas, serão também fuzilados. Não deve ficar um só homem vivo atrás de nós." (General Stenger, comandante da 58ª brigada, 1914.) "Oh, tu, Alemanha!... Degola milhões de homens... e que até as nuvens, mais além das montanhas, se amontoem a carne fumegante e as ossadas humanas!" (Enrique Viererdt, conselheiro áulico, 1914.) Assim se expressam os representantes mais genuínos da Kultur ocidental. Veja agora o reverso da medalha nas mais antigas ensinaças orientais e teosóficas: "A lei ou Código do Manú, chamada também Manava-Dharma-Shastra, contém um livro que codifica as leis da guerra", diz o sábio orientalista argentino Dr. Estanislao S. Zeballos em sua excelente obra Justiça Internacional Positiva, e o leitor do nosso tempo que explora suas páginas chega, de surpresa em surpresa, a um sistema cuja substância está reproduzida nas Conferências europeias dos séculos XIX e XX, até mesmo nas de Haia. Sua orientação humanitária é a mesma; persegue idêntico conceito geral, a saber: suavizar a guerra; torná-la menos cruel; não dirigida contra o homem, mas contra o Estado; evitar o uso de meios que produzam martírios ou males desnecessários ao indivíduo; limitar a destruição ao necessário para inutilizar momentaneamente o inimigo e não arruinar os países; proceder na guerra de forma cavalheiresca e humanamente, de modo que os combatentes jamais esqueçam que são seres racionais e que a decência é uma das maiores distinções humanas. /1 E comentando as frases anteriores, um estudioso e meritíssimo jurista, também argentino, o Dr. Arturo Capdevilla, em seu originalíssimo Dharma ou Estudo da influência do Oriente no Direito de Roma, acrescenta: 1/ Segundo o Código do Manú, a guerra não é senão o último e desesperado recurso. Os kxatriyas (ou da casta guerreira) vão ao combate somente quando as negociações pacíficas fracassam pela via diplomática. Povo de filósofos, povo de gente honrada, o orientar evita, na medida do compatível com sua dignidade, as responsabilidades que derivam do uso das armas. Só quando a honra ultrajada, ou a boa-fé violada, ou o statu quo perturbado o impõem, ou ainda no caso fortuito da invasão, do cerco, monta o guerreiro hindu seus elefantes de guerra. O encontro é leal, a empreitada é cavalheiresca; acredita-se presenciar uma luta de Rama contra os raksasas. O ,f ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
honor militar não aceita atenuações que ferem a delicadeza dos kxatriyas. Chegada a ocasião de combater, o rei lutará, ainda que a tropa adversária seja superior à sua. Do sentimento acendrado do honor militar surge também a proibição de usar armas covardes. // Um guerreiro na batalha jamais deve empregar armas pérfidas, como as feitas de madeira com pontas agudas de ferro, nem flechas barbas ou envenenadas, nem dardos inflamados //. O que teria dito o Manú sobre nossos modernos canhões de cerco? (1). Tal qual em um desafio da Idade Média, quer o legislador que haja igualdade entre os combatentes. 1/ O kxatriya não ferirá o inimigo que combata a pé, se ele estiver em um carro, nem tampouco aquele que não pode se defender, nem aquele que lhe peça perdão com as mãos cruzadas, nem aquele que diga / "sou teu prisioneiro". Que se lembre sempre, acrescenta, do dever dos valentes guerreiros! / ... Assim tem falado sempre a Índia; assim tem agido em sua vida pública ensinando, com pouco sucesso, isso sim, a povos sucessores, começando por seus discípulos indóceis do mar Egeu, suas lições de eterna sabedoria- (1). (1) E o que poderia hoje acrescentar Capdevilla sobre os explosivos lançados de aeroplanos e zeppelins sobre povoados indefesos; dos submarinos que afundam navios neutros sem aviso prévio; das minas trai... doras; das balas explosivas; dos gases asfixiantes e lacrimogêneos, etc., etc.? 27 .. ir ir e já que mencionamos antes o paralelo entre a filogenia e a ontogenia, aplicado ao problema que hoje o mundo discute com as armas na mão, e derramando a torrentes o sangue, o ouro, a felicidade e todos os tesouros da consciência e do espírito, será bom que, para terminar este preâmbulo, pontuemos algo acerca desse tamanho paralelo, pois ele parece ter escapado até hoje à penetração dos biólogos e dos sociólogos. Esses senhores, aliados uns e irmãos outros--, já que a verdadeira ciência não é patrimônio de povo algum, e nasceu costuma ser na Espanha, na Inglaterra e na França, para aperfeiçoar-se até o incrível em nossa querida Alemanha--, nos dizem em seus livros de Biologia que, ao modo daquela suprema lei matemática dos triângulos semelhantes que têm iguais seus ângulos e seus lados proporcionais, tudo quanto é lei do homem em particular, o é da Humanidade como conjunto. (1) Código de Manu: slokas 87 ao 90 e Ramayana, por Valmiki. (Tradução francesa de Juan Guizé). .8 29 ## M. Roso De Luna
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Assim, o feto no ventre materno tem rápidos graus evolutivos que não são senão um recapitular daqueles outros conquistados pela evolução natural ao longo de idades sem conto. O óvulo feminino e o espermatozoide masculino conjugam-se na célula protoplasmática do embrião, como se acaso estejam conjugados no céu o par sideral da Terra com a Lua — o Soma dos sábios orientais — e até os Sóis duplos do firmamento. Após a célula protoplasmática, a gástrula, a amiba, o ser unicelular, o ser pluricelular, o zoófito, o articulado, o equinodermo, o inseto, o vertebrado e, dentro já da vértebra, o peixe, o batráquio, o réptil, o mamífero e o homem... o organismo físico animal do homem, entende-se, porque do resto invisível do homem haveria muito que falar contra o deficientíssimo darwinismo ocidental e a favor da concepção cósmica muito mais excelsa das doutrinas orientais e teosóficas resumidas naquele aforismo da Cabala que ainda não foi estudada o bastante e que diz: «A Força cristaliza no mineral; o mineral evolui em vegetal; o vegetal em animal; o animal em homem... e acrescenta: o homem depois se transforma em um espírito e o espírito em um deus...» Mas bem, se a lei darwiniana, ou a oriental, são certas, certas devem ser todas as suas consequências, e então as indiscutíveis leis morais de cada homem devem aplicar-se — embora infelizmente ainda não tenham sido aplicadas senão em raras ocasiões — às relações recíprocas entre os povos, e mais ainda à grande Síntese da Humanidade como conjunto, em um dito dia, o primeiro da Nova Era de Ouro que, tarde ou cedo, há de retornar entre os homens, quando a Terra toca, por virtude dela, voltar a ter um único Pensamento, isto é, simbolicamente um único Lábio, uma única Língua. Como, pois, justificar diante de tamanha lei todas as atrocidades dos nossos dias pecadores? ... A única expiação que nos cabe, entretanto, é a de sofrer com resignação estoica, mas, entenda-se bem, com resignação ativa, com ação enérgica e vigorosa ao mesmo tempo, essa série inacabada, mas não inacabável, de imperialismos que desde a queda da Atlântida têm ocorrido ao longo dos séculos, imperialismos que, numa boa Filosofia da História, só têm uma justificativa bem pobre, mas lógica: a de que pretenderam conseguir pela Força Animal o que só pode realizar-se pelo Direito Humano; a de que pretendiam fazer mil vezes por egoísmo e por egoísmo de um só homem ou de um só povo, o que, como obra de Harmonia, só pode realizar-se pelo conjunto variado e a comple- ## M. Roso De Luna
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mentária contribuição de todos os homens e todos os povos, começando pelos povos do Oriente, que ainda hoje são desprezados pelos europeus, em seu orgulho incurável, só porque são, assim como a própria Espanha, povos caídos em que jazem sepultados, porém, tesouros de Conhecimento perdido que começam a restaurar em nossos tempos, os incompreendidos trabalhadores dessa eterna Ciência das Religiões e Religião amorosa da Ciência... ciência que nos ensinou, nos últimos anos do século passado, uma mulher incompreendida e principesca: Helena Petrovna Blavatsky em suas duas obras ciclópicas Isis sem Véu e A Doutrina Secreta. E não se pense, não, que com isso fazemos um trabalho sectário, porque não pode falar-se em seita, que vem do cortar e separar latino, naquilo mesmo que, pelo contrário, é precisamente trabalho de síntese, trabalho de agrupamento de todas as seitas, de todas as opiniões contrapostas, de todos os anseios humanos de libertação e de harmonia. Não em vão existiram, ou existem, para fortuna de seus respectivos países e do mundo, queridos e conspícuos teósofos, tanto nos dois lados beligerantes, quanto nos povos neutros: Katherine Tingley, nos Estados Unidos; Annie Besant, na Inglaterra e na Índia; Rudolph Steiner, na Alemanha; o Visconde de la Figanière, em Portugal; Eduardo Schuré e os ilustres campeões do Lotus Bleu, francês; da Revista Ultra, italiana; os do O Theosophista, no Brasil; os de Filadélfia, La Verdad, La Cruz del Sur, a Luz Astral, na Argentina e no Chile, a extinta revista Sophía, na Espanha, com membros diversos e até de distintas orientações dentro de seu particular modo de entender a Teosofia, ora ao modo da Antropoteosofia alemã, ora ao da Aria Sama} hindu, ora ao da Sociedade Teosófica de Adyar, de madame Besant; ora da Sociedade Teosófica e Fraternidade Universal de Point-Loma, de madame Katherine Tingley; ora do Grupo independente Marco Aurélio, de Pontevedra, e outros mil mais, entre os quais é o mais ínfimo discípulo quem subscreve. Todos esses abnegados trabalhadores e muitos outros que iniciaram praticamente em nosso século o redentor movimento teosófico, não têm senão um dogma: o da Fraternidade Universal; nem mais divisa que a do Maha-raja de Benarés, que reza: Satyat nasti para dharma: "não há religião mais elevada que a Verdade" e a missão que se demarcou não é, portanto, senão a de formar o núcleo dessa Fraternidade, sem distinção de raças, sexo, credo, casta ou cor... Quando por volta de 1875 se deram os primeiros ensinamentos teo-só- ## M. Roso De Lunaficos e apareceram Isis sem Véu, de Blavatsky; O Budismo esotérico, de Sinnet, e o Mundo Submundo e Supramundo, do Visconde de La Figanière, as pessoas quiseram rir-se delas; uns por hipócrita gazmoferia religiosa; outros pelo infatuado cientificismo, antítipo da célebre kultur atual; os mais por espírito semianimal de greguismo, preconceitos, inércia e egoísmo. A excelsa Blavatsky, entretanto, cumpriu sua missão apontando certa que, graças à dupla ameaça da ciência sem amor e da fé sem ciência, dias muito lúgubres se aproximavam sobre o mundo... Sua triste profecia se cumpriu com a presente catástrofe guerreira, catástrofe ao modo das tempestades atmosféricas, que embora gerem o raio que mata, também, com suas descargas, geram fecunda a chuva e o ozônio que purificam. 1 J.L. CESARIASMO ATLANTE e O EGÍPCIO Se a História deve ser, como dizia Cícero, a mestra da vida, o espelho do passado e o prenúncio do porvir, nada mais lógico, frente à catástrofe atual, que indagar sobre o que tenha acontecido nas diversas épocas com esses flagelos da Humanidade que chamamos césares, homens que são, para a vida dos povos, algo assim como as forças destruidoras da Natureza: - o Shiva aniquilador, frente ao Brahma criador e ao Vishnu conservador, - são para a economia do planeta. A bem dizer, o leitor poderia poupar-se a leitura desta sumária série de artigos apenas evocando em sua mente a recordação das sanguinolentas páginas humanas que se chamam História Universal, porque os fatos históricos se repetem, senão em ciclos fechados, como pensava Vico, sim nesse ciclo aberto de raio 34 ## M. Roso De Lunauniformemente crescente ou decrescente, chamado espiral pelos geômetras. Nada há de estranho no fato em puro rigor matemático, porque dentro da lei de correlação que é base da Geometria Analítica e da Mecânica, onde atua uma única força sobre um móvel, determina-se a reta; a circunferência e suas seções cônicas semelhantes de elipse, parábola e hipérbole, onde atuam duas forças; a espiral e outras formas mais complicadas onde atuam três ou mais, e ninguém poderá negar, de fato, nem a existência de um impulso, alento ou lei de progresso, que equivale a uma força tangencial e centrífuga, nem a de uma inércia ou oposição natural do meio: inércia que equivale, por sua vez, a uma força centrípeta, com as quais, sem falar de outras leis, já temos os elementos do movimento cíclico. Os primeiros césares são anônimos, perdidas suas orgulhosas personalidades na noite da fábula. Coletivamente estão representados por aquele Teopompo e seus dez milhões de atlantes invasores da primitiva Europa. Algo transpira disso, no entanto, os mitos e lendas mais antigos. Anquetil e até Cantú e Mommsen têm, ao tratar do Egito primitivo, citações a respeito de um terrível povo ocidental, o povo atlante, que mais de ## A Humanidade E Os Césares35 de uma vez colocou em perigo sua nascente civilização. Mas Platão, o divino, no melhor de seus diálogos, O Timeu, nos dá um belo relato dessa epopeia, terminada, como todas, em catástrofe. Reproduzamos aquela narração tomando-a das (Œuvres complètes de Platon: traduzidas por Calmet, e que o português Magalhães Lima copia em sua linda obra Íberos e bascos: ... (‘Certo dia em que Salão conversava com os sacerdotes egípcios de Sais acerca da história dos tempos remotos,’ um deles lhe disse: “Oh, Salão, Salão; vós, os gregos, sereis sempre uns meninos. Não há um entre vós que não seja frívolo e ignorante na grande ciência das tradições antigas. Ignorais até a existência de toda uma plêiade de heróis, dos quais hoje sois vós a prole degenerada. O que agora vou narrar-te aconteceu há nove mil anos. Nossos anais relatam, de fato, como até a Atenas primitiva, resistiu então aos ataques de uma potência formidável que vinha do lado do mar ocidental, invadindo considerável porção da Europa e Ásia, porque ainda se podia atravessar o Oceano, e havia nele uma ilha situada defronte à embocadura que chamais Colunas de Hércules. Dela ilha, que era maior que a Líbia e Ásia juntas, os A HUMANIDADE e ## M. Roso De Lunanavegantes passavam às demais, e dali ao continente que este mar limita. Na referida Atlântida viviam reis, célebres pelo seu poderío, que já tinham constituído um império que abrangia toda aquela ilha, muitas ilhas vizinhas e não poucas porções do continente. Além disso, eram senhores da Líbia, do Egito e da Europa, até o mar Tirreno. Essa colossal potência reuniu todas as suas forças, pretendendo sojuzgar vossa terra, a nossa e todos os povos até as Colunas de Hércules: Então foi, ó Salão!, quando vossa cidade mostrou brilhantemente seu valor e poder. Enfrentando os maiores perigos, triunfou dos invasores e preservou da escravidão povos que ainda eram livres, e a outros, que estavam próximos àquelas Colunas, restituiu a liberdade. Depois desta luta homérica, que talvez deu origem à fábula da guerra entre os deuses e os titãs cantada por Hesíodo, e antes pela poesia popular e pelo gigantesco Mahabharata, o poema que inspirou a própria Ilíada-, vem a catástrofe geológica que, como castigo cármico, sepultou a orgulhosa Atlântida, tendo-se também empregado nessas guerras — diz-se — até naves aéreas, como hoje, e meios de destruição tais, que as montanhas eram removidas de seus alicerces, e um único raio mágico podia ... ## Os Césares37 "anelar" instantaneamente fora de combate a centenas de milhares de combatentes. O grande discípulo de Pitágoras continua dizendo, em efeito, logo depois: "Mas, nos tempos que se seguiram, houve grandes terremotos e inundações. No espaço de um dia e de uma noite horríveis, todos os guerreiros que planejavam novamente chegar até as portas de vossos muros foram submersos nas profundezas. A ilha Atlântida desapareceu sob as águas do mar, e por isso hoje não se pode reconhecer nem explorar o mar que a cobre. Os navegadores encontram obstáculos insuperáveis na grande quantidade de recifes que a ilha deixou ao submergir sob as águas." Essa catástrofe está velada, ou referida exotéricaamente, na própria Bíblia, quando pode ser lida entre as linhas com chaves verdadeiramente teosóficas, pois convém consignar que a lenda mosaica do dilúvio universal, após a perversidade horrível dos primeiros homens, não é senão a própria lenda da Atlântida do Timeu, referida também no Livro dos Números caldeus, e da qual o compilador Esdras, e não Moisés como se diz, compôs o Pentateuco que conhecemos, após o cativeiro do povo eleito. Lendas idênticas, muito mais puras e completas que a mosaica, contêm-se nas Eddas ## M. Roso De Lunaescandinavas, que Wagner adaptou para seus imortais dramas líricos de O anel dos Nibelungos, e também se encontram, segundo demonstra Chavero em seu México através dos séculos (1), nas lendas e êxodos do povo mexicano, sob a direção do caudilho Muíszca, que não é senão Moisés mesmo. Quanto aos referidos povos egípcios que lutaram contra os atlantes, segundo o testemunho de Anquetil e outros, não foram eles, mas sim os enópes ariano-ocidentais, vindos ao Egito desde a Índia, como demonstra H. P. Blavatsky, a fundadora da Sociedade Teosófica, em sua grandiosa enciclopédia titulada A Doutrina Secreta. Eles estavam paternalmente regidos por aqueles primitivos reis-pastores, de quem se fala ao tratar dos cinquenta reis egípcios sucessores do Manú ou Menes. Muitas das gentes que, por outro lado, jogavam-se naquele drama tremendo que precedeu a catástrofe atlan(1) Enciclopedia Riva-Palacios, tomo 1. Estas nossas ideias, que no início irão chocar não pouco com a opinião corrente, estão apontadas em nossas Conferências teosóficas na América do Sul, capítulo de A História ante a Teosofia (tomo II, pág. 273), ampliando-se muito mais em nossa obra A Atlântida, continente histórico, tomo V de nossa Biblioteca das Maravilhas, cuja publicação já se iniciou com o tomo O tesouro dos Lagos de Somiedo (Viúva e filhos de Pueyo, Abada, 19, Madrid). A HUMANIDADE e ## Os Césares39 eram espanhóis aborígines, ou líbio-íberos, dado que ainda, séculos depois, os clássicos latinos puderam enumerar, só na comarca entre o Douro e o Miño, até quarenta ou mais povos de filiação atlante. Não se livrou, pois, o Egito da terrível lei expressa por Sellés nesta deliciosa quadra, que resume simbolicamente em si toda a história interna de quantos imperialismos têm ensanguentado o mundo, passando, no entanto, depois, por ele qual ilusão de um dia: Da pobreza, a indústria; da indústria, a riqueza; da riqueza, o orgulho; do orgulho, a pobreza. Assim o antes perseguido e pobre Egito, tornou-se industrioso; depois rico; em seguida veio a epidemia imperialista que culminou em Sesóstris, preparando ipso facto a queda, desde os cumes do seu orgulho, até o abismo da pobreza, da escravidão social e da degradação mais vergonhosa. Sesóstris – diz Anquetil – levou suas armas contra os árabes, até o Oceano Atlântico. Estes acontecimentos lhe inspiraram o desejo de conquistar toda a terra. À frente de seus guerreiros, já cruzando em numerosas frotas o Oceano e o Mediterrâneo, já percorrendo com invencíveis exércitos todos os países compreendidos entre as margens do Ganges e os confins da Trácia, atropela tudo que se opõe ao seu passo e ergue em vários pontos elevadas colunas que se viam muito tempo depois com esta inscrição: Sesóstris, Rei dos reis e Senhor dos senhores, submeteu este país pela força das armas... Saía Sesóstris percorrer em seu carro triunfal a cidade de Mênfis levando amarrados a si alguns de seus reis prisioneiros, e como observasse certo dia que um daqueles desgraçados contemplava absorto o girar das rodas do carro, perguntou-lhe em que pensava, e este teve que dizer-lhe sereno: Penso, ó rei!, na veleidosa roda da Fortuna, que hoje faz descer até o pó o que ontem aos céus elevou... Pouco depois o césar Sesóstris ficou cego, e não podendo suportar mais seu glorioso infortúnio, suicidou-se, inaugurando, com sua morte, uma oligarquia militar, até cair o orgulhoso império sob o jugo dos conquistadores etíopes. Mais tarde, em obediência à terrível lei do Karma da Filosofia Oriental, lei por a que cada homem ou povo colhe no final, aquilo mesmo que semeou, os assírios e persas vieram para saldar as contas imperialistas devidas pelo endeusado Egito, da forma que veremos no próximo capítulo, porque essa lei kármica, de justiça distributiva, chamada por uns Dedo da Providência; por outros Mão do Destino, por outros Lei do Talion ou Nêmesis vingadora nos obriga a pagar, cedo ou tarde, mas fatal, irresistivelmente, tudo quanto devemos por nossas más obras; aos homens, como aos povos! ## A Humanidade E Os Césares11 ## Os Impérios ÁriosA cretina história que nos foi servida pelos sábios ocidentais, nada nos ensina sobre possíveis imperialismos indo-tâmicos; mas existe uma epopeia maior que todas as outras epopeias juntas; um livro do qual poeticamente se diz que os suras ou deuses puseram na balança dos méritos, achando que pesava, ele sozinho, mais que todos os Vedas juntos, e não há por que falar do mérito intrínseco destes cinco divinos livros, diante dos quais nada representam, certamente, todas as demais bíblias do mundo. Este livro sem par, é o MAHABHARATA, que literalmente significa A grande guerra, de quem o próprio e sectário Cantú disse que sobrepõe à Ilíada, Odisseia, Jerusalém libertada, Os Lusíadas, etc., tanto quanto sobrepõem as pirâmides do Egito aos templos dos ... 43. gregos e de um só episódio dele, o divino Bhagavad-Gita ou Canto do Senhor, disse o colosso Humboldt que "agradecia a Deus por lhe permitir viver o bastante para poder conhecer tão maravilhoso livro"; livro do qual o grande Schegel fez uma edição latina; livro do qual S. Lévy disse na Grande Enciclopédia, que não há, em poesia alguma, nada mais grandioso, e E. Dumeril acrescentou que não é somente um poema de forma esplêndida e maravilhosa, mas que nele a própria poesia ocupa um lugar secundário, servindo de pretexto a todo um Evangelho; uma Boa Nova, anunciada ao mundo por um Deus que, temporariamente, se fez homem há muito mais de dois mil anos, para levar a resignação, o alento e a esperança a milhões de deserdados dos bens e venturas da terra ... (r). ((O assunto do Mahabharata - diz Roviralta Borrell - são os fatos que ocorreram nas postrimerias do Dwapara-yuga ou era do bronze, há uns cinco mil anos, entre dois ramos rivais de uma mesma tribo, os quais, embora descendessem de um só antecessor, o rei Kurú, fizeram armas entre si para alcançar a soberania do reino, cuja capital era Hastina(1) Entre outras, temos uma tradução direta do sânscrito para o espanhol, pelo teósofo J. Roviralta Borrell. Carbonell e Esteva: Barcelona, 1910. 44 ## M. Roso De Lunapura. O mais antigo desses ramos conservava o nome genérico da tribo, Kurú ou Kurava, enquanto que o mais jovem era designado com o nome de Pandava, nome derivado de Pandu, pai dos cinco chefes principais do mesmo. 1I II Acerca do nome Kurú — diz J. Cockburn Thomson — acreditamos que é um nome, não ariano, derivado de uma antiguidade remota e trazido por essa raça desde sua própria chegada às mesetas da Ásia Central. Na língua sânscrita, esse termo tem quatro acepções distintas: é o nome da região mais setentrional do mundo (o dwípa ou Ilha Sagrada do Polo Norte, ou entre a cadeia boreal das altas montanhas do Tibete e o Mar Ártico); também é o nome de uma família antigíssima e do rei, seu fundador; é, enfim, uma tribo ariana suficientemente importante para perturbar com suas revoluções todo o Norte da Ariana, e para tornar, com suas batalhas — acrescenta Roviralta — o tema do poema épico mais colossal da antiguidade. 11 Capítulos extensos temos consagrado nós em nossa narrativa ocultista intitulada O Tesouro dos Lagos de Somiedo (1), para que (1) Tomo 1 de nossa BIBLIOTECA DAS MARAVILHAS. 1916. — Viúva e filhos de Pueyo; Abada, 19, Madrid. Também no tomo II, em imprensa, dessa Biblioteca, intitulado As gentes do outro mundo, continua-se esse tema. ## A Humanidade E Os Césares45 falemos aqui dessas duas raças de kurús e pandús, ou de gentes luní-solares do culto primitivo do y de Rama, e de gentes meramente lunares, já degeneradas da sua grandeza prístina; gentes que hoje têm no bramanismo e no semitismo sua representação mais genuína, como nos ensina H. P. Blavatsky em sua não suficientemente estudada obra ocultista Cavernas e Selvas do Hindustão. Basta, pois, consignar que, apesar do caráter genuinamente histórico do divino Mahabharata, sua Grande Guerra é de todas as raças, tempos e países, pois que em todos eles perdurou e ainda perdura o germe dessa luta titânica, alma e essência do Drama inteiro do Mundo, travada eternamente desde o princípio até o fim de todas as Raças, entre as gentes solares e as lunares, entre kurús e pandús; entre bons e maus; entre espiritualistas e meros mentalistas; entre a doutrina do coração e a doutrina do cérebro, ou do olho, em uma palavra, no que respeita ao objetivo deste livro: entre a Humanidade e os césares... Relacionada, igualmente, essa guerra de titãs com a perdida história épica da submersa Atlântida, não temos por que inquirir nestes modestos epígrafes algum detalhe das gentes solares e lunares do Mahabharata, que tantas marcas deixaram em nossa pátria. ## La Humanidad Y Los Cesares47 ## M. Roso De Lunaessa verdadeira rebelião apocalíptica, que, embora se possa crer outra coisa pelo incurável quanto juvenil orgulho europeu, excedeu em terrível, em destruição e catastrófica grandeza à própria epopeia que, neste momento, se desenvolve em nossos campos de batalha, sem que nela faltassem aviões, zepelins, submarinos, gases asfixiantes e lacrimogêneos e demais maldições humanas elaboradas ao amor de uma ciência ímpia emancipada dos postulados iniciáticos prévios da doutrina. de! coração, pois que no próprio poema se fala até de procedimentos nectomantes de colocar instantaneamente com eles, fora de ombate, ao choque de um só raio (raio à modo do de Júpiter, o de Numa ou o do Vaticano) a exércitos inteiros, quais mic:,:es dos campos que a foice ceifou... Para nosso objetivo de hoje basta-nos copiar Blavatsky, quando, na prodigiosa Introdução à sua obra A Doutrina Secreta, nos leva hoje a contemplar aqueles campos da velha Ariana, a primitiva Índia setentrional, nos quais parte desses acontecimentos da luta imperialista entre kurús e pandús houve de se desenvolver. Diz assim a principesca e incompreendida escritora: "Pegadas imensas se encontram no Ásia Central de uma civilização gigante e absolutamente pré-histórica... O senso comum ". basta-nos para dar uma ideia dessas ligações quebradas na história das nações que foram. A gigantesca e ininterrupta muralha de montanhas que margeiam todo o planalto do Tibete, desde o curso superior do rio KhuanKhé até as colinas de Karakorum, foi testemunha de uma civilização que durou milhares de anos e que poderia revelar à humaldad seguramente estranhos segredos (r). As porções oriental e central daquelas regiões — o Nan-chan e o Altyn-tag — estiveram um tempo cobertas de cidades que muito bem poderiam competir vantajosamente com a própria Babilônia. Um período geológico completo passou sobre aquela terra, desde que essas cidades exalaram seu último suspiro, como atestam os montes de areias movediças e o solo estéril e agora morto das imensas planícies centrais da bacia do Tarin. Os territórios fronteiriços desses países são somente o que, de forma superficial, conhecem os viajantes. No interior daquelas (1) A escritora alude, entre outros segredos, aos tesouros de imensas bibliotecas subterrâneas por ali, bibliotecas hoje inacessíveis à frivolidade e frequente má fé da ciência do Ocidente. Ali jazem conservados, por modos quase milagrosos, os mais antiquíssimos livros das raças, e entre esses livros o melhor da mesma Biblioteca de Alexandria que se acredita perdida. A HUMANIDADE e ## M. Roso De Luna49 espécies humanas representam ali os restos de cem raças e nações extintas, cujos nomes mesmo desconhecem os etnólogos. Um antropólogo encontraria-se muito aflitivo se tivesse que proceder a classificá-los, dividi-los e subdividi-los, tanto mais quanto os descendentes respectivos de todas aquelas raças e tribos antediluvianas sabem tão pouco no referente aos seus próprios antepassados como se tivessem caído da lua. Quando lhes perguntam acerca de sua origem, respondem que não sabem de onde vieram seus pais; mas que podem dizer que seus primeiros ou primitivos ascendentes foram governados pelos grandes gênios daqueles desertos. Isso poderia atribuir-se à ignorância e superstição; mas À vista dos ensinamentos da Doutrina Secreta, a resposta pode ser considerada fundada na tradição primitiva. Somente a tribo do Khorasan pretende ter vindo do país conhecido hoje por Afeganistão, muito antes de Alexandre, e possui narrativas lendárias em corroboração desse fato. O viajante russo, coronel Prejevalsky, encontrou quase tocando o oásis de Tchertchen as ruínas das imensas cidades, a mais antiga das quais, segundo a tradição local, foi destruída há três mil anos por um herói gigante, e a outra pelos mongóis no século décimo da nossa Era. A localização das cidades, nas arenosas planícies, possui água, e encontra-se oásis frescos cheios de vegetação, onde nenhum pé europeu se aventurou a penetrar, temendo, com razão, um solo atualmente traiçoeiro. Entre esses oásis floridos existem alguns completamente inacessíveis, até mesmo para os indígenas comuns que viajam pelo país. “Os furacões podem ‘arrancar as areias e cobrir planícies inteiras’; mas são impotentes para destruir o que está fora do seu alcance. Os subterrâneos construídos nas entranhas da terra asseguram os tesouros ali encerrados, e como as entradas se encontram ocultas, não há perigo de que alguém os descubra, mesmo que vários exércitos invadissem os desertos arenosos, onde ## Os CésaresNem um poço, nem um arbusto, nem uma habitação se percebem, e a cordilheira forma uma tela eriçada em torno das áridas planícies do deserto… ” Mas não é necessário enviar o leitor para atravessar o deserto, visto que as mesmas provas em favor da existência de antigas civilizações se encontram em pontos relativamente povoados daquela região. O oásis de Tchertchen, por exemplo, situado a cerca de 4.000 pés acima do nível do rio Tchertchen-Darya, está atualmente cercado em todas as direções por ruínas de cidades arcaicas. Aproximadamente três quartos de ambas as cidades encontram-se cobertos, agora, por virtude das areias movediças e do vento do deserto, de relíquias heterogêneas e estranhas; fragmentos de pavimentações, utensílios de cozinha e ossos humanos. Os indígenas frequentemente encontram moedas de cobre e de ouro, lingotes de prata fundida, diamantes e turquesas, e o que é ainda mais notável, vidro quebrado e caixões de um material ou madeira incorruptível, onde jazem corpos embalsamados e conservados admiravelmente… As múmias dos homens revelam estaturas e robustez extraordinárias, e ainda conservam restos de seus cabelos ondulados... Ainda foi possível ver a múmia de uma jovem, cujos olhos estavam fechados por discos de ouro, suas mandíbulas presas por um aro de ouro que segurava a barba até a parte superior da cabeça, e vestia túnica de lã com os pés nus e o peito todo coberto por estrelas de ouro... Acrescenta, finalmente, esse ilustre viajante que, durante toda a sua expedição a Ao longo do rio Tchertchen, chegaram-se a suas duas lendas referentes a outras vinte e três cidades sepultadas há muito tempo pelas movediças areias do deserto, e idênticas tradições existem em Lób-nor e no oásis de Kerya"... ... Não há por que continuar... Quem sabe se este triste quadro de um passado de brutais guerras, não será aquele que dentro de alguns séculos poderá fazer outro viajante, por exemplo, de nosso Paris, nosso Berlim ou nosso Londres?... Ainda fumegam — ai! — as ruínas de Charleroi e de Lovaina; já começam a sepultar-se arcaicas sob a erva de cemitérios e de sangue, centenas de castas aldeias de Flandres, do Iser e das Argonas... Passará o flagelo; afinal tudo será esquecido, pois o resultado indiferente é-lhe à Terra, como astro que seguirá girando em torno do Sol, ora triunfe a causa da Humanidade; ora a dos césares. Mas dentro do eterno pleito entre a doutrina mental do olho e a doutrina espiritual do coração, a balança do karma, ou seja, da Divina Justiça, continuará pesando a menos o devido a algumas almas e a mais o suficiente a outras, igual de um lado que do oposto e, como diz o Evangelho, enquanto os justos, os do justo peso, gozam do paraíso prometido em todas as religiões — paraíso que talvez não seja senão a inefável presença daquele sol divino da consciência honrada, brilhando em todo o seu esplendor, sem nuvem alguma já de velhas e humanas misenas — esses instrumentos do mal, apóstolos das máximas anti-humanas nefandas, vão se consumir, sem que deles reste nem a lembrança. A HUMANIDADE e ## Iii
Os Césares Babilônicos
A bíblica terra de Sennar, banhada pelo Eufrates e o Tigre, foi berço, em tempos muito remotos, de um dos maiores imperialismos que os séculos já conheceram. Mal conseguimos saber algo desse Poder, através das clericais falsificações históricas de Beroso e do bispo de Cesareia Eusébio, que tanto mal fizeram à Religião e ao mundo com suas ardilosas mentiras. A Bíblia mosaica nos fala de Nimrod — acaso mais bem Men-roc, o caçador violento diante do Senhor — personagem que é todo um mito sugestivo. Seus povos etíopes, sob o cetro de seu filho Nino, ergueram a cidade de Nínive, a cidade maldita dos profetas de Israel, e estenderam suas guerras devastadoras pela Celesíria, Pártia, Pérsia, Média e Egito, sem que ninguém pudesse detê-los ## Os Césares53 em suas conquistas, salvo os bactrianos e os índicos. Semíramis, a esposa de Nino, erigiu por sua vez a colossal Babilônia, e desejosa de conquistar a Índia, lançou contra ela três milhões de homens; mas tão numeroso exército foi derrotado. O rio Indo foi para os assírios tão intransponível quanto séculos depois foi o Ganges para Alexandre, o Macedônio. De militarismo em militarismo, o trono veio a parar mais tarde em Sardanápalo, o protótipo de todo desenfreado, que acabou por perecer em uma ... sublevação militar, ao mesmo tempo em que toda a cidade de Nínive era horrivelmente incendiada. Épicas são, sem disputa, as páginas que a Bíblia consagra à invasão de Salmanasar na Síria, Judéia e Fenícia, até chegar ao delírio de grandiosidade do imperador Nabucodonosor. Quem, querendo já ser adorado como um Deus, foi transformado em fera, segundo o gráfico símile popular. De queda em queda, o império assírio degenerou em império babilônico, e muitos dos lamentos hierárquicos dos profetas seriam de atualidade pulsante até nos nossos tristes dias, em que as verdadeiras religiões – puríssimas e santas nas mãos de seus fundadores – morreram pelas mãos do farisaísmo e do industrialismo com máscara hipócrita piedosa, como se já tivessem chegado os dias apocalípticos previstos por ## M. Roso Ve Luna
A Humanidade E Os Césares
São Paulo, o iniciado, nos quais os ímpios seriam tidos como crentes, e os crentes, ímpios. De fato: a toda ação militar absorvente e egoísta, pretendendo impor brutalmente ou à força os méritos e os destinos de um povo, por maiores que sejam, sobre os méritos e destinos de toda a Humanidade – que valem mais, segundo o aforismo de que o todo é maior que as partes –, segue fatalmente uma reação kármica inescapável e ineffável, porque, como disse Jesus no Horto das Oliveiras quando Pedro cortou brutalmente a orelha de Malco: "Quem a espada mata, à espada morrerá." Assim aconteceu, ponto por ponto, com a insuportável soberba babilônica. Do lado do Oriente veio a tempestade. Medos e persas, liderados por Ciro, depois de terem realizado a ação titânica de desviar o curso do Eufrates, caíram sobre a grande meretriz babilônica na célebre noite do banquete de Baltazar, cumprindo-se aquela fatídica profecia do Mene, Tekel, Phares, já que sempre, nos momentos solenes da História, o dom da profecia iluminou com fulgores astrais, emanados do mundo superliminar, os grandes momentos em que irá se decidir profundamente o destino dos povos... A Mãe Natureza e os Grandes Seres que dirigem o curso do Destino histórico são como todos os pais: eles toleram uma vez e cento as travessuras mais ou menos repreensíveis de seus filhos, até chegar o momento em que a medida se esgota e é inevitável o castigo... A Meia, instrumento kármico vingador dos crimes babilônicos, recebeu também seu merecido das mãos dos citas, esse obscuro povo do Norte da Ásia e do Leste da Europa vingador de tantos e tantos agravos históricos no mundo, em forma de tártaros contra a China e a Índia; de hunos contra o império romano do Ocidente; de turcos contra Constantinopla; de citas do Danúbio contra a Pérsia; de russos contra Napoleão... O que são as atuais catástrofes de Lovaina, Charleroi, Reims, etc., diante desses transtornos geológicos de assírios, babilônios, medos e persas, que sepultaram ou incendiaram os centenas e até milhares de cidades que hoje dormitam seu sono secular entre a areia do deserto desde o Mediterrâneo Oriental até o Indo, e desde a deserta Arábia até o Aral e o Cáspio? Um volume inteiro da admirável Geografia Universal de Maltebrun está cheio somente com os nomes mágicos dessas cidades extintas, orgulho dos séculos, como hoje Paris, Londres, Berlim ou Viena, cidades que devem sua ruína ao seu orgulho militarista que as fez esquecer o simples axioma, 54 55 ## Vi. Rosa De Luade que o todo é maior que a parte e de que glórias que são para o único proveito de um homem, uma instituição, ou um povo, em vez de serem consagradas ao serviço de toda a Humanidade, são maldição e mentira e atraem indefectivelmente sobre suas cabeças o raio da Divina Justiça. e conta que só falamos de impérios semihistóricos, deixando de lado outros mais antigos que, ao modo da Atlântida, ainda chegaram mais longe no crime e no castigo. Esses são os povos de que nos fala nossa incompreendida mestra H. P. Blavatsky, como já vimos em epígrafes anteriores. Quantos césares, quantas ambições e revoluções não terão sido necessários para consumar tamanho ruína, da qual nem sequer resta a mais ínfima lembrança!... Verdadeiramente as glórias militares são flor efêmera de um dia; vaidade das vaidades, algo como o prazer, como a juventude e como toda falsa felicidade, cimentada nas dores dos homens. ' Verdura das eras, diria o profeta e místico Jó em sua renúncia sublime! Não há por que continuar falando de um império como o babilônico, ao qual tantos passagens dedica a Bíblia. Escavações recentes proclamam-novo à luz do mundo A HUMANIDADE e ## Os Césares57 sua grandeza, e a não ser porque sobre ela e sua história caíssem as mãos ímpias de Beroso e Eusébio, a cultura caldeia que o imperialismo babilônico sepultou, demonstraria mais uma vez ao mundo que todos os imperialismos deste sempre se levantaram sobre espirituais quedas de povos nobilíssimos que, à maneira das boas mulheres, carecem de história por carecerem de crimes. A HUMANIDADE e OS CÉSARES ## Iv
Os Déspotas Persas
Sigamos, ainda que superficialmente, a trilha do Dedo do Destino, através dos povos da Ásia, povos cujos territórios centrais e penínsulas meridionais guardam tanta semelhança com a Europa Central e as penínsulas mediterrâneas. O flagelo que o Karma usou para liquidar as dívidas militaristas do Egito foi o guerreiro povo persa, espécie de Alemanha asiática encaixada entre a Sibéria, a China e a Índia; como a Rússia, intermináveis; entre alguns povos gregos cultíssimos da Ásia Menor, espécie da antiga França, e com a ameaça constante contra os livres povos espartano, ateniense, etc., que, em seu isolamento por trás dos mares, seriam como uma Inglaterra da época, a única que conseguiria enfrentar o déspota continental iraniano. 59 Decadente já o poderio dos magos ou sábios da Pérsia, Ciro, o primeiro rei admitido pela crítica histórica, imaginou o poderio militar de seu país, invadindo a Ásia Menor com um imenso exército e chegando até à Lídia grega, onde reinava Creso, o protótipo da riqueza que a cultura e as artes da paz proporcionam aos povos. Depois apoderou-se da Babilônia e dos reinos submetidos à Babilônia, como os dos sírios e israelitas, e herdou de Ciáxares o reino da Pérsia, com o que pôde dizer-se que os domínios da Pérsia se estenderam do Indo até o Mediterrâneo e do Aral e do Cáspio até à Arábia, ao subir ao trono o déspota Cambises. Mas faltava o Egito, e para conquistá-lo Cambises empreendeu uma invasão épica, na qual não foram apenas os homens, mas a sábia Natureza que teve de lhe sair ao caminho, pois depois de conquistado a sangue e fogo o sagrado país dos Faraós, a Etiópia com seus desertos sem gente, sem alimentos e sem água, encarregou-se de humilhar o césar persa, que viu-se obrigado a recuar, não já com um brilhante exército, mas com uma curta tropa faminta e moribunda... Ao mesmo tempo outro exército persa enviado para saquear o templo de Júpiter Ammon na Cirenaica ficou sepultado nas areias da Líbia. Cambises perdeu a razão e, como um precursor do Nero romano, multiplicou os assassinatos, sem que escapassem ao seu furor nem seu irmão Esmerdis, nem sua irmã e esposa Meroe, até terminar tragicamente seus dias... Intervêm os magos, e o militarismo de uns conjurados arrivistas favoritos de Cambises entroniza Dario. Este novo césar degola os babilônios sublevados, luta contra os citas europeus e decide passar o Bósforo da Trácia. Mas mal pôde subir o Danúbio, os citas o deixaram só com a natureza inclemente e, como um precursor de Napoleão, tem que recuar humilhado por faltar-lhe, como séculos depois aconteceu a este com os citas também, todo gênero de recursos. As tempestades destroem sua esquadra e os trácios acabam com seu exército dizimado. Entretanto os generais persas Datis e Artafernes são vencidos por Milcíades nas planícies de Maratona, a dez léguas de Atenas, encontrando os vencedores entre o saque os mármores que já trazia para o monumento da sonhada vitória e as correntes que preparavam para os livres cidadãos da imortal Atenas. Jerjes, o césar sucessor de Dario, reúne até cinco milhões de homens, com mil trezentas embarcações de guerra e três mil de transporte. Os dardos de suas flechas, segundo os emissários com quem se quis intimidar a Grécia, podiam nublar o sol; ao que é sabido que respondeu Leônidas: — “Tanto melhor, assim combateremos à sombra!” Jerjes faz inundar titânico o istmo de Átalo e lançam uma ponte de barcos sobre o Helesponto. A Natureza destrói sua obra, e o muito bárbaro manda degolar seus... construtores, e açoitar o mar lançando-lhe correntes por sua rebeldia!... Como se valesse ao homem, mendigo ou césar, cuspir às alturas sem que a saliva lhe caia no rosto! Sete dias empregaram para passar o estreito. O exército persa chega às Termópilas, onde é detido sublimemente pelos trezentos espartanos de Leônidas. Os atenienses, ao som do oráculo de Delfos, refugiam-se nas muralhas móveis de madeira, ou seja, na esquadra, e os êxitos de Salamina, Mícale e Plateias foram tais que o césar mal teve tempo de salvar-se sozinho, em frágil barquinho, para incorrer, como tantos outros, na mania persecutória instigadora dos mais horríveis crimes e ser assassinado em sua cama pela sua guarda... Igual sorte coube mais tarde a seu neto e ao sucessor do piedoso Artaxerxes, seu homônimo, com o qual logo sobrevieram as guerras civis, alguma delas imortalizada pelas páginas de Xenofonte, e assim seguiu o grande império militar vítima de sua soberba e seus vícios, até ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
cair sob a espada de outro imperialismo e outro césar: desta vez grego: Alexandre, filho de Filipe da Macedônia. O último, como o primeiro dos déspotas persas, ó ironia do Destino! chamava-se Dário, como o último dos césares romanos chamava-se, como o primeiro: Augusto!... Renunciemos a narrar os momentos derradeiros do grande império, vítima dos crimes de Oxo, e a destruição do Egito, emulando a de tantos outros, com sua vítima propiciatória o infeliz Dário Codomano. Alexandre o vencera em Isso e em Arbela. Incendiada aquela Babilônia de corrupção que se chamou Persépolis após uma comida licenciosa, dois dos generais persas fogem com a pessoa do rei, e perseguidos, o assassinam. Quando o macedônio os alcança, o novo césar ainda chega a tempo de ver face a face o moribundo césar daquele império moribundo. Vede o reverso ateniense da medalha imperialista persa: Sálon havia modificado com uma legislação sábia (copiada depois por Roma, e de Roma pelos povos modernos) as terríveis leis draconianas que se diziam escritas com sangue. Péricles havia erguido o templo de Minerva, não mais o material, mas o da deusa Inteligência livre. Milcíades havia se sobreposto aos tiranos filhos de Pisístrato, vencido em Maratona; Aristides, que mereceu por seu espírito aristocrático seletivo (de aristas, os melhores) o sobrenome de O Justo, venceu depois em Plateias; o magnânimo democrata Temístocles salvou a Grécia fazendo triunfar seus planos de atacar as naves de Xerxes no estreito, graças àquela frase de "bate, mas escuta", com a qual desarmou o lacedemônio, que sustentava um plano contrário; Simôn, filho de Milcíades, venceu em Salamina com apenas quatro naves, com tudo isso Atenas chegou ao seu século de ouro, o século que se chamou de Péricles e que precedeu imediatamente àqueles tempos que conheceram as grandezas de Pitágoras, de Sócrates e de Platão. As guerras religiosas e civis acabaram muito rapidamente, no entanto, com as glórias gregas. A soberba persa, que aspirava a dominar o mundo com seu lema de "Pérsia acima de tudo", não só não passou o Indo, nem adentrou na Bactriana, nem conseguiu humilhar os povos gregos nem etíopes, como também sofreu a humilhação por parte de um estranho povo citas: o de Jano ou Indati, que, às bravatas de Dário que lhe instava à submissão, teve que responder enviando um rato, um sapo, um pássaro e um feixe de cinco flechas. Reuniram-se os adivinhos para explicar o simbolismo, que Dário interpretava como uma prova de submissão. Estes porém, disseram que ninguém poderia invadir esse povo a menos que voasse como os pássaros, nadasse como os sapos, pudesse penetrar na terra como os ladrões e dominasse os segredos do seu símbolo, a pentalfa ou, pensamento e... fé. Este trecho, no qual mal que se fala nos historiadores, contém, porém, uma chave acerca de mais de uma lenda poética tida por fábula e que oculta, não obstante, a mais profunda e peregrina verdade cujo esclarecimento nos levaria muito além do que exige a índole destes artigos. ## Filipo, O MacedônioAssim como o imperialismo egípcio pagou seu triste karma sob o açoite persa, assim o imperialismo persa pagou o seu às mãos do cesarismo macedônio. O desprezível povo macedônio, mistura atlante-árabe de pelasgos e citas; o povo sem glórias nem historiadores próprios, que jamais mereceu a honra de ser contado entre os povos gregos, apesar de haver visto nele a luz o falso filósofo de Estagira, caricatura deformada do divino Platão, sentiu-se imperialista no século IV (a.C.) como todo homem ou povo que, advenedizo e sem relevo espiritual, precisa apelar, para ser algo, à grandeza animal, que é característica de todas as apoteoses da força das armas. A nota típica do pai e antecessor de... ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
Alexandre foi a hipocrisia; Filipe, de fato, havia adquirido esta, a mais temível entre todas as más artes humanas, durante seu exílio em Tebas, sob a direção daquele tão elogiado quanto discutível Epaminondas, que por si só mereceria um capítulo. Precursor Filipe de uma ordem religiosa muito conhecida, empregava em seu governo o traiçoeiro poder do ouro, aliado cujo embate dele não há poder humano que resista, e seu ideal mais caro era vencer a Grécia, segundo nos ensina César Cantú. Assim, não teve escrúpulos em usurpar o trono de seu sobrinho e o poder ao Conselho dos Anfictiões gregos, nem em se imiscuir nas guerras religiosas, nem em saquear o templo de Delfos, nem em imitar aquele grande tirano de Jeres que dominou a Tessália fazendo gala de que era preciso cometer muitas pequenas injustiças para ser... um grande justo II, doutrina idêntica àquela outra, tão honrada a juízo de muitos homens que se dizem cristãos, de "que o fim justifica os meios", doutrina que em séculos posteriores levaria a tantos infelizes à fogueira inquisitorial não mais que com o nobílissimo fim de salvar-lhes suas almas pecadoras... Felipe apresentou-se em Delfos como protetor da religião contra as imoralidades dos lacedemônios e atenienses, destruindo a cidade de Olinto. "Logo encontrou com seu ouro — diz Cantú — oradores que exaltassem suas virtudes, generais que lhe vendessem seus exércitos, incendiários que queimassem os arsenais gregos e oráculos que filipizassem, desprezando os discursos de gente grosseira como Demóstenes e Fócio — que chamavam as coisas pelo seu nome!" Fez-se a si mesmo presidente anfictônico, supremo chefe pitônico de aquele autor, "vendo assim cumpridos seus anelos"; era heleno afinal, e presidia moralmente a Grécia, humilhadas por ele Atenas e Esparta, e, o que era ainda mais, corrompidas! Nunca se viram intrigas mais imorais e cínicas. Nunca o tráfico das consciências foi tão patente nem se viram tão prostituídos a moral e o patriotismo. A guerra santa atraía o desprezo sobre as coisas sagradas, e a impiedade, ainda que castigada com a derrota, excitava a inveja dos que a viam recompensada com o ouro. Felipe prodigava outro ouro, igualmente corruptor, porque era o preço somente de artes indignas, deslizando por caminhos escuros, sem cuidar de justiça nem de fé, mudando de aspecto com os homens de um dia para outro, e até mostrando-se em aparência vicioso e atolondrado, precisamente quando procedia com mais astuta circunspecção. O fiel retrato de Felipe que nos faz um historiador tão suspeito, no entanto, como 66 ,") 68 ## M. Roso De LunaCantú, é o do "homem sem alma", de um de tantos homens mortos espiritualmente com que o Destino castiga os pecados e orgulhos dos povos. Tal retrato é o mesmo que nossa esquecida mestra H. P. Blavatsky nos fez também de semelhantes seres, nos quais se desenvolve uma grande cultura, um imenso talento a serviço das artes da perversidade, já que o talento sem as virtudes é maldição e ruína. Semelhante diferença essencial entre a vida espiritual e a vida puramente mental e egoísta que pode observar-se nos povos como nos homens, está descrita de mão mestra, como sempre, por aquela no primeiro tomo, capítulo IX, de seu "Isis sem Véu", nestes termos, que merecem não ser esquecidos nunca. "Os seguidores de Swedenborg compreendem completamente a possibilidade de uma morte em vida, ou extinção da personalidade humana mediante o divórcio do espiritual e do meramente mental. Um dos ministros mais respeitados da Nova Igreja, o reverendo Chancey Giles, elucidou a questão dizendo que a morte física, ou morte do corpo, é uma medida de divina economia em benefício do homem, uma medida por meio de... a qual este pode alcançar os mais elevados fins de sua existência. Mas existe outra morte – acrescenta – que é a interrupção ou obliteração A HUMANIDADE e OS CÉSARES / 69 do ordem divino; a destruição de todo seu complexo sistema integral e de cada uma de as possibilidades de verdadeira felicidade. Esta é a morte espiritual, que ocorre antes da dissolução do corpo. Pode haver um notável desenvolvimento da inteligência natural do homem sem que esse desenvolvimento seja acompanhado de uma faísca de amor a Deus, nem de um amor desinteressado ao homem. Quando alguém se deixa dominar pelo amor a si mesmo e pelo amor ao mundo com todos os seus prazeres, perdendo o divino amor a Deus e aos seus semelhantes, precipita-se da vida para a morte; os principais superiores que constituem os elementos essenciais de sua humanidade são destruídos, e ele vive unicamente no plano natural de suas faculdades. Fisicamente, essa pessoa existe: espiritualmente está morta, tão morta para tudo que se refere à mais elevada e única fase permanente de existência, como está morto seu corpo para todas as atividades, prazeres e sensações do mundo quando o espírito o abandonou. Esta morte espiritual é resultado da desobediência às leis da vida espiritual, desobediência que é seguida da correspondente punição, nem mais nem menos que se tratasse das leis da vida natural." "Mas as pessoas ou povos mortos espiritualmente não deixam de ter seus gozos; po- ## M. Roso De Lunasuas dotes naturais e intelectuais, seu poder e sua enérgica atividade. Não há prazer animal do qual não participem, e para um grande número de homens e mulheres esses gozos constituem o ideal mais sublime da felicidade humana. O incansável esforço com que os ricos correm atrás dos passatempos da vida mundana, do aperfeiçoamento e do bom gosto nos modos, da elegância na vestimenta, das honrarias e preferências sociais, das distinções científicas etc., envenena e transtorna as cabeças desses mortos em vida; mas, como diz o citado pregador, essas criaturas com todas as suas graças, ricos trajes e brilhantes qualidades, estão mortas aos olhos do Senhor e de seus anjos e, uma vez medidas pela única regra legítima e imutável, não têm mais vida verdadeira que os esqueletos cuja carne se converteu em pó. / Um considerável desenvolvimento das faculdades intelectuais não implica uma vida espiritual e verdadeira. Muitos dos nossos sábios mais eminentes não são mais que cadáveres animados; carecem de percepção espiritual, porque lhes abandonou o espírito. Por mais longe que percorramos todas as épocas e examinemos todos os altos cargos mundanos, pesemos todas as aquisições e conquistas humanas e analisem todas as práticas correntes na sociedade, encontrare- ## A Humanidade E Os Césares71 -emos em toda parte esses homens mortos espiritualmente. / Um desses mortos espirituais era Filipo, e quando um bárbaro assim se aproxima para recolher a herança de uma civilização corrompida, seu triunfo material é infalível até que o Destino venha a julgar sua conduta, desfazer sua obra e deixar maldita sua memória e seus crimes. Seu reino, uma vez vencidos os gregos, estendeu-se até o Adriático e o Danúbio, através da Ilíria, da Trácia, do Quersoneso e da Eubeia, por um lado, e até Esparta, Atenas e as ilhas gregas, pelo outro. Sob o pretexto de cuidar da religião nacional, fez-se eleger anfição supremo encarregado de vingar as ofensas infligidas a Apolo Délfico, e em Queroneia humilha pela última vez os aqueus e consegue reuni-los todos para acabar com o império persa; mas tem a suprema dor de pai ao ser esfaqueado por seu próprio filho Alexandre, que, jogando-lhe na cabeça uma taça, em plena orgia, lhe disse: “Tu tens a presunção de passar da Europa à Ásia e não consegues ir de uma cama para outra, conforme cambaleias de bêbado!” No meio do banquete pelas bodas de sua filha, é assassinado por Pausânias, um de seus chefes, quando ainda não tinha completado cinquenta anos de idade... Não há senão um soldado a menos no exército que nos derrotou em Queroneia.” — disse o admirável Fócio ao saber seu triste destino, prevendo, sem dúvida, com a clarividência do sábio, que um rei e uma época tão enredados no mal não podiam desaparecer sem deixar atrás de si no mundo um rastro sangrento. O jovem Alexandre, o herdeiro da perfídia de Filipe e do ceticismo, sem espiritualidade aristotélica, aparecia na cena do mundo para subvertê-lo como em uma catástrofe geológica. Nunca maldição tamanha caiu sobre o mundo. ## Vi
Alexandre, O Grande
O Destino premiou as perfídias de Filipe dando-lhe um filho digno dele: Alexandre, em quem as secas austeridades de seu tutor Leônidas, o cego positivismo de Aristóteles, os exemplos paternos e a astúcia de Lisímaco, deram como único fruto o de um jovem ambicioso e cruel, sem outro freio moral que uma desmedida soberba e uma insaciável sede de conquistas. Esse mundo ignorante e desgraçado, que ergue estátuas aos que o açoitam com todos os horrores da guerra, ao mesmo tempo em que crucifica a todos os Cristos que tentam redimi-lo, chamou-o de o Grande. Grandes foram, de fato, seus crimes, suas loucuras e seus vícios. Não podia o karma coletivo dos persas, tiranos dos medos, babilônios, judeus, gregos, egípcios e outros cem povos, encontrar um vingador mais adequado que o intemperante filho do hipócrita Filipe. Antes de tudo, Alexandre segue a política concupiscente de seu progenitor. Aquele, que tudo esperava de suas futuras ferocidades, começa por repartir entre seus capitães tudo o que possuía para tê-los fiéis. Saqueia e arrasa Tebas, estando à beira de fazer o mesmo com Atenas. Arranca à pitonisa de Delfos um oráculo pela força e, Passando para a Ásia Menor, destrói o velho culto iniciático, que datava da antiguidade mais remota, cortando com sua espada o nó Górdio, espécie de simbolismo como o dos quipos ou cordões peruanos destruídos também por Cortés, outro menos vicioso Alejandro extremo. Finge-se grego em Atenas, troiano em Ilion, hebreu em Jerusalém, cananeu em Tiro e adorador de Júpiter Amnon no Egito, ao cujo último templo foi pelo mesmo caminho que os outros Césares de que tratamos em epígrafes anteriores. Halicarnasso, Tiro e outras cidades que oferecem heroica resistência ao conquistador são arrasadas até os alicerces, e chegando o César a Persépolis, após a vitória em Arbela sobre o último Dario, mostra toda a pujança de sua natureza selvagem entrando de cheio no luxo da Pérsia e querendo, para não se complicar menos, à semelhança de Nabucodonosor e tantos outros déspotas, ser venerado como um Deus, depois de se ter crido — não sem razão — um instrumento da própria Divindade para suas cármicas justiças. Quem pode conter um poderoso pela ladeira abaixo do seu orgulho? Ninguém. Mas Alejandro, ainda que não fosse grego, e sim bárbaro, estava rodeado ainda de gregos que não ignoravam as sublimes lições dos filósofos de seu século de ouro, cópia fiel dos ensinamentos do Oriente, e não lhe faltaram junto pessoas dessas que, em troca de sua vida, não o deixaram esquecer que não passava de um homem, um dos mortais mais desditosos, vítima de sua loucura de grandezas. Assim Clito, seu amigo, que lhe havia salvado a vida na batalha do Grânico, o repreendeu em um banquete por sua intemperança, recebendo ali mesmo a morte pela própria mão do déspota, não sem ser lamentado depois por aquele seu fraco matador com aparências tão fortes. Casandro soltou a gargalhada mais homérica ao ver o jovem recebendo de seus aduladores homenagens reservadas só a Júpiter Olímpico, não sem que o tirano o maltratasse de morte. Um médico de Ecbatana não conseguiu salvar da morte a Heféstion, favorito do déspota, e o déspota, para mostrar o imenso carinho que tinha ao seu confidente, achou-se obrigado nada menos que a crucificar o médico, demolir os muros de Ecbatana, raspar o pelo de todos os cavalos, derrubar o templo de Esculápio, apagar o Fogo Sagrado, isto é, o culto tradicional primitivo em toda a Ásia, degolar todos os prisioneiros córs recém-capturados na vitória sobre a Média, a modo de hecatombe — sacrifício de cem bois — para aplacar os manes de seu amigo. Tão criminoso holocausto fúnebre em honra de Heféstion teve coroamento na demolição de mais de quinhentas toesas dos muros da Babilônia para levantar com elas uma imensa pira, na qual é fama que consumiu as rendas de vinte ricas províncias e sacrificou dez mil vítimas, segundo Arriano nos ensina. Em seguida, acrescenta Cantú, enviou o cadáver de Heféstion ao Egito e prometeu a Cleômenes, perverso governador daquele país, a impunidade para todas as suas nefandas violações se conseguia que os sacerdotes deificassem o seu falecido amigo. Até para imitar a Diana caçadora mandou matar Hermolao, que havia morrido na caça a um javali que aquele louco semideus do tirano macedônio tinha querido caçar! A hipocrisia de Filipe não poderá ter, repetimos, um sucessor de mais francas e desatadas paixões do que o jovem Alexandre Macedônio. Senhor do déspota de tudo o que antes fora impérios assírio, egípcio, medo, persa e grego, quis, como Baco e como Ciro, conquistar toda a Índia, velha berço da cultura asiática. A custa de mil penalidades, conseguiu submeter o Pendjab e cruzar o Indo, mas não conseguiu aproximar-se como desejava do Ganges sagrado. Que lei secreta do mundo faz com que todos os imperialismos, ao chegar ao objetivo de sua ambição, tenham pretendido conquistar a Índia? Que esse conquista, fracassada ou meio realizada, tenha sinalizado fatalmente a apoteose e ao mesmo tempo o primeiro passo na decadência de seu respectivo poder? Nós que lemos e admiramos os ensinamentos de H. P. Blavatsky sabemos bem a que atener-nos sobre este ponto, depois de termos feito o inventário dos feitos de todos os Césares antigos e dos lembrados Tamerlão, Asoka e outros conquistadores medievais, seguidos mais tarde pela embaixada castelhana de Marco Polo, as conquistas de Portugal, Holanda e Inglaterra e os fervorosos desejos do "atual imperialismo alemão de aproximar o seu império àquela verdadeira capital do mundo"... Finalmente o herói clássico de tão criminosas proezas; o macedônio que fez persas dos gregos; o flagelo que devastou como uma tromba quase todo o mundo civilizado daquela época; o libertino que, embriagado, entregou nas mãos de uma etaira a tocha incendiária que reduziu Persépolis a escombros e cinzas; o louco que, vestido de Júpiter, Mercúrio ou Hércules, realizou infâmias ,8 ## M. Roso De Lunaem infames transformações, que disse Ateneu; o assassino dos defensores de Tebas e Tiro, o crucificador dos de Gaza, morreu da maneira mais prosaica em Babilônia, vítima de umas vulgares febres. Seu nome porém será maldito, apesar dos esforços de equivocados historiadores, contemporâneos ou não, a quem Heródoto ensinou o pérfido artifício de enaltecer tudo o grego e rebaixar tudo o oriental sob a máscara de elogiar este último. Alexandre, com a destruição do Culto iniciático oriental, desde Delfos até Mênfis e desde a Cirenaica até à Bactriana, a Sodjiana e a Escítia, atraiu sobre a Humanidade um karma tão terrível que poderia escrever-se um extenso volume sobre ele. Em Ísis sem Véu e na Doutrina Secreta de Blavatsky, pode encontrar-se não pouco a respeito disso para o pesquisador. Quanto ao outro karma da família de Alejandro e Filipe, a história não nos conservou com muitos detalhes, e não é caso de repeti-la. Basta saber que o déspota greco-asiático perdeu em tenra idade seu filho Hércules. Seu outro filho Alejandro, foi apenas um rei nominal da Pérsia sob a tirania de Pérdicas, general do tirano que acabou morrendo assassinado pela soldadesca, corrompida depois de tantos triunfos. Os generais Ptolomeu e Selêuco, sem levar em conta de forma alguma os direitos ## A Humanidade E Os Césares-, 79 da família do conquistador, ergueram os dois impérios famosos que levam seus nomes sobre as ruínas do macedônio. Olímpia, - mãe de Alexandre Magno, manda assassinar Casandro, cunhado deste último, que disputava os seus três filhos. O primeiro desses filhos morre antes que seu padrasto na flor da idade e o segundo, Antípatro, é assassinado por Alexandre o terceiro. Este, em meio aos horrores de uma nova guerra civil, como as anteriores entre os parentes do herói, é destituído por Demétrio, a quem antes tentara matar. Demétrio é destituído por sua vez por Pirro. Pirro, usurpado por Lisímaco, e Lisímaco morto pelos selêucidas junto com treze de seus filhos. Ceramo, filho de Ptolomeu e de Olímpia, ocupa o trono maldito da Macedônia e é vencido por Casandro, que a entrega à justiça de seus parentes Arídeo e Eurídice, que a mandam degolar, como ela havia querido degolá-los antes a eles. Casandro se livra da forma mais expedita também de Rogina, a outra esposa de Alexandre. Depois chega a vez cármica de Casandro e ele é morto pelos invasores gauleses, e seu irmão Melagro, deposto por cretino, e Antípatro, seu neto, destronado aos quarenta e cinco dias. Assim se chega, após as discordâncias funestas de Selêuco e Pirro, até Antígono Dosão que morre tuberculoso, e até seus 80 ## M.ROSO De LUNA degenerados compatriotas e seus sucessores, que poucos lustros depois, foram ludibriados pelo povo romano nas Sequitas triunfais de Cecília Metelo e de Paulo Emílio... Diante de tais horrores, admiremos mais uma vez a terrível justiça do Destino, dizendo com o Profeta: ## Vii¡Sic transit gloria mundi! ## Os Césares Selêucidas-... O filósofo Anaxarco zombou finamente da vaidade guerreira de Alexandre, maravilhando-se de que, havendo tantos mundos habitados no espaço segundo as escolas iniciáticas pitagóricas, só tivesse preenchido um, e dos menores, com sua glória, o César macedônio. Mas, mais que o filósofo, zombou da obra do César o Destino, pois que aplicou a seus sucessores a dura lei, também chamada da Talião ou do Karma, de que "quem com espada fere, com espada deve morrer". Já vimos antes, de fato, o que aconteceu aos reis macedônios, seus sucessores na Europa, hoje nos cabe falar dos continuadores de sua tirania na Ásia, ou seja, dos Selêucidas. Queimada Persépolis e destruída Babilônia, a cidade de Antioquia, erguida por Selêuco, se erigiu em rainha do Oriente, para continuar sendo... ## M. Roso De LunaA HUMANIDADE e durante dezesseis séculos nas mãos de dezenas de conquistadores, todos cruéis e indiferentes às dores da humanidade, todos também malditos e condenados a uma morte violenta pelo Destino. O triste fim da família dos Átridas na Trilogia de Ésquilo, mortos com ira todos, um após o outro, foi o mesmo destino cruel dessas César selêucidas, pois receberam uma herança maldita de dores como antes a dos filhos de Atreu e como muitos séculos depois os espanhóis Pizarro, Almagro e todos os personagens que participaram daquela horrível tragédia familiar chamada queda do Império Inca. Embora por seus cuidados materiais em prol do seu novo reino merecesse destino diferente, Seleuco, pagou o Karma macedônio sob a adaga de Ptolomeu Cerano. Seu segundo sucessor, Antíoco Teos, depois de repudiar sua esposa Laódice para casar-se com a princesa egípcia Berenice, é envenenado por esta, ao mesmo tempo que Laódice também mandou matar Berenice e seu filho de poucos meses. Laódice, por sua vez, é morta, finalmente, pelo rei do Egito, que assim vingou Berenice, e Seleuco e Antíoco, dignos filhos de tal fúria, passaram sua triste vida disputando o trono no meio dos horrores de uma guerra civil, morreram ambos acorrentados. A este Seleuco ## Os Césareshavia sido chamado (o astuto), porque er~~r anírasis Callímz'cus que tudo lhe saía mal. Seu karma foi sinistro, assim como o de... Igual nome se deu ao cretino filho, porque não era menos débil. Era rabanus (raio), tanto de corpo quanto de entendimento. Reinou três anos, e gerou César e... anos este débil, e o veneno foi... quase todos os T... e com ele como Con... o amados e Sí... B abdon, Medo B... e Eucledas... ... Menor e demais... Írcama, Ásia... ...os reais... sujeitos ao jugo selêucida nominalmente... governavam... fragmentos e episódios... estranhos... doutores de sanções tão enérgicas e escórias, ainda sob o... Grande, e isso unido... e Antíoco o... Com os Ptolomeus e nas furiosas lutas com os romanos apresentaram-se no... anos (que já se... constantemente como... um destino de... sinistro braço e horrores)... vez 10 cíclico de... verdade, uma mais, certos acontecimentos... Este último com consentimentos... ... é ao... o triste honor de... ele foi eleito tendo que acolher o... depois de ter ao Ugítivo Aníbal posto em... cartaginês a dois... penas o comandante dos... do seu... Império romano... estrutura ao... seguindo com... os exércitos de Aníbal, que teriam... se praticado, cartaginês realizado... todos a derrubar o... a ação com... primeiro César persa as... eram, o primeiro... em Termópilas... ... que neles humilhou os, como Jerônimo... Depois, igual que o... pelos romanos... o último... também... era desfeito e César persa também... foi... em Iso... ... e Arbela foi diante de... e resultou ao... fiel ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
assassinado pelos cimeos ao tentar saquear o templo de Bel, para poder reunir o ouro necessário para comprar dos romanos a paz mais vergonhosa. Assim acabou o déspota que pretendia repetir as conquistas de Alexandre. Coube igual destino a Antíoco, o Grande, seu filho Seleuco Filopátor, pois ao querer repetir a façanha do saque do tesouro do templo de Jerusalém, foi assassinado pelo mesmo líder que enviara para realizar a guerra devastadora. Antíoco Epifânio, seu irmão, continua buscando por toda parte riquezas para saciar a sede romana de ouro e decreta o massacre de quarenta mil israelitas, com o cativeiro dos restantes; mas uma morte violenta também o detém no caminho de seus crimes. A tutela romana começa a se exercer já, desde então, de modo mais descarado e criminoso, acabando com toda a riqueza do país, e um dos tutores romanos do menino Eufátor cai, assim como todos, sob a punhalada assassina. De mistificação em mistificação, o poder chega às mãos de Balas, o feroz e, vencido este por seu sogro Ptolomeu, rei do Egito, é assassinado por um árabe em sua fuga. Diodoto, outro tutor, também se livra de seu pupilo, o filho de Balas, pelo método mais expedito, e Jonatá, general judeu, que reinou depois sob o nome de Trifão, suicida-se ao perder uma batalha naquela sequência contínua de guerras civis que os astutos romanos tinham bom cuidado em promover e explorar. Antíoco Sidetes, apesar de suas qualidades excelentes, perece também numa degola geral promovida pelos partidos invasores. Demétrio Nicânor, enfim, cai do trono até o cativeiro e depois, na morte, destino comum, pelo que se vê, a todo selêucida coroado. Então é quando aparece em cena, para completar o sombrio quadro desses kármicos horrores, aquela Cleópatra, viúva de Sidetes que, segundo a história, havia sido esposa de três reis e mãe de quatro, protótipo do que pode chegar a perfídia feminina, para fazer verdade aquele dito do Eclesiastes de que "não há maldade humana comparável à maldade da mulher", aspecto tenebroso, dentro da lei dos contrários que rege o mundo, daquele outro aforismo do nosso Castelar quando diz que "a mulher é algo mais que anjo, porque é mãe". Esta digníssima precursora das Borgias, Orsini e Médicis, havia envenenado dois de seus três reis esposos e, o que é ainda mais atroz, matado pela própria mão um de seus filhos. Quis fazer o mesmo com outro filho, Gripo; mas ao apresentar-lhe a bebida fa- 86 ## M. Roso De Lunatal, este desconfiou da maternal solicitude e fez ela beber o conteúdo do filtro. Também Gripo mostrou conhecer as maternas artes do crime e tentou experimentá-las em um de seus irmãos. Este monstro, enfim, último, da ininterrupta série de monstros, morreu, como seus cinco filhos que lhe sucederam sucessivamente no trono, de modo violento. Veio a seguida o cisma entre Antioquia e Damasco, passando a fatídica Selêucida a ser uma província romana, como único meio de pôr fim a aquela inaudita cadeia de crimes. Quem haveria de dizer a Filipe, o Macedônio, em suas astúcias, e a Alexandre, em suas impulsivas barbaridades, que o carma aterrador por eles criado haveria de produzir uma série de horrores tais durante três séculos? Verdaderamente, quando alguém folheia a distância de dois milênios páginas tão sangrentas, reproduzidas, por desgraça, aqui e ali, sucedendo a tempos mais felizes (que são sempre os primeiros na vida de cada povo) pensa-se se será verdade que a história não é, com todas as suas falsas grandezas, uma queda espiritual que começa ao passar os povos de patriarcais, inocentes e desconhecidos, a povos meramente egoístas e terminar em verdadeiros párias atados ao carro triunfal dos déspotas que os tiranizam, como já disse o poeta: ## A Humanidade E Os Césares87 As torres que desprezei ao vento foram, à sua grande angústia se renderam. Mas, note-se bem, a angústia de que o poeta nos fala não é senão o peso do carma, que oprime e sepulta os povos, assim como dobra e aniquila os indivíduos. Há também justiça para aqueles, assim como para estes, em disputa! A HUMANIDADE e ## Viii
Os Ptolomeus
A Teosofia, Ciência das religiões e Religião das ciências, nos fala de três grandes leis históricas completamente desconhecidas de nossos cretinos positivismos: a suave lei do Dharma ou de impulso, que lança homens e povos à senda de seus respectivos deveres na vida; a inexorável lei do Carma, ou da fatal retribuição de não colher eles outra colheita que aquela que antes semearam; e a lei, enfim, das reencarnações sucessivas de homens e povos, ou seja, a lei biológico-matemática das espirais ou ciclos. O conhecimento e a obediência a essas três leis é o único modo de tornar a vida algo amável, épico e transcendente, não um mero vegetar, sem ideais, de uma besta racionalizadora. O homem é, em efeito, um animal dotado de mente e em plena evolução divina: "Deuses sois e o haveis esquecido", dizem Platão e Jesus. Sua vida no planeta não é senão a lenta evolução de seus sete princípios ativos: seus corpos químico ou visível (células) e físico, etéreo invisível (força), impulsionadores e conectores do organismo; seu corpo astral, ou seja, suas emotividades passionais e inferiores; sua mente ou raciocínio, tanto na ordem concreta (mundo dos fatos) como na abstrata (mundo das causas); seus sentimentos altruístas; sua vontade, chamada a ser soberana e onipotente assim que alcance a meta da evolução, como a alcançaram os irmãos maiores da raça (Rishis, Adeptos, seres como Krishna, Buda ou Jesus); e, enfim, sua vida integral ou completa e transcendida como um deus, isto é, uma Força inteligente que opera no Cosmos mesmo. Cada lugar ou império da Terra, por sua vez, é ao modo de um imenso palácio, que é habitado sucessivamente por seres cada vez mais inferiores ou imperfeitos. Primeiro nasce, em um canto esquecido até então da história, um povo puro, de costumes patriarcais, um povo feliz cuja existência se desliza plácida, sem que dela tenha nada que dizer a nossa história, essa infeliz narradora de atropelos e de crimes aos quais chamamos glórias na nossa loucura. É aquele sempre um povo sacerdotal, na verdadeira acepção de ## M. Roso De Lunaa palavra, um povo que é à vida daquela parte da humanidade que o constitui, o que a infância para a criança. O palácio, seguindo o símile, envelhece, e já não é habitado por pessoas régias, mas ainda por aristocratas. Ou, em outros termos, a corrupção deste sacerdócio ou magismo (idade de ouro daquele povo) acarretará, como vimos no império persa, uma idade de prata, idade em que aparecem já os grandes guerreiros ou chalryias. Tais guerreiros fundam cidades esplêndidas, fomentam as ciências, artes, comércio, etc., etc.; são colossos, enfim, colossos, todo ouro, mas cujos pés são de barro porque sua grandeza se cifra já, não numa poética felicidade patriarcal, como aquela do vate salmantino de «nem invejado nem invejoso ti», mas nas opressões de povos, antes grandes e já caídos, que assim vêm a pagar por sua vez seu karma nas mãos daquele outro povo mais jovem que vem fazer com eles o que eles fizeram antes com outros mais antigos, e a demonstrar mais uma vez que as glórias militares, como todas as glórias não cifradas na virtude do sacrifício, não são senão «flor de um dia» chamadas fatal ou karmicamente a acabar na queda do povo tido por glorioso em todas as misérias nascidas do egoísmo dos vashyas ou comerciantes e finalmente na abjeção dos sudras e parias... O palácio do nosso ## A Humanidade E Os Césaressímbolo já está consagrado, pois, não a mansão suntuosa do magnata, mas a mero armazém comercial, centro depois de todo vício, até que, andando mais e mais os séculos, seus parapeitos se desmoronam; não podem mais abrigar nem sequer o mísero beduíno errante e só servem — ai! — como os velhos palácios sírios hoje em dia, de abrigo a feroces alimárias e tímidas sabandijas. Assim sucedeu com o império egípcio dos Lágidas ao ruir estrepitosamente o colosso macedônio. Aquelas sublimes ideias lógicas da Ásia tradicional, destruídas pela dourada barbárie de Alexandre, o mínimo, ressurgiram, como a Fênix mitológica, de suas próprias e gloriosas cinzas. Um sábio, iniciado, chamado Ptolomeu Lago, e pelo sobrenome Soler ou Salvador, em quarenta anos de um reinado pacífico, transformou a cidade meramente comercial de Alexandria num emporium das artes e das ciências verdade, emulador de Biblos, Heliópolis, Mênfis e Tebas. Ali, entre dois mares históricos, como o Vermelho e o Mediterrâneo, junto às bocas do fértil Pai Nilo e à vista dos três... continentes do Velho Mundo, ergueu-se como por arte mágica um templo iniciático, a famosa Biblioteca e o Serapeu com mais de quatrocentos mil volumes escolhidos, herança de todo o saber arcaico, que ali se reunia 93 ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
e de lá irradiava seus fulgores por todo o mundo conhecido durante cerca de um milênio f apesar de suas três horríveis devastações, uma quando a guerra com César; outra às mãos do mesmo fanatismo pseudo-cristão que acabou com os filósofos gnósticos ou neoplatônicos, e a terceira, e talvez a menos grave, às mãos do bárbaro califa Amrú, obras de destruição as três como todas aquelas com as quais as barbáries religiosa e guerreira costumam sepultar séculos inteiros da mais fraterna tolerância religiosa, qual a que a Ptolomeu Soter caracterizava. A lenda conta que construído o Serapeu, o próprio Boi Apis veio por si só, sem que ninguém o trouxesse, desde o Ponto, onde se refugiara, até aquela sua nova mansão, símbolo poético da vinda às terras egípcias daquele mesmo culto iniciático que antigamente também se refugiara no Egito em razão da catástrofe dos Atlantes. Após essa idade de ouro do império dos Lágidas, veio a de prata, de seu filho Ptolomeu Filadelfo, que, embora tenha seguido os passos do pai no que diz respeito a engrandecer o reino com as artes da paz, conta-se, coisa não comprovada, que se livrou maldosamente dos seus dois irmãos e que, entregando-se aos prazeres orientais, como Salomão, morreu em consequência de seus abusos. Em seus outros quase quarenta anos de reinado, como o pai, exemplo admirável do que podem fazer duas gerações de soberanos sábios e pacíficos como os dois primeiros Ptolomeus! Trinta e três mil novas cidades ergueram-se sobre o solo egípcio desde a Cirenaica até o mar Índico e desde a Etiópia até o Sinai; Alexandria contou com mais estátuas que Roma, e como diz Dionísio Cássio, gregos, latinos, sírios, líbios, cilícios, etíopes, árabes, bactrianos, citas, persas e índios conviviam na mais perfeita tolerância religiosa, como verdadeiros homens, todos filhos de um Pai comum, como diria a famosa obra de Schiller, imortalizada por Beethoven em sua "Nona Sinfonia". No reinado seguinte de Ptolomeu Evergetes ou o benfeitor, a idade de prata daquele ciclo egípcio passou insensivelmente a ser idade do bronze e do ferro. A cobiça por expansão territorial, quando o melhor é cultivar bem a herança própria sem desejar a alheia para ser feliz, levou-o a César a decretar a conquista da Síria, e embora tenha levado sua tolerância religiosa ao extremo de oferecer sacrifícios ao Deus de Israel em seu próprio templo de Jerusalém, e o famoso cabelo de sua esposa, de negro e luminoso ébano, mereceu ser colocado no número das constelações por cortesãos astrólogos; é certo que ali terminou o primeiro século glorioso ou patriarcal do Egito redimido do jugo macedônio, para desencadear 92 \ ."., 94 ## M. Roso De Lunadescer pela suave inclinação da degradação e do crime até cair na abóbada liquidadora de todos os vícios dos povos gregos e orientais que se chamou Império Romano. Enumerar em detalhe tamanha queda é repetir a dos selêucidas e antecipar a do nosso glorioso califado cordobês dos Hixen e Alhaken, no qual parece que reencarnaram os esplendores dos lágidas. Basta-nos saber que Ptolomeu Filopáter ou por ironia o amador do seu pai (a quem se diz ter feito morrer para reinar mais depressa), já não encontrou meio melhor de se imortalizar na conquista da Síria do que decretar o massacre de quarenta mil judeus, e também o de dar morte à sua zelosa esposa Arsinoe. Ptolomeu Epífanes, filho de ambos, cai sob a tirânica tutela dos romanos com Lépido, o primeiro tribuno, e ainda antecipou as glórias de Nero fazendo morrer o seu tutor Aristómenes, cujos conselhos desagradavam ao seu natural perverso tanto quanto desagradavam a ele os de Burrus e os de Sêneca. Karmicamente, pois, teve por sua vez que ser e foi envenenado pelos seus cortesãos descontentes, e com isso a oligarquia e a guerra civil, destrutoras dos povos, brevemente tomaram corpo com as discórdias entre os dois irmãos Filômetor e Fiscão. Deste último Ptolomeu diz-se que já era ## A Humanidade E Os Césares95 simplesmente um monstro, no moral como no físico. Casou com sua irmã, já viúva do seu irmão Filômetor, e, para ficar livre de todo obstáculo, degola no mesmo dia do casamento o seu sobrinho no próprio regaço da mãe, e completa depois a façanha assassinando o que havia de mais florido da juventude alexandrina, temeroso de que se lhe revoltasse. No entanto, oh, contrassenso muito frequente nos déspotas! foi um excelente poeta, um grande comentador de Homero e um verdadeiro polígrafo, e há certos detalhes na sua história que talvez estejam pendentes de uma estranha retificação para a qual não abundam, infelizmente, os dados. Surge em seguida a guerra civil entre os dois filhos de Fiscão. O menor, Alexandre, assassina a sua mãe porque preferia o outro filho Latyrus, e é morto ao penetrar em Chipre. A Latyrus sucede Cleópatra ou Berenice, princesa que parecia ter sido adjudicada pelo Destino ao próprio pai para recompensá-lo a ele e ao seu povo por ter sido mutilada a cidade, à maneira de conquistadores, Tebas a insigne. Berenice, poucos dias após casar, foi assassinada pelo próprio marido que, por sua vez, foi morto pelo povo sublevado, acabando assim os Ptolomeus legítimos, passando o cetro a um juglar ou tocador de flauta, Ptolomeu, ## N. Roso De LunaAuletes, bastardo de Latyrus. Despojado por sua própria filha Berenice, Auletes mandou matá-la ao recuperar o trono, entregou-se cegamente aos romanos e obteve do karma o ter por filha à funesta beleza de Cleópatra, a cujos pés, dignos da própria deusa Vênus, caíram sucessivamente, como escravos de seu amor e sua perfídia, seus dois irmãos Ptolomeu e Antônio o tribuno. Por que reproduzir um reinado tão conhecido como o de Cleópatra nem falar de seu trágico fim, diante da estoica impassibilidade amorosa de Otávio o tribuno? Além disso, isso nos anteciparia acontecimentos já próprios da história romana. Consignemos apenas que o fato de ter sido liquidado no combate naval de Átio todo o karma ptolomaico e asiático. Roma, a jovem, também ansiava semear seu karma de tiranias sobre todo o orbe, para colhê-lo esplendidamente mais tarde sob o flagelo sem igual dos bárbaros do Norte por um lado e dos turcos otomanos por outro, desde os finais da idade antiga até os começos da moderna e até, se quisermos, para trazê-la arrastada, de país em país e de século em século, até os nossos próprios dias, dias em que uma tragédia horrível de karma medieval começou a ser liquidada entre lágrimas e horrores. ## J\ 1 ## I
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O Imperialismo Romano Em Seus Primórdios
A pré-história de todo o Lácio e o regime patriarcal da Etrúria são uma confirmação da lei histórica que faz da vida de cada raça uma queda espiritual. As naus do troiano Eneas, após seu épico êxodo cantado pela Eneida de Virgílio, ao fundar, junto ao Tibre, a Cidade Eterna, encontrou povos admiráveis e felicíssimos em torno da cidade religiosa e iniciática de Alba, povos sabinos ou sabeus ao modo dos do Oriente; gentes honradas, enfim, que, à maneira de toda boa mulher, careciam de história...; dessa história que nós escrevemos com sangue de batalhas e lágrimas dos povos. Tudo é patriarcal e mítico nas origens de Roma. Aquela amamentação de Rômulo e Remo nos seios de uma loba, de uma rebelde welsunga, como diriam os poemas nórdicos instrumentados por Wagner; aquele fabuloso , ## M. Roso De Luna
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roubo das sabinas, equivalente ao de Helena, que serviu de argumento à Ilíada, e ao de Sita, que constituiu o argumento do Ramayana; aquela Magia cerimonial de Numa; aquelas glórias perdidas dos Reis Pontífices, ou construtores de pontes materiais sobre o Tibre e de "pontes espirituais, pontes de salvação", entre esta e a outra margem da vida"; aquelas Sibilas de Cumas e de Eritréia com seus livros proféticos que se guardavam em urnas de porfírio no próprio Capitólio, e que preservavam magicamente Roma dos ataques dos gauleses, sendo depois finalmente queimados, por ordem do Senado, "por conter os segredos da religião estabelecida"; aquelas virtudes de Lucrécia e depois da mãe dos Gracos e do estoico Régulo, etc., etc. Roma foi virtuosa enquanto foi inocente, mas logo seu espírito, nativamente imperialista, foi absorvendo e tiranizando aqueles mesmos povos, seus vizinhos, que dispensaram fraternal acolhida aos povos de Eneas, seus fundadores. O terrível Dedo do Karma ou do Destino avisou-os de tempos em tempos aos romanos sobre o perigo que, com tal conduta, corríam, assim como as diversas vezes em que os gauleses chegavam sob os muros do Capitólio, e as muitas outras que a guerra civil entre patrícios e plebeus ameaçaram arruinar aquela urbe. Terminada a era que poderíamos chamar de os pequenos crimes romanos, começou a era dos grandes crimes, primeiro com o aniquilamento de Cartago, povo degenerado já então, na ocasião, mas cujas origens inexploradas lançariam muita luz sobre mais de um problema da pré-história africana; depois, com a destruição da nunca por isso: Igual grandeza de iberos, celtas e celtiberos de nossa Península, embora não dê lugar a epopeias como as de Viriato, Numância, Galícia, Astúrias e Cantábria, sobre as quais a História ainda não tem dedicado bastante atenção, e nas quais a força e a mal chamada cultura militarista e agressiva poderia talvez estar do lado dos pérfidos romanos, mas nunca a justiça e a causa da verdadeira civilização, como tantas outras vezes foi repetido depois no mundo. Após o crime hispânico, veio outro crime das Gálias, nas quais a dourada barbárie das legiões de Júlio César acabou com o colégio sacerdotal druida e com aqueles divinos emporiums iniciáticos em todas as artes e ciências da antiguidade sábia, que se chamavam Bibractis e Alesia, tão glorificadas pela sapientíssima Enciclopédia Maçônica de Mackenzie, e pela Ortodoxia Maçônica de Aragão, copiada por H. P. Blavatsky, no terceiro tomo de sua Doutrina Secreta. A mais anti- 99 ## M. Roso De Luna
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ga cultura grega, infinitamente superior sempre ao férreo e brutal militarismo romano, mantinha naqueles emporiums do saber arcaico universidades onde recebiam ensinamentos mágicos e científicos perto de cem mil alunos de todas as partes do mundo, inclusive da remota Cítia. O nativo e incomparável espírito de liberdade, que vale sempre mais aos olhos dos verdadeiros homens do que o próprio apego à vida, pulsava tão fundo no peito daqueles povos irmãos das que depois seriam Espanha e França, que cada gálico foi um herói do tipo de Vercingetórix, e cada cidade a tumba de seus moradores, como em Sagunto, Numância, Estepa e Cástula e o Monte Medulium. O crime de César no Ocidente, assim como o de Alexandre no Oriente, deteve com isso a marcha triunfal da Humanidade por longos séculos, acarretando depois como sanção kármica a horrível noite chamada da Idade Média, época da qual mal, não obstante a nossa vaidade cultural, sem amor e sem poesia, quase ainda não saímos nos nossos próprios dias. Primeiro César, primeiro regicídio. A kármica Nêmesis, vingadora, desembainhava sua punhal, que, horror dos horrores!, não haveria de ser embainhada já até dali a quinze séculos, quando os turcos otomanos sepultassem com sua barbárie o último e mais corrompido resto do império romano no Oriente. Por que detalhar, pois, uma série de recordações históricas que todos conhecemos? Que falar daquele prólogo cruel que teve o cesarismo em Roma após as citadas destruições, e as de Corinto, Alexandria e mil outras cidades, arquivos — das glórias mais puras em todo o âmbito do mundo conhecido, após a ruína de cem impérios, para cimentar sobre eles o império dos impérios materiais, e forjar, enfim, com tal império outro ainda mais temível da Tiara Pontifícia em que, ao império da Terra se quer acrescentar nada menos que o das Regiões Infernais e as Regiões Celestes? .. Isso não seria obra das pinceladas sintéticas em esboço destes modestos epígrafes, mas de toda uma biblioteca restauradora da Verdade histórica, frente à Mentira entronizada? Ísis sem Véu e A Doutrina Secreta, as duas obras capitais daquela mulher incompreendida do século passado; que se chamou H. P. Blavatsky, nos poupam também um trabalho tão árduo. A queda do patriarcalismo romano, às mãos do nascente imperialismo da grande república, deu lugar a um fenômeno curioso: ao aparecimento do que hoje chamaríamos pomposamente a questão social, porque, como diz com grande acerto o cronista da guerra atual, Luis de Araquistain, dominar povos estrangeiros não é senão introduzir em casa o inimigo. De fato, as artes produtoras da paz perderam os livres braços que as cultivavam e eles foram substituídos por braços de prisioneiros transformados em escravos. A hidra imperialista ergueu muito rápido uma de suas sete cabeças, apesar das abnegações dos Gracos e de Coriolano, com a sublevação dos 70.000 escravos na Sicília; com a segunda guerra civil e com a terceira, na qual vários milhares de homens, ora contra Mário, ora contra Sertório, ora contra Espártaco, entronizaram já descaradamente o pretorianismo, como ponte para que, anos mais tarde, a plebe legionária deu a Roma e matou, por rigorosa ordem, aquela série de césares tiranizadores, criminosos natos ou loucos epilépticos, que foram um afronta para Roma e para o mundo. Como nasceu o pretorianismo?: da forma mais simples: Roma cuidou antes de tudo em empregar o ouro como elemento de corrupção. Com ele pagou espiões e péssimas gentes por toda parte: na Itália; em Cartago; na Espanha; na França; na Grécia; na Macedônia; no Egito; na Líbia; na Ásia, em suma, onde havia povos mais honrados do que ela, povos que ainda conservavam mais ou menos restos do primitivo patriarcalismo salvador, e que davam respaldo moral a pactos que os ro- manos cumpriam e faziam cumprir sempre que lhes conviesse, mas que desprezavam e pisoteavam falsamente no caso contrário, alegando como desculpa a dura lei de uma mentira necessidade, que não era no fundo senão um crime. “Com o ouro e a mentira fomentou Roma também as discórdias civis em todos os povos decadentes, fingindo protegê-los, e após o espião, veio o soldado mercenário, humano monstro cuja missão era apenas a de destruir. A força meramente animal-guerreira substituiu assim toda força moral, pura e simples, assim como todo direito natural. Mas, por lei de kármica retribuição, muito rapidamente Roma ficou aprisionada em suas próprias redes, porque essa mesma força bruta voltou-se contra ela, governando-a ao seu bel-prazer, já que é lei da natureza humana que toda apelação à força material, conduzindo-nos novamente ao mundo dos irracionais dos quais talvez, por evolução, fisicamente saímos, é sempre seguida de uma queda brutal nesse mundo inferior semi-animal, mundo no qual o ser humano, com todos os seus excelsos destinos, é fisicamente o ser mais desvalido, sem possuir aqueles meios de resistência e defesa com que a natureza dotou os irracionais em troca de uma imensa inferioridade espiritual e psíquica, que os torna nossos escravos. A Natureza sempre tem compensações admiráveis e escárnios mais que sangrentos; por isso quis a paradoxalidade que ninguém seja verdadeiramente mais fraco do que o guerreiro!... Para cada Holofernes há uma Judite e para cada Baltasar, uma profecia fatal escrita em caracteres ostensivos de fogo, quando não nos mais misteriosos caracteres das vítimas sacrificadas, acusando irresistivelmente pela própria voz da consciência! À semelhança de certas instituições que hoje se dizem cristãs, sendo na verdade ímpias inimigas do verdadeiro Cristianismo, os romanos fizeram da moral um coringa, adaptável a todas as circunstâncias; uma lei do funil efetiva e horrível, com a qual todas as riquezas do mundo iam passando para suas mãos pecadoras e desperdiçadoras; o Direito também foi para eles – apesar de muita coisa ter sido dita diferente por muitos – um pesado conjunto de vaísimas fórmulas rituais, que, ainda hoje, são usadas em países decadentes para justificar toda arbitrariedade do grande e todo sacrifício do pequeno, perdendo-se quase sempre o coração e a consciência, mas "salvando-se os princípios", as míseras aparências legais na mais perfeita hipocrisia de sepulcros branqueados, que Jesus chamaria... A perfídia, de fato, que antes vimos em Filipe, o Macedônio, ficou pequena diante da perfídia empregada por Roma com os povos, antes de lhes colocar o jugo, como se tal perfídia ultrapassasse os limites humanos para entrar em outros caminhos sombrios que a Teosofia classifica como de Magia Negra, em que pessoas cuja doutrina efetiva é apenas o "Mal pelo Mal mesmo", opõem sempre suas letais inércias de perversidade às Forças Brancas, ou seja, às Forças Inteligentes e Super-humanas encarregadas de impulsionar toda evolução em nosso planeta. E o curioso é que ambos os imperialismos, o do Oriente e o do Ocidente; o de Alexandre e o de César, nasceram deste lado e daquele lado do mar Trácio. Um na Macedônia; o outro na Troade, porque de Troia, na... efeito, viessem Enéias e seu povo romano. Ainda perduram, sim, ainda as consequências cármicas dos crimes desses dois impérios de impérios, consequências que não se diria senão que vão se liquidar muito em breve longe daquele mar sinistro que parece separar a Europa da Ásia, com seus estreitos de Dardanelos e Constantinopla... Que coisa tão misteriosa é a História quando se mira das alturas da Filosofia! Augusto assumiu ditatorialmente em si todos os poderes humanos e divinos; matou todas as liberdades, tanto privadas quanto pú- 105 106 ## M. Roso De Lunablicas. Os últimos republicanos tinham morrido em Farsália, em Munda ou com Cícero, Bruto, Cássio, etc. A grande Besta Apocalíptica ficou, portanto, sozinha, reinando sem rival em torno de todo o Mediterrâneo. Vejamos no próximo capítulo qual foi o destino desta inaudita opressora dos povos antigos. x ## Apoteose Imperial Romana... Sem segundo já na Terra — no que nós chamamos Terra, entende-se — o orgulhoso tribuno Otaviano recebeu o nome de Imperador; mas ele exigiu outro ainda maior, reservado até então para coisas divinas: o de Augusto e o de Soberano Pontífice, isto é, o lugartenente de Deus, o único Condutor da verdade entre este e o outro mundo, como se a Divindade fosse algo material que precisasse de Representantes e não fosse o Sopro Informador do Cosmos, o Logos Platônico e de São João, que pulsa igualmente no fundo de tudo o que existe, átomo ou mundo, como no íntimo da consciência humana: o Cristo em nós, diria São Paulo. Primeiro déspota político-religioso em Roma, primeiro aviso do Destino: os germânicos, em efeito, surpreendem Varro na Floresta Negra, e destruído o exército romano inteiro, não pa- 108 109 ## M. Roso De Luna
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receu tal destruição senão profetizar que as primeiras hordas bárbaras esmagavam o orgulho do primeiro e maior dos Augustos, assim como as de cinco séculos depois acabariam com a risível púrpura imperial do ínfimo Augustulo. “Varro, devolve-me mais legiões!”, ouvia-se clamar frequentemente o déspota no paroxismo de seus remorsos cármicos. Tibério, sucessor de Augusto, tirou a máscara hipócrita com que começara seu reinado e pôs imediatamente em vigor a velha lei de lesa-majestade, que antes só se aplicava contra quem atentasse contra a majestade do povo romano, enquanto que, a partir deste momento, até os nossos dias ainda moralmente romanos, infelizmente, só se aplicou para ornamentar com falsos prestígios os crimes de tantos e tantos tiranos erguidos a deuses. Um dócil instrumento de crime foi Sejano, o conselheiro de Tibério, que anulou por inveja toda a família de Germânico, até cair ele próprio vítima do povo desencadeado, e quando o césar já estava quase octogenário, suas crueldades tomaram forma de delírio persecutório contra tudo e contra todos, exceto contra seu favorito Cayo Calígula, digno monstro herdeiro de monstro, que, impaciente para assumir suas funções, ajudou Macron a se livrar do velho estorvo, sufocando-o com uma almofada. Cayo Calígula foi o que hoje chamamos de matoide, isto é, um louco criminoso degenerado, que, em todo caso, é um perigo; revestido como este da faculdade despótica, torna-se o maior dos flagelos que o Karma pode desencadear sobre os humanos. Segundo os cronistas, ele se deleitava em prolongar os sofrimentos de suas vítimas, para que se sentissem morrer, e se queixava de que a multidão não tivesse uma única cabeça para ter o prazer de derrubá-la com um só golpe. Sua loucura chegou a tão alto grau que tentou fazer cônsul seu cavalo Incitatus, nomeando-lhe guardas, intendente e até secretário! Aliás, em nossos próprios dias tem-se falado longamente sobre Calígula, por ocasião do paralelo que certos elementos hostis ao atual César alemão Guilherme II quereram estabelecer entre ambos. Nós não seremos, claro, mas sim a História, os chamados a confirmar ou impugnar tal paralelo; porém, achamos nosso dever dizer aqui que o reinado de Calígula foi estudado, como um caso de loucura cesarista em Roma, pelo professor Ludwzod Quz·dde quando era aluno da Escola de Arqueologia que a Alemanha mantinha em Roma (1894) e que a publicação do folheto causou tamanho rebuliço no império germânico, que teria levado à ruína seu autor como réu de lesa-majestade, se não fosse porque se percebeu que se tratava realmente de um estudo histórico ao qual, fossem as leis de reencarnação e de karma, ou a desenfreada fantasia dos leitores, pareciam dar uma atualidade pulsante, jamais pretendida por seu autor. Citamos este caso, que está tratado em detalhes pelo nosso genial compatriota Blasco Ibáñez, em sua História da guerra europeia de 1914 (pág. 440), apenas para copiar o juízo que um autor alemão mereceu o imperialismo iniciado por Augusto e imitado ao longo da história por homens e povos que, de fato, parecem incapazes de aprender com a experiência alheia, bastando apenas ler as lições da História, “a Mestra da Vida”. “O que elevava Calígula algumas vezes acima de si mesmo, diz Quirlde, era a percepção embriagadora de seu poder, a ideia de encontrar-se subitamente no pináculo da autoridade, o desejo de fazer algo grandioso e a necessidade de brilhar na história do mundo... O principal motivo de seus atos (como o de todos os déspotas) não era o desejo de realizar o bem, mas a ambição de ser admirado... Costuma-se falar da loucura cesarista como uma forma particular de alienação mental... Suas manifestações características são a mania de grandiosidade levada até a auto-deificação; o desprezo por toda barreira legal e de todos os direitos do próximo; uma crueldade absurda, brutal e sem motivos, que também se encontra em outros dementes, com a enorme diferença, no entanto, de que a situação proeminente de um monarca proporciona aos germes dessas pretensões um admirável campo de cultivo, determinante de um desenvolvimento que seria irrealizável em qualquer outro sujeito. Deste modo, os loucos cesaristas podem realizar atos monstruosos e de uma enormidade sem precedentes. ... A sensação de seu poder sem limites faz esquecer a um imperador todas as barreiras colocadas pelas leis. A teoria que funda esse poder em um fato divino altera de modo desastroso as ideias do desgraçado que realmente crê nelas. As exigências da etiqueta, e mais ainda a diligência servil com que a valorizam todos os que se amontoam em torno do amo, infundem nele a ideia de que é um ser elevado pela própria Natureza acima do nível de todos os homens. As observações que pode fazer ao seu redor entre os personagens de sua corte lhe dão a impressão de que além de sua pessoa não existe senão uma turba vulgar e desprezível. Mas se ocorre ainda que, não só a corte, mas a massa do povo está corrompida; ... \ ~ ## I
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qualquer coisa que tente o soberano não encontra nenhuma resistência franca e viril, se a oposição quando arrisca-se a empreender uma campanha deixa saber temerosamente que não ataca sua pessoa nem suas ideias, e, por fim, se essa inteligência corrompida que inventou o crime de lesa majestade e que vê um ato condenável no fato de recusar a veneração ao soberano, acaba por entrar na legislação e na jurisprudência, não há senão admirar-se de que um monarca tão absoluto permaneça em seu juízo são! Esses déspotas que fazem tremer o mundo costumam ser – escárnio do Destino que faz do guerreiro o mais fraco dos homens! – brinquedos de qualquer mulherzinha perversa, como se viu no velho Cláudio, o sucessor de Calígula, quando este foi assassinado por Cásio. O verdadeiro César foi, de fato, a lúbrica Messalina, sempre farta de vícios, mas jamais satisfeita, e brinquedo por sua vez de favoritos ainda mais perversos que ela, que a fizeram sucumbir sob suas próprias artes de crime. O concupiscente velho casa depois com sua sobrinha Agripina, que nos traz à cena, e com isso está dito tudo, a aborrecível personalidade de seu filho Nero, antes de livrar-se do valetudinário esposo, pelo procedimento tão expedito do veneno... Nero, Nero, o hipócrita, que chorou e se lamentou de saber escrever, ao assinar a primeira sentença de morte e que depois não teve inconveniente algum em assinar ou em executar por si mesmo as de seus preceptores Sêneca e Burrus; as de seu verdadeiro antecessor Britânico; as de Agripina e suas mulheres Otávia e Pápia; e, enfim, a de sua própria mãe!... Nero, o grande poeta – todos os déspotas sanguinários têm pretendido ser oradores e artistas - (me canta o incêndio de Troia, que ele mesmo decretou reproduzir em Roma; Nero, o conhecedor dos clássicos, o gladiador sem decoro, o louco, como Calígula, como Cláudio e como tantos sucessores seus que depois veremos, simboliza toda uma época, bastante bem descrita no Quo Vadis? de Sienkiewicz, e melhor ainda em Os Últimos Dias de Pompeia, de Bulwer-Lytton, e na clássica obra de Gibbons "História e Causas da Decadência do Império Romano". Não temos, pois, por que insistir em reinados tão repugnantes nem nos que seguiram de Galba, o Bom, de Otão e Vitélio, última escória do lixo pretório que os elevou ao solio imperial e pontifício da degradada Cidade Eterna... O odor de um inimigo morto é agradável, mas o de um cidadão romano morto é ainda melhor, dizia este último tirano, protótipo dos sete pecados capitais, que com sua violenta morte inaugurou o reinado dos Vespasianos, espécie 112 . .... l 8 ## M. Roso De Lunade Ptolomeus egípcios que detiveram por um momento Roma em sua queda vertiginosa. Este epílogo da Roma do Ocidente e prólogo do Baixo-Império merece capítulo à parte. x ## Postrerias Do Império Do Ocidente, Os Flávios e os Antoninos romanos são os Ptolomeus do Ocidente. Vespasiano, o primeiro deles, é um verdadeiro Soter ou Salvador. Queimado simbolicamente o Capitolino pelas hordas pretóricas de Vitélio, aquele verdadeiro Iniciado restituiu a Roma sua grandeza republicana, respeitando e obrigando a respeitar todas as leis, e fazendo justiça pública por si mesmo, com o que restabeleceu a disciplina agrária e reprimiu todos os excessos da soldadesca endeusada. Fez reconstruir os fastos sacerdotais da Roma patriarcal, tal como outrora estavam escritos nos livros sibilinos, e o mundo ocidental, em suma, saiu com ele de suas ruínas, como Alexandria saiu das ruínas macedônicas. Tito, seu filho, continuou sua obra salvadora, e tudo parecia prever uma era de felicidade para a antes atribulada Roma. 117 ## M. Roso De Luna
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Mas não há dúvida de que sobre a Humanidade em conjunto pesa uma maldição kármica, talvez desde os tempos da Atlântida e sua magia nefasta, porque assim como após uma série sempre breve de dias primaveris, sucedem-se depois da Era Terciária ou Paradisíaca, dias duríssimos de calor ou de frio, após os dias de bonança dos povos, fugazes sempre, vêm outros de tempestade, nos quais só triunfa o déspota e sua obra destruidora. Assim, depois de Tito, vieram os horrores de Domiciano, e depois daqueles reinados felicíssimos do cordobês Trajano, que quis ir até a Índia; do também espanhol ou quase espanhol Adriano, o maior polígrafo de seu século; do galo Antonino Pio e do galaico Marco Aurélio, vestiu o púrpura imperial Cômodo, o émulo de Calígula, Nero e Domiciano, e após Hídio Pértenax, o bondoso, vêm Sétimo Severo, o açougueiro, filósofo e orador, todavia, como Nero; Caracala, Jôco e matoide, como Calígula; e Heliogábalo, ganancioso e feroz, como Domiciano. Era a eterna batalha do Bem e do Mal, disputando o império do mundo... Mas, sendo a história de cada povo uma queda espiritual, o Mal triunfou ao fim na orgulhosa Roma, e a partir do justo Alexandre Severo, quase não houve já um César que não fosse um perfeito monstro, de forma que a história desses últimos tempos romanos está feita dizendo que os Maximino, pai e filho, Balbino, Filipe, o árabe, Décio, Galo, Valeriano, Cláudio e Quintílio, Aureliano, Aper, nenhum, enfim, conseguiu morrer em sua cama, mas todos pereceram de morte mais ou menos violenta, salvo o honradíssimo Próbo, protótipo de austeridade, e o octogenário Diocleciano. A famosa espada de Dâmocles, célebre nos fastos de Dionísio, o Tirano de Siracusa, estava suspensa sobre a coroa dos césares, desde os mesmos dias de Augusto, em forma de povos bárbaros que cingiam com um cinturão ameaçador todo o contorno do Império, prontos a lançar-se sobre seus despojos assim que na balança da Justiça ou do Karma, pesassem mais as ações perversas dos césares déspotas, que as ações salvadoras dos césares mais ou menos iniciados, como os Flávios e os Antoninos. Avançam os tempos, e às primeiras invasões, seguem-se sublevações, pestes, inundações, terremotos e toda sorte de estragos. Dezenove pretorianos com púrpura se sucedem no trono em menos de oito anos. O roubo, o assassinato, a traição e a perfídia são a arma universal de grandes e pequenos; multiplicam-se as matanças de milhares de cristãos; já não se deseja mais neste mundo que pão e circo; nem se ## Ii6IIa ## M. Roso De Luna
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acredita em deuses nem em Deus algum, senão no prazer, ainda que para renová-lo continuamente haja que recorrer ao crime. Em uma palavra, a humanidade daqueles dias era mais indigna que as feras ferozes, e mais abjeta que quanto de abjeto pode imaginar-se razoavelmente na fantasia mais acalorada. Que o digam os restos que hoje exumamos em cidades como Pompéia, verdadeira Sodoma sepultada pelo Vesúvio. Nessas condições foi quando o astuto Constantino fez a conversão imperialista mais estupenda que conhecem os séculos. O trânsito do cesarismo militar ao omnipotente poder terrestre e celestial, com que vemos tremular na Idade Média aqueles que se dizem sucessores de Cristo e que, a título do mais divino e ao mesmo tempo do mais humilde dos homens, conseguiram o império material e espiritual do planeta, mais para proveito próprio do que para benefício da Humanidade, não poucas vezes. O fato de Constantino separar a autoridade religiosa da política no Império nem era novo na História, nem deixou de se repetir depois. A lenda oriental nos diz que na época de maior esplendor da Atlântida, ambos os poderes estiveram reunidos em reis verdadeiramente divinos, de raça superior à humana dos povos infantis a que governavam. Os poderes se separaram ao iniciar-se a decadência que acarretou a catástrofe. Igual vimos que aconteceu no Egito e na Pérsia, quando a unidade diretiva de Hierofantes e Magos se rompeu nascendo o poder militar, criador dos imperialismos de Sesóstris e de Xerxes e Dario. Agora repetia-se o caso, mas em circunstâncias bem estranhas, porque havia surgido uma religião, que, cópia fiel em suas origens do budismo de terapeutas, ebionitas, nazarenos, essênios e demais Iniciados do Líbano, havia-se transformado completamente numa religião dominadora e exclusivista, que não era precisamente a doce e mansa do Galileo, mas a cruel dos Cirilo, os Irineu e os Eusébio, falsificadores do humano e do divino: a ressurreição da Magia negra atlante, em uma palavra. Mas assim como na antiguidade o poderio militar absorveu o religioso, aqui iria acontecer o contrário durante toda a Idade Média que se aproximava, até os dias da Reforma, em que reis e príncipes dissidentes de Roma voltassem a assumir em suas pessoas, como Henrique VIII da Inglaterra, ambos poderes, poderes sobre os quais o admirável Pi y Margall em seus átrios "Estudos sobre a Idade Média" estabeleceu este esmagador dilema: «dois poderes, espiritual e civil gravitando sobre cada povo não podem conduzir senão a ## 1I[, 120 ## I
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121 um destes dois termos: ou a que ambos andem sempre de acordo, caso em que um dos dois sobra, ou a que caminhem em desacordo, e os súditos não saibam verdadeiramente a qual dos dois seguir». Nem se diga se o caso acontece na Espanha tão logo se tente tocar pelo poder civil, que se diz ser soberano, qualquer problema relacionado com a liberdade de consciência... O como fosse em si a aparente religião dos sucessores de Constantino nos mostra sabiamente o segundo tomo de "Isis Velo", de Blavatsky. Não menos nos mostra o karma que a família de Constantino atraiu sobre si, como nova casta de Atreu. Não falemos da separação imperial inicial feita por Diocleciano e Maximiano ao estabelecerem-se como Augustos, independentes, um em Nicomédia e o outro em Milão, e nomearem cada um um César como lugartenente, o que acarretou em seguida guerras civis como aquela de Constantino sublevado contra Maximino, que deu lugar à fábula do lábaro, e a de Constantino desfazendo Licínio como este de Maximino, seus colegas, para não perder, embora já cristão, os bons costumes dos césares pagãos antecessores. Esqueçamos, ainda, as tragédias domésticas do Reformador, tais como a ocorrida entre Fausta, sua mulher, e Crispo, seu filho, de matrimônio anterior, na qual aquela arpía, imitando a Fedra e à mulher de Potifar, acusou seu enteado de que havia atentado contra sua pudor e a obrigou a envenenar-se, triunfando assim até que, descoberta a calúnia, foi condenada à morte com seus numerosos cúmplices. Antecipando-se aos Incas, todos os indivíduos da família de Constantino casaram entre si, segundo costume judaico, e ao herdarem seus três filhos Constantino, Constante e Constância e seus dois sobrinhos Dalmácio e Hanibaliana os pedaços despedaçados do império, a soldadesca, revoltada contra a divisão, assassinou em um só dia Julio Constantino, Hanibaliano, cinco sobrinhos destes e todos os seus ministros e amigos. Constantino usurpou domínios de Constante, mas morreu em batalha. Constante, por sua vez, foi assassinado por Magnêncio, e este general viu-se depois obrigado a suicidar-se após ter dado morte por própria mão à sua mãe, ao seu irmão, a quem havia criado césar, e a todos os seus partidários. Quanto ao filho restante do Reformador, o débil Constâncio, passou vinte anos de reinado em complacências cortesãs imbecis, como aquela que custou a vida ao césar Galo e poderia também ter custado a Juliano, irmão deste, a quem nossa história fabricada chama de Apóstata, quando ele nunca fora cristão, e sim um Iniciado que, por haver falhado ## M. Roso De Luna
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em seus deveres de segredo, mereceu o triste destino que todo mundo conhece. O que vem depois, como herança kármica do grande Constantino? O sabido, e que em poucas palavras enunciaremos: a vaidade cruel e sem limites de Valentiniano; a decapitação de Procópio por Valente; o fanatismo ariano deste último, incendiando um barco carregado de oitenta eclesiásticos deputados pelo clero de Constantinopla, e morrendo depois às mãos dos godos, que atearam fogo à cabana onde, derrotado, se refugiar; as guerras cívico-religiosas entre católicos e arianos; a destruição de grandes obras de arte e os saques de templos pagãos em nome de um Deus de Paz e Tolerância, para adornar com as jóias das deusas os corpos das meretrizes; a degola de Graciano em Lyon por Máximo e a de Máximo em Aquileia por Valentiniano e Teodósio, e a de Valentiniano por Arbogaste, e a de Arbogaste pela própria mão; a divisão do trono imperial entre duas crianças, Arcádio e Honório, sob a tutela de dois generais bárbaros, Rufino e Estilicão; a aparição de Alarico e seus hunos e godos diante de Roma, após incontáveis assassinatos na Grécia, com a queda, enfim, do império romano do Ocidente e o primeiro saque da orgulhosa Roma, aquela mesma que durante quase mil e duzentos anos havia erigido em sistema o saqueio pelos quatro pontos cardeais, a cidade de maior dureza de coração que se conheceu, não já nas conquistas, mas até no circo. Mas ainda ficou outro karma pior, o da cidade de Constantinopla, fundada por Constantino, e do Baixo Império, do qual aquela foi capital, pois enquanto toda a barbárie guerreira dos invasores caiu sobre o... império do Ocidente, toda a perfídia e a traiçoeira sutileza dos gregos, degeneram Jos por uma religião falseada quase desde suas origens, corroeu as entranhas do império de Oriente, nada menos que durante dez séculos... Assim teve de merecer o karma da desola- ção criado por Roma a Augusta. 122 "';- 123 ## A Humanidade E Os Césares
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O Baixo Império
Baixo por antonomásia foi, de fato, o Império Romano de Constantinopla. Sombria e irrisória sombra do dos Flávios e Antoninos, sua vida estéril foi uma perpétua contenda religiosa, ou melhor dizendo, religionista; uma hipocrisia e perfídia dignas das de Fílippo, o Macedônio; uma covardia sem limites e um vício contínuo, com a máscara de piedade mais perfeita que se já conheceu na terra: Não somos nós os únicos a pensar assim. Um historiador tão reacionário como Cantú inaugura o capítulo dedicado a este império monstruoso com frases que nos convém transcrever: «Embora muitas das causas que produziram a ruína do império do Ocidente fossem comuns às do Oriente, houve outras, diz ele, que prolongaram sua agonia. Não existia ali, como em Roma, o despotismo militar, mas um governo regular na aparência, constituído de acordo com leis emanadas de uma autoridade reconhecida e reforçada pelo decorrer dos séculos e por nomes ilustres, de modo que era possível disfarçar a tirania. Multiplicavam-se os distúrbios por intrigas sempre palacianas. A todo príncipe destronado e aos seus filhos e parentes arrancavam-se os olhos, fechavam-nos num convento ou assassinavam-nos; mas no dia seguinte a máquina voltava a andar, sem mais mudança que a da pessoa em cujo nome se movia anteriormente e sem que o povo tivesse mostrado oposição nem tirado disso qualquer franquia. O engenho grego havia perdido aquele vigor necessário para que a erudição não se convertesse em puro jogo da memória; o agudo sofisma a cada ano produzia uma nova heresia... Oriente desfrutou assim do falso sossego do despotismo, último e miserável refúgio que resta a todas as nações corrompidas... Subsistia, pois, o império do Oriente, mas com uma vida raquítica, e os ímpetos com que às vezes pareceu erguer-se assemelhavam-se às mudanças de postura de um doente crônico. O santo imperador dominava como senhor absoluto, pois embora o cristianismo tivesse sido adotado nas formas exteriores, o fundo permanecia pagão, com a servidão e tirania ao estilo antigo, e as intrigas de mulheres ciumentas ou ávidas de domínio, ## A Humanidade E Os Césares
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as astúcias dos eunucos, as ambições dos ministros, a impaciência dos herdeiros e a emulação dos sacerdotes dirigiam a política bizantina. Agobiados os imperadores sob um cerimonial pesadíssimo, convertiam-se em monarcas asiáticos sumidos no luxo, na inércia e naquela imbecilidade de espírito que induz a atribuir importância às coisas frívolas. Pusilânimes e supersticiosos, entregavam-se a uma grave devoção, a práticas mais próprias de monges do que de príncipes, descuidando os negócios e pedindo perdão a Deus sempre que se viam obrigados a dedicar-se a eles. Este espírito tão pouco evangélico, os excitava a se misturar em disputas teológicas, a perseguir, alternativamente, os falsos e os verdadeiros crentes e a fomentar o instinto verdadeiro da disputa e da heresia. Seguindo o exemplo da corte, o povo piorava; já não mostrava vigor senão para empreender continuamente discussões apenas acessíveis aos doutores mais consumados, e para se apaixonar pelos espetáculos do circo, aos quais se associaram de tal modo a política e as disputas teológicas, que as cores verde e azul, prasino e veneto, dos lutadores, chegaram a designar verdadeiros partidos civis que levaram o império à ruína." O verdadeiro motivo de tamanho pleito teológico ou filosófico foi outro muito diferente do que in- .... ## I127 indica Cantú e do qual se zombava o cretinismo de De Maistre. Era que Constantinopla, depois chamada a Porta Otomana, tinha que ser a verdadeira porta entre as doutrinas orientais abraçadas pelos gnósticos ou neo-platônicos cristãos e o cristianismo oficial, puramente externo, ritualista e sem sombra alguma da verdadeira doutrina essencialmente budista de Jesus. Cada heresia era, portanto, uma tentativa libertadora em prol da Religião da Verdade, e cada concílio um meio de sepultar tamanha Religião Única, de velá-la cada vez mais, como indica a própria palavra revelação ou duplo véu lançado sobre ela, para que o vulgo indocto ficasse "com a letra que mata, não com o espírito que vivifica", e assim, afastado o homem do verdadeiro problema da salvação de nossa alma, que é, segundo Blavatsky, o objeto único de nossa vida eterna, parasse diante de problemas tão ridiculamente frívolos como aqueles de se os catecúmenos podem ou não entrar na igreja, e se a luz do Tabor foi criada ou increada... A Roma material jazia insepulta depois do saqueamento da Cidade Eterna por Alarico, dele e de toda África por Genserico, de meia Europa por Átila, do terceiro saqueamento romano por Ricimero, etc., etc., e uma Roma moral nova pugnaval por se elevar ora no Oriente, ora no Ocidente, não uma Roma f,. ## M. Roso De Lunaimperialista de povos e de consciências como a que, infelizmente, se viu depois erguer-se. Assim, não é estranho que o Baixo Império fosse um verdadeiro Campo de Agramante das consciências, lutando para se libertar do velho jugo, já rompido com a queda da Roma Imperial, e para não receber o novo, que já se delineava, da Roma Pontifícia. . Mas, como a história de cada povo, diremos mais uma vez, é uma queda espiritual, o mal triunfou sobre o bem, e depois dos horrores que rodearam os primeiros imperadores do Oriente, como já vimos no artigo anterior, aparece em cena uma verdadeira Cleópatra: Teodora, a filha do czelpnota Acácio, mestre dos ursos da facção dos verdes no circo, que como tantas outras arrependidas, passou dos desenfreados excessos do prostíbulo aos excessos da falsa piedade e da mais hipócrita tirania, excessos estes últimos infinitamente mais puníveis aos olhos de Deus, ou seja, aos do Karma inexorável. Como aquele célebre cardeal que em sínodo respondeu aos angustiantes requerimentos de seu filho Paolo dizendo-lhe, com a costumeira humildade pseudocristã: "Todos os homens são meus filhos." Teodora, a atriz voluptuosa, teve um filho que, já crescido, concebeu a desastrosa ideia de querer apresentar-se à sua mãe quando esta era já, graças às suas artes de sedução, nada menos que a esposa do imperador Justiniano. Nem é preciso dizer qual foi o destino daquele pobre filho. Quanto a essa mãe, nosso César Cantú continua a retratá-la nestes termos: "Casou, pois, Justiniano com Teodora, e quando morreu seu antecessor Justino, a fez coroar, não só como imperatriz, mas como colega independente... Rodeada Teodora de donzelas e de eunucos, era árbitra da vontade de seu esposo; elevava ou deprimia os cidadãos a seu bel-prazer; acumulava tesouros por medo que um novo capricho da fortuna voltasse a sepultá-la no nada; mantinha grande número de espiões, cujas denúncias arrastavam muitos infelizes para prisões particulares, de onde ou não saíam mais, ou saíam mutilados. Por outro lado, mostrava-se muito devota; induzia constantemente Justiniano a fundar estabelecimentos piedosos, entre os quais se contava um novo, destinado a receber quinhentas mulheres de má vida. Justiniano se declarava devedor a ela por suas famosas leis, tendo Teodora ajudado-o muito especialmente quando as facções dos venetos e prasinós, fomentadoras de todo tipo de discórdias ao modo das posteriores de Guelfos e Gibelinos, ou da Rosa vermelha e da Rosa branca, contendas em que as mulheres tomavam ainda mais participação do que os homens." Os verdes favoreciam, ao que parece, a heresia de Anastásia, enquanto os azuis permaneciam fiéis a Justiniano e à Teodora, que sustentava estes últimos em medida do apoio que lhe prestaram antes a ela e às suas irmãs quando foram abandonadas à miséria pela morte de seu pai, o promotor. Fortes os azuis com tal proteção, mostravam-se insolentes, e vestidos ao estilo dos bárbaros, levavam punhais escondidos durante o dia, e reunidos depois em quadrilha durante a noite, cometiam toda espécie de excessos com os verdes e com os cidadãos pacíficos, resultando que Constantinopla, mesmo em paz, apresentava o aspecto de uma ... [O texto termina abruptamente.] . dada tomada por assalto. O favor impune cm '1 . . são impunes os estupros, os sacrilégios, deJa . d os assassinatos, enquanto os ultrajavam-se lançavam-se a vinganças ou iam armados aos bosques e caminhos. Os magistrados, que se aventuravam a fazer justiça, encontravam rudes obstáculos e com frequência corriam eles também inauditos perigos. /1 E, no entanto, acrescentamos nós, o direi to de Justiniano em suas Pandectas, tinha sido o modelo tomado para suas leis, etc., as legislações respectivas por todos os povos que se dizem cultos, e assim resulta a vida juri A HUMANIDADE e OS CÉSARES 131 dica em muitos deles, onde, como na Espanha e em outros povos, o leguleyo, vilão e sofista, faz triunfar mais de uma vez, em litígios intermináveis e ruinosos, o mero direito aparente sobre a moral efetiva e a sutileza escolástica sobre a verdadeira justiça! Seguiu assim a dourada podridão daqueles ti sepulcros branqueados ti que diria o Evangelho, com a nobre alma de Maurício, consentindo que os árabes degolassem doze mil prisioneiros por não darem um resgate ínfimo; com a grandeza moral de um Focas, fazendo degolar em sua presença Maurício e seus cinco filhos; com Heráclio, que faz mutilar e decapitar Focas; com seu filho Constâncio, envenenado por sua madrasta; com Constante II, matando seu irmão Teodósio só por inveja; com Justiniano II, a quem Leôncio faz cortar o nariz para que Tibério fizesse o mesmo com ele e depois o decapitasse, e Felipe realizasse o mesmo com Tibério e Anastásia arrancasse os olhos de Felipe, e Teodósio, ou seu sucessor, fizesse pouco mais ou menos o mesmo com Anastásia, até cair esse karma de crimes em Leão, o Isáurico, célebre pelo sangrento cisma entre os iconódulos e os iconoclastas. A tão grande lista de crimes podem ser adicionados tantos outros, como o de Irene, arrancando os olhos de seu próprio filho Constantino Porfirogênito; Nicéforo, fazendo o mesmo com Bardana; 132 ## M. Roso De LunaMiguel, o Gago, esfolando vivo Leão I, seu antecessor, o que não o impediu de defender com vivo zelo, como tantos outros imperadores assassinos da época, o culto das imagens, cujos templos mais de uma vez regaram com sangue de vítimas humanas sacrificadas ao fanatismo religioso de quem dizia ser sucessor do Cordeiro apocalíptico. Como se tratasse, enfim, de uma verdadeira reencarnação da anterior, Teodora, também imperatriz, e depois monja, dá ao mundo um Miguel monstruoso que assassina seu tio Bardas e é assassinado por Basílio; vem depois Romano, o Jovem, envenenando seu pai e sendo envenenado por Teófana; Nicéforo Focas, João Zimices, Romanos II, etc., etc., correm a mesma fatalidade, e assim, de hipocrisia em hipocrisia, de crime em crime e de falsa em falsa piedade, o império do Oriente, brinquedo de sarracenos, bárbaros, persas e gregos, foi surpreendido um dia pela aparição dos primeiros cruzados, que também foram vítimas de suas perfídias, até que se entronizou em Bizâncio a dinastia grega dos Paleólogos, breve ponte de transição para a invasão dos Turcos, frente aos quais toda a Cristandade tremeu como Roma outrora, vendo armado com eles o braço inexorável da deusa Nêmesis, vingadora fatal dos homens e dos povos. ## Xii
Os Omeias
Não existem, diz Blavatsky, duas religiões no mundo que tenham derramado mais torrentes de sangue que o Cristianismo e o Maometismo, e não certamente pela mão de seus respectivos fundadores que, como Iniciados que eram, não fizeram senão mostrar ao mundo duas facetas brilhantíssimas da Religião-Sabedoria primitiva, mas sim pelos eternos comerciantes e guerreiros a título religioso. Entre ambas religiões, de fato, precipitaram o karma do povo de Israel e de seus povos semíticos, ramos desprendidos do grande tronco brahmã ou ariano, que foi rejeitado por ele por seu grosseiro sensualismo, secessão provada pelo próprio nome de seu primeiro patriarca Abraão ou o não brahmã e por ter estabelecido os sacrifícios cruéis e até humanos às vezes, como prova o fato de que Abraão não teve inconveniente em ## I34
M. Roso De Luna
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sacrificar ao cruel deus inferior de Jehovah (Sabaoth ou Saturno) seu próprio filho Isaac (de Isa, culto isíaco), e de que Ab-del·Motalib, avô de Maomé, oferecesse um sacrifício análogo, segundo a tradição, na pessoa de seu predileto Abdallah, só para que aquele o dotasse de numerosos descendentes. Não há, pois, o que acrescentar, quanto não propendessem os povos muçulmanos para o militarismo imperialista. Ali, Abu-Becker e demais sucessores de Maomé, muito cedo impuseram ao mundo asiático e africano sua religião de paz a golpes de cimitarra; Amrú queimava em Alexandria aquela parte da riquíssima biblioteca de Serapeum, que ainda resistira aos incêndios dos romanos e dos cristãos, e Muza e Tarik, depois de conquistar todo o império africano, que antes fora de Genserico, o Vândalo, apoderaram-se da Espanha, e seus sucessores ameaçaram, pela França, pela Itália e pela Síria, o resto da Europa. Mas o árabe, influenciado, assim como o egípcio, pelas doutrinas arianas dos primitivos etíopes orientais, seus antecessores, não podia deixar de propender para elas, assim que onde quer que chegasse a entrar em contato com a escassa ciência iniciática que sobrevivera a Alexandre e a César, a cultura integral ressurgia da mesma forma que já vimos acontecer com o império dos Ptolomeus. Formaram-se assim dois núcleos maravilhosos: o califado de Damasco, no Oriente, e o de Córdova, no Ocidente, por uma dinastia de verdadeiros arianos ou homens de sua religião, como o indica seu próprio nome de Omeyas ou Om-arianos, de Om ou Aum, a sílaba sagrada brahmânica que indica a Desconhecida Deidade, sem nome, sem culto e sem limites, que, emanando de Si mesma, produziu os Logos platônico que informa o Universo e a esse divino Lagos interior ou Cristo, no homem, a quem se referiam São João, evangelista, e o apóstolo São Paulo. Impossível deter-nos a considerar aquele califado oriental, onde se deram um abraço a rude simplicidade árabe e a sábia iniciação platônica. Os Averróis, os Abu-Hamza, os Sufis e os Abderramanes escalaram as alturas da mais redentora filosofia, e o Destino colmou de glórias verdade o seu povo, glórias que, ante a terrível carnificina ulterior dos militaristas Abássidas, foram transplantadas a Córdoba tartésia, com a célebre palmeira do mais jovem dos Abderramanes Omíadas. Livre assim, Tarteso, ou Andaluzia, da dourada brutalidade romana, depois de haver dado os melhores e mais egregios de seus césares a Roma; livre também dos bárbaros visigodos e de suas eternas disputas teológicas, sobre se Ário, sobre se Recaredo, tornou-se 135 ## N. Roso De Luna
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por alguns séculos o empório que outrora fora na pré-história, quando é fama que alcançou a ter até leis em verso semelhantes às dos Vedas. Uma verdadeira poesia viva foi a existência daquele gloriosíssimo califado dos Hixen e dos Alhaken, e uma ciência integral, poligráfica ou teosófica, iluminou desde suas escolas iniciáticas ou madrassas todo o mundo pós-latino, imerso na barbárie mais lúgubre e infeliz que os séculos conheceram. Os magnatas cordoveses eram ao mesmo tempo músicos, poetas, médicos, astrônomos, químicos, naturalistas e filósofos, etc., como corresponde à disciplina sintética de todo teósofo avançado. Em demanda de ciência tão salvadora, chegavam dos mais remotos confins do mundo pessoas para receber deles a saúde do corpo e a paz do espírito, e as artes mais diversas, ao seu abrigo, fizeram da Espanha meridional um paraíso de ilusão digno dos sábios contos simbólicos de As mil e uma noites, que eles nos transmitiram, herdados de persas e índios. Córdoba, primeiro, com sua mesquita, sua biblioteca, cujo catálogo ocupava 44 volumes; a iluminação de suas ruas, a grandiosidade de seus edifícios, a delícia de seus víveres, com seus jardins de Medina Zahara, que os contemporâneos cantaram com louvores inauditos; Sevilha, depois, Granada, enfim, séculos mais tarde, quando declinava já o sol de tamanha cultura como a arábica, com sua Alhambra e seu Generalife, são algo genuinamente oriental que só pode ser encontrado no sonho ou na clássica Índia. Se é verdade que os povos reencarnam como os indivíduos, o califado cordovês é uma reencarnação do reino dos Ptolomeus. Como ele começou e viveu, como ele morreu também às mãos daquele militarismo conquistador e fanático que ceifou em flor tão divinas civilizações. Hixen, de fato, sucede seu pai Alhaken II, o sábio que estabeleceu madrassas em toda parte, que formou a riquíssima biblioteca e que determinou o século de ouro da literatura árabe. Sendo Hixen muito menino, sob a tutela de sua mãe Sobeia ou Aurora, e de seu primeiro-ministro Hagib. Este flagelo do fanatismo, vendo-se onipotente, faz servir à sua loucura de verdadeiro paranoico, como hoje diríamos, todas aquelas poderosas forças que as ciências da paz haviam criado e que as más artes da guerra não demorariam a destruir, depois de terem inundado de lágrimas e semeado de horrores sua camilha. Hagib quer justificar suas ambições egoístas, e com essa exacerbação impulsiva, irresistível, que é própria de todos os grandes neuróticos que obscureceram a his- 137 139 ## N. Rosa De LunaA HUMANIDADE e OS CÉSARES tória, torna-se logo digno do sobrenome de Almanzor ou o Vitorioso, com o qual chegou até nós... E tão vitorioso, que, depois de ter arrasado Zamora, León, Barcelona, Pamplona e Santiago de Compostela e meia África, conseguiu despertar nesta o temido leão do deserto, que depois lançou sobre nosso território as sucessivas hordas bárbaras de almorávidas, almóadas e benimerins dos séculos posteriores, e conseguiu para sua pátria muito mais ainda, pois, após sua derrota em Calatañazor e de ser enterrado na gloriosa terra formada pelo pó das 57 batalhas nas quais venceu, ainda pôde ver talvez desde esse mundo ulterior e superliminar que a todos nos espera após a sepultura, como se desfaziam suas fantásticas conquistas, como se rachava e afundava o edifício do Califado em seu sucessor Hixen III, ao deflagrar a horrível guerra civil criadora dos reinos de Taifas e como a divina Córdoba, em kármica reciprocidade tantas vezes repetida, foi arrasada até seus alicerces por essa quadrilha malandra dos caudilhos guerreiros de segunda fila que querem imitar as brutalidades do déspota conquistador, sem ter a missão, de certo modo providencial ou kármica, do mesmo em sua obra funesta!... Os Estados cristãos inimigos, que te- meriam como criaturas ao simples nome de Almanzor, começaram já a consolidar-se à morte deste de um modo definitivo, e do ínfimo Sobrarbe, da mítica Covadonga e da francesa Marca-Hispânia, como do grão de mostarda da parábola evangélica, iria brotar e estender-se século após século o grande império espanhol que abarcaría dois mundos, império que, um dos mais ilustres literatos e filósofos argentinos, Leopoldo Lugones, chamou depois, no que ao Paraguai e a algum outro país da América diz respeito, O Império Jesuíta. Quanto aos Abássidas, assassinos dos Omíadas de Damasco, pouco devemos dizer. Muza envenena sua própria mãe, temeroso de que passasse o califado a seu irmão Arun-al-Raschild, o Carlos Magno de Bagdá, tão célebre por sua ciência iniciática em todas as lendas árabes, que durante vinte anos maravilhou o mundo com sua sabedoria. Vieram depois o famoso Otranto, assim chamado porque tudo lhe acontecia segundo a lei cabalística do oito. Watek o benigno e Motawkel o perverso, que se anteciparam; Nietzche o pseudo filósofo alemão, foi um monstro de crueldade, porque "opinava que a misericórdia era uma fraqueza da alma". Tais foram então as calamidades que caíram sobre o império em forma de extra., , - 140 ## N. Roso De Lunanos acontecimentos sucessivos, que sua época foi denominada o reinado dos prodígios. Além disso, ressentido pelos maus-tratos, mandou assassinar seu próprio filho Mustain, com o que a consabida cadeia de mortes fatais apareceu como de costume, no império, morrendo sucessivamente à mão irada este último, Watek, Kaer, Montaser e algum outro até chegar a Moktader, que se viu obrigado a pedir esmola na mesquita depois de ter sido califa esplendoroso... Pele como o árabe, embora esteja na abjeção é sempre árabe, isto é, cavalheiresco, ainda em meio à oligarquia dos walíes ou caciques militares, entre califa e califa, assassinados por estes, houve reinados esplendorosos como os de Motamed e o citado Moktader. Com tais alternâncias continuaram reinando os Abássidas por espaço de quinhentos anos, embora seu reinado não cobrisse senão as aparências de uma oligarquia feroz, que tem bastante semelhança com a dos selêucidas até que os tártaros incorporassem o califado de Bagdá aos seus enormes impérios. Desses impérios falaremos no próximo capítulo. ## Xiv
Os Impérios Tártaros
Se contemplarmos uma esfera terrestre veremos que, a partir da Planície de Pamir situada para o Norte do Indo, formam-se quatro enormes alinhamentos de montanhas, como se a orografia do nosso planeta representasse as quatro faces de uma grande pirâmide que vão terminar nos quatro mares que limitam a Ásia: o Pacífico, o mar das Índias, o Mediterrâneo, Cáspio, etc. (ou bem o Atlântico se não considerarmos só a Ásia, mas todo o Velho Continente) e, enfim, o Mar Glacial. As quatro arestas dessa pirâmide vão morrer respectivamente: a primeira, no Cabo de Finisterra, através das montanhas do Irã, Cáucaso, Armênia, Balcãs, Cárpatos, Alpes e Pireneus; a segunda, no Cabo da Boa Esperança, por todo o Sul da Pérsia e da Arábia, Abissínia e costas fronteiriças a Madagascar; a terceira, ao Estreito de Malaca, ou 143 ## N. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
bem à Austrália e Nova Zelândia pelo Himalaia e as montanhas da Indochina e a quarta, ao Estreito de Bering, através d~ as enormes cadeias que contornam o Tibete e fazem dele a grande planície mais alta do mundo, ou bem, seguindo pelas Montanhas Rochosas e os Andes, até o Cabo Hornos na América do Sul. ' Esta única consideração demonstra que nossa história mais conhecida é a que poderíamos chamar mediterrânea, como se comprova pelos impérios que consideramos até aqui. A História dos povos das outras três faces da pirâmide terrestre quase pode dizer-se que está por fazer, o mesmo respeito dos enormes impérios pré-colombianos dos astecas mexicanos e dos incas, que da China e da Índia. Mal sabíamos, graças às irrupções de bárbaros e mongóis durante a Idade Média, algo mais sobre as gentes que sucessivamente habitaram na face Norte da pirâmide dita, que é a mais extensa das três. E, no entanto, em um continente tão vasto que abrange desde o Bering até os Pirineus e desde o Himalaia até o Mar Branco, desenvolveram-se e provavelmente continuarão a desenvolver-se, sempre envoltos no véu do mistério, os acontecimentos iniciais e motores de toda a nossa história. Os povos godos, ger- manos, francos, etc., que mantinham em constante flutuação as fronteiras do Império Romano, acabaram, como vimos, por ultrapassá-las, cedendo à enorme pressão de outros povos como os citas, hunos e tártaros que, como uma avalanche humana desprendida das bordas do maciço tibetano, rolavam em direção ao Atlântico e ao Mediterrâneo. Continentalmente nunca houve impérios mais vastos que os deles, e boa prova disso é a Rússia atual, cuja misteriosa grandeza não escapou à atenção do imperador Guilherme I da Alemanha, ou de seus conselheiros, ao recomendar em seu leito de morte a seu neto, o atual kaiser, que a todo custo conservasse a inteligência com aquele grande povo, estranhamente vencido há pouco pelos japoneses e em plena fomentação de luta entre os grandes despotismos e as grandes revoluções, como talvez em breve veremos. Quer do misterioso Tibete, hoje todo desolação e ruínas; quer de suas bordas setentrionais, nasceram os tártaros, que se dividem em tártaros orientais ou manjures e ocidentais ou mongóis. Com razão diz o historiador Anquetil que o país tártara é o mais célebre do globo, pois dele saíram, em diferentes épocas, os conquistadores da Índia, da China e de toda a Ásia setentrional e ocidental. ## N. Roso De LunaLA HUMANIDAD y LOS CÉSARES Todos os impérios medievais de gépidas, hérulos, marcomanos, cuados, sármatas, godos, hunos, selêucidas, turcos, kalcos, euletes ou calmucos, kipchaks, usbeques, etc., tão importantes mesmo o menos como o de Assíria ou da Pérsia, embora nossa história saiba pouco deles, são meros ramos daquele tronco tártaro-cita que, ao que parece, pela lenda histórica oriental, formou a parte mais espiritual do povo atlante, e por isso mereceu do carma a recompensa de sobreviver à catástrofe e de ser tronco e raiz do povo ariano primitivo, nascido em direção ao planalto do Pamir. Descartados os hunos que, com Átila, colocaram, como se sabe, em tão grande aperto os povos invasores de Roma nos Campos Cataláunicos, depois de terem merecido por antonomásia aquele epíteto de O Flagelo de Deus, em meio a tantos horrores das outras invasões que o precederam, o povo tártaro mais notável que toca a nossa história medieval é o dos turcos, que, a... a partir do Pamir, fundaram cinco grandes impérios, um no hoje chamado Turkestão e regiões vizinhas, e outros quatro mais para o Ocidente, a saber: o de Otomã ou Osmã, o de Tagrol-Beck no Corásia e Pérsia, o dos sultões de Iconia e o dos seljúcidas rum ou de Niceia, além de alguns outros povos dispersos para as regiões do Cáspio e da Escitia. Estes impérios ocidentais, que costumam ser chamados seljúcidas, começaram com guerreiros terríveis, que por vezes deixaram de longe aqueles que vimos até aqui; mas ainda foi maior o impulso irresistível dos genuínos tártaros do Norte ou mongóis, quando sob o comando de Gêngis Khan (1165) ou Temujin se estenderam por uma área de oitocentas léguas de Norte a Sul e mil de Este a Oeste, ou seja, uma extensão bastante maior que a da Europa atual. Além disso, conquistaram toda a China, a Bucaria e a Pérsia até o Indo, calculando-se que durante suas guerras pereceram à espada cerca de três milhões de homens e passaram de cinquenta mil as cidades arruinadas. Alexandre, ao lado de Timur-lenk, Tamerlão ou Gêngis Khan (por todos esses nomes é conhecido) pareceria um pigmeu. Os reinados deste, de Octai, o Sábio, com Yelu, o Iniciado, Toley Kayuk, o Bondoso, Menko e Kublai, o Íntegro, mereceriam um estudo especial, pois lembram muito os dos primeiros Ptolomeus, já que, em meio ao fragor de suas batalhas, eram no físico uns hércules, lutadores à mão com leões; no intelectual, sábios; e no moral, verdadeiros puritanos, como se vê pelas leis de Kublai, que admitiam igualmente nos primeiros destinos os homens de mérito, qualquer que fosse sua pátria, e entre os irmãos dessa dinastia mais ou menos budista viram-se verdadeiros exemplos de desinteresse, bem diferentes dos que temos visto em outros impérios, pois até... Chu, o homem de obscura origem, que no final do império mongol invadiu a China, conseguiu por sua moderação na campanha tal ascendente sobre os invadidos que o fizeram seu monarca, dando origem à gloriosa dinastia dos Ming, que estabeleceram em Nanquim sua residência e seguiram até que os tártaros manchus invadiram a China em meados do século XVI! Não foram assim os tártaros do Irã. Desde Hulagu até Timur-Bek ou Tamerlão, sucedem-se vários déspotas conquistadores. Este último, sobretudo, tornou-se famoso por sua crueldade inaudita, desde o Oxo ao Helesponto e do Mar Glacial, pela Armênia até a Índia. Destruiu mil cidades; passou a fio de espada toda a população de Isfahan; mandou degolar, como preliminar para dar batalha ao imperador indostano, nada menos que cem mil prisioneiros hindus que possuía; arruinou até os fundamentos todas as cidades que encontrou nessa campanha. Revoltando-se depois contra o sultão turco Bayaceto, destruiu igualmente a Masco; ergueu torres com as cabeças dos... habitantes de Bagdá e, nas planícies de Ancisa, é fama que ergueu uma pirâmide com noventa mil cabeças humanas. Depois de se apoderar também de tudo o que hoje é a Rússia europeia e quase asiática, dirigiu-se a conquistar a China para exterminar o que ele chamava idolatria, substituindo-a pela religião muçulmana como única verdadeira, segundo a opinião de seus respectivos fanáticos. Através de desertos e de países destruídos ou enterrados em neve e gelo, empreendeu, qual um precursor de Napoleão, sua empresa oriental em pleno inverno. As tropas atravessaram sobre o gelo a maior parte dos rios, mas mal atravessou a fronteira do Celeste Império, quando lhe sobreveio a morte e, coisa nada estranha nos déspotas!, o talento de Tamerlão era imenso; sua resistência física inesgotável e seu espírito, que hoje chamaríamos cultural, nada comum... mas lhe faltou sempre esse freio espiritual característico do princípio da Fraternidade Universal que sobrevive sempre aos déspotas e à sua obra de dor e de crime, tremulando à cabeça de toda verdadeira ensino religioso sem farsas sacerdotais, guerrilheiras nem mercantis, quanto de toda revolução profunda, capaz de produzir eras de feli- cidade única aos povos. Os horrores que seguiram à morte do colosso tártaro entre seus filhos e generais, lembram os luc- ## M. Roso De Lunaturosos dias dos Selêucidas, os Ptolomeus e os piores da Roma decadente... Para que continuar? Se a verdadeira história religiosa, política e social da Ásia Central ou do Pamir fosse feita, pode ser que nos parecesse de pigmeus em todas as suas dores lancinantes a luta dos nossos dias, pois só com as populações destruídas pelos tártaros na região tibetana e seus limítrofes haveria para povoar um continente tão populoso quanto a Europa, muito mais do que o que há hoje em dia, sem contar que os horrores daqueles massacres não têm precedentes em nada conhecido, porque a Ásia, berço desta humanidade titânica e ao mesmo tempo desditada, é e será sempre a mestra da Europa em religiões salvadoras como em crimes. xv ## O Sacro-Império Romano Nos Seus AlvoreceresAté o final do século V, os francos merovíngios tinham sido apenas uma horda de bárbaros saídos das selvas da Germânia, que saqueavam de vez em quando o império romano. Possuíram depois um ínfimo território em torno de Lutécia ou Ilha de França, a qual com o passar dos séculos haveria de ser Paris: "a cidade cheia de enormidade, de ruído e de lodo", segundo disse Wagner, o colosso, mas também a Ville-Lumière, a cidade de onde partiram tantos movimentos libertários, e a que sempre haverá que perdoar e amar, como Jesus perdoou à mulher adúltera e à Madalena, por haver amado muito. Mas tão logo Clóvis, por instigação de Clotilde, sua esposa, abraçou o cristianismo, ou seja, se pôs em contato com o Poder espiritual que em Roma havia ido suplantando o Poder temporal aos Césares, começou ## M. Roso De Lunapara os francos um rápido engrandecimento e começaram também a desenhar-se os dois futuros impérios da Idade Média: o oriental ou da Áustria, além do Reno, e que depois seria o Império Alemão, e o da Neustria ou Império Francês, propriamente dito. Os povos, que jamais aprendem, nem mesmo com sua própria cabeça, quebravam assim as correntes romanas para forjar novas correntes. A imoralidade, aliada à hipocrisia de um falso pietismo religioso, que aos olhos de Deus é a maior das imoralidades, caracterizou aqueles bárbaros merovíngios: Childerico, filho de Clóvis, é assassinado; Dagoberto, para reinar sozinho, manda matar seu sobrinho Childérico, depois que este se casou ao mesmo tempo com três mulheres e, para coonestar seu crime, havia erguido a igreja de Saint-Denis. Poucos anos depois, os árabes espanhóis faziam sua aparição no Sul da França. Pepino, o Breve, um dos membros do palácio que por meio de intrigas tinham sob tutela os reis, usurpa, enfim, o trono de Childerico III, e com uma astúcia digna da de Filipe, o Macedônio, anexa diversos países e entra em diálogo com o Papado, para que sancione seu crim. O Papa, naquela época, já não era como nos primeiros tempos mero bispo de Roma, dependente do Oriente, mas um soberano temporal envergonhado, em meio aos longobardos e gépidas, já vantajosamente conhecidos no mundo de então por seus crimes familiares para desfrutar da coroa. Para mostrar quem eram essas gentes, basta dizer que Alboíno, seu primeiro rei, depois de matar os reis Turismundo e Cunismundo, casou-se à força com Rosamunda, filha deste, a quem obrigou depois a beber vinho em uma taça feita com o crânio de seu pai. Rosamunda, por sua vez, prometeu sua mão à quem se comprometesse a matar tal monstro, e ao fugir com seu amante, o exarcado de Ravena, teve de morrer com ele sob o mesmo veneno com que os amantes haviam procurado se livrar um do outro. O pontífice Gregório havia antes convocado contra os longobardos e seus exarcas de Ravena Carlos Martel, pai de Pepino, com cuja ajuda logo se viu dono o Papa de todo o Ducado romano. Logo seu sucessor, Estevão II, chamava Pepino com igual fim de que ele vencesse os longobardos, como realizou até em sua própria capital, Pádua, e que aumentasse os benefícios do Papa-monarca. A crítica histórica tem não pouco a objetar quanto à doação que se diz feita então pelo franco ao Papa, por ser ela irmã daquelas famosas Decretais de Isidoro 153 ## M. Roso De LunaA HUMANIDADE e OS CÉSARES! Mercator, cujas falsificações perturbaram o mundo, mas ainda que esta pretendida doação fosse verdadeira, não deixa de ser admirável considerar como a lei kármica, ao cabo de um milênio, destruiu pela mão de outro césar francês, aquele mesmo poder temporal que Pepino e seu filho Carlos Magno adjudicaram ao Papado, com aquela egoísta fórmula dos quase-contratos do Direito romano de dou para que me dês e faço para que me faças... Assim, Carlos Magno pôde coroar-se imperador dos povos do Ocidente, e o Papa imperador das consciências: dois impérios, no entanto, perfeitamente incompatíveis, como depois se viu. Carlos Magno, o filho de Pepino o Astuto, pôde assim reunir sob seu férreo cetro desde o Canal da Mancha até o Sul da Itália, e desde os Pirineus até o Báltico, civilizando indubitavelmente aqueles bárbaros, mas semeando o germe ao lado do imperialismo religioso, que mal pôde ser derrubado em parte, e com o passar do tempo, pelo Renascimento e a Reforma protestante, não sem que se derramasse torrentes de sangue em perseguições anteriores, como a dos albigenses e naquelas guerras religiosas que foram chamadas dos trinta e dos cem anos, com as quais veio ao mundo a Idade Moderna. Luís, filho de Carlos Magno, mostrou ser digno césar consorte seu, mandando arrancar os olhos de quantos se revoltassem contra o império na Itália. Casou depois com Judite, princesa alemã, intrigante e de má conduta, que afundou o império numa série tão grande de lutas intestinas, que acabavam sempre por levar a um convento os chefes da facção vencida para escapar dele depois e levar ao convento seus adversários. Guerras fratricidas semelhantes entre parentes tão desaprensivos granjearam logo o castigo kármico em forma de devastadoras invasões normandas, mal contrabalançadas à força de ouro e humilhações. Assim, com o envenenamento de Luís V por sua mulher, acabaram os carolíngios e começaram os Capetos e suas famosas Cruzadas ao Oriente, cujo estranho conjunto de luz e sombra, de crime e heroísmo, de imoralidade e piedade, excede os limites destes artigos, assim como excedem a eles o nascimento, apogeu e estrondosa ruína da Ordem dos Templários, imperialismo religioso sem precedentes na História, salvo nas Fraternidades Pitagóricas e, de certo modo, na Companhia de Jesus. Como era lógico, a harmonia entre o império francês e o papado durou pouco, e começou a famosa guerra das investiduras, que constitui metade do argumento histórico de toda a Idade Média. Gregório IV, no auge da guerra civil entre Luís o Piedoso e seus filhos, foi à França com ânimo de intervir como supremo hierarca, e os bispos galicanos, zelosos de sua independência espiritual diante daquele novo império que se erguia, ameaçaram enviá-lo excomungado dos lugares onde havia ido excomungar, dando-lhe o título de irmão em vez de pai, ao qual ele aspirava, diferenças estas últimas de sutil intenção imperialista, como também aquela de Sérgio II investido sem consentimento do imperador, e a de Bento III, quando, intitulando-se até então vigário de São Pedro, passou a se intitular depois. segundo o que ensina Cantú, vigário de Jesus Cristo. Naquela época, segundo o testemunho de Mariano Scott, de Martín da Polônia e de Anastásio o Bibliotecário, deu-se também aquele escândalo da donzela de Maguncia, que sob o nome e disfarce supostos de Joana da Inglaterra adquiriu tanto renome de virtude e ciência que, diz-se, foi apresentada ao solio pontifício. O papado se fortalecia ao mesmo tempo que se enfraquecia o império. Já Nicolau I ousou coroar-se diante dos próprios olhos, ou seja, na presença do imperador Luís III, o Débil, que lhe serviu de paje como o mais humilde dos 105 pajens, e verdadeiramente não chegou a tanto honor nem o próprio fundador do Cristianismo, porque, como diz o cronicão de Regino, "Reinou sobre reis e tiranos e os submeteu à sua autoridade como dono do mundo", e já elevou seu poder temporal a tal altura, que numa carta ao arcebispo de Metz, devido aos escândalos provocados por Lotário da Lorena repudiando sua mulher Teutberga e tomando Gualdrada, irmã do arcebispo de Colônia, o papado já se considerou árbitro para incitar os vassalos contra seus reis. Os arcebispos de Colônia e Tréveris, que sempre se consideraram iguais em dignidade eclesiástica à sua, viram-se humilhados, contudo, como meros súditos de um poder que, às vezes bem empregado para defender os fracos, pretendia abranger sob seu cetro despótico o mundo, e que hoje, não obstante, oh mudança dos tempos! não pôde evitar a presente guerra apesar de seus esforços... Mas como nada corrompe tanto quanto o poder, nunca chegaram a tal grau de corrupção os pontífices, nem a Igreja a cismas. Recorde-se, se não, aquele Papa Estêvão VI fazendo desenterrar o cadáver do Papa Formoso, e que, depois de colocá-lo no trono com todos os ornamentos supremos, o submeteu a um julgamento simulado por havê-lo abandonado por outra sua primeira esposa, e mandou ## H. Roso De Lunadecapitar e mutilar, lançando seu corpo no Tibre. Recorde-se também aquela hetera Marózia, esposa de Alberico, marquês de Camerino e senhor mais poderoso da campina romana, que não descansou em suas intrigas até ver no solio seu amante Sérgio e que, erguendo-se árbitra da cristandade, fez subir e cair sucessivamente uma dúzia de Papas, inclusive aquele João XII, que foi Papa aos dezoito anos. "Horrível,> culpas foram imputadas a este último - diz Cantú -. O palácio de Letrão transformado em mansão de mulheres licenciosas; cardeais e bispos mutilados, privados da visão ou condenados à morte; a celebração da missa sem comungar; a ordenação de um diácono numa estrebaria; o santo Ministério vendido por dinheiro; uma criança de dez anos feita bispo de Todi, e bacanais, enfim, em meio às quais se bebia em honra do demônio e das divindades pagãs." Assim terminou o primeiro milênio de Cristo e começou o segundo. Com razão o povo acreditaram, como acreditam hoje às vésperas de finalizar este último milênio, que aquilo era de fato o Fim do Mundo! ## Xvi
Apoteose Do Sacro-Império Romano
Ao imperialismo pontifício aconteceu o que ocorre com os imperialismos pelas armas; só pôde se formar às custas de diversos pequenos reinos, que aqui não foram outros senão os patriarcados e arcebispados mais ilustres, tais como o de Constantinopla, que esteve sempre em cisma contra o episcopado de Roma; o de Tréveris, humilhado pelo de Magúncia; o de Aquileia, e os arcebispos de Milão, Narbona, Arles, Viena, Bourges, Ravena, Toledo, etc. Esses pequenos reinos foram atacados pelos Papas desde cima, mediante legados e excomunhões, se não se mostrassem subservientes, e desde baixo com o fortalecimento do poder dos bispos sufragâneos, os quais por sua vez foram submetidos mediante a criação dos capítulos, a independência das paróquias, e sobretudo, a criação das ordens monásticas, como pessoas não sujeitas à jurisdição dos prelados, e sim somente à do Pontífice. ## 14. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
De como eram à época esses últimos prelados nos relata São Pedro Damião nestes termos: "Eles se vestem de ouro, e onde quer que cheguem desejam imediatamente revestir os aposentos com suntuosas cortinas e grandes tapetes com imagens de monstros. Seu leito custa mais que o tabernáculo, e supera em magnificência os altares pontifícios. Como as coisas do país lhes parecem miseráveis, só usam peles ultramarinas de arminho, raposas e martas. Sinto náusea ao enumerar tão necias vaidades, que moveriam a riso se não arrancassem lágrimas ao ver tais prodígios de altivez e loucura de grandezas e as Vendas pastorais, símbolos de humildade, bordadas com ouro e pedras preciosas." O bem-aventurado André de Vallumbrosa acrescentava: "O ministério eclesiástico estava seduzido por tantos erros, de modo que mal se encontrava um sacerdote em sua igreja, pois uns estavam sempre caçando com sua coleira de cães, gaviões e caçadores; outros passavam a vida na taberna; estes eram usurários, e todos, uns mais que outros, levavam uma vida mais dissoluta em companhia de prostitutas, além de serem simoníacos, a ponto de que nenhuma ordem ou cargo, do mais elevado ao mais ínfimo, podia ser obtido senão se comprasse, como se compram as reses. Os pastores, a quem correspondia remediar tamanha corrupção, não eram, pois, senão lobos famintos." (César Cantú, livro X. A Igreja. t/) Não há, portanto, nada de estranho nos terrores e esperanças do Milênio: o mundo estava simplesmente de cabeça para baixo; os grandes eram pequenos; e os pequenos, grandes, como aqueles ascetas de Cluny e de Camaldoli que buscavam no isolamento das florestas refúgio contra tanta depravação, sem contar, incautos, que ela haveria de segui-los até seu retiro e formar, a longo prazo, com aquelas instituições simplesmente maravilhosas, um... elemento ulterior. ainda mais pérfido, de imoralidade e imperialismo. O milênio e seus terrores, além da vigência dos dízimos, arredondaram a imensa riqueza da Igreja, a sucessora Daquele que em sua orfandade não achava onde reclinar a cabeça... " O orgulho, companheiro inseparável do poder e da riqueza, não teve mais limites na Sé Pontifícia. Passou-se dos pecados de imoralidade, humanos afinal, para o pecado satânico, para o pecado contra o Espírito Santo, ao abusar do nome de Deus, por orgulho e com fins perversos. "Dois poderes governam o mundo — escrevia o Papa Gelásio a Anastácio —: o pontifício e o real: aquele é maior que este" (coisa bem contrária à frase de Jesus de "dar a Deus o que é de Deus e ao César o que é do César") e assim pôde gloriar-se Hicmaro de 160 que o imperador não fosse já senão um humilde braço armado de espada pelo vigário de Cristo para a perdição dos infiéis; isto é, daqueles que, como homens, também fossem irmãos para o Divino Nazareno. Em momento tão crítico da total corrupção eclesiástica, apareceu um homem genial, austero e enérgico, desprovido de todas as miúdas prisões de ouro e prazer que agitavam a laicos e religiosos, mas que tinha a paixão das paixões: o orgulho e a ânsia de poder, que sempre caracterizou todos os criadores de impérios. Esse homem foi Hildebrando, monge cluniacense. Com mão finíssima, Hildebrando empreendeu a reforma como papa dos próprios papas, até ser depois eleito com o nome de Gregório VII. Sob pretexto de ir contra toda coação, laica e simonia, começou por despojar os príncipes e laicos de todo direito eleitoral eclesiástico, direito exercido pelo povo fiel desde os tempos apostólicos. Pôs fim depois ao eterno cisma provocado em cada eleição pelos Tusculos e outras facções há quase séculos. Aproveitou o fracasso sangrento dos Patarinos e Nicolaítas, análogo ao dos presbiterianos e anglicanos precursores da Revolução da Inglaterra, para assentar firmemente o critério do celibato eclesiástico, com o que fez desde então 161 ao clero algo assim como uma sociedade dentro de outra, cortados os laços de família, à maneira ainda mais vigorosa de como os monges medievais os cortaram em imitação dos do Oriente e do Egito. Isolado assim da sociedade civil, o Império Romano-Pontifício pôde já proclamar com mais orgulho que nenhum outro dos césares que vimos até aqui, princípios de dominação universal sem outras armas que as espirituais, brancas ou negras, como os seguintes excertos dos canonistas da época demonstram. - A Igreja de Deus é independente de todo poder temporal, e a espada de todo príncipe lhe está submetida sem possibilidade de réplica. O Papa ocupa o lugar de Deus, cujo reino governa na terra; é o primeiro homem da cristandade: o sol da fé e do mundo. O o mundo não existe senão pelo imperador este pela Igreja, a Igreja pelo Papa e o Papa por DEUS. Emergi do Papa de Deus tudo está subordinado; perante seu tribunal devem ser, pois, levados todos os assuntos espirituais e temporais, e a Igreja, como Tribunal de Deus, tem o direito de ensinar, exortar, cas. " corrigir, julgar e excomungar. O Papa, é, enfim, o Representante de Cristo, e sua dignidade, grande e terrível, pois é superior a tudo" .. a tudo, inclusive, como se vê, à supli! r62 ## M. Roso De Lunama humildade, renúncia, mansidão e afastamento de todo poder humano que caracterizava o puríssimo Nazareno, assim destronado em sua simplicidade divina, por um novo Deus, Jeová o iracundo, o vingativo, o orgulhoso, o déspota. Superior a tudo, na terra se entende no ínfimo planetoide que habitamos, e que não chega a uma milésima do planeta Júpiter, nem a uma milionésima do rutilante Sol, como muito brevemente iam ensinar a um mundo tão déspoticamente escravizado, homens como Galileu, Copérnico, Kepler, Nicolau de Cusa, Giordano Bruno e tantos divinos rebeldes, de morte perseguidos por aquele poder ante quem eles vinham a repetir sarcasticamente aquela frase do filósofo a Alexandre de que "havendo tantos e tão imensos mundos habitados no espaço, era de lamentar que só houvesse um a encher com sua glória o novo Sol dos Estados Pontifícios;" Gregório VII, o grande déspota virtuoso. . A humanidade, embora escravizada e vilipendiada àquela época talvez como nunca, não pôde deixar de protestar, e oh maravilha!, pela boca mesma dos imperadores, de tamanho imperialismo de imperialismos. Daqui a te. rrível luta entre o Pontificado e o Império, ou entre Guelfos e Gibelinos, luta que perdurou, ensanguentando o mundo, até que o Turco por um lado, Lutero por outro, e por outro ## A Humanidade E Os Césaresa nascente Ciência, viessem, cada qual pelo seu lado, a resolver a questão em prejuízo do ultramontanismo. Então foi quando apareceu na história o império alemão com caracteres definidos. Adalberto, arcebispo de Bremen, contra as árduas intrigas ultramontanas do arcebispo de Colônia, moveu o imperador Henrique IV a defender os foros seculares. Excomungado o imperador por Gregório VII, este lançou contra aquele aquela proclamação regalista que começava com as célebres frases de 'Hildebrando não Papa mas falso monge', que foi a declaração de guerra entre os dois poderes, guerra que se prolongou com sorte variável ao longo dos mandatos de Frederico Barbarossa, Henrique VI, Alberto, LUIZ da Baviera, três vezes excomungado pelos Pontífices, e vários outros, até chegar ao césar Carlos V da Alemanha e 1 de Espanha, quem, como césar, prendeu o Pontífice, e como fiel mandou fazer rogativas por sua liberdade. A adaga, o veneno, as intrigas eclesiásticas e civis foram o inevitável cortejo daquelas conturbadas reinados, nos quais pugnavam entre si duas soberanias irreconciliáveis. Nos alborres do tão revolucionário Renascimento clássico. As atas da dieta de Worms contra Gregório VII, e as do concílio de Roma contra Henrique IV, são algo maravilhosamente extra- ## M. Roso De Lunado, pois nelas já pulsava o espírito da Reforma protestante, que só veio quinhentos anos depois do milênio, quando já João Hus; Jerônimo de Praga, Bruno, Savonarola e cem outros espíritos leais, acima do Papado e do Império, haviam subido à fogueira. Lutero, o predestinado para a grande revolução das consciências, diz-se que via em sonhos João Hus, quem lhe profetizava o mais completo sucesso em sua pregação salvadora, porque este grande mártir havia deixado dito que outro fênix viria dali a um século para consumar a obra por ele iniciada e contra a qual os Poderes do Mal não prevaleceriam... Se a lei da reencarnação dos teósofos, dos espiritistas e de todas as religiões, inclusive o primitivo Cristianismo, é certa, João Hus e Martinho Lutero são um só, como poderia ter sido, através dos tempos, tanto e tanto César como temos visto. xvn ## O Império HispânicoHá algo de fantasioso e de inverossímil neste império, com o qual pode-se dizer que começou a Idade Moderna, tanto ou mais que com a queda de Constantinopla: seu rapidíssimo crescimento, e sua queda, ainda mais rápida. Ia a metade do século XV quando na Península Ibérica conviviam meia dúzia de reinos minúsculos, mouros e cristãos, em luta perpétua entre si. Mas em virtude da usurpação realizada por Isabel I dos direitos legítimos da filha de Henrique IV de Castela e do ulterior casamento de Isabel I com Fernando V de Aragão, a unidade nacional, rompida desde o ano 711, já se desenha muito claramente. Um só ano, o de 1492, marcou no seu começo a conquista de Granada, ou seja, a total expulsão dos mouros, e em seus últimos momentos o descobrimento da América por Colombo. Anos depois Fernando conquista Navarra, humilha o francês e assegura-se em quase toda a Itália; e um neto seu, Carlos I, reúne em suas sienas as coroas da Espanha e da Alemanha, com todos os seus anexos. Para coroar o prodígio, três aventureiros sublimes, entre tantos e tantos prodigiosos que houve naquela época, conquistam para Carlos I, um, Balboa, a América Central; outro, Cortés, o Império dos Astecas, e o terceiro, Pizarro, o Império dos Incas, impérios aos quais deveríamos consagrar epígrafes especiais, se não temêssemos tornar enfadonhos estes artigos. Por outro lado, Portugal, centro da navegação do século XV, havia contornado toda a África, como os lendários Annón e Scilax cartagineses, descobrindo e dominando as Índias Orientais. Ambos colossais impérios, enfim, vieram, por um tempo não muito longo, a cair sob o cetro de Filipe II, o Taciturno. Tal foi o prodígio operado em menos de um século. "O sol não se punha nos domínios espanhóis nem nos portugueses..." Mas foi acaso, por exceção, este império filho do direito e não da força bruta? De modo algum: a Verdade, como Religião a mais elevada, segundo o tema do Maha-Rajáh de Benarés adotado pela Sociedade Teosófica, está ainda acima do patriotismo mesmo, e ela nos obriga a dizer que Isabel I não subiu por direito ao trono de Castela, embora r depois tenha sido confirmada pelas Cortes de Castela; que Fernando não foi muito correto na conquista de Navarra; que haveria muito a dizer em Nápoles acerca de como agiram nele franceses e espanhóis; que Carlos foi perverso com os comunheiros castellanos, defensores da liberdade tradicional municipal contra o nascente despotismo que o monarca nos importava da Áustria; que Cortés, ele que era fidalgo e de boa linhagem, não foi justo com Moctezuma nem com Guatimocín, nem sequer com a própria dona Marina, a quem deve suas glórias; que Pizarro foi um homem pérfido com Atahualpa, dando lugar para que este inca bastardo permitisse que fosse imolado Huascar, seu irmão legítimo, desatando assim um karma digno de uma tragédia grega, na qual Atahualpa sacrifica Huascar; Pizarro Atahualpa, Almagro Pizarro, os partidários de Pizarro Almagro, e os deste àqueles, até não deixarem pedra sobre pedra no Império do sagrado Cuzco, émulo dos de Babilônia e de Nínive. Todos esses tristes fatos não foram únicos, pois Cisneros e a Inquisição queimaram bibliotecas inteiras hispano-arábigas e judias, cujos ínfimos restos no Escorial e na Biblioteca Nacional ainda admira o mundo; e expulsou impiedosamente os moriscos e judeus, que têm sido a base de tão enormes riquezas no Oriente, França, In- l~ glaterra e Alemanha. Tudo isso sem contar com a intolerância mostrada frente à Reforma, depois da qual vinha o germe do livre-pensamento moderno; intolerância que estancou em tantas coisas o nosso belo país, precipitando-nos à ruína. Essa ruína não se fez esperar, mas suas consequências seguiram até as postrimerias do século XIX com a perda do último resto do império colonial hispano com as Filipinas e as Antilhas. Mas já há nela, ou um sinal dos tempos, melhores hoje do que antes, ou uma marca admirável da nossa raça pecadora e querida: é, a saber, que nem a punhalada, nem o veneno têm desempenhado o papel essencial que tiveram em tantas outras decadências imperialistas. Verdade é que Zurita aponta a possibilidade de que Henrique IV tenha sido envenenado em Segóvia ao celebrar com a irmã Isabel uma entrevista; é também verdade que a dinastia dos Trastâmara, à qual ambos pertenciam, não se havia distinguido precisamente por sua nobreza, nem em Henrique II, o fratricida daquele monstro que se chamou Pedro I e assassino de tantos e tantos partidários deste; nem em João II, imolando aquele exímio trovador e político de D. Álvaro de Luna. Por outro lado, são também de notar as reticências de Zurita acerca da inopinada morte de Felipe o Belo, "morte que se atribuiu publicamente ao juízo de Deus por haver tratado com grande irreverência os negócios da fé", isto é, por haver ido contra a Inquisição e a jurisdição inquisitorial do arcebispo de Sevilha. Também é de notar que Bergansó e Altemayor sustentaram que dona Juana, sua esposa, jamais esteve louca, mas foram forçados a fazê-la passar por tal devido a maus tratamentos por parte do pai, do marido e do filho, para lhe tirar o cetro, ou porque ela se teria tornado luterana, opinião não distante da do seu cronista Rodríguez Villa. Tornou-se proverbial, enfim, a frase de Felipe II, o grande déspota, de que "se meu próprio filho fosse herege, eu levaria a lenha para queimá-lo", coisa que certos autores asseguram que teria de ser cumprida, já que o primogênito D. Carlos sempre simpatizou com os luteranos, ou seja, com os bons cristãos daquele tempo, que queriam ver restaurada a religião na sua pureza evangélica primitiva. A morte desse príncipe, que talvez teria dado dias de glória e de tolerância à nossa Pátria, está longe de estar devidamente esclarecida, nem mesmo pelos trabalhos de Adolfo de Castro. Se essas coisas e outras semelhantes forem verdadeiras, uma negra sombra de crime se projetaria sobre a invisível mão do despotismo religioso que, desde os dias de Pedro II de Aragão, fazia da Península feudo material e moral de um Papado sem escrúpulos. De qualquer forma, a rápida queda do império espanhol foi um verdadeiro desmoronamento, a saber: separação da Alemanha, ao morrer Carlos I, perda dos Países Baixos; secessão de Portugal; perda dos reinos da Itália; sublevação e independência da América, etc., etc., chegando a extremos tais como o embrujamento de Carlos II, por quem se chegou até a pedir esmolas na corte, e à formação de um império jesuíta na Espanha em contraposição ao império protestante da Inglaterra, império que nas regiões americanas, menos acessíveis, como o Equador ou o Paraguai, revestiu todos os caracteres de uma curiosa soberania, na qual até as necessidades mais vulgares e íntimas da vida tinham de ser feitas ao toque de campainha... Segundo Fray Pedro de Rosas e outros autores citados por Adolfo Castro em sua Decadência de España, Enrique IV era tão cético, à maneira de bom trovador, como Frederico, o Grande da Rússia; e Marina em sua Teoría de las Cortes fala das queixas que o elemento ultramontano, em que se apoiava Isabel I, tinha contra o rei, por ser mais mouro que cristão e estar sempre rodeado de gente infiel e ateia. "Isso basta para que o povo, sempre gregário, apoiasse esta, em face dos legítimos direitos da Beltraneja, por quem estiveram Portugal e o melhor da Castilla, e até houve partidário, segundo Zurita, que afirmou haver... sido envenenado o monarca, como dissemos, ao ter uma entrevista com sua irmã Isabel. Por outro lado, vemos os tristes acontecimentos do Príncipe de Viana com seu pai João I de Navarra, a quem se acusa de ter sacrificado, por ambições de sua segunda esposa, a tão admirável príncipe, ídolo dos reinos de Navarra, Aragão e Catalunha, com tudo isso deu margem à usurpação realizada em Navarra por Fernando I. As origens do Império espanhol, como se vê, estão muito necessitadas de uma revisão sincera, que talvez não deixe muito bem os Reis Católicos, que, por outro lado, tiveram em seus filhos uma desgraça inaudita, pois o príncipe João e a Infanta Isabel, esposa do rei de Portugal, morreram na flor da juventude; Joana, esposa de Felipe, o Belo, perdeu a razão, e Catarina, viúva de Artur, Infante da Inglaterra, casou-se então com o célebre Henrique VIII, que a repudiou para casar com a célebre Ana Bolena. Se há ou não karma nisso, a aludida revisão histórica haverá de deduzir, não obstante o patriotismo, porque não se deve esquecer que as crueldades cometidas com aquele Iniciado chamado Alfonso X, o Sábio, por seu filho Sancho, e as turbulências dos nobres desacotados durante as minoridades e os reinados fracos, prepararam essa queda espiritual de nossas liberdades mais santas e nossas glórias mais legítimas, que, por contraste bem humano, trouxe, no entanto, a aparente grandeza material de um império espanhol, gloriosíssimo no militar e em tudo quanto supõe derramamento de sangue, mas tristíssimo em seu íntimo, e archinefasto em sua estrondosa queda, como colosso de pés de barro. Diga-se isso último, senão pela maldita Inquisição estabelecida por papas tão execráveis quanto Inocêncio III e Gregório IX, cujos crimes não têm fim. O livre Aragão já havia rejeitado o indigno Tribunal da Fé, porque estava acostumado às sublimes gallardias dos Justiças, que residenciavam os reis em seus excessos imperialistas. Era preciso que viessem ao trono os Reis Católicos (que muito bem poderiam ser chamados Reis Impios) para que esta árvore de maldição crescesse viçosa na Espanha, sendo regada com o sangue de milhares de infelizes, e para que tais monarcas tão indignos, mais papistas do que o Papa mesmo, excluíssem terminantemente de todo perdão o herege "armque deixasse despovoado o reino" (como o despovoaram seus sucessores com expulsões em massa a múltiplas regiões europeias). ## Xvii
O Império Dos Pares
Luis V, o último carolíngio, envenenado por sua mulher, deu lugar a Hugo Capeto, filho de Hugo, o Grande, que usurpou a coroa nas proximidades do período milenar, período em que a humanidade temeu por sua existência mesma, e esperou, quase como a acabar o outro milênio, a volta do Cristo apocalíptico... Os judeus, que também esperaram algo disso na época, não conseguiram ver a nova Jerusalém que, de fato, veio em... forma de catedrais góticas, de inventos inauditos, de reformas religiosas, e acima de tudo e perante tudo, de duas instituições maravilhosas que fracassaram sucessivamente, e cada uma das quais mereceria um canto épico: a Literatura e a Maçonaria... Uma e outra feneceram; a primeira, no século XIII com a perseguição dos albigenses, gentes que reduziram o sublime ensinamento iniciático dos Artús e dos 1]4. M. RObO m: LUNA Amadises, a meros flertes de uma sensualidade que, por mais refinada e artística, não deixava de ser grosseira e danosa; a segunda, nas mãos do nascente jesuitismo do século XVI, que a desacreditou, desnaturalizando-a e tornando-a, de religiosa, política. Os primeiros Capetos, à semelhança de todos os monarcas medievais, em Espanha, na Inglaterra, etc., não se afastaram do cetro papal do Sacro-Império Romano; mas à medida que a reforma religiosa e a ciência foram ganhando terreno na consciência pública, os reis foram mais reis, à custa da nobreza, do clero e do povo subjugados, e já em França surgiram verdadeiros césares, como aquele Filipe que mereceu o nome de Augusto, vencendo o imperador Otão da Alemanha; aquele São Luís, que realizou cruzadas no Oriente; aquele Carlos VII, que expulsou do seu território, com Joana d'Arc, os ingleses; aquele Tibério perverso que se chamou Luís XI; aquele Luís XII, que começou a dominar a Itália, e seu sucessor Francisco I, o último cavaleiro francês, rival do nosso Carlos I na Flandres, Nápoles, Cerdaña e demais países, o protetor do famoso Bayardo, flor e nata da cavalaria andante, etc., etc. Assim chegamos, à custa da ruína do império hispânico, ao fastuoso cesarismo de Henrique III, assassino dos seus rivais religiosos; de ## A Humanidade E Os Césares175 Henrique IV o cético, huguenote que se tornou católico porque Paris valia bem uma missa; de Luís XIII, o filho dos Médicis, ou seja, da terrível família de intrigas e envenenadores à semelhança de Cosme, o Velho, para quem todo escrúpulo de consciência era frívolo perante a necessidade do crime político, como diriam Richelieu e Mazarin, os cardeais mundanos, céticos e ímpios. França, com todos esses desaprensivos hipócritas, alcançou o pináculo do seu esplendor fictício com aquele Rei-Sol de Luís XIV que, pressentindo as primeiras pulsações da Revolução, não tinha outra frase senão “depois de mim, o dilúvio”; o dilúvio de sangue, de facto, que após o repugnante Luís XV, caiu sobre as cabeças de Luís XVI, da sua esposa Maria Antonieta da Áustria, dos nobres, dos sábios, dos bons e até dos maus, porque tamanha catástrofe, equiparável às catástrofes geológicas que mudam a face do planeta, aparentemente não distingue entre grandes e pequenos, bons ou perversos. O terrível karma da dourada mentira imperialista francesa desferiu assim o seu golpe fatal, porque nem a pedantaria ilustrada da Enciclopédia, nem os nobres desejos de melhoria social, nem os esforços que em tantas partes de dentro e de fora fez a culta França em prol da verdadeira liberdade, alcançaram a ,. ## IA HUMANIDADE e ## M. Roso De Junaencontrar essa fórmula oculta de união da ciência com a religião, e da virtude própria do espírito, com a cultura da mente, que impede o homem e as sociedades de cair por um lado em um pietismo ignorante medieval, e por outro em uma cultura sem alma, mil vezes pior do que a ignorância mesma, como hoje estamos vendo com a guerra. Um verdadeiro Enviado, o Conde de Saint-Germain, um Instrutor que disse que voltaria à Europa, quando a Europa inteira passasse, como hoje está passando, pelos horrores de uma guerra espantosa sem exemplo nos anais históricos, aparece em infinidade de lendas e obras da época; sua silhueta está bem desenhada no simbólico Zanoni de Bulwer-Lytton; a missão de tal Instrutor, porém, fracassou então, e a Fraternidade Universal da Humanidade, sem distinção de castas, sexo, credo ou cor como a que preconiza a Teosofia, viu-se desconhecida na prática, por uma falsa Igualdade atomística, contrária à desigualdade real e organizada que vemos em todas as obras da Idade re- Natureza; contrária também a toda ideia dessa Justiça distributiva que exige dar a cada qual segundo sua capacidade, e a cada capacidade suas obras. Os horrores de 93 trouxeram a reação imperialista pelas mãos de um desses déspotas de primeira classe: Alexandre, César, Ta- l r ! ## Os Césares177 merlão, etc., que aparecem de tempo em tempo na História como flagelo pelos pecados dos povos: Napoleão Bonaparte, homem obscuro, que aparentou, como todos os déspotas, desposar-se com a Liberdade para transformá-la em Tirania ... Conta-se desse Iniciado, ainda pouco conhecido, que se chamou Beethoven, que ele foi um dos espíritos seduzidos a princípio pela grandeza do colosso, que, frente ao cordão de todos os pequenos déspotas coroados na Europa, parecia o braço armado da Liberdade para implantá-la no mundo sob a férula da Grande Revolução. O colossal musical de Bonn teve que dedicar-lhe então sua obra mais revolucionária também, sua Terceira Sinfonia, que por isso se chamou A Sinfonia Heróica; mas assim que soube que o servidor da Liberdade se fizera eleger cônsul, como caminho para depois coroar-se césar, rasgou, com a mesma mão irada com que Jesus expulsou os mercadores do Templo, a dedicatória de sua obra, e em lugar dos trechos mais heróicos dela deixou escrita uma Marcha fúnebre, a marcha fúnebre da Humanidade, uma vez mais pisoteada impiedosamente pelo cesarismo. Quanta visão não encerrava, de fato, a atitude de Beethoven! O déspota tenta agradar ao orgulho francês com a conquista do ## M. Roso De
Luna
Egito e da Síria. Vem depois a série ininterrupta de seus triunfos em Ulm, Austerlitz, Jena, Friedland e tantos outros, série a cargo do qual o césar se senhorieia de quase todo o continente europeu, desde Gibraltar a Moscou e desde a Holanda até o Egito. Só três coisas conseguiram deter aquela corrida fatídica sobre ruínas, e as três, na realidade, não eram mais que uma: A Natureza, que o derrotou no mar, com Aboukir e Trafalgar; no deserto de areia, com o Egito e a Síria; no deserto de gelo, com a Rússia, e no último recanto das antigas liberdades frente a Roma, ou seja, na Espanha; porque convém não esquecer que um déspota, escarnecedor de todo princípio de justiça, um mago negro, como são todos os invasores de povos, costuma ser humanamente invencível, e só pode ser esmagado pelo karma natural dos seus próprios pecados, fazendo verter a taça da Justiça e enredando-o nas próprias redes que ele mesmo teceu. Assusta ver, por outro lado, até onde chegou a desgraça privada de Napoleão. Tenho diante de mim a linda obra de Francisco Vera dedicada aos filhos da Águia Imperial, ou seja, aos Agulhinhos. Nela leio que Napoleão se considerou fisicamente impotente; ele, tão potente militarmente, pois que seu casamento com Josefina fora estéril, a qual, porém, de outro casamento anterior com o general Beauharnais, havia tido dois filhos. Uma verdadeira prostituta: Leonor Denuelle de la Plaigne, deu-lhe, no entanto, o primeiro filho: aquele desgraçado tahur e degenerado espadachim que, sob o nome de Conde León, escandalizou depois o mundo, vindo a morrer na maior miséria em Pontoise, sendo enterrado à custa de esmolas e deixando sua viúva sem conseguir nem mesmo que se lhe concedesse um quiosque de jornais. Uma esposa polonesa, nobre e generosa, embora infiel ao marido, o conde de Walewsky, deu a Napoleão um segundo filho, que depois seria um homem ilustre por seus próprios méritos, embora nada mimado pela fortuna. O déspota sente, talvez pela primeira vez, sem que ele próprio pudesse dele usufruir, a doce paixão do amor que aos simples mortais dotados de melhor karma costuma levar a lares patriarcais tão ignorados quanto felizes. Repudiada Josefina, a razão de Estado o leva então a casar-se com Maria Teresa da Áustria, aquele coração frio e cruel, que fez pagar ao césar não poucos de seus crimes, recusando acompanhá-lo nos seus exílios em Elba e em Santa Helena, e abandonando quase o seu filho, o desgrenhado Rei de Roma, ou seja, o terceiro dos Agulhinhos. Ela caía nos braços de um caolho: o conde de Neipperg, e de um tenorino de opereta, enquanto, anos mais tarde, morria tísica seu filho e cativo seu marido. Vejamos um último exemplo para mostrar o orgulho infinito do déspota napoleônico: parecia louco, diz Vera, quando lhe nasceu seu filho. Para ele criou, ó orgulho francês!, o título de Rei de Roma (cujos únicos superiores, naturalmente, eram os de Imperador dos Franceses) e a Casa dos Filhos da França, que dotou com uma lista civil de quase um milhão de francos. Nos aposentos do palácio das Tullerias—aquele mesmo que foi incendiado nos últimos dias do reinado do último e terceiro dos Napoleões—gastou para instalar o príncipe meio milhão de francos, e assim infinitas despesas desse tipo, até chegar a premiar poetas cortesãos que cantassem hinos em louvor de uma criatura que já nascia rei de um reino imaginário, investido de todas as honras civis e militares, como na Roma decadente, e pretender que o moleque fosse rodeado de honras semidivinas... Esse mesmo déspota, enfim, que havia pisoteado o direito com a força bruta onde quer que visse um obstáculo à sua sede de domínio, tremia apenas diante da ideia de que seu terno rebento não fosse um bom francês e um bom cristão, ele, o ímpio que sempre tomou a religião como instrumento, como tantos outros que se dizem cristãos... A HUMANIDADE e OS CÉSARES 181 Deixemo-lo aqui. Que o leitor observe o império de Napoleão I, veja a queda estrondosa do terceiro dos Napoleões às mãos de um novo cesarismo: o de Guilherme I da Alemanha, e digamos, sem falar de outras humilhações atuais, se não é a História, por mais que nos doa a todos, o dedo terrível do karma e a Mestra maravilhosa da vida, pregando sempre pela Humanidade e contra o cesarismo. A HUMANIDADE e OS CÉSARES ## Xix
O Império Inglês Em Seus Orígens
A excepcional posição de isolamento que as Ilhas Britânicas ocupam em relação ao continente europeu, deu-lhes uma história característica. Restos delas do perdido continente atlante, irmãs gêmeas da Escandinávia e da Espanha ocidental, esse elemento atlante sobreviveu à grande catástrofe pré-histórica, deixando na Grã-Bretanha os pictos, escotos e gaélicos já misturados com sangue ário, e na Irlanda aos sucessores daquele povo místico emigrado do Noroeste da Espanha que se chamou dos Tuatha de Danand, gente mágica que por artes guerreiros tão prodigiosas quase quanto as de hoje, diz a lenda que constituíram um império estranho sobre as ruínas dos atlantes Fir-Bolgs. À semelhança dos árabes, essas gentes celta-druidas ou bretãs das Ilhas, sobreviveram na Irlanda e Escócia à conquista 183 que da parte inferior, ou Inglaterra, se tornou agrícola, porque é sabido que à soberba imperialista romana apenas puderam conter-se as areias dos desertos árabe, sahariano e líbio, a floresta da Floresta Negra e os misteriosos druidas daquelas nebulosas ilhas... sempre a Natureza freando os déspotas que pretenderam dominar o mundo! Aos elementos atlante, druida e romano, vieram somar-se no século VI os saxões e os anglos, da Alemanha, e depois, no século XI, os dinamarqueses e normandos escandinavos, de modo que, unidos a esses tão diversos elementos, as influências culturais francesas e as do Norte e Oeste da Espanha, fizeram do povo inglês um povo essencialmente complexo, marítimo por excelência e oposto por instinto a todos os imperialismos que o continente herdara de Roma, como já dissemos. Com a dinastia normanda na Inglaterra, cruzou-se muito cedo a francesa dos Anjou, formando a dinastia dos Plantagenetas que foram senhores também de grande parte da França, até serem expulsos por Joana d'Arc. As cruzadas absorveram a atividade destes monarcas, e os nobres, à semelhança dos nossos de Sobrarbe e do Justiça de Aragão, arrancaram ao despotismo real aqueles ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
monumentos das liberdades nascente que ainda nos admiram, como base de todos os direitos constitucionais modernos, garantias do indivíduo contra os abusos de todo imperialismo interior, a saber: a Carta Magna, a Carta dos Bosques e a criação do Parlamento ao modo das Cortes, que brilhantemente funcionavam em Castela, enfrentando o clero, os reis e os nobres. O imperialismo papal, que já se havia apoderado da Europa, encontrou nos Plantagenetas um obstáculo intransponível: Henrique II, primeiro desta dinastia, morre assassinado por ter pretendido submeter o clero à jurisdição temporal. Os Loílardos, discípulos de Bacon, o filósofo, iniciam a reforma contra os abusos da Igreja e são seguidos pelo grande cisma de Wycliffe. Inglaterra, vencedora já do País de Gales, da Escócia e da Irlanda, corta as amarras morais que a ligavam à França cesarista e devota, ao perder seus territórios nela, após um século inteiro de guerra. A guerra civil das duas rosas entre a casa de Lancaster, que havia usurpado o trono assassinado o rei, e a de York, vencedora da de Lancaster, foi, sob outras aparências, um aspecto da luta religiosa que levou ao trono sucessivamente ambas as casas, até se unirem sob os Tudor, cujo segundo rei, Henrique VIII, é célebre nos fastos dessa luta entre o poder civil e o eclesiástico. Henrique havia casado com Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos, o que ameaçava a Inglaterra de ter que seguir o mesmo caminho de submissão pontifícia que vimos a Espanha trilhar até alcançar sua total ruína sob os Habsburgos. O cardeal Wolsey, avarento e sibarita, era o verdadeiro monarca em nome de Roma. Mas na Inglaterra já havia soado a hora da emancipação com a Reforma Luterana, e os sucessivos casamentos e divórcios do rei com seis mulheres foram mais pretexto que motivo para a ruptura com Roma. O rei se ergueu em chefe da Igreja Anglicana, retrocedendo assim o país àqueles tempos pré-cristãos, em que uma única potestade civil governava a nação sem intromissões de poderes estranhos, e a Inglaterra foi desde então um verdadeiro campo de Agramante, onde todos os elementos cultos e reformadores se impuseram, após mil desgraças e intrigas, sobre os elementos retardatários católicos, tais como aqueles 40.000 camponeses insubordinados. por estes, nos quais Henrique fez um terrível estrago, tanto quanto em outras seitas não conformistas, a ponto de que um francês exclamava: «Que reino é este, onde se enforcam os católicos e queimam-se os hereges?» O chamado bill de convicção, espécie de lei do terrorismo, como a sonhada por nosso Maura, e que se deveu ao favorito Cromwell, levou ao cadafalso multidões de pessoas, inclusive a rainha Ana Bolena e o próprio favorito, porque, desencadeadas as paixões, mais de um católico e um reformado sincero morreram como mártires às mãos daquele déspota, que concluiu com o despotismo papal. Henrique VIII foi, no entanto, o assento da verdadeira grandeza da Inglaterra, porque Inglaterra, bem ao contrário da nossa Espanha atual e governante, aprendeu naquele reinado e nos sucessivos a grande lição da tolerância salvadora de todas as crenças sinceras e a necessidade de que o poder civil contenha a maior das ambições mundanas com hipócrita máscara religiosa: o papismo. Um século de sangue, como o XIX, nos teria poupado na Espanha se tivéssemos aprendido essa lição da História, e ainda estamos depois dele quase como no primeiro dia, sem praticá-la... O papismo na Inglaterra não foi vencido sem torrentes de sangue. Maria, filha de Henrique VIII e de Catarina, começou seu reinado entregando ao carrasco, em nome da religião, a todos os que contribuíssem para o divórcio de sua mãe. Restabeleceu o catolicismo e também capitulou Joana Grey e seu marido, antecessores no trono. Perseguiu os luteranos com ódio implacável e casou-se com Felipe II da Espanha, o campeão da Igreja. A reação de fanatismo em que tão mestres foram sempre católicos como protestantes, não se fez esperar sob sua sucessora Isabel, filha de Ana Bolena, que imolou por razões políticas Maria Estuardo, rainha da Escócia, assentando assim o império inglês sobre uma usurpação, assim como a outra Isabel da Espanha havia lançado as bases do império espanhol com o despojo da Beltraneja. Jaime I e Carlos I, como bons Estuardos fanáticos, levaram o país a dois dedos da ruína com seu absolutismo ultramontano e repreensível. Perseguiu-se até a morte e cometeram-se crueldades inauditas e mutilações com aquela falange heroica de místicos cristãos, mais ou menos imbuídos em puríssimos ensinamentos maçônicos, que se chamaram puritanos. Madame Stael descreveu com cores vivas em sua História da Revolução da Inglaterra esses mártires que, com suas emigrações para a América, lançaram os alicerces do grande povo norte-americano, que poucos séculos depois haveria de ser um dos primeiros do mundo. A resultante de todos esses excessos não poderia ser outra senão a revolução. A revolução da Inglaterra em 1649 foi menos sanguinária que a francesa que veio depois. O ministro Stratford e o arcebispo Laud pagaram com a vida os pecados de toda uma geração de tiranos, e o próprio rei foi levado ao cadafalso pelas sugestões de um místico-prático e duro de coração, como são todos os grandes sectários, cujos tipos são Hobbes, o Filósofo; Holbach, o Moralista, e Fox, o Quaker. Assim como o que um século depois aconteceu na França com Napoleão, sucedendo à república com seu imperialismo, Carlos II substituiu o governo republicano de O Protetor Cromwell com verdadeiras perseguições religiosas que, o país, já cansado de tantos horrores e crimes, em nome de um Deus de paz, finalmente cortou com o ato chamado do Habeas Corpus. A tudo isso, poetas, filósofos, políticos, fazendeiros e marinheiros iniciavam o engrandecimento da Inglaterra à custa do Papado, da Espanha, da Holanda e da França, elevando a Inglaterra à altura em que, com a casa de Hanôver, a encontraremos no próximo artigo. ## Xix
O Império InglêS ContemporâNeo
.~. O verdadeiro império inglês começa com Isabel, filha de Henrique VIII; nas consciências, com Shakespeare, Bacon, etc.; no militar, com a destruição da Armada Invencível espanhola; no territorial, com a criação da Companhia das Índias Orientais; no político e religioso, com a publicação do primeiro periódico e a derrota definitiva do papismo. A união da Irlanda e Escócia com a Inglaterra; os ensinamentos da revolução; a consolidação das liberdades populares sob os Orange, e a sensata gestão dos reis da casa de Hanôver em todos os conflitos e guerras que agitaram o mundo com a queda da Espanha e da Áustria, completaram a obra gigante, por virtude da qual, a rainha Vitória, seu filho e seu neto, que hoje usam a "coroa do mundo", puderam receber as homenagens de povos de cem partes, as mais remotas da terra. Igo A HUMANIDADE e ## N. Roso De LunaO império inglês, império essencialmente marítimo como nenhum outro já conhecido no planeta, abrange, atualmente, mais de trinta milhões de quilômetros quadrados, com cerca de quatrocentos milhões de habitantes: com colônias como a Índia, que é o país mais rico do globo e o de mais antiga linhagem; o Canadá, tão extenso quanto os Estados Unidos; a Austrália, que é todo um continente, e suas ilhas vizinhas, como a Nova Zelândia, além de outras múltiplas ilhas menores na Oceania, tais como Bornéu, Hong Kong, etc.; toda a África oriental, do Mediterrâneo ao Cabo da Boa Esperança, com exceção de algumas colônias de outros países europeus, E quantas ilhas e outras posses marítimas foi necessário para assegurar as grandes rotas comerciais do mundo todo, porque convém consignar que a Inglaterra é, entre todos os povos europeus, aquele que mais trabalhou pela civilização e pela conquista espiritual do planeta; aquele que nos ressuscitou conceitos de liberdade nele perdidos desde que começaram os imperialismos do Oriente, e que, ao assegurar o domínio do mar com seus navios, assegurou-se, como diz Maham, o império do mundo, empregando a força como apoio e sanção do Direito, concedendo amplíssimas liberdades autonômicas às suas colônias adultas; auxiliando as mais fracas ou nascen- • ## Os Césarestes, e nunca as abandonando diante de qualquer perigo, fazendo honra, enfim, ao nome inglês onde quer que se trate de menosprezá-lo, como diz P. Fondon em sua Geografia. Mas, escapou a Inglaterra aos terríveis defeitos inerentes a todos os imperialismos que temos visto? O problema é complexo. De início, empregou em suas conquistas, mais que armas homicidas, o comércio — que liberta, instrui e civiliza; dominou o mar, que não pertence a ninguém, para ter acesso comercial a todos os pontos da terra, e favoreceu os povos fracos contra os despojos dos fortes, como se viu emancipando a Grécia da Turquia com a vitória de Navarino; criando os Estados Balcânicos; apoiando outrora contra a França, e hoje provavelmente contra a Alemanha, a independência da Holanda e da Bélgica, Luxemburgo e Suíça; auxiliando contra Napoleão sua antes inimiga Espanha, na guerra por sua independência; fomentando a unidade italiana frente ao papado e, enfim, conservando na Europa um equilíbrio ou ponderação de forças entre os diversos Estados, equilíbrio cuja ruptura determinou a presente guerra. É verdade que, em ocasiões, talvez pecou a Inglaterra por pérfida e codiciosa; que violou o direito internacional, ocupando Gibraltar, e r ## M. Roso De Lunafoi duríssima com os cipaios índios capitaneados pelo heroico Tipor-Zaib, como recentemente tem sido com os boers, privando-os de sua independência, atraída a Inglaterra talvez mais pela cobiça das minas de ouro e outras riquezas do Transvaal e de Orange do que pelo anseio de arredondar seu império africano. A Pérfida Albión, como costuma-se chamar o Reino Unido por seus emuladores, ajudou, enfim, os portugueses e os cubanos e filipinos a se separarem da Espanha, segundo a eterna frase de todos os espanhóis; e nem sempre foi limpa na escolha dos meios colonizadores, pois talvez entre as raças submetidas, e algumas meio exterminadas, a nefasta introdução do álcool fez mais estragos que o fuzil mesmo, e o comércio com seus egoísmos tentou isolar as colônias, embora não em grau tão despótico como outrora a Espanha, do comércio universal ou não britânico. Esses e outros defeitos evidentes da Inglaterra foram, no entanto, muito exagerados pela paixão e pela inveja de outros países, e só revelam, na verdade, que todo imperialismo é essencialmente mau, embora dentro das leis sociológicas sejam eles males necessários para que se estabeleçam contatos de ódios, que afinal são contatos de amor ao inverso, entre povos que insistiriam em viver separados, contra a lei de Fraternidade Universal, que é o dogma único do homem livre, como vamos vendo. Ade- mais, os europeus não ingleses, inevitavelmente misturamos, por patriotismo, uma dose maior ou menor de ressentimento inconsciente pelas lições e supostos agravos infligidos à nossa respectiva pátria pela Inglaterra. O francês, por exemplo, não esqueceu até pouco a lição anglo-napoleônica, e o espanhol, mais ou menos xenófobo e nacionalista, pensa sempre ainda na Invencível destruída, nos corsários armados contra nossos ricos galeões americanos, nas ilhas e colônias arrebatadas uma a uma pelo poder britânico, em Portugal seccionado do tronco ibérico, em Trafalgar, em Gibraltar insultante, e, em suma, em todas as tristes recordações da nossa lenta derrota, a partir de Felipe II, sem lembrar que, por obra e graça do fanatismo deste e de quase todos os que o sucederam no trono, fomos acumulando tais desastres por nosso afã de querer fazer religião com a política e por termos sido eternos maniquins nas mãos de todos os ultramontanismos até nossos dias, e Deus sabe por quanto tempo se as coisas não mudarem com a guerra... O que teria feito o demônio do meio-dia, de fato, com seus duques de Alba, seus Torquemadas e Inácios, seus Rosários da Aurora, sua Santa Inquisição, suas crenças fanáticas, sempre falando de sangue e de batalhas, sempre dando batalhas de sangue, se tivesse conseguido pôr nas Ilhas Britânicas aqueles terríveis terços atrás dos quais iam aqueles que assassinavam os condes Edmond e Horn e tantos outros desditosos?.. A verdade básica para todo julgamento imparcial sobre estes problemas das relações da Espanha e Inglaterra é que nós pusemos todo nosso empenho em nos constituir defensores da fé, como se a fé, que é um sentimento casto, íntimo, secreto do coração, e não dos lábios, como diria Jesus, pudesse ser atacada ou defendida, enquanto Inglaterra colocou todo o empenho em emancipar-se e emancipar o mundo da tirania do imperialismo papal-romano com hipócrita máscara religiosa. A balança da Divina Justiça não podia deixar de se inclinar a favor deste último povo e contra nós, não sem que muitos espíritos livres e perseguidos, daqueles que houve e haverá sempre na pátria de tantos místicos, mártires e heróis, pronunciassem em vão aquele nobre aforismo de “com todo o mundo guerra, e paz com a Inglaterra”. Os pecados do imperialismo se pagam sempre, e talvez alguma das muitas dores que karmicamente recebe nossa querida Inglaterra por ocasião da presente guerra, na qual seu poder não será vencido, mas sim castigado seu orgulho nacional, como o de todos os impérios, a leve, a ela tão prática, tão sábia, tão evolutiva, a abrir os braços às doutrinas orientais ensinadas por uma sociedade como a Sociedade Teosófica, que ela mesma já declarou de utilidade pública na Índia, e cuja verdadeira utilidade universal Será avaliado muito em breve à luz dos incompreendidos ensinamentos de H. P. Blavatsky, quando se virem cumpridas, ao terminar a guerra, suas proféticas doutrinas de que todas as religiões são facetas de uma Religião primitiva, e como tais deverão unir-se, como no Congresso de Chicago, num supremo abraço de amor, e não de ódios homicidas, numa definitiva síntese científica, acima daquela religião e daquela ciência que, longe de terem sabido evitar esta guerra na qual os homens são piores que as feras, a determinaram, a primeira por suas intolerâncias e seus ensinamentos falsos e egoístas, e a segunda por se preocupar mais com os meios de destruir do que com os de criar e de adquirir falsos conhecimentos materialistas, sem pensar no grande, no único problema, que se resume nestas três célebres perguntas: O que somos? De onde viemos? E para onde vamos? Às quais o materialismo responde que "uns animais... racionais?, que vêm do macaco e do cão," ## M. Roso De Lunanão vão a lugar algum, senão aos seis pés da cova, após uma luta fratricida por uma existência imbecil na qual o homem não é o irmão, mas o lobo para o homem... Ou a Inglaterra, portanto, após a guerra, realiza esses ensinamentos na vida, ou seu império sucumbirá, como tantos outros, arrastados pelo curso da História... ## Xxi
O Império Alemão
Nas nascentes do Indo e do Oxo, no agreste Hindu-Kuh, desenvolveu-se em tempos remotíssimos dos quais o Ocidente não guarda memória, uma raça ariana vigorosa que passou à Escandinávia e que, misturando-se com restos atlantes, foi tronco dos suevos e saxões em torno do Báltico até as vertentes setentrionais dos Alpes. Suas aldeias lacustres, exumadas hoje na Suíça e outros lagos, foram a base do valoroso, simples e patriarcal povo germânico (de ger, lança), que ainda admiramos nas descrições de Tácito. Contra ele nada pôde o povo romano, extremamente culto, mas corrompido, que alcançou, não obstante, corromper aquelas tribos germânicas e danubianas, levando-as para suas legiões, para que elas por sua vez trouxessem sobre Roma aqueles imperadores pretorianos e funestos, que já vimos em lugar oportuno. ## M. Roso De LunaO velho lituano, língua troncal, irmã do grego e do latim e filha do sânscrito, como língua sábia, alcançou um florescimento pré-histórico ainda atestado pelas pedras rúnicas e por aquelas divinas lendas dos Eddas que soube instrumentalizar aquele bardo colossal moderno que se chamou Wagner. Povo maravilhoso, povo incomparável o povo alemão, cujos trezentos ou mais principados medievais, depois de terem esmagado o império romano, infiltraram na Europa o apego à liberdade individual, a fidelidade nos tratados, o espírito cavaleiresco, o amor à música e à epopeia, a dignidade da mulher, o culto do lar e do trabalho, o sereno procedimento analítico diante do farraguismo aristotélico, as invenções da Ásia e o misticismo genuinamente cristão, desde que aquele Adepto que se chamou Ulfilas lhes traduziu em sua língua nativa, a Bíblia. Os franco-belgas, irmãos de suevos e germanos, ergueram, como já vimos, o império de Carlos Magno, sobre as ruínas do Ocidente. Os nove grandes círculos alemães da Alta e Baixa Saxônia, Vestfália, Alto e Baixo Reno, Francônia, Áustria, Suábia e Baviera estiveram sob seu cetro, pois convém não esquecer que entre os atuais franceses, ingleses e alemães existem estreitos vínculos de origem. Mas ao extinguir-se os carolíngios, A HUMANIDADE e ## Os Césares199 os príncipes germanos ergueram na Dieta de Worms uma monarquia eletiva, cujos primeiros imperadores são conhecidos na História pelo nome de Ofônes. Uma contínua guerra com eslavos, dinamarqueses, poloneses, suecos e húngaros consumiu grande parte de sua atividade, assim como a da dinastia continuadora dos Enriques, esgotando o restante delas as lutas terríveis de seu espírito independente e franco contra as perfídias aristotélico-escolásticas dos déspotas papais, principalmente a partir de Gregório VII, Urbano VII. Güelfos, ultramontanos ou papais, e gibelinos imperiais, destruíram-se sem piedade: em suas lutas estava, no entanto, envolvido o destino futuro da Europa, porque sem elas a Reforma e o espírito de liberdade moderna não teriam sido possíveis, porque, como disse muito bem Jwm Scherr, em seu Germânia. Dois mil anos de história alemã, os povos que carecem de liberdade são precisamente aqueles que estão sempre possuídos do afã de dominar o mundo, e por isso, sempre foi o isco contra toda emancipação rebelde do pensamento e da vida, o desejo de domínio sobre a Terra e seus moradores. A anarquia mais completa dominou os territórios desde o Báltico até a Itália por obra e graça dessa luta titânica entre papas e imperadores. Assim, ao subir ao trono imperial Frederico de Hohenstaufen, ou Barba-Ruiva, cem cidades italianas ergueram-se em repúblicas; as cidades comerciais da Liga Hanseática, estendidas desde o Novgorod eslavo ao Antuérpia belga, tornaram-se onipotentes, e o estado plano de Lodi o império iniciou essa era de emancipação e de cultura que ainda se admira em instituições como as dos grandes gremiões, as dos Mestres Cantores, imortalizada também por Wagner, e as de toda classe de artes e ciências, com as quais no século XIII e seguintes alvoreceu o Renascimento, e em que brilham homens tão sobrenaturais como Dante, Petrarca, Boccaccio, Pulci, Maquiavel, Gualtério de Vogelweide, Erasmo, Reuclín, Ulrico de Hutten, Hans Sach, Bebel, Puffendorf, Agripa, Paracelso, Lieber, Wurt, Gessler, Copérnico, Kepler, Espinosa, Duero, Huss, Lutero, etc., etc., verdadeira plêiade de redentores que transformaram a tristíssima noite medieval em dia resplandecente. A casa de Áustria iniciou com os Habsburgo sua era de florescimento, desde Rodolfo, no fim do século XIII, até José II e Pedro Leopoldo José, os irmãos da infeliz Maria Antonieta; no fim do século XVIII, passando por césares, ora cruéis como Adolfo de Nassau; ora submissos aos papas, como Alberto o súdito de Bonifácio VIII; ora rebeldes, como o guibelino Enrique de Luxemburgo, Luís da Baviera e Frederico da Áustria, três vezes excomungado pelo pontífice; ora, enfim, avarentos como Venceslau; estranhos, como Frederico de Brunswick; inquisitoriais, como Segismundo; astutos, como Maximiliano, e céticos como Carlos V. Boêmia, Hungria e Suécia também perturbavam constantemente o império de acordo com a França, a eterna rival da Áustria, e de Espanha, sua companheira guerreira. Mas a hegemonia da Áustria no Império Germânico estava ameaçada de morte há muito tempo por uma nação estranha, mistura espartana de eslavos, poloneses, escandinavos e alemães propriamente ditos: pela Prússia. O prólogo de tal mudança foi a dupla loucura que pareceu assaltar o império na raiz da Reforma e de suas cruéis guerras. A loucura pelo maravilhoso e contra o maravilhoso, simbolizada nos aquelarres bruxescos e na perseguição espantosa, ao mesmo tempo, de tudo que tinha cheiro de maravilhoso ou sobrenatural. O doutor Fausto, o alquimista imortalizado pela epopeia de Goethe, era o tipo da moda daqueles reformados que haviam assassinado Servet em nome de Deus, como não ousaram fazê-lo os católicos, que, por sua vez, haviam celebrado bailes macabros, como o de Münster em 1535, sobre os cadáveres palpitantes dos não conformistas sacrificados do 201 203 ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
modo mais cruel. Mas ainda foi pior que esta a terceira loucura que se apoderou dos alemães, sempre inocentes como crianças grandes: a loucura guerreira. Para encontrar algo parecido a isso, é preciso chegar até os nossos dias do prussianismo. As lanças dos lansquenetes mercenários, soldadesca que cometeu tantos crimes na Flandres sob a dominação espanhola, e na Itália, onde, com a queda dos césares romanos, se ergueu em árbitra única do direito e até da vida dos povos. Era o culto fanático pelo Moloque de bronze: a hoje desprezível culebrina, o menino-áspero que os homens atuais de Reims dispararam, balas de até meia libra de peso, e o basilisco, o rouxinol, o grande sacarino com balas de até duzentas libras e tantos outros. Não tem, não, desperdício o parágrafo que a esta tristíssima idade consagra a citada obra do alemão Scherr: "Superam tudo que se possa conceber, diz, os crimes que naquela época se cometiam em nosso solo alemão, e tudo que o povo alemão teve que sofrer da escória da Europa vestida com o uniforme de soldado, pois só uma fantasia verdadeiramente diabólica e desumana poderia inventar os tormentos que na mencionada guerra sofreram os habitantes de todas as idades, sexos, condições e povos. Uma cobiça impiedosa, uma crueldade finíssima e uma ardente sede de sangue, aliada a uma lascívia selvagem, uma furiosa inclinação para destruir e uma ferocidade inconcebível." "Tal acúmulo de horrores dificilmente foi contemplado em qualquer tempo e em qualquer lugar pela segunda vez. Dois autores contemporâneos, Grimmebhausen, em seu Simplíssimus, e Mascherosde, em suas Visões de Fz"landro, nos pintaram a vida dos soldados daquela época sangrenta, própria na realidade de bandidos desenfreados; mas as cores usadas por eles mal possuem o horrendo tom da realidade e, apesar disso, suas descrições nos causam tal impressão, que nessas hordas selvagens não vemos, não, seres humanos, mas verdadeiros demônios, hosts de entes diabólicos, para os quais até o mais monstruoso, os roubos, incêndios e violações, os tormentos e assassinatos em todas as formas imagináveis, não eram outra coisa senão inocentes brincadeiras. Tal é, em todo o esplendor de seus horrores, a fúria da guerra dos trinta anos, fúria conhecida mais especialmente na conquista de Magdeburgo pelos exércitos da liga católica em 1631. Essa conquista foi, como todos sabem, uma verdadeira destruição: sobre as ruínas da cidade incendiada jaziam assassinados cerca de trinta mil de seus habitantes. O fanatismo de alguns católicos demonstrou ali, sob 202 ## M. Roso De Lunao comando de Tilly e de Pappenheim, o que eram suas obras de amor cristão. Contudo, logo o protestantismo não teve nada a invejar em termos de crueldades àqueles outros sectários. Os partidários da Bíblia e os do Breviário competiram, pois, numa ferocidade até imprópria para caribes ... " (pág. 279 da tradução espanhola de Montaner y Simón, Barcelona, 1882.) Aqui termina a Áustria imperialista e começa a Prússia, ainda mais imperialista. Falaremos sucintamente dela no artigo seguinte. ## Xxii
O Império Prussia
Em meados do século XIII, reinava na Alemanha Frederico Barbarossa, da ilustre casa dos Hohenstaufen, casa rival do papado, que acabou na forca de Nápoles com Conradino da Suábia. Aliado da mesma montanha alpina onde se assentava o castelo solarengo desses guelfos, ergueu-se também desde o século XI outro castelo de senhores feudais, salteadores de estradas como muitos outros da Idade Média: o dos Zollern. Certo dia o filho mais novo da casa, Conrado o aventureiro, deixou seu solar e passou para a Corte, onde achou graça aos olhos de Frederico, tanto que seu bisneto, o burggrave Frederico II, já foi reconhecido como príncipe hereditário alemão. Muito cedo, diz Scherr, concederam os mais altos honores à casa, pois aqueles Hohenzollern eram os homens mais próprios para pegar pelos cabelos Frau Saelde ou ,f 207 ## M. Roso De Luna
'A Humanidade E Os Césares'
a deusa da fortuna, sobretudo em tempos como os séculos XIV e XV. Senhores econômicos e práticos no comércio do mundo, sempre contavam com dinheiro, virtude que em todo tempo tem sido a mais eficaz entre os homens. A sagacidade, o gênio empreendedor e os recursos metálicos de que dispunham, foram mais que suficientes para que o burgrave Frederico VI, aproveitando-se do conturbado reinado do imperador Segismundo, e de Bárbara, a Mesalina do Norte, obtivesse, em 1415, o cargo de marquês do eleitor de Brandemburgo, e arcicamarista do sacro império romano. Quase trezentos anos depois, em 1701, o eleitor Frederico III pôs em Koenisberg a coroa real da Prússia, e cento e setenta anos depois, em 1871, o rei Guilherme foi proclamado imperador dos alemães no palácio francês de Versalhes. Rápido foi, de fato, o progresso da família do jovem aventureiro Conrad para ultrapassar o trono imperial da Alemanha e para pretender, poderia acrescentar-se hoje, o império da Terra toda, como canta o célebre hino Deusche über Land. Prússia sobre o planeta: a Humanidade sob o César, e até o Sol mesmo, satélite também da Terra e de seu deus! ... A humanidade, pobre rebanho com lobos por pastores, nunca aprende. Recente ainda estava, ao fundar-se a militarista Prússia, a lembrança daqueles landsknechts guerreiros defensores de horrores apocalípticos, como já dissemos. Ainda se recordava que de 1636 a 1637 foi tamanho o desastre humano, que houve antropófagos de ambos os sexos na Alsácia, Hesse e Saxônia, e não somente se desenterravam os mortos, como também se caçavam os vivos para matá-los e devorá-los. Houve pai que matou e comeu seus próprios filhos. A população pereceu por causa da miséria; as regiões despovoadas transformavam-se em tocas de animais selvagens, e, segundo cálculos confiáveis, em dois anos e só na Saxônia, havia morrido um milhão de homens pelo ferro, o fogo, a fome e a peste, e em Württemberg cerca de meio milhão, isto é, quase a totalidade dos seus habitantes, ocorrendo o mesmo no Palatinado, Turíngia, Francónia, etc., etc., a tal ponto que nesta última se permitiu legalmente a bigamia mexicana como meio expedito de repovoar aqueles desertos guerreiros ... E, no entanto, acima da clássica Alemanha austríaca, surgia já o fantasma negro de outros condutores de povos ao cruel sacrifício humano das guerras. Prússia a imperialista, que hoje tem em luta mais do que nos próprios tempos da guerra dos trinta anos, quase a metade dos povos da terra, com todas as horrendas realidades que já mencionamos e as mais do que risíveis esperanças de que a catástrofe se amplie e se multiplique em termos inauditos, para alcançar as proporções das catástrofes geológicas, como aquela que sepultou a Atlântida ... A Marca de Brandemburgo ou zona báltica de Koenisberg foi antes um feudo da histórica monarquia polaca dos Lesko, pessoas de períodos políticos muito conturbados como aquele de Boleslao, em que correram rios de sangue até tal ponto que os Papas castigaram a Polônia fazendo-a perder o título de remo. O crescimento do reino da Prússia é uma maravilha do poder do homem, diz Cantú. Reino sem fronteiras naturais, sem laço de idioma nem de raça, foi constituído unicamente pela guerra e pela política, e, acrescentamos nós, pela guerra e pela política deverá acabar, pois é uma superfetação do grande organismo alemão que parece criada pelos poderes negros do mundo para fazer pagar seu karma respectivo às nações. Com a paz de Thorn, como só se andava no positivismo, deixou de ser independente a Prússia, que, com sua disciplina militar, havia predominado sobre a heterogênea monarquia austríaca, assim como o bom senso prático da Inglaterra triunfara da indolência espanhola e da frivolidade francesa. Grande parte dela foi incorporada à Polônia por espaço de três séculos, enquanto a parte oriental continuou sob domínio da Ordem Teutônica feudal de Polônia, que teve de se secularizar aparentemente no tempo da reforma, mas que ficou tão monacal e imperialista no fundo como o fora antes, constituindo um berço de intrigas e farsas egoístas das quais não podemos nos ocupar. Quem quiser conhecer o espírito tradicional prussiano, que leia a biografia do grande eleitor Frederico Guilherme, fundador da monarquia. Enriquecido pela catástrofe que terminou a paz de Vestfália, humilhado por suecos, holandeses e polacos, sacudiu o jugo feudal da Polônia; entronizou o mais despótico absolutismo; aliar-se-ia com a França, que tanto fizera por ela sem calcular a serpente que com isso criava e que haveria de mordê-la com o passar dos séculos; venceu de forma tremenda os suecos, tidos até então por invencíveis, e quando foi revogado o édito de Nantes naquele país, teve o cuidado de acolher vinte e cinco mil fugitivos, sem contar os inúmeros judeus expulsos da Áustria; moralizou a administração, criou a marinha e o comércio exterior e enriqueceu o erário. Seu sucessor Frederico III foi um verdadeiro Mecenas para ciências e letras, aconselhado pelo grande Leibniz e pelos primeiros poetas alemães que iniciaram o século de ouro da Prússia até tornar Berlim a Atenas do Norte; Atenas que, como diz Cantú, muito cedo se transformou em Esparta pela mania militarista de Frederico Guilherme I e pelo espírito brutal e quase guerreiro de seu ainda incipiente Napoleão, que em seu furor imperialista quase desfez a florescente monarquia de Frederico Guilherme III, em Lena, Eylau e Friedland, apesar daquele precursor de Moltke chamado Blücher. A paz de Tilsit a despojou de metade do território. depois da entrada de Napoleão em Berlim. Federico, depois de Waterloo, entrou vitorioso com seus aliados em Paris, aprendendo assim o caminho que voltaria a percorrer a nação guerreira em 1870 sob a liderança política de Bismarck, aquele maldito positivista que dizia que as grandes questões de nossa época não se resolviam com Cortes nem discursos, mas pelo ferro e pelo fogo; ferro e fogo empregados primeiro para despojar a Dinamarca; depois, para humilhar a Áustria em Sadowa; depois, para humilhar a França, e hoje, em... Mas, ó cruel espejismo de todos os despotismos militares!, as primeiras palavras do rei da Prússia Guilherme I, na Dieta de Berlim, depois de ter-se coroado imperador da Alemanha no próprio Versalhes, foram, no entanto, estas: " O espírito que anima o povo alemão é o de evitar todo abuso das forças que por sua união adquiriu. O mesmo respeito que exige a Alemanha para sua própria independência, concede também à independência de todos os outros Estados e povos, tanto aos fracos como aos fortes. A nova Alemanha surgida da prova do fogo pela guerra será a salvaguarda segura da paz europeia..." Como e por que ocorreu exatamente o contrário, sob o cetro de seu neto Guilherme II? Nada mais lógico, fatal e kármico. O próprio Scherr, historiador imparcial, encarrega-se de nos dizer isso nestas profundas palavras: "O ano de 1850 marcou exatamente a transição do idealismo alemão (herdado da Inglaterra) ao materialismo. O ano de 1848, que deveria ter trazido ao povo alemão a realização de seus ideais de liberdade e unidade, apenas trouxe desenganos. O liberalismo, principal defensor das esperanças e desejos da pátria, havia sido tão incapaz quanto covarde. A democracia fez tentativas impotentes, que o absolutismo triunfante castigou com sanguinária crueldade." "Cedia diante da força bruta, aprendendo, segundo dizia, a se conformar com o fato, desprezando o devaneio", segue dizendo Scherr. A política positiva que parecia então única verdadeira e conveniente resumiu-se nestas incolores palavras de "oportuno" e "inoportuno", e com isso prosseguiu impassivelmente seu caminho. Então manifestaram-se, por consequência lógica, todos os fenômenos próprios de uma época de desilusão, relaxamento e envilecimento. A reação triunfou: os governos vingaram-se do pavor que lhes haviam incutido as teorias liberais, fazendo imperar novamente o obscurantismo. A Alemanha foi o teatro favorito das proezas jesuíticas: os conventos brotaram como cogumelos nas províncias católicas e até nas protestantes. As exigências cada vez maiores da Santa Sé foram consentidas e fomentadas com a mais humilde devoção pelas cortes, especialmente a da Prússia, fazendo concessões iguais a... a ortodoxia protestante. Mas, ao ritmo dos interesses do clero, caminhavam os interesses materiais. Em ambos os sentidos, isto é, no esforço de renovar o domínio do obscurantismo, como no de aviltar os ânimos, impulsionando-os aos prazeres materiais e ao lucro, os governos alemães imitaram seu celebrado modelo, Napoleão III, o impúdico criminoso de 1851. As consequências de tal conduta não demoraram a surgir. A sociedade, lançada desenfreadamente à caça da felicidade, isto é, do ouro, já que não conhecia outros bens que os proporcionados pelas riquezas, , ## Os Césares213 transformou-se numa sociedade de furiosos tubarões. Da Bolsa partiam todos os oráculos daquela época infame, que parecia ter perdido toda noção de honra e de consciência. A construção de ferrovias, conquista brilhante do século, tornou-se uma verdadeira voragem de fraudes e especulações. A sociedade anônima que manejava o capital não era senão uma instituição organizada de ladrões: os pícaros roubavam com a lei na mão em plena luz do dia. O industrialismo exagerado e febril arrancou da agricultura os braços necessários a ela e lançou nas cidades insalubres uma infinidade de proletários, preparando em seu estúpido egoísmo o terreno onde haveria de germinar e crescer a erva má do comunismo. Às lições de Manchester deve-se o fato de ter nascido na Alemanha não a idade de ouro, mas a da papelada, e que a tão cantada "liberdade industrial" tenha convertido os produtos alemães, tão estimados um dia no exterior, em objetos de falso brilho. Os estragos morais do materialismo foram terríveis: a fraude e o engano mostravam-se cinicamente à luz do dia. A relaxação moral infestou igualmente a legislação, sendo imputável à sensibilidade intempestiva dos novos legisladores o crescente número e crueldade dos delitos. Mas onde mais se notaram os efeitos deploráveis do materialismo 214 ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
foi nas mulheres. O desejo, a necessidade de luxo e prazer apoderaram-se das mulheres alemãs, casadas e solteiras, mesmo naquelas classes da sociedade onde sequer se suspeitava da existência de tal peste, e o incrível aumento dos infanticídios confirmou a antiga verdade de quão breve é a passagem da dissipação ao crime. Deve-se confessar também que, observadas de perto, as vantagens da educação moderna diminuem e se reduzem notavelmente. "O que as massas ganharam por um lado em saber, ou saber pela metade, perderam por outro em bom senso, em respeito ao dever, em amor ao trabalho, em sobriedade e em honestidade. Na ciência, o materialismo vive felizmente aderido à consciência de sua infalibilidade, e embora ninguém negue alguns de seus méritos científico-experimentais, tampouco ninguém poderá negar que a investigação materialista recordará sempre o dito de Mefistófeles de que "CM voul conoscere e descrt'vere ció che vise) etc.", e que a necessidade de um laço espiritual se impõe de tal modo à nossa consciência, que é inevitável, porque até aos partidários da "matéria atômica" lhes foi preciso admitir neles uma espécie de alma com a "força", embora antes se vangloriássemos de ter "expulso da ciência a patranha de um pretenso espírito", já que no que toca a vangloriar-se sempre foram mestres os cavaleiros do balão vivificante e do microscópio infalível, sobretudo quando os fogosos discípulos de Darwin pregavam a teoria da descendência símia, com o que as pessoas cándidas puderam por um momento acreditar que já estava descoberto o enigma da vida, o porquê dos porquês, e levantado o Véu de Ísis. Mas o boi materialista, não obstante, continuava ainda perplexo ao pé daquela montanha sagrada para a qual a águia idealista elevou seu voo" ... Verdade, leitores, que estas linhas, escritas no século passado, e por um historiador alemão, poderão reproduzir-se como uma novidade quando passar este cataclismo e se fale do estado atual das consciências ao começar o século XX? 21 5 A HUMANIDADE e ## Xxiii
O Império Futuro
Fácil é concluir, depois de lidas as epígrafes que antecedem, qual deve ser o porvir dos povos assim que a almejada paz ponha término aos horrores atuais. Esse porvir se encerra num dilema, que é este: Império da Força Militar ou Império do Direito, dilema que não é mais nem menos do que o eterno dilema do homem sobre a Terra, pois que, ao longo de sua vida, ou deve limitar-se a uma vida meramente vegetativa e animal, como acontece com tantos, ou deve pretender o alçar-se valente a esferas mais excelsas, como verdadeiro titã que aspira a realidades ulteriores que o aproximam desse estado de verdadeiros deuses, intuído por todos os gênios da humanidade, com Platão e com Jesus à cabeça. "Deuses sois. E o tendes esquecido", se nos disse por estes, e mal poderemos aspirar ao "-- ## Os Césares217 tal estado, como homens em particular, se não nos esforçamos para que os povos como conjuntos se regam igualmente, não por leis de força bruta, mas por leis de Direito. Já nos ensina o próprio Cícero nessa não estudada página teosófica que se chamou O Sonho de Cipião, página na qual, através de um nobilíssimo amor pátrio, se translucida esse mesmo critério. Ali, de fato, disse-se-nos, dois mil anos atrás nada menos: "Para o Deus principal que rege todo este mundo, nada do que sucede na Terra é mais agradável do que as associações humanas unidas por vínculos de Direito; os que assim fazem, daqui, dos Campos Elísios, saíram e aqui voltam ... Essa vida é a que conduz verdadeiramente ao céu, e a essa congregação de homens que viveram, e que, livres do corpo, habitam os lugares que estás vendo. ti E nisso, talvez, resida um dos maiores benefícios que da atual catástrofe a humanidade deve derivar. Antes da catástrofe, de fato, ultrapassavam a uma centena as nações independentes que deveriam entrar como fatores nessa grande integral que há de chamar-se o Direito Internacional novíssimo. Hoje, em contrapartida, elas estão de fato reduzidas a três ou quatro grandes grupos, cinco no máximo, a saber: De um lado a Alemanha, cujo influxo militar e moral bem pode 218 9 ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
dizer-se que se estende desde o Báltico e o Mar do Norte até o Golfo Pérsico e o Mar das Índias, através de todo o império germânico, Áustria, Sérvia, Bulgária, Turquia e Pérsia. Do outro lado, as nações aliadas agrupadas em torno da Inglaterra, e, por fim, o conjunto de nações dispersas que, por maravilha do Destino, ainda puderam permanecer neutras, como restos milagrosamente salvos dos horrores do mais colossal dos incêndios. Além desses três grupos, fica a América, cujo pan-americanismo é em si um enorme passo dado no caminho das grandes associações de nações livres, astros do firmamento da Humanidade que giram em torno dos Estados Unidos, ou no máximo dos dois centros da América do Norte e do Sul, constituídos a título das duas raças principais que outrora operaram a colonização: a espanhola e a anglo-saxônica. Este estado de Direito chamado pan-americanismo já se havia delineado anteriormente em decorrência da queda colonial da Espanha, e se tem fortalecido cada vez mais por motivo dos últimos conflitos de raça entre o México e os Estados Unidos. A chamada luta comercial ou de interesses contribuiu não pouco para estreitar os vínculos entre esses quatro ou cinco grupos. De acordo em tudo, marcham hoje as nações rivais da Alemanha, assim como entre as nações sequazes desta última não se vê outra vontade que a sua. De acordo, a mais completa, também caminharam desde os primeiros dias os três países escandinavos, e uma só vontade mostraram nestes dias povos antes mortalmente inimigos, como o Japão e a Rússia. A ocasião, pois, não pode ser mais propícia por este lado. É certo, infelizmente, que no seio de cada um dos citados grupos latem interesses inferiores, antagônicos, que no dia da paz talvez possam emergir; tendências comerciais opostas; antigos ódios inexterminados de raças; nacionalidades mal unidas e entrelaçadas entre si mais pela força que pelo afeto; povos que ainda se detestam - de modo latente, apesar de estarem unidos perante o perigo comum, etc., etc.; mas tudo isso é muito natural, muito humano, e sem isso o problema não seria problema. O partido da unificação do Direito Internacional, já muito avançado antes da guerra, tem já estabelecido marcos inabaláveis contra os quais não pode, não, prevalecer força alguma destrutiva, como está sendo vendo, não obstante a própria guerra, e conste que não falamos do Tribunal de Haia, nem de outros tribunais, como o Misto que funciona no Egito com grande benefício para o mundo inteiro. ! 21 220 ## M. Roso De Luna
A Humanidade E
Refiro-me apenas a outros marcos que já constituem os fios da trama para o futuro tecido. Enumerar todos esses marcos seria uma tarefa árdua. Basta ao nosso propósito recordar de passagem apenas alguns, os mais importantes. O Código de Comércio pode-se dizer que hoje é um só em todo o planeta. O mar, desde as famosas leis de Oléron e o Consulado do Mar, etc., tem uma lei única, contra a qual nenhum imperialismo terrestre ou marítimo pode já fazer nada, e conta com que o Ocêano cobre quase quatro quintos do planeta. Um só invento recente: o da radiotelegrafia, assegurou o império da humanidade sobre o oceano quase tanto quanto a própria navegação, pelas seguridades, infinitamente maiores que antes, por ele dadas ao tráfego marítimo. Uma é, pode-se afirmar também, a rede ferroviária do mundo. Ninguém meditou o suficiente sobre o que são nem o que significam essas duas linhas paralelas de ferro uniformemente distribuídas pelo âmbito terrestre e para as quais são uma ilusão as distâncias e as fronteiras. Outra instituição gigante também se entronizou sobre o planeta. Seus frutos futuros não se conhecem bem, porque virão a ser, se já não o são hoje, algo assim como o sistema nervoso do organismo da Humanidade. Refiro-me ao correio e telégrafo internacionais, com suas infinitas derivações de economia e giro postal internacional, transportes internacionais e outras que hoje nem sequer sonhamos, mas que um grande poeta futuro cantará com acentos calorosos de epopeia. Outro passo adiante rumo à grande síntese humana é também, sem dúvida, a especialização das indústrias e dos cultivos agrícolas por povos e zonas climatológicas, que é consequência necessária do comércio internacional. Já se viu nesta guerra que um dos sofrimentos mais intensos da Alemanha foi a falta de dois artigos tão indispensáveis quanto o pão e a carne, assim como grande parte dos desastres russos se devem ao seu isolamento por terem sido cortadas pela guerra suas duas vias marítimas do Mar Negro e do Báltico, isso sem detalhar privações análogas que afetaram de modo mais complexo tanto neutros quanto beligerantes. E se dos fatores materiais da grande síntese humana passássemos aos de índole moral, a lista se prolongaria excessivamente, porque, diga-se o que se quiser, ainda existem, por fortuna, sentimentos religiosos e morais entre os homens que tremulam sobre suas paixões mais horríveis e violentas. Muito haverá a fazer nesse sentido a reforma 222 ## A Humanidade E Os Césares
M. Roso De Luna
religiosa que a passos largos se avizinha. Que o diga, senão, a reprovação quase universal que mereceram às almas boas certos procedimentos empregados, tais como os horrores na Bélgica, a campanha submarina, certos maus-tratos aos prisioneiros e cem outros horrores de pesadelo que a Humanidade deverá esquecer, ou melhor, considerar como não ocorridos, em troca de que nunca mais se repitam. Diga-se também o despertar dos sentimentos religiosos, que jaziam sepultados sob uma férula materialista e cética, a mais afastada, apesar das aparências, dos ensinamentos dos grandes instrutores do mundo. A Religião, transformada em hipocrisia, em superstição, em comércio, não podia conduzir senão à guerra que presenciamos, e onde brilhou mais do que tudo pela sua ausência o verdadeiro cristianismo, todo paz, toda piedade, todo amor e fraternidade nas puras quanto desnaturalizadas e escarnecidas ensinanças do Evangelho. O mundo, por mais que pese ao funesto militarismo e ao agressivo patriotismo de uns contra outros povos, é já um em muitíssimas coisas e aspira a ser um e solidário em todas as demais. Já vimos que o era em comunicações, em comércio e em outras várias coisas, e pecaríamos de triviais se continuássemos com tal enumeração. Uma já é a Ciência no planeta; a Arte nele também é uma, e seus maiores deuses em música, poesia, literatura, etc., têm altares comuns em todos os corações dos homens verdadeiramente livres e dignos de tal título de homens. Quem a tais esferas consegue elevar-se não pode já sentir-se estrangeiro em país algum, mas verdadeiro ser cosmopolita e irmão de todos os homens e filho de todas as pátrias, não obstante o casto sentimento interno de culto amoroso ao respectivo país onde nasceu e formou seu ser físico, intelectual e emotivo. Se a unificação em Ciência, Arte, procedimentos industriais, comerciais, etc., a unificação do planeta inteiro é já um fato notório, por que não haveria de ocorrer o mesmo na esfera jurídica? Enquanto isso não acontecer encontraremos um lamentável estado de anormalidade e teratologia. Precisamente a necessidade de unificação jurídica, que é um dos postulados humanos mais inevitáveis, tem sido sempre buscada, senão pelo caminho fisiológico, pelo patológico e doloroso. Desde esse estado selvagem que nossa pouco documentada ciência atual quer fazer passar por primitivo, sendo como fosse ele, o resultado da queda de uma excelsa cultura, os homens não fizeram senão trabalhar, sem-se dar conta, para ampliar o raio do Direito, e tantas vezes que tal lei evolutiva foi detida ou contrariada, outras tantas surgiram, a modo de dolorosa revolução, as guerras. O lar ariano, célula a mais fundamental e primitiva das organizações humanas, assentou-se, como é sabido, na família, passando depois à agrupação gentílica ou clã, sob a autoridade do patriarca e seu conselho. Jurídica e socialmente foram-se ligando umas às outras... outras as tribos, a tentativa de constituir esse estado de avançadíssimo progresso que se chamou a cidade. À maneira do ponto de apoio que Arquímedes desejava ter para levantar com sua alavanca o mundo, sempre os organismos privativos nos quais encarnassem sucessivamente as supremas sínteses do Direito, buscaram como ponto de apoio para elevar-se a um estado jurídico superior e de raio mais amplo, entidades mais altas, ora com a federação de cidades para empreendimentos comuns, ora com a agrupação por classes, ora por outros modos que aqui seria desnecessário detalhar. A Idade Média passou-se inteira nesses valiosíssimos esforços, e até conseguiu sínteses muito notáveis com associações amplíssimas, tais como a Hansa teutônica, e até com essa sombra de estado internacional cristão que surgiu da poderosa mente de Gregório VII ~f ~ -1-. e que teria sido salvador, sem dúvida, não fosse carregar em si o vício de origem que já pontuamos no respectivo epígrafe. A emancipação americana, que foi outro dos pilares poderosos assentados pela Humanidade ao sair desse crepúsculo da Idade Média que se chamou Idade Moderna, estendeu de modo notável a nova fórmula federativa à base de duas nações juvenis, de porvir imenso: os Estados Unidos norte-americanos e a Federação Argentina, ao lado dos quais pode também contar-se o Brasil, desde 1889, quando ocorreu sua revolução. Ao inclinar-se assim a balança do Destino para o lado da América, a Federação de Estados europeus é de uma necessidade lógica ineludível, e talvez a guerra não tenha sido senão a preparação para esse efeito. Quem se atrever a duvidar destes últimos asertos que medite apenas sobre a intensa comoção operada no mundo pela Revolução francesa, e cujas doutrinas jurídicas e sociais, tão renovadoras, foram levadas a toda Europa por aquele monstro do Destino que se chamou Napoleão. Talvez esta guerra provoque um efeito análogo, implantando no mundo, não já o militarismo prussiano, condenado fatalmente a morrer como todos os males mais ou menos necessários, mas muitas das ideias e sentimentos da Alemanha do século XIX, dignos de uma maior difusão pelo planeta. ## M. Roso De LunaEntre esses elementos aportados pela Alemanha ao mundo e que não vamos aqui enumerar, há alguns como a Química; os foguetes aéreos; as novas fórmulas de radiotelegrafia; o espírito de disciplina social, de economia e sacrifício; sua música incomparável; sua filosofia e sua organização, que supõem um efetivo progresso sobre as velhas fórmulas, como reconhecem até seus próprios inimigos. Outro elemento, nada desprezível, é sua língua, que em mérito intrínseco só pode ser comparada com a latina ou outras várias da sábia antiguidade. Todos esses méritos alemães deverão entrar com a devida ponderação na grande síntese futura, associados aos não menores dos outros países: ao self-government inglês, que não se sabe o que vale até que não se... perde; às proverbiais qualidades francesas, e a essa profundid<td sem fundo da alma russa, ainda pouco estudada pelos povos do Ocidente, Choro às influências que do Oriente devem nos trazer povos como o Japão, que souberam colocar-se em primeira linha no mundo em menos de meio século. Quem estabelecerá a sanção sem a qual, ao dizer de diversas escolas, a vida do Direito é impossível? – haverá de perguntar alguém. A HUMANID \D e ## Os CésaresA isso pode-se responder que na própria vida social há multidão de relações de convivência que, sem serem estritamente jurídicas, parecem sê-lo e sem ter em seu apoio uma sanção legal contam, no entanto, com ela na prática. A reprovação universal já é por si só uma sanção tão grande, que na maioria das vezes dispensa toda outra verdadeiramente jurídica. A consciência coletiva está criando rapidamente costumes, e estes determinarão, ao fim, estados de Direito. Além disso, restaurada a verdadeira consideração do que o homem deve à Humanidade após esta guerra, certas violações do direito internacional terão que ser impossíveis... por instintos de conservação. Sempre será possível, por outro lado, como nas discordâncias entre particulares, fazer cair o peso inteiro dos países neutros sobre aqueles que, movidos pela paixão nacionalista, pretendam voltar às guerras. Além disso, se as leis sociais são leis naturais mais ou menos desconhecidas, e se a aparição do fenômeno guerra não significa na vida do organismo da Humanidade senão o que a doença no organismo físico, a guerra é tão evitável com uma boa higiene social como o são as doenças em um bom regime de higiene integral, de higiene médico-sociológica. 228 ## M. Roso De LunaO fato em si, está demonstrado pela história. Assim que se cria um organismo superior de direito, os ódios determinantes das guerras anteriores passam a um plano inferior de latência até que morrem, sem mais voltar a exteriorizar-se em fatos de ostensiva luta. Vede, senão, o que outrora acontecia entre povos vizinhos, de uma mesma comarca; entre comarcas vizinhas de uma mesma região e entre regiões limítrofes de um mesmo reino... A Humanidade, como a Natureza, tem suas estações, e se a noite da Idade Média não foi senão um inverno cruel e a Idade Moderna um despertar, a futura idade pode muito bem ser uma primavera para o mundo e nela ressurgir todas as delícias de um passado pré-histórico, como o da Atlântida, que se acreditaria para sempre perdido. De todas essas coisas, falou-se mais do que nossa vaidade ocidental acredita nos mais antigos livros do Oriente, porque para tais inestimados monumentos da antiguidade sábia a Ciência era uma e abrangia em síntese suprema tudo o que se refere à Natureza, à Humanidade e ao Homem. Precisamente, até o ponto concreto das guerras entre os povos têm também um personagem-símbolo, merecedor de um estudo especial por si só que hoje não podemos fazer. ## A Humanidade E Os Césares229 "Entre tantos caracteres incompreensíveis que sobressaem no Mahabharata e nos Puranas, diz Blavatsky, Narada, o antigo rishi védico, espécie de Loki ativo que guia e dirige os assuntos humanos, é o mais misterioso sem dúvida... Seu caráter estranho chegou a chocar até o próprio sir William Jones, ilustre sanscritista, que o compara com Hermes e Mercúrio, chamando-o de 'o mensageiro eloquente dos deuses'. Narada é um dos caracteres mais proeminentes... É ele quem regula a vida de todos os povos em suas desgraças e quem determina o começo e o fim das guerras entre os homens." Semelhante personagem do Mito ariano, não é para nós, no que diz respeito aos problemas da luta entre os povos, como manifestação patológico-social, senão o que poderíamos chamar o Inconsciente do organismo mundial que lá no fundo da Humanidade, como conjunto, preside todas as manifestações da vida dos povos, do modo como o Inconsciente humano preside também às operações mais profundas, mais íntimas, mais intensas da vida em cada um de nós. Aquele Inconsciente Supremo decreta a paz e a guerra assim como nosso Ego interior às vezes decreta a doença e a febre como recurso curativo contra as anormalidades do nosso ## M. Roso De Luna
A Humanidade E Os Césares
organismo, ameaçado às vezes de morte por tais germes, sem que saibamos. E já postos no terreno espinhoso das profecias, nas quais se chegou até o ridículo, sobretudo pela parte francesa, copiaremos, por cheio de ânimos e de doces esperanças, um trecho do livro IV capítulo XXIV do mais famoso dos comentários Védicos, que se chama Vishnu-Purana, profecia que, ainda que não se confirmasse em sua segunda parte, ao menos na primeira — na pintura que se faz da época atual — não está desperdiçada. Copiamos da seção VII, tomo I da Doutrina Secreta, quando o grande Krishna prevê a Maitreya algumas das sombras e pecados deste Kali-Yuga ou Era Negra, que tem reinado até nossos dias, sem dúvida: "Nos dias em que os mlechchhas (europeus) já forem donos das margens do Indo, Caxemira e Chandrabhaga, haverá monarcas de espírito ruim, gênio violento, mentirosos e perversos. Darão morte às mulheres, às crianças e ao gado. Seu poder será limitado (¿constitucional?), suas vidas serão curtas e seus desejos insaciáveis... Pessoas de vários países, misturando-se com eles, seguirão seu exemplo; as pessoas puras serão desprezadas e o povo parecerá, porque os mlechchhas ou bárbaros estarão no centro e os arianos nas extremidades... A riqueza e a piedade diminuirão de dia para dia, até que o mundo se veja depravado por completo... Então a propriedade será tão somente aquela que conferirá o status; a riqueza será a única fonte de devoção; a paixão animal o único laço de união entre os sexos; a falsidade será o único meio de sucesso nos litígios, e as mulheres objeto de satisfações puramente sensuais. A mera exterioridade será a única distinção entre as várias ordens ou esferas sociais, e a falta de honestidade o meio mais expedito e universal de subsistência; a fraqueza, a causa de cair em dependência; a ameaça e a ostentação suplantarão o lugar da sabedoria; a liberalidade mais pródiga será tida por verdadeira devoção; se um homem for rico, imediatamente terá reputação de puro; o assentimento mútuo e comercial será casamento; vestimentas ricas darão dignidade; o mais forte pretenderá impor-se contra a justiça, e o povo, não podendo suportar os encargos, emigrará... Deste modo, na Idade Kali a decadência moral continuará constantemente, até que a raça humana se aproxime da sua extinção... Quando o fim desta negra era estiver próximo, descerá sobre a Terra uma parte daquele Ser divino que existe em sua própria natureza espiritual, dotado das oito faculdades supremos... Ele restabelecerá a justiça 23 2 ## M. Roso De Lunasobre a Terra, e as mentes dos que viverem no fim dela serão puras como o cristal, e os homens assim transformados serão como sementes de uma nova raça que seguirá as leis da Idade de Ouro ou da Pureza, para transformar o mundo". Dois elevados Seres, dois Deva-pi, voltarão à Terra, para a felicidade dos homens"". (1) Que tudo isso é pura fantasia?—Não nos importaria nada concedê-lo, porque em dias tão tristes como os presentes vale mais sonhar do que render-se como bestas covardes diante de uma realidade sangrenta, miserável e abjeta, que não pode, não, continuar, mas que é algo assim como as dores de parto de uma era novíssima. Que há de particular, por outro lado, que um fato, indisputável no passado, possa repetir-se no porvir, e mais num porvir que o necessita como nenhuma outra época da História?.. Referimo-nos ao nascimento, à vinda de um ou vários desses irmãos maiores da Humanidade, surgidos sempre no momento oportuno em que a Humanidade os tem necessitado, sob pena de cair na abismo. (1) Wilson: Vishnú Purana, Max Müller: Matsya Purana, cap. CCLXXIII Bhagavata Purana, Vayu Purana, etc., skanda XII. A HUMANIDADE e ## Os Césares233 Um povo cheio de méritos tanto quanto de defeitos: o povo hebreu, sempre esperou um desses seres à guisa de seu Messias. Na época de dom João II de Castela, uma esperança análoga agitava os povos, nem mais nem menos do que os agitasse nos miseráveis dias do milênio, poucos séculos antes, e em uma como em outra ocasião, os anseios da Humanidade desvalida e necessitada não se viram frustrados, porque não um, mas muitos seres nobilíssimos, uma verdadeira plêiade de redentores e renovadores vieram ao palco de a História, operando o renascimento. Lembrem-se, se não, assim, de uma vez só, de Galileu, Kepler, Leibniz, Newton, Giordano Bruno, Savonarola, Paracelso, João Huss, Jerônimo de Praga, Lutero, Colombo, Copérnico e mil outros revolucionadores do céu e da terra, que já o cantou com sua intuição sublime nosso Castelar, quando disse: "Assim como a Bíblia foi completada com o Evangelho, o Evangelho, por sua vez, será completado por novas revelações, e depois da ideia do Pai e do Verbo, virá a do Espírito, para trazer um novo dia ao mundo e derramar sobre a Humanidade, regenerada e livre, novas e consoladoras esperanças." Será isso verdade? Será apenas um belo sonho? Cada um pense o que quiser, mas para nós é indubitável que vale mais sonhar do que dobrar vil e abjetamente o joelho perante os Césares da terra, vindos à vida para castigo de nossos pecados e para açoite de dor que nos desperte de nossos marasmos e nos eleve com o estímulo da dor para os ares de uma nova vida, tanto mais humana e mais gloriosa quanto mais nos elevar de umas leis animais, às quais por inteiro nos quiseram submeter em má hora uns desafortunados discípulos de Darwin e de Lamarck, que teriam envergonhado seus nobres mestres se estes os tivessem conhecido. ## EpílogoOs artigos anteriores, como filhos que são da sinceridade, estão escritos ao correr da pena, isto é, espontaneamente. Será em vão, portanto, que o leitor procure neles o plano, o método, de um verdadeiro livro acerca das tristíssimas circunstâncias por que hoje atravessa o mundo. Seu conteúdo essencial está compendiado em seu título: Ou a Humanidade, ou os Césares; ou o Direito ou a Força bruta; ou o bem pelo bem e para o bem, ou o eterno e triste karma de justiça que açoita os povos por turno, fazendo-os pagar em cada época exatamente o mesmo que eles fizeram com outros anteriores, ao longo da História. Talvez haja ali alguma dureza de expressão, filha da mesma sinceridade; mas esta deverá ser perdoada porque não nasce do ódio nem do fanatismo, mas de um ardente anseio de que homens e povos ## Epílogodespertem para a vida da verdade, ensinados pelos cruéis castigos da vida, ao longo dos séculos. O fim não pode ser mais humano nem mais religioso no fundo, porque trata-se de separar o ouro da escória, isto é, o sublime conteúdo salvador encerrado no fundo de toda ideia religiosa, da escória de perdição com que costuma cercar essa ideia o espírito maldito de quantos, ao longo das eras, têm comerciado com ela, utilizando-a como arma exploradora e de disfarçados imperialismos... Os eternos mercadores do Templo, aos quais Jesus lançou irado! Um sentimento profundo e sério acerca do salvador alcance da Fraternidade de homens e povos é o único que pode, para o... futuro, lançar as bases de uma mais bela Idade. A guerra atual precipitou, sem dúvida, semelhante desfecho. De hoje em diante, uns e outros não deverão esperar a redenção de fora, mas sim se esforçarão para alcançá-la obtendo-a de si mesmos, porque em nosso ser interno é onde está escondido o infinito, o inefável tesouro da felicidade. Já o diz, como sempre, a fábula. Permita-se lembrá-la. Conta-se nos velhos livros, que os homens da Idade do Ouro alcançaram um saber tão imenso e um poder tal de gigantes, que deles os deuses sentiram inveja, temendo até por seu próprio e secular poderio. Com umas e outras artimanhas, conseguiram enfim os deuses arrebatar o tesouro da felicidade aos mortais, que, ao perder tamanho tesouro, caíram na orfandade e na abjeção mais tristes; nesse mesmo estado desditoso em que hoje os adivinha a ciência pré-histórica. Mas para os deuses o problema de tamanho despojo tinha uma segunda parte, quiçá mais difícil: A felicidade lhes havia sido arrebatada aos homens, que rebeldes sempre e jamais resignados com sua desgraça tentaram, desde o primeiro dia, reconquistar o tesouro perdido, antecipando com isso a famosa empresa dos gregos de Jasão em busca do Velocino de Ouro e a todas as análogas que viessem depois... mas, como – diziam os deuses – vamos ocultar para sempre tamanho tesouro para que os homens jamais o reconquistem? Vários, entre os deuses, propuseram esconder o Tesouro no interior dos montes: -"Virão com suas minas, esses nibelungos, e o encontrarão, cedo ou tarde!" pensaram, com grande conhecimento do que era, no fundo, o homem. - "Iremos submergi-lo" – disseram – "no mais profundo do mar." 239 ## Epílogo
Epílogo
•"De onde o tirarão um dia com seus mergulhadores, suas redes ou seus submarinos!" – alguém, entre eles, opôs. E assim, sucessivamente, pensou-se nos demais lugares mais ou menos dificultosos do planeta: nas cumes nevadas, na caverna dos vulcões, nas camadas atmosféricas, etc. Nenhum lugar, de fato, era seguro para os deuses, porque não ignoravam o poder do titã humano, nem menos a profecia do Destino, relativa a que, com o passar dos tempos, os homens, divinizados, seriam cármicamente os juízes e senhores dos próprios deuses usurpadores! Por fim, o mais experiente entre os deuses; sem dúvida um Mercúrio, um Narada, um Her- mes astuto, deu aos seus companheiros o conselho mais prático, mais expedito e mais seguro: - "Escondam" – lhes disse – "esse inaudito Tesouro humano, no mesmo e humano coração... Os homens buscarão neciamente por toda parte seu Tesouro, afastando-se assim dele enquanto com mais afinco se lançarem à procura dele. A ninguém ocorrerá buscar em si o que dentro carregam!..." O conselho foi aceito e seguido à risca pelos deuses, e o tesouro da felicidade humana foi enterrado desde então no coração de todos e de cada um dos homens...
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