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Destaques

Projeto Iniciação # 192

O Diabo - Giovanni Papini

 





Giovanni Papini

O Diabo

Apontamentos Para

Uma Futura Diabologia

Texto integral

Editores Associados


 

Título Original

Il Diavolo

Tradução De

Fernando Amado

Capa De

José Rego

Minha Impalpável Biblioteca

(1) by ARNALDO MONDADORI, EDITORE, MILÃO

(2) by LIVROS DO BRASIL, S.A.R.L.

Esta Edição Unibolso Foi Realizada

Por Acordo Com Livros Do Brasil, S.A.R.L.


 

Índice

APRESENTAÇÃO .................................................................................

I - Necessidade de conhecer o Diabo ............................................ 11

II - Origem e natureza do Diabo ................................................. 19

III - A rebelião de Satã ............................................................... 27

IV - A queda de Satã e a dor de Deus ............................................. 39

V - Deus e o Diabo ....................................................................... 57

VI - Cristo e Satã .......................................................................... 59

VII - O Diabo e os servos de Deus ................................................. 71

VIII - O Diabo e os homens .......................................................... 79

IX - Os amigos do Diabo .............................................................. 99

X - O Diabo e a literatura ........................................................... 107

XI - Os Diabos estrangeiros ....................................................... 127

XII - Aspectos e costumes do Diabo ............................................ 137

XIII - Utilidade do Diabo ............................................................. 149

XIV - O fim do Diabo ..................................................................... 155

XV - Apêndice - O DIABO TENTADO ............................................ 165

NOTAS ............................................................................................. 185


 

Apresentação

Sobre o Diabo foram escritos centenas de volumes. Eu não teria tido a ousadia de escrever um a mais, se não fosse a certeza de que este meu livro é diverso de todos os outros. Diverso na intenção, diverso no espírito, diverso, ao menos em grande parte, no método e no conteúdo.

Para dizer de chofre o essencial, creio poder afirmar que este é o primeiro livro sobre o diabo, escrito por um cristão, de acordo com o sentido mais profundo do cristianismo.

*

Este livro não é:

uma história de opiniões e das crenças acerca do Diabo;

uma incursão mais ou menos erudita ou mais ou menos divertida através das antigas e modernas lendas sobre o Diabo;

um seco tratado especulativo, decalado da Escolástica tradicional;

um prontuário ascético para proteger as almas das artimanhas e dos assaltos do Demônio;

uma recolha de santas invectivas ou de metralhas oratórias contra o antigo Adversário;

uma história dos deputados terrestres do Diabo, isto é, feitiçeiros, ocultistas e quejandos;

uma orgia romântica de literatura satanista com as correspondentes missas negras e outras imbecilidades bestiais;

uma elocubração metafísica acerca do problema do mal, como fez o kantiano Ehrard;

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e, por fim, nem sequer é, como a alguns leitores apressados poderia parecer, uma defesa do Diabo.

*

Procurei, sobretudo, guiado por um sentimento de caridade e de misericórdia, estudar, libertando-me de preconceitos e prevenções, os seguintes problemas:

as verdadeiras causas da rebelião de Lúcifer (que não são as vulgarmente acreditadas);

as verdadeiras relações entre Deus e o Diabo (muito mais cordiais de quanto se imagina);

a possibilidade de tentativa, por parte dos homens, de fazer tornar Satã ao seu primitivo estado, libertando-nos a nós todos da tentação do mal.

Pelo que toca aos dois primeiros problemas, sempre busquei apoiar as minhas observações em textos do Antigo e do Novo Testamento, dos doutores da Igreja, dos filósofos e escritores cristãos. Pelo que toca ao último problema contentei-me com aludir a conjecturas e esperanças, que, embora não sejam confirmadas por provas dogmáticas, se me afiguram em perfeita harmonia com a concepção de um Deus definido como absoluto Amor.

*

Os leitores encontrarão neste livro muitas novidades. Devo, no entanto, advertir que algumas dessas novidades assumirão o aspecto de novas tão-somente aos olhos de quem não conheça bastante a patrística e a literatura cristã.

Até ao século XVI a liberdade de interpretação dos dogmas foi muito mais lata do que o é hoje – e tanto que hoje ela mal se imagina – e deve advertir-se que nem todas as opiniões que não tocavam o núcleo do dogma foram pela Igreja consideradas heréticas. Note-se mesmo que uma tal liberdade de especulação teológica e filosófica floresceu precisamente naqueles séculos em que a Igreja cristã tinha, mais do que hoje, viço e vigor de fé.

Espero, portanto, que os honestos guardiães da ortodoxia não se escandalizarão demasiado de certas ousadas expressões da minha espe-

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rança cristã e que atenderão ao espírito e ao intuitoi que não a certas

intemperanças da letra.

*

Este livro é o resultado de leituras e investigações, que duram há

alguns anos. Não é de hoje que a minha mente anda tentada pelo pro-

blema das relações entre o Diabo e os homens. Já em 1905 – tinha eu

só vinte e quatro anos – escrevi duas moralidades fantásticas intituladas Disse-me o Demónio e O Demónio Tentado, que foram publicadas

no volume Trágico Quotidiano^1. Esta ideia nunca mais me abandonou,

tanto que, em 1950, escrevi um breve drama em três tempos – O Diabo

Tentado – que foi transmitido duas vezes pela rádio italiana e que público agora, impresso em apêndice a este livro.

Naturalmente, de 1903 a 1953 a minha concepção de Satã mudou

quase por completo. O cristianismo alterou os motivos da atracção,

mas talvez a minha simpatia de juventude pelo Anjo Caído tivesse um

significado premonitor. Também o Demónio faz parte do mundo sobrenatural e cristão.

Pode-se entrar no reino de Deus ainda mesmo pelo negro portal do

pecado.

Subscrevo e tomo à minha conta estas corajosas palavras de Graham Green: «Onde Deus está mais presente, lá também se encontra o

Seu inimigo; e, ao invés, no lugar de onde o inimigo está ausente, desesperamos por vezes de encontrar Deus. Seríamos tentados a crer que o

Mal não é senão a sombra projectada do Bem, na sua perfeição, e que

nós conseguiremos um dia compreender a própria sombra».

*

Este livro é dedicado a todos os amigos que não sejam secretamente um pouco inimigos e a todos os inimigos que poderiam, porventura,

vir a ser, amanhã, novos amigos.

Mas eu o dedico sobretudo àqueles leitores, próximos ou longínquos, que estejam munidos ao mesmo tempo de bom entendimento e

de boa fé.

G. P.

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I

Necessidade de conhecer o Diabo

I

Desígnio Do Autor

Há, no mundo das grandes religiões, um Ser à parte, que não é bicho nem homem, nem muito menos Deus. E, contudo, este Ser serve-se dos bichos, escraviza os homens e ousa medir-se com o próprio Deus. É, segundo o dogma cristão, um anjo que comanda uma legião de anjos, mas um anjo caído, desfigurado, maldito.

Ele é odiado dos próprios que fizeram promessa de amar os inimigos; é temido pelos próprios que mais diversos dele são, e mais longe se acham, isto é, os santos; é obedecido e imitado pelos próprios que não crêem, ou dizem não crer, na sua existência.

Os teólogos, desde há vários séculos, mal dele cochicham, como envergonhados de acreditar na sua «presença real», ou como se tivessem medo de o fit ar de cara, de lhe sondar a essência. Os Padres da Igreja e os Escolásticos dele usavam discorrer com vagar, consagrando-lhe tratados inteiros. Hoje, ao revés, os seus tímidos sucessores contentam-se com dele falar de fugida, no capítulo dos Anjos e do Pecado Original, a modos com cautela e pudor, como se temessem escandalizar os «espíritos livres» que expulsaram da «boa sociedade» da inteligência as «superstições medievais».

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Os filósofos, com efeito, não se dignam chamar aquele ser com o seu verdadeiro nome, conquanto não possam evitar falar dele sob nomes mais abstractos, e por isso mais «decentes». Um deles, o famoso Alain, escrevia, com ar satisfeito, em 1921: «Le diable a subi le même sort que toutes les apparitions ... La guerre même, autant que j'ai vu, n'a point fait revivre le diable et ses cornes.» Porque o Diabo, para este empertigado e peremptório racionalista, era uma «aparição», isto é, qualquer coisa captável pelos sentidos; e pois que já não mostra os seus cascos nem a sua carranca cornuda, quer dizer que deixou de existir. Bem sabemos que a imbecilidade dos filósofos «profundos» é tão desmedida que apenas a supera a infinita misericórdia de Deus.

Mas os poetas e os narradores, isto é, os artistas, não menos sensíveis aos eflúvios espirituais e que conhecem a vida humana e sobre-humana mais de perto que os malabaristas de «conceitos», não são do mesmo parecer. Já de há séculos que os poetas assentaram arraiais nos postos desertos dos teólogos e filósofos. Desde há séculos que são atraídos pela terrível imagem do grande Adversário, pela sua grandeza tétrica e a sua tristeza atroz. Mesmo hoje, nos mais divinos poemas, nas tragédias mais repassadas de claro-escuro, nos romances mais introspectivos, nas mitologias requintadas dos moralistas e dos imoralistas, e até nas esquisitas ou triviais películas de cinema, o Anjo Fulminado é presente, falante, em mil acomodações e posturas. O povo relembra-o sem cessar, pronuncia volta e meia os seus nomes, ainda que nem sempre cônscio de viver sob o seu domínio.

Há coisa de trinta anos as intituladas «pessoas cultas», os administradores da inteligência burguesa, não se ocupavam dele ou acolhiam com um risinho à socapa o seu nome, como se fosse o de uma velha personagem do teatro de fantoches. Hoje as coisas mudaram bastante. Até mesmo os empresários do «espírito puro», até mesmo os literatos ao serviço da «alta roda» deixaram de sorrir. Em derradeiro, os teólogos recomeçaram a discorrer abertamente sobre o assunto, sem eufemismos prudenciais. O Demónio recuperou os seus direitos de cidadania na república da cultura. Depois do desencadeamento de duas guerras e das saturnais de ódio e ferocidade, depois de tantíssimas contraprouvas e confirmações da sua influência e da sua potência, Satã é reconhecido não somente como criação poética, mas também como um dos protagonistas da História.

A despeito deste reaparecimento na esfera do verdadeiro ou do verosímil, o Diabo é ainda pouco conhecido. Este ser infame e todavia famoso, invisível e todavia omnipresente, ora negado, ora adorado, ora temido, ora objecto de vilipêndio, que teve os seus cantores e os seus

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sacerdotes, os seus cortesãos e os seus mártires, é ainda mais popular do que compreendido, mais afigurado do que descentranhado. É preciso enxergá-lo com olhos novos, acercar-se dele com novo espírito. Não já com o servilismo do feiticeiro que quer aproveitar-se dele, ou com o terror do devoto que quer defender-se contra ele, mas com os olhos e com o espírito do cristão que quer ser cristão até às últimas consequências – as mais temerárias – do cristianismo.

Ele chama-se, em hebraico, Satã, isto é, o Adversário, o Inimigo; chama-se em grego o Diabo, isto é, o Acusador, o Caluniador. Mas é lícito, a um cristão, odiar o inimigo? É lícito, aos honestos, caluniar o caluniador?

Os cristãos, até à data, não têm sido bastante cristãos para com Satanás. Temem-no, fogem-lhe ou fingem ignorá-lo. Mas se o medo pode, uma ou outra vez, salvá-los das suas tentações, não é decerto arma de salvação para o futuro e para o remanescente dos homens. Cristo, exemplar divino do cristão, falou com Satã durante quarenta dias e acolheu o beijo daquele em quem Satã se encarnara para O conduzir à morte.

Ainda mais perigosa do que o medo é a indiferença, que acaba, as mais das vezes, em cumplicidade culposa das ofensivas diabólicas. Quem não esteja em guarda é mais facilmente sobrepujado e capturado. Desta vez também foi um poeta que adivinhou a verdade: «La plus belle ruse du Diable – escreveu Baudelaire – est dé nous persuader qu’il n’existe pas.»

Nem com o medo nem com a ignorância podemos suprimir um príncipe deste mundo, que faz sentir continuamente o seu pavoroso domínio. Para libertar o povo cristão do Demônio, e para sempre, é bem mais aconselhável e mais conforme ao mandamento evangélico do amor tentar conhecê-lo mais exactamente e profundamente, não já para ficar preso nos seus laços ou participar nas sua operações, mas para melhor nos precavermos, tentando fazê-lo regressar à sua natureza originária.

Compreender é aviamento para amar. O cristão não pode e não deve amar em Satã a rebeldia, o mal e o pecado, mas pode e deve amar nele a criatura mais horrivelmente infeliz de toda a Criação, o chefe e o símbolo de todos os inimigos, o Arcanjo que foi um dia o mais próximo de Deus. Talvez que unicamente o nosso amor possa ajudá-lo a salvar-se, a tornar-se de novo qual foi no princípio, o mais perfeito dos espíritos celestes. Salvando-o do ódio de todos os cristãos, todos os homens serão para sempre salvos do seu ódio.

Cristo amou os homens, inclusivamente o rebeldes e os corruptos e

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os bestiais, até ao ponto de tomar sobre si todos os nossos pecados, até ao ponto de morrer por nós de uma morte infame. Não poderá dar-se que Ele tenha querido libertar-nos da escravidão do Demónio, na esperança de que os homens, por seu turno, possam libertar o Demónio da sua condenação? Não poderá dar-se que Cristo tenha redimido os homens a fim de que estes, mediante o divino preceito de amar os inimigos, venham a ser dignos de sonhar um dia a redenção do mais funesto e obstinado Inimigo?

Um verdadeiro cristão não deve ser malvado nem com os malvados, não deve ser injusto nem com os injustos, não deve ser cruel nem com os cruéis, mas deve ser tentador do bem mesmo com o próprio tentador do mal. Devemos, pois, avizinhar-nos de Satã com espírito de caridade e justiça, não para nos tornarmos seus admiradores ou imitadores, mas com o propósito e a esperança de o libertarmos de si mesmo e, portanto, a nós dele. Talvez ele não aguarde senão um movimento da nossa compaixão para encontrar em si a força de renegar o seu ódio, isto é, para libertar o mundo inteiro do senhorio do mal.

Este livro não é e não quer ser uma defesa ou uma apologia de Satanás. Nada me desgosta e repugna mais do que os vis, idiotas e perversos arroubos do satanismo medieval ou romântico. Detesto com toda a minha alma esses devaneios de sucubos, de possessos e de baixos decadentes.

Este livro quer apenas ser uma rebusca mais atenta, leal e serena, da origem, da alma, da sina, da essência do Diabo, igualmente alheia às complacências ocultistas e às escandecências pietistas. Quer fazer conhecer o Adversário na sua verdade, para que a verdade seja preâmbulo à sua e nossa redenção.

Até hoje, Satã foi odiado, insultado e amaldiçoado, ou então imitado, decantado e adorado. Este livro, ao invés, propõe-se um fim completamente diverso e novo: o de o tornar compreensível, cristãmente, aos cristãos.

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A Tragédia Cristã

Há uma tragédia que teve começo no princípio do tempo e que ainda não chegou ao fim. Uma tragédia misteriosa e imane da qual poucos, mesmo entre os cristãos, são espectadores.

Há três únicos teatros: o Empíreo, a Terra, o Abismo. Há três únicos protagonistas: Deus, Satã, o Homem. E, como todas as tragédias, esta desenrola-se em cinco actos:

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Primeiro Acto: Satã rebela-se contra o Criador.

Segundo Acto: Satã é vencido e precipitado no Abismo.

Terceiro Acto: Satã, para se vingar, seduz o Homem e dele se asse­nhoreia.

Quarto Acto: o Homem Deus, com a Sua encarnação, vence Satã e fornece por sua vez aos homens as armas para o vencerem.

Quinto Acto: no fim dos tempos Satã procura a desforra por meio do Anticristo.

Estamos ainda no Quarto Acto, porventura nas últimas cenas. Quando se abrirá o Quinto? Já se descobrem alguns sinais. E como acabará este acto derradeiro? Com uma catástrofe ou uma catarsis?

O Homem é o mais débil e efémero dos três protagonistas. E, no entanto, é precisamente ele, o Homem, o preço e o supremo objecto deste longuíssimo e alterno debate na guerra entre o Criador e o Des­trutor, entre o Amor e o Ódio, entre a Afirmação e a Negação.

Satã subtrai o Homem a Deus; Cristo rapta-o a Satã; mas Satã procura, por todos os meios, reconquistá-lo e parece quase consegui­-lo; fará uma tentativa derradeira e será vencido, vencido para sempre. Vencido porque encadeado para todo o sempre no seu Abismo, ou vencido pela omnipotência do Amor que o há-de reconduzir ao seu posto celeste?

Ninguém, sobre a Terra, pode dar a resposta. Mas o Homem, o mais inerme dos protagonistas, tem uma palavra a dizer antes que ter­mina a tragédia.

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O Diabo Senhor Dos Homens

Não quero ser acusado de exagero. Recopio, portanto, tais quais, as palavras de um dos mais famosos teólogos católicos modernos, Ma­thias Joseph Scheeben, no seu celebrado livro sobre os Mistérios do Cristianismo: «É doutrina de fé — escreve Scheeben — que o género humano, pelo pecado de Adão, ficou prisioneiro e escravo do Demó­nio. Como na totalidade — por via de Adão, a sua cabeça — foi vencido pelo Diabo, seguindo as sugestões do Demónio foi arrancado da sua união com Deus; assim agora lhe está sujeito, lhe pertence, e dele forma o reino sobre a Terra. E é-lhe tão estreitamente ligado, que, por si, não pode em nenhum modo recuperar a liberdade perdida dos filhos de Deus, nem reaver a perfeição sublime da qual foi precipitado. Prescin-

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dindo da redenção do Homem Deus, a sua prisão é absoluta e total ...» 2

Scheeben reporta-se, para confirmar as suas afirmações, a vários passos do Novo Testamento, que não deixam dúvida alguma acerca da nossa terrível condição de prisioneiros e escravos do Diabo.3

Aos espíritos simples parecerá inaudito que um Pai, um Pai amoroso e misericordioso, abandone à mercê do Seu pior inimigo aqueles que por ele foram criados e destinados à salvação. Pasmam à ideia de que o pecado, pessoal, de um pai e de uma mãe, por grande que seja, deva ser descontado colectivamente por toda a posteridade, ao longo de gerações e gerações, durante milhares de anos. E ainda mais se escandalizam ao pensar que o Rebelde, o Adversário, o Maligno, em vez de ser confinado no abismo, tenha recebido como sua absoluta propriedade, como servos e reféns, todos os filhos daquele homem que por sua própria culpa e instigação miseramente caiu.

Mas os textos sagrados e os ensinamentos da dogmática não permitem tergiversações. Os espantos da gente ingénua não têm qualquer peso perante os mistérios dos imperscrutáveis decretos divinos. M. J. Scheeben di-lo implicitamente: «É doutrina de fé que a Humanidade [...] é prisioneira e escrava do Demónio.» Todo o católico, sujeito à Igreja docente, deve acreditar que os homens são prisioneiros e escravos do Diabo, que a terra é o reino de Satanás. Durus est hic sermo, mas não há escape: quem não creia firmemente ser súbdito e servo do Demónio não pode chamar-se católico.

Porque de facto este nosso encarnamento e servitude não foram suprimidos pela Redenção. Antes da vinda de Cristo todos os homens eram, por necessidade, prisioneiros e escravos do Demónio. Após a vinda do Homem-Deus foram redimidos, resgatados, libertos tão-só os que são intimamente ligados a Cristo, que se tornaram, pela fé e pelas obras, num todo com Ele. Mas os cristãos são ainda, sobre a Terra, uma minoria, e entre aqueles mesmos que se dizem cristãos, quantos, na realidade, o são apenas de nome e através de cerimónias exteriores! Cada cristão, mercê da água do baptismo, declara «renunciar a Satã e às suas pompas» e virtualmente é lavado da mancha do pecado original. Mas a maior parte dos baptizados, atingida a idade adulta, não se mantém fiel à promessa, feita em seu nome pelo padrinho do baptismo, e cede, de uma maneira ou de outra, às lisonjas e às tentações de Satã. Pouquíssimos, raríssimos, mesmo entre os cristãos, são os que logram conservar intacta a virtude da pia baptismal. Pouquíssimos, raríssimos são os que conseguem ensimesmar-se com o Salvador, unir-se a Ele na dor da Sua Paixão e no fogo da Sua caridade, e soltar-se deste modo da sujeição do Diabo.

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Daí resulta que hoje, como ontem, a quase totalidade do género humano - todos os que não aceitam Cristo, mais a maioria dos intitu­ lados cristãos - é escrava e prisioneira de Satanás. O próprio Scheeben não o ignora: «é-lhe agora sujeita, pertence-lhe».

O espectáculo da vida humana após a redenção confirma, e assus­tadoramente, esta tremenda verdade da teologia católica. Bem o sabia Sto. Agostinho quando afirmava que o Mundo é positus in Maligno; confirma-o de sobejo o que hoje acontece sobre a Terra, onde já des­pontaram os arautos e as estafetas do Anticristo.

Mas se isso é verdade - e é-o sem contestação - por que maravilha os escravos e os prisioneiros do Diabo curam tão pouco de conhecer e de estudar a índole e a figura do seu déspota e carcereiro? Quer-nos parecer que um tal estudo, principalmente para os cristãos, é essencial, inadiável, de primeira necessidade. Para os que ainda recordam possuir uma alma, conta, acima de tudo, o amor de Deus. Mas, logo depois, é necessário o conhecimento daquele que, por vontade de Deus, nos pos­sui e domina: o Diabo.

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Diabologia E Demonologia

Na sua Carta aos Teólogos o papa Celestino VI - ao qual se pode mover uma única censura: a de não ter existido - exortava os cultores da ciência de Deus a um renovo da dogmática. Não já para abolir ou alterar os dogmas, pois isto seria obra diabólica, mas para aprofundá-los no espírito da Revelação e da Tradição, para configurá-los e de­ monstrá-los em modos novos, mais apropriados às mentes modernas, que não podem nem querem aceitar os esquemas da escolástica medie­val.

Esta obrazinha procurará, seja embora num só ponto da teologia, corresponder ao desejo do santo pontífice Celestino.

A queda dos anjos rebeldes e o influxo de Satã na vida humana não podem propriamente ser ditos dogmas, mas são puras verdades da fé, conexas com o dogma do pecado original. E assim como o Diabo, segundo os mesmos teólogos, interfere nas coisas do mundo e do espíri­to humano em maior escala do que em geral se imagina, não deve pare­cer incógnua e impertinente a tentativa de criar, ao lado da teologia, uma diabologia. Nas obras da dogmática - e, especialmente, dos Pa­ dres da Igreja e dos grandes doutores da escolástica - arrazoa-se acerca do Diabo e da sua guerra ao homem, mas não se poderá, decerto, preten-

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der que a ciência de Deus abranja, sob o mesmo nome, a ciência do Diabo. E contudo, conforme vimos dizendo, um estudo mais afincado e persuasivo do grande Inimigo, nosso patrão, aparece sempre como mais necessário, porque os efeitos do seu poder sobre a existência dos indivíduos e dos povos são dia a dia mais flagrantes.

Existem, bem sei, volumes que têm por título Demonologia, mas, quando se abrem, repara-se que estes livros se ocupam muito mais dos servidores infernais e terrestres do Diabo do que dele mesmo. Estes tratados foram compostos, na origem, para uso dos juízes eclesiásticos e leigos, encarregados dos processos de feitiçaria, e, por isso, em vez de analisarem a essência, a natureza e a queda de Satã, dedicam-se em grande parte a narrar as artes dos magos e dos encantadores, e sobretudo os hábitos e crimes das bruxas, nigromantes, mulheres de virtude e semelhantes figuronas. Lá se discorre amplamente acerca de evocações e sortilégios, incubos e sucubos, sabá e missa negra, possessões diabólicas e pactos com o Demônio, satanistas e seus fâmulos. Mas a figura poderosa e tremenda de Lúcifer – a qual dá origem a todo esse fantástico desfile de mistérios e de turpitudes – aparece só em pano de fundo, como a daqueles soberanos do Oriente que raro se mostravam e reinavam por intermédio dos seus servos e ministros.

A demonologia atrai pois, com esse acervo de documentos e anedotas, os amadores de psicologia humana e, sobretudo, os diletantes do pitoresco hórrido, mas pouco ou nada nos diz acerca do problema das origens e da sorte de Satanás.

A diabologia, ao invés, deixa deliberadamente de fora todas as curiosidades romanescas ou romanceadas acerca das artes mágicas e das obsessões satânicas, para reverter a atenção no terrível protagonista que Deus fez precipitar do Céu sobre a Terra. A diabologia quer examinar em que consiste a alma e a culpa de Satã, quais foram as causas da sua queda, quais as suas relações com o Criador e o Homem-Deus, quais têm sido as suas encarnações e as sua operações, e o que pode, enfim, compreender-se da sua potência actual e da sua sorte futura. A diabologia distingue-se da demonologia pela razão de que, no pavoroso drama que é a vida do homem, se propõe conhecer a fundo um dos Autores do drama e não já as proezas dos seus comparsas subalternos.

Devo advertir que este pequeno livro não pretende ser um vero e rigoroso tratado de diabologia mas tão-só um primeiro esboço, forçosamente cheio de lacunas e imperfeito. Como diz o subtítulo, trata-se de uma colecção de notas e reparos com vista àquela futura Summa Diabologica, que, mais século, menos século, um outro S. Tomás deverá compor.

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Ii

Origem e natureza do Diabo

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O Diabo Interior

Bastante comum, demasiado comum – entre os modernos refutadores da «hipótese-Deus» – a ideia de que o Diabo existe somente no interior da alma humana. Não podem estes negar o conflito perene, que vêem e sentem entre aquilo que parece o Bem e aquilo que parece o Mal, mas engergonhar-se-iam de os imaginar personificados em entes situados acima e fora de nós. Cingem-se, por amor da clareza, a chamar esses dois antagonistas com os velhos nomes da «mitologia popular», mas com a premissa e o intuito de que se trata de facções adversas no interior do homem.

Uma das mais explícitas afirmações de tal teoria achei-a numa carta de juventude de Paul Valéry ao seu amigo Pierre Louys, com a data de 21 de Dezembro de 1896. «En deux mots, je pense – voilà toute ma métaphysique et ma morale – que «Dieu» existe et le «Diable» aussi, mais en nous. Le culte que nous devons à cette latente divinité n’est autre chose que le «Respect» que nous devons à nous-mêmes et je l’entends: la recherche d’un «Mieux» par notre Esprit dans le sens de ses natives aptitudes. Voici ma formule: Dieu c’est notre idéal particulier; Satan tout ce qui tend à nous en détourner.»

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O jovem Valéry não tinha lido provavelmente as obras de Feuerbach, mas não é difícil descortinar a tinta hegeliana nesta ingénua teoria. Assim como Hegel tinha reabsorvido todo o ser na Ideia - isto é, em definitivo, no espírito humano que a reconhece em quanto é a sua última e máxima encarnação - assim Feuerbach reabsorvera toda a teologia na psicologia: Deus seria a projecção dos desejos, volições, pensamentos dos homens. E o mesmo, naturalmente, se pode dizer do Diabo.

Em Valéry há uma tentativa, muito débil, para determinar o significado dos dois princípios opostos. Mas a palavra «melhor» (mieux) usada pelo jovem poeta, não tem sentido se não for referida a um modelo superior a imitar, a uma escala de valores a alcançar. O ingénuo Valéry define Deus como um «ideal particular», isto é, individual, isto é, privado de qualquer carácter fixo e universal. A rebusca desse «melhor», desse «ideal», entende-se no sentido de «aptidões natas», e, aqui, a confusão mental do futuro cartesiano é deveras escandalosa. Desenvolver em si as aptidões natas significa aceitar a própria natureza, qualquer que seja, ao passo que o objectivo das religiões, e sobretudo do Cristianismo, é o de reformar, emendar, corrigir, transformar a natureza humana de acordo com uma lei superior, divina.

Segundo a teoria de Paul Valéry um homem que tivesse em sumo grau «aptidão nata» para suprimir as vidas alheias - e, ai de nós, que não faltam - deveria, por obediência a essa regra, desenvolver em «melhor» a sua vocação de homicida.

O seu «ideal particular» não poderia ser senão a busca dos melhores meios para tirar a vida ao maior número de pessoas; e, como tudo que nos desvia do ideal particular não é outra coisa senão Satanás, chegar-se-ia à consequência de que as tentações de não assassinar - a piedade, o escrúpulo, o remorso - que brotassem na alma do nosso homicida, seriam, pela mais absurda contradição, culposas tentações do Diabo.

Tomemos entretanto um caso mais inocente e comum. Um artista que à arte se entregue com dominante paixão deveria considerar como obstáculos satânicos todos aqueles afectos e obrigações que o afastam da sua «aptidão nata», isto é, por exemplo, o amor filial, os deveres de pai, de amigo, de cidadão.

O Diabo encontrar-se-ia, assim, a sustentar, nestes casos nada menos que impossíveis, a parte de alentador daquilo que todas as morais julgam «bem», e freio daquilo que se reputa universalmente «mal». Viria destarte Satã a desempenhar a função que se atribui a Deus. A tais absurdos e extravagantes corolários conduziria o ingenuís-

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simo teorema de Valéry.

Também os cristãos sentem e experimentam que a alma humana é o campo quotidiano de batalha entre Deus e Satã, mas crêem e sabem que estes dois seres – O Imperador do Universo e o Príncipe deste mundo – não se podem reduzir a elementos puramente humanos. Acham em nós aliados e cúmplices, na medida em que irrompem na alma, a qual é simultaneamente abrigo da divindade e reduto do Maligno. Quem quer que tenha um pouco a prática da introspecção espiritual, sente em si «vozes» que não são a sua própria voz, sente murmurar instigações e seduções que um momento antes lhe eram ignotas, imprevisíveis e inacreditáveis.

Nos últimos anos da sua vida, Paul Valéry começou a escrever um Fausto – Mon Faust – que não pôde levar a termo, mas no qual põe a falar Mefistófeles e os seus confrades demoníacos em modo tal que faz pensar que sejam personagens distintas do homem. Talvez a tanto o hajam constrangido a razão poética e a tradição goethiana, mas pode dar-se o caso que ele tenha reconhecido, em velho, a frágil superficialidade da sua teologia juvenil.

Um padre francês meu amigo contou-me que a viúva de Valéry lhe dera a ler as últimas páginas do diário intelectual do poeta racionalista. As últimas linhas diziam: «É preciso confessar que Jesus foi o primeiro a conceber Deus como Amor.» Impediu-o a morte de continuar o discurso.

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Satã, Criador De Si Mesmo

Numa das obras menos famosas do poeta cristão, espanhol, Aurélio Clemente Prudêncio – que viveu entre os séculos IV e V – encontramos uma estranhíssima teoria acerca da inaudita presunção de Satã.

No poema Hamartigenia, dedicado ao problema da origem do mal, Prudêncio afirma – e é, que eu saiba, o primeiro – que o Diabo tentou fazer crer aos outros Anjos que ele era o autor e criador de si mesmo e que não devia, por isso, a Deus a sua existência. Ademais, sempre segundo Prudêncio, ele gabava-se de ter criado a matéria, extraindo-a do seu próprio corpo. Esta opinião foi retomada, no século XI, por Roberto de Deutz, no seu tratado De Victoria Verbi Dei, mas unicamente quanto à primeira parte, isto é, que Satã era o criador de si mesmo.

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Mas do texto de Prudêncio claramente se deduz que Lúcifer não acreditava, na realidade, naquelas suas jactâncias: não era tão ofuscado e insensato que não soubesse que era, como todos os seus irmãos, uma criatura que o Criador tirara do nada.

Essas absurdas afirmações não eram — se deveras foram feitas, como cuidava o poeta Prudêncio — senão mentiras impudentes a fim de aumentar o número dos seus partidários e justificar a sua ingratidão para com Deus, e a sua revolta. No caso em questão o Diabo teria mostrado uma agudeza bastante inferior à que a tradição lhe atribui. Ele teria apostado em demasia na estupidez e credulidade dos seus companheiros. Acaso é possível que os anjos, todos de tanta potência espiritual, pudessem crer nas orgulhosas fábulas de Lúcifer? Pois não sabiam, eles também, com certeza, que o outro fora no mesmo pé criado por Deus?

Se muitos anjos o seguiram não foi de certo por se deixarem persuadir por tais bazóficas. As quais, provavelmente, são o fruto da férvida fantasia ibérica do antigo reitor Prudêncio.

Tão-só aqueles gnósticos que no Demiurgo do Antigo Testamento viam uma potência maligna e demoníaca teriam podido acreditar que Satã fosse o criador da matéria.

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O Diabo É Filho Do Homem?

Numa das suas histórias verídicas, Máximo Gorki assim faz falar o velho Stefan Ilich:

«O Diabo não existe. O Diabo é uma invenção da nossa razão maligna. Os homens inventaram-no para justificarem a sua turpitude e, também, no interesse de Deus, para se porem a coberto. Apenas existem Deus e o homem e nada mais. Tudo isso que parece o Diabo — por exemplo, Caím, Judas, o czar Ivan, o Terrível — é sempre invenção dos homens, é inventado para endossar a uma única pessoa os pecados e delitos da multidão. Acreditai-me. Nós outros, vagabundos e ladrões, perdemo-nos e então imaginamos coisa pior do que nós, o Diabo, etc.»

Esta opinião não é nova, mas é escandalosamente simplista. Se apenas existem Deus e o homem, e o homem é corrupto e perverso, devemos concluir que Deus criou o homem mau, que Deus é o primeiro responsável dos pecados do homem. Quem nega ou ignora o pecado original é obrigado a julgar Deus um sinónimo de Satã.

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Um Rei Transformado Em Lúcifer

No livro do profeta Isaías (XIV, 12-15) lêem-se estes belíssimos versos:

Oh, que queda foi a tua, lá em cima, do céu,

Ó astro matutino, filho da aurora!

Oh, como foste derrubado por terra,

Tu que calcavas aos pés as nações!

Disseste no teu coração:

Eu subirei ao Céu,

Levantarei o meu trono

Sobre as estrelas de Deus;

Repousarei sobre o monte da Assembleia,

Na parte extrema do Setentrião;

Subirei sobre o cume das nuvens,

Serei igual ao Altíssimo.

E contudo foste precipitado no Sceol,

Nas profundezas do abismo.

Isaías não era só um grande profeta, mas também um grande poeta, e estes versos, no seu sarcástico vigor, são belíssimos. Mas qual é o orgulho caído a que se refere o terrível vaticínio?

Pelos versos que precedem o passo citado – onde se narra que os reis acolhem um grande rei que desce ao reino dos mortos – e pelos que seguem – «Ele é o homem que fazia tremer a Terra, que sacudia os reis» – bem se percebe tratar-se de um monarca potente: o último rei de Babilônia. Isaías pensava talvez num desses reis babilónicos seus contemporâneos – porventura Sargão – mas ele quer anunciar o fim daquele será o último rei da proterva nação inimiga do povo de Deus, e a profecia, portanto, poderia referir-se a Nabucodonosor ou a Baltasar.

A despeito de tal evidência, certos Doutores da Igreja – não poucos e não obscuros – quiseram entender estes versos noutro sentido: «astro matutino» – na Vulgata Lúcifer – não podia ser senão o Diabo.

O primeiro a propor esta interpretação foi Orígenes (De Principiis, 1, 5, 5; 4, 22. Homílias sobre o livro dos Números, XII, 4), que afirmou que Lúcifer, outrora espírito celeste, caíra no abismo por ter que-

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rido comparar-se a Deus. Tertuliano, S. Cipriano, Sto. Ambrósio e outros menos ilustres aceitaram a opinião de Orígenes e, assim, Satã – o acusador – foi denominado, depois, também, Lúcifer, o que traz a luz, o esplendente.

Outros Padres da Igreja – como S. Jerónimo, Cirilo de Alexandria e Eusébio – continuaram a descobrir no vaticínio de Isaías o fim do último rei de Babilônia, mas lá reconheceram também uma clara alusão à queda de Satã. E a maior parte dos exegetas modernos esforça-se por justificar esta antiga interpretação, conquanto a julguem «acomodatícia».

O facto é que o texto de Isaías é considerado o mais antigo testemunho da queda do Arcanjo, do esplendor do firmamento, às trevas do abismo. Um não identificado rei babilónico está pois na origem da nossa representação do Diabo. Lúcifer seria assim um homem transfigurado em anjo pela fantasia de engenhosos comentadores.

Mas tratar-se-á apenas de fantasia? As palavras dos profetas, quando são verdadeiramente inspiradas por Deus, podem ter vários sentidos, sem que um anule o outro. Isaías podia crer em que o seu vaticínio se referia a um homem futuro, e Deus pode tê-lo feito falar de modo a representar igualmente a sina passada de um anjo. Os capítulos de Isaías onde aparecem esses versos (XIII-XIV) têm, como tema fundamental, a guerra entre o Bem e o Mal; e, daí, não ser de forma nenhuma impossível que lá esteja encoberto o mesmo princípio do Mal. Tanto mais que os reis de Babilônia – como os outros reis do antigo Oriente – acreditavam e faziam acreditar que fossem de estirpe divina, vindos do céu para reinar despoticamente sobre a Terra. Eram portanto, num certo sentido, pela sua dupla pretensão, semelhantes a Satanás, «diabólicos». O fim de um deles podia muito bem evocar uma outra soberba, uma outra queda, a do Príncipe que aos pés calcava e calca as nações.

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A Trindade Diabólica

Assim como o Diabo quer imitar em tudo o seu Criador, não há que maravilhar-nos de que sejam reconhecíveis nele também três pessoas, unidas e no entanto distintas, à semelhança das da Trindade.

Há, em princípio, o Rebelde, a criatura que quer substituir-se ao Criador, isto é, ao Pai.

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Há, em seguida, o Tentador, o qual, segundo o que fará um dia o Filho, convida o homem a imitar Deus.

Há por último, o Colaborador, que, com o divino consentimento, atormenta os homens sobre a Terra e no Inferno, e é, portanto, o contraposto da Terceira Pessoa, do Paracleto, do Consolador.

Estas três pessoas coexistem no Diabo porque uma é a sua natureza e, hoje, como ontem, ele é simultaneamente rebelde, tentador e colaborador.

E estas três pessoas são o reverso, como é natural, das pessoas divinas: o Pai cria e Satã destrói; o Filho resgata e Satã escraviza; o Espírito Santo ilumina e consola, ao passo que Satã entenebrece e tortura.

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O Diabo Em Toda A Parte

Ubique daemon, escreveu Salviano, discípulo de Santo Agostinho.

O Diabo está, pois, em toda a parte.

Se tal afirmação é verdadeira, nós encontramo-nos, um pouco turbados e perplexos, em presença de outra semelhança entre Deus e Satanás. Acaso não ensina o catecismo que Deus está em toda a parte?

Deus est in coelo, in terra et in omnibus locis, diz o Catechismus Catholicus do cardeal Pietro Gasparri6.

Na Idade-Média acreditava-se firmemente que o Diabo estivesse, como o próprio Deus, em todos os lugares. Quem não recorda o passo famoso do «satânico» Carducci? «Aquela pobre freirinha deseja um molho de endívia? Nesse molho está Satã. Aquele monge deleita-se com um passarinho que canta na solidão da sua cela? Nesse canto está Satã.»7 Manzoni, enfim, que, pela sua formação iluminística, pouco frequentava o mundo satânico, confessa pela boca do Inominado que todo o homem hospeda no seu íntimo um demónio. «Eis porque cada um de ess’outros terá o seu demónio que o atormente. Mas nenhum, nenhum terá um como o meu.»8

Esta omnipresença de Satã – que tanto o assemelha ao Criador – devera inspirar aos cristãos um terror perpétuo. Se o Diabo, como pensava Salviano e toda a Idade Média com ele, está em toda a parte escondido e presente, como poderão salvar-se os homens do seu contacto, do deu contágio, do seu hálito peconhento? Até nas miniaturas dos livros de orações pode Satã anichar-se, até nas pinturas sobre o altar, até na própria corda que cinge o saio do asceta.


 

E, assim como Deus e, com mais forte razão, Satã, está em toda a parte, não ocorre pensar que Um e o outro se encontrem, lado a lado, na mesma alma do homem?

Cada um de nós teria assim dois hóspedes invisíveis: o Eterno Amor e o Eterno Ódio, e cada coração é campo de batalha destes dois Antagonistas. Mas uma tal coabitação de opostos, em toda a parte do Universo, é pensável, é possível?

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Iii

A rebelião de Satã

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Lúcifer Rebelou-Se Por Inveja Do Homem

Todos pensam hoje em dia que Lúcifer contro il suo fattore alzò le ciglia («contra o seu criador franziu a testa»), no dizer de Dante, acicatado pela sua desmedida soberba. Mas os antigos Padres da Igreja, os primeiros teólogos, não cuidavam no orgulho. Segundo muitos deles, a causa da queda do Arcanjo foi a inveja, a inveja do homem.

S. Justino (Diálogo com Trifão, 124, 3) assevera, com efeito, que Satã se tornou malvado tão-só quando incitou Eva à desobediência. E a mesma opinião se acha em Santo Ireneu, que é o primeiro a denunciar o móbil autêntico da insídia demoníaca contra o par edênico: «O Diabo, o qual, como nos ensina S. Paulo na Epístola aos de Éfeso (II, 2) era um dos anjos prepostos ao ar, tornou-se apóstata e rebelde à lei divina quando veio a ter inveja do homem ... » 9 E a mesma coisa afirma Tertuliano (De Patientina, VI): «O Diabo deixou-se dominar pela impaciência quando viu que o Senhor tinha submetido à Sua imagem - isto é, ao homem - todos os seres criados. Se tal visão tivesse suportado não teria ressentido a dor, e, se não tivesse ressentido a dor, não teria sido invejoso do homem. Tanto é certo que enganou o homem porque dele teve inveja.»

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Também S. Cipriano (Do Ciúme e da Inveja, IV) aceita a mesma teoria. O texto mais completo é o de S. Gregório de Nissa, no seu famoso Discurso Catequético. Dada a autoridade deste Padre da Igreja do Oriente, vale a pena citá-lo por extenso:

«O mundo inteligível existia antes do outro e cada uma das potências angélicas tinha recebido, da autoridade que dirige todas as coisas, uma respectiva quota-parte no governo do Universo; e a uma dessas potências fora dado o cargo de manter e governar a esfera terrestre. Depois tinha sido formada com terra uma figura que reproduzia a potência suprema e este ser era o homem. Nele estava a beleza divina da natureza inteligível, misturada a uma certa força secreta. Eis porque aquele a quem fora confiado o governo da terra achou estranho e intolerável que da natureza que dele dependiabrotasse e se manifestasse uma substância feita à imagem da dignidade suprema.»^10

Só com Orígenes aparece e se impõe a teoria hoje dominante, a do orgulho; e a ideia do ciúme ou inveja — ainda que em modo um pouco diverso — reaparecerá tão-somente no século XVI com Catarino e Suárez. Mas valia a pena recordar que nos primeiros séculos da Igreja não poucos escritores cristãos — todos santos e ortodoxos, salvo Tertuliano — tinham encontrado no ciúme a verdadeira causa da rebelião de Lúcifer.

O ciúme a inveja são incontestavelmente sentimentos baixos e ignóbeis, indignos de uma criatura angélica, e em Lúcifer tornaram-se tão arrebatadores e potentes que o induziram à revolta contra o Criador. Convém observar, todavia, que o ciúme de Lúcifer para com o homem é menos louco e sobretudo menos sacrilégo do que a sanha, hoje implicitamente admitida, para com Deus. Adão, bem que dotado de graças abundantíssimas — e bastaria a sua semelhança com o Pai — era com tudo isso uma criatura, isto é, um ser que podia considerar-se, sob tal aspecto, no mesmo plano dos anjos. Buscar a independência, contrapor-se a Deus, era um frenesim absurdo, uma prova de demência incrível, ao passo que o ciúme para com uma outra criatura pode ser julgado pecaminoso, porém mais natural e verosímil. A distância entre Deus e os seus filhos é incomensurável e abissal, ao passo que a diferença entre os anjos e os homens consiste apenas no grau das diversas perfeições.

O ciúme conduziu Satã à rebelião — o pecado sem desculpa — mas o primeiro motivo desta rebelião, qual a imaginavam os primeiros Padres da Igreja, é bastante menos grave do que aquele que é hoje ensinado na nossa dogmática.

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O Diabo Queria Ser Cristo?

Foi, deveras, a soberba a causa única da queda de Satã? Por muitos séculos, para cá de Orígenes, esta opinião foi aceite, embora em diversa medida e forma, pelos teólogos cristãos. Mas na era de Quinhentos surgiu uma teoria completamente nova, que não chegou a triunfar - não obstante a grande autoridade dos seus primeiros defensores - e que bem merece ser conhecida pelo seu denodo e singularidade.

Segundo esta teoria, a culpa de Satã não foi propriamente o orgulho, a pretensão de emparelhar com Deus, mas a dor de não ser designado pelo Pai como instrumento da Encarnação do Verbo, isto é, como futuro Cristo. Segundo alguns teólogos, Deus teria revelado aos anjos desde o começo das idades, o desígnio de manifestar a Sua glória e o Seu amor aos homens, enviando o Filho à Terra. Mas ao mesmo tempo revelou que esta manifestação visível e tangível viria a acontecer mercê da união hipostática do Verbo com uma criatura humana, nascida no seio de uma mulher.

Lúcifer, com razão para se julgar a criatura mais alta e perfeita, manifestou tristeza e repulsa ao anúncio de tal escolha, destinada a exaltar o homem, tão inferior a ele. A dor suscitou o ressentimento, o ressentimento transmudou-se em ódio e do ódio nasceu a ideia da rebelião. Houve pois na revolta de Satã um elemento de orgulho, o cuidar-se ofendido na sua excelsa dignidade - mas o verdadeiro princípio da queda foi o desejo de poder unir-se à essência divina, ao Verbo, não para substituir-se a Ele, como alguns pensaram, mas para trazer, mediante essa admirável união, um benefício à Humanidade. Ele teria querido ser o Cristo, o Salvador, mas não já o próprio Deus: somente a criatura na qual o Filho se teria mostrado aos homens. Não queria ser Deus, mas unido a Deus no mistério do amor, que o gênero humano veio a conhecer na Encarnação. Satã teria sido, pois, precipitado do Céu não só devido à sua protérvia, mas devido sobretudo ao seu amor por Deus e pelos homens, isto é, pela decepção de não ter sido escolhido para a união hipostática ao Verbo na obra redentora.

Esta teoria, como se vê, apresenta Satanás em modo bastante diverso do habitual: ele não aspira a ser Deus mas a coligar-se mais intimamente, e só por breve tempo, a Deus; não se contrapõe aos desígnios de Deus, mas destes queria participar; não é inspirado pelo ódio mas por um espírito de caridade.

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A teoria parecerá absurda aos que apenas conhecem a doutrina hoje dominante acerca da Redenção. A Encarnação, segundo a Dogmática ortodoxa, tem por pressuposto o pecado original, a queda de Adão, e esta queda é posterior à queda de Satã, que foi precisamente a causa da desobediência do primeiro homem. Como teria podido Satã, antes do acto de rebeldia, tornar-se tentador ou imaginar que Adão viria a cometer o pecado, mesmo sem ser induzido em tentação?

Esta dificuldade cai logo que se saiba que os primeiros fautores da nova teoria aceitaram, como premissas necessárias, as ideias de Ruperto - esplendidamente desenvolvidas por Escoto - acerca da Redenção. Escoto, como é sabido, quer demonstrar que a Encarnação teria sobrevivido de qualquer modo, mesmo que Adão não tivesse caído. Se fosse devida apenas ao pecado do homem, teria sido «ocasional», e portanto indigna do infinito amor divino - enquanto no outro caso teria tido por verdadeira finalidade a glorificação do Verbo em prol do género humano. De sorte que a Encarnação foi pensada e querida por Deus ab aeterno, e pôde ser comunicada às criaturas angélicas bastante tempo antes que o homem, não ainda criado, se manchasse de culpa.

Admitida a ideia de Escoto - a que não falta uma poderosa e, quase direi, sublime profundez a - torna-se então possível e crível a teoria que faz de Satã, antes de rebelde, um enamorado desiludido e ciumento porque não escolhido por Deus, apesar da sua alta perfeição, para ser a segunda natureza de Cristo.

Contudo a dificuldade é outra. A Encarnação implica uma manifestação corpórea, e Lúcifer, como anjo, não tinha corpo. A Encarnação - tal como efectivamente sucedeu - devia terminar com a Paixão, isto é, com a morte do Messias, e Lúcifer, espírito puro, não teria podido ser morto.

Mas estas dificuldades, ao que consta, não pareceram insuperáveis aos corajosos ideadores da teoria de Satã como aspirante ao ofício de futuro Cristo. E, no entanto, não eram adventícios quaisquer e não lhes faltava severidade de estudos nem agudeza de engenho. O primeiro a quem ocorreu essa singularíssima interpretação da queda de Satã foi um italiano, o senense Lancillotto Politi (1483-1553) que em 1535 se fez dominicano e trocou o seu primitivo nome com o de Ambrósio Catarino. Gozou da plena confiança dos pontífices do seu tempo: Leão X nomeou-o advogado consistorial, Júlio III, que fora seu discípulo, elegeu-o arcebispo de Ponza e tê-lo-ia feito cardeal se Catarino não tivesse morrido subitamente. A sua reputação de teólogo excelso e ortodoxo era tão grande que, em 1545, foi delegado do Papa ao Concilio de Trento. Não era de modo nenhum simpatizante com os herejes e até

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combateu, em vários escritos, os erros de Lutero e de Bernardino Ochi­

no. A primeira redação da teoria sobre a queda do Diabo encontra-se

no seu tratado De gloria bonorum angelorum et lapsu malorum (Lião,

1552). Deste opúsculo de Catarino, extraiu-a, provavelmente, o mais

original e famoso teólogo da Companhia de Jesus, Francisco Suárez

(1548-1617), que amplamente a versou, com novos e adequados argu­

mentos, no tratado De Angelis (publicação póstuma, em 1620). Tam­

bém Suárez, não obstante o atrevimento de certas ideias suas, é, como

teólogo, nada menos que suspeito; de 1574 a 1615 leccionou Teologia

nas escolas mais famosas, em Segóvia, Valhadolid, Roma, Alcalá, Sala­

manca e Coimbra. O Papa Paulo V, em 1607, chamou-o, num breve,

doctor eximius et pius.

Suárez mostrou-se insatisfeito, no De Angelis, de todas as teorias

escolásticas que atribuíam a queda de Satã ao orgulho, e criticou subtil­

mente e severamente até as opiniões de S. Tomás. A ideia de que Lúci­

fer tivesse deveras podido pensar igualar-se a Deus, parecia, a Suárez,

inverosímil e absurda, a menos que o anjo tivesse perdido qualquer

sobra de inteligência e de razão. Ele acolheu por isso a hipótese do dou­

to Catarino e, por consequência, também a teoria de Escoto sobre a

Redenção.

A Igreja não admitiu ainda nem uma nem outra, mas convém não

esquecer que dois grandes teólogos católicos, insuspeitos e insuspeitá­

veis, o dominicano Catarino e o jesuíta Suárez, acreditaram e sustenta­

ram que o verdadeiro móvel da rebelião de Satã não foi a soberba, mas

sim o desejo — em si mesmo não pecaminoso — de obter a união hipos­

tática com o Verbo, isto é, com Cristo.

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Lúcifer Caiu Por Impaciência

Na Divina Comédia — que após seis séculos de logoscopia ainda

não foi por completo decifrada — encontramos uma opinião nova sobre

a queda de Lúcifer.

No Paraíso (XIX, 46-48) lê-se:

... il primo superbo

che fu la somma d’ogni creatura,

per non aspettar lume cadde acerbo.

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Dante, aqui e alhures, aceita duas opiniões correntes entre os teólogos católicos de todas as idades: que Sata foi o mais perfeito dos arcanjos e que o seu pecado foi a soberba. A estes dois conceitos arqui-sabidos ajunta, porém, uma outra notícia, da qual não há traço na escolástica medieval. Ele não quer aspettar lume («aguardar a luz») e por isso cadde acerbo («caiu azedo»), isto é, antes do tempo. Lume, em Dante, significa sempre, no sentido espiritual, a Graça: Lúcifer, portanto, foi impaciente, não soube aguardar a plenitude da Graça, e, por isso, caiu antes do tempo, como um fruto que cai «azedo» da árvore que o sustém.

Os comentadores não souberam, até à data, descobrir a fonte desta singular teoria dantesca e há motivos para apostar que nunca a descobrirão, já que o próprio P. Mandonnet, que dedicou um inteiro volume a Dante, le théologien e a quem é familiar, como a poucos, o pensamento escolástico, não a menciona.

Mas que quer dizer, no fundo, esse non aspettare lume? É acaso possível que o anjo mais perfeito necessitasse de uma posterior iluminação para melhor compreender a unicidade e a omnipotência do Criador? É acaso possível que Deus não tenha dado às criaturas angélicas, desde o primeiro momento, toda a luz com a qual queria iluminá-las? E Deus, no caso contrário, a que alude o poeta, terá feito saber aos Seus anjos que só no futuro, após certo tempo, lhes teria concedido aquela porção de «luz» que ainda faltava à perfeição deles? E, no caso de os anjos não terem sido prevenidos deste suplemento de Graça que deviam esperar com paciência, pode-se acusar Lúcifer de não ter querido aguardar com paciência e, portanto, ter caído «azedo»? Poder-se-ia também pensar que aos ouvidos de Dante tivesse chegado o murmúrio dessa hipótese segundo a qual Lúcifer teria desejado ser eleito para colaborar na futura Redenção dos homens, e neste caso a «maior luz» poderia significar uma maior glória e dignidade, que o Pai lhe viria a conceder.

São interrogações às quais só os teólogos — na persuasão de serem capazes de penetrar os mais recônditos mistérios divinos — poderão responder. Mas parece, entretanto, que até agora não fizeram reparo no problema posto pelo divino poeta.

Os pecados de Lúcifer, se é verdadeira a hipótese de Dante, seriam dois: a soberba e a impaciência. Mas este último é o primeiro e o mais

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A Primeira Culpa De Satã

Sto. Anselmo de Cantuária, no seu pequeno tratado De Casu Diaboli, atribui a rebelião de Lúcifer ao desejo de ter uma vontade própria, independente, isto é, livre.

Eis o texto: Nom solum autem voluit esse aequalis Deo, quia praesumpsit habere propriam voluntatem, sed etiam voluit esse, volendo quod Deus illum velle nolebat, quoniam voluntatem suam supra voluntatem Dei posuit.

Culpa dobrada teve pois o arcanjo rebelde, segundo o Santo Teólogo: presumir ter uma vontade própria, pôr essa vontade acima da divina. Considerando o segundo ponto, a monstruosa culpa, quase inconcebível por uma mente humana, é manifesta. Não assim quanto ao primeiro ponto: aos anjos, que saibamos, foi concedida liberdade de querer e tal liberdade pressupõe e implica, até mesmo necessita, o direito a um próprio querer. Uma liberdade que consistisse em querer só aquilo que o superior quer, não seria liberdade.

Os teólogos têm-nos repetido mil e cem mil vezes que, se Deus não tivesse dado às suas criaturas o admirável dom da liberdade e os houvesse constrangido todos a pensar e a fazer unicamente as coisas queridas por Ele, teria criado fantoches sem mérito e sem dignidade.

Sto. Anselmo dá uma interpretação inclusivamente satânica do livre arbítrio quando afirma que Lúcifer, pelo único facto de ter uma vontade própria, presumia tornar-se igual a Deus. Muitos defensores da liberdade humana sustentam, com efeito, que neste dom consiste, na verdade, a nossa semelhança com Deus, e o mesmo pode dizer-se dos anjos. Lúcifer mais não fazia que demonstrar ter sido feito à imagem e semelhança de Deus e não se pode ter por culpa o ele conformar-se à própria natureza, qual foi ordenada por Quem a criou. Lúcifer, na boa paz do autor do Monologion, pode requerer ser absolvido dessa prime ira culpa.

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A Soberba Do Diabo

Tem sido ensinado sempre — por muitíssimos Padres e Doutores, se não por todos — que o pecado de Satã foi a soberba e que a soberba é, nos homens, o pecado diabólico por excelência.

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Mas será rigorosamente o Diabo o único a ensinar a soberba? E o orgulho é deveras ignorado por quantos aspiram a ser bons cristãos?

Abramos a Bíblia e leiamos. No salmo LXXXII encontram-se estas palavras de Deus aos homens: «Eu disse: Vós sois deuses. Todos sois filhos do Altíssimo» (v. 6). Esta divina afirmação foi citada e retomada por Cristo. Dirigindo-se aos fariseus, Ele os apostrofava, dizendo: «Não está escrito na vossa lei: Vós sois deuses? ... (A lei) chama deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dada e a Escritura não pode ser anulada». S. João, XXXIV, 34).

Temos assim um duplo testemunho de que Deus considera e chama deuses a certos homens. Mas não é isto porventura um convite à soberba? E que disse a serpente à Adão e Eva, senão uma palavra muito semelhante? «Sereis como deuses.» Ela fazia, portanto, a promessa que Deus está pronto a manter. E contudo, precisamente por esse desejo de ser igual a Deus, Adão foi degradado, expulso e condenado.

E quando Cristo dá aos eleitos o preceito da imitação divina - «Sêde perfeitos como é perfeito o vosso Pai» (S. Mateus, V, 18) - não afirma que o homem, simples criatura, pode conquistar um dos atributos essenciais de Deus, isto é, a perfeição? Vir a ser perfeitos à igualha de Deus, acaso não é vir a ser quase deuses?

S. Paulo, enfim, carrega a intenção: «Não sabeis que nós julgaremos até os anjos?» (Ep. Aos Corintios, VI, 3). Por conseguinte os homens, segundo S. Paulo, são superiores aos próprios anjos, seres perfeitíssimos, já que só os superiores podem julgar os inferiores.

Em todos estes passos o homem - nomeadamente o cristão - é engrandecido e exaltado até ao ponto de ser posto quase a par com Deus. A doutrina cristã da «deificação» é, em meu juízo, profundamente sublime e verdadeira, mas será possível dissociá-la inteiramente de tudo o que se chama orgulho e soberba?

E quando os cristãos consideram que Deus segue passo a passo os seus pensamentos e actos, que sofre pelos seus pecados, que manda aos seus eleitos inspirações e visões celestes, não teremos algo que semelha bastante de perto à soberba? Se a humildade, a convicção de que nada valemos, faz parte das virtudes cristãs, que diremos dessas mínimas criaturas que se julgam objecto de uma particular atenção e protecção do Pai?

A soberba do cristão não é por certo a de Satã. O cristão obedece e imita; o Diabo rebela-se e quer rivalizar. Mas há no entanto qualquer coisa de comum, pois os extremos, como é sabido, tocam-se. Quando S. João da Cruz quer aniquilar-se todo e em si fazer o vácuo, o nada, para que Deus possa calar na sua alma e enchê-la, temos, ao mesmo

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tempo, o cúmulo da humildade (o aniquilamento) e o cúmulo do orgulho, visto que o santo, por aquela via, assegura-se de possuir Deus, de se unir à Sua omnipotência e omnisciência.

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A Derrota De Satã

A única narração autêntica - porquanto inspirada por Deus - da batalha contra Satã e sucessiva queda deste, encontra-se no último livro canónico aceite pela Igreja, o Apocalipse (XII, 7-9). Vale a pena relê-la.

«E houve batalha no céu: Miguel e os seus anjos combateram com o Dragão, e o Dragão e os seus anjos combateram, mas não conseguiram levar a melhor e daí por diante não houve no Céu lugar para eles. E o grande Dragão, a antiga Serpente, o sedutor do Mundo inteiro, foi precipitado sobre a Terra e com ele foram precipitados os seus anjos.» E. em seguida ajunta-se que «o acusador dos nossos irmãos, que dia e noite os acusava perante Deus, foi precipitado».

A narração, não obstante a sua simplicidade, não é tão clara como poderia parecer à primeira vista.

Por que mistério, pergunta-se, foi necessária a força do Arcanjo S. Miguel e de todos os seus anjos para abater o Diabo? O Omnipotente, com um simples acto da Sua vontade, teria podido precipitar o rebelde num instante. Porque julgou Ele necessário um vero e próprio combate entre as duas opostas legiões angélicas? Ou Deus sabia que, de qualquer modo, os espíritos fiéis teriam vencido os espíritos do Mal e então essa batalha não tem, ao menos para as nossas inteligências, uma clara justificação; ou se tratava, ao invés, de um combate entregue, como as pelejas humanas, às únicas forças dos exércitos contrapostos, à sorte das armas? E que teria acontecido então se os rebeldes tivessem levado de vencida as milícias fiéis?

Há mais. Sempre se tem ouvido dizer que Lúcifer foi precipitado no abismo, nas trevas, no lugar que depois foi dito o Inferno. Mas o Apocalipse, ao contrário, afirma claramente que o Dragão, isto é, o Diabo, foi precipitado sobre a Terra juntamente com os seus sequazes. Que os demónios estejam presentes sobre a Terra a todos é notório e evidente. Mas só na Terra terão morada? E só a Terra lugar de exílio e única pátria de Satã e dos seus? É lícito, segundo o texto sagrado, identificar a Terra - esse mundo em que Satã é príncipe - com o Inferno?

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O Apocalipse, para explicar a derrota de Lúcifer, atribui-lhe duas culpas: ser «o sedutor do Mundo inteiro» e «o acusador dos irmãos perante Deus». Quanto à primeira todos estão de acordo: Satã encarna o mal e portanto a sua sedução não pode ser senão incitamento ao mal, acréscimo de males.

Mas a segunda culpa deixa-nos perplexos. Nós sabemos, do Livro de Job e também de outros passos da Bíblia, que Satã percorria o Mundo para observar a conduta dos homens e dela referir a Deus. Não teria podido levar a cabo esta missão de relator e confidente sem a permissão e o desejo de Deus, porquanto Deus se dignava escutá-lo. Ele, por conseguinte, acusava os homens. Mas bastará tão ingrato, bem que legítimo, ofício, para condená-lo? Ou as acusações correspondiam à verdade e então Satã teria feito honestamente a tarefa de que Deus o incumbia; ou as acusações eram falsas e então o Diabo não foi castigado como acusador, mas, outrossim, como autêntico caluniador.

Porém, mesmo neste segundo caso ele não podia absolutamente prejudicar ninguém. Deus é omnimidente e justo por definição e não é possível enganá-lo. Ele sabia destrinçar de modo infalível o que era verdadeiro do que era falso nas acusações de Satã e nunca viria a punir nenhum homem sobre os falsos testemunhos do Adversário. Neste podia abrigar-se a intenção, não a capacidade de molestar.

Mas talvez a alusão aos «irmãos» acusados se referisse aos cristãos injustamente caluniados pelo Grande Caluniador. Em tal caso não se trata, por conseguinte, da primeira derrota – acontecia muitos milênios antes da Encarnação – mas de uma segunda batalha, da qual tão-somente o Apocalipse nos conserva a memória.

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O «Non Serviam»

Condena-se universalmente em Lúcifer o famigerado Non serviam.

Mas terão sido realmente estas palavras pronunciadas pelo Príncipe dos Anjos? É recusa normal servir um tirano, um déspota, um autocrata. Mas tal não era aquele Deus que às suas criaturas e, antes de todas, aos Anjos, concedeu a liberdade de querer. Deus não é um patrão terrestre que precise de ser servido. Ele é tudo e tudo possui, portanto não deseja e não tem escravos. É, por excelência, Amor e por isso quer ser amado; e o amor não é deveras amor se não é livre e espontâneo movimento da alma.

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Cristo, o verdadeiro Deus, não disse aos homens: «A verdade vos fará livres»? E Lúcifer, que outrora fruiu da Graça divina, não era livre? Se não dispusesse de liberdade plena, como teria podido rebelar-se contra o Criador?

O desejo de não servir, isto é, a liberdade, não tem sido sempre um dos sinais dos espíritos nobres e generosos?

Mas tal desejo, vivo e digno de apreço nos homens envoltos nas servidões terrestres — recorde-se Catão de Útica em Dante — não podia existir em Lúcifer, que fora criado livre e que da liberdade podia livremente servir-se para amar ou odiar a Deus.

Não foi por conseguinte a recusa de servir, mas a escolha do ódio — inveja, ciúme, protérvia — a causa da queda de Satã.

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Qual É O Verdadeiro Responsável Da Queda De Satã?

Qual foi a verdadeira razão pela qual Lúcifer, precisamente Lúcifer, foi arrebatado pelo terrível pecado da soberba?

Recorramos, para evitar transvios, ao príncipe dos teólogos católicos, a S. Tomás. Na sua Summa Theologica o grande Doutor explica, de acordo com outros Doutores, que Deus criou em Lúcifer o mais alto e perfeito dos seus anjos (P. I., quest. XXV, 6). Dante, seguindo S. Tomás, chama Lúcifer «aquele que foi criado nobre mais do que outra criatura» (Purgatório, XII, 25-26) e «o resumo de todas as criaturas» (Paraíso, XIX, 46).

Tal superioridade de Lúcifer sobre os demais anjos é admitida por quase todos os teólogos. Mas precisamente essa superioridade — queri-da por Deus - foi a causa primeira da sua soberba e da sua ruina. Recorramos, desta vez também, a S. Tomás, e para não errarmos, transcrevamos as suas próprias palavras: «Si considereretur motivum ad peccandum, majus invenitur in superioribus, quam in inferioribus. Fuit enum daemonum peccatum superbia, cuius motivum est excellentia, quae fuit major in superioribus.» (Summa Theologica, quaest. LXIII, art. 7). E S. Tomás cita ainda a autoridade de S. Gregório Magno: «Et ideo Gregorius dicit, quod ille qui peccavit, fuit superior inter omnes.»

Este latim escolástico é tão transparente que não precisa de ser vulgarizado. As ilações que se podem tirar dos textos de S. Tomás são claríssimas.

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Deus criou Lúcifer mais elevado que todos os outros; mas quem está nas alturas fica mais sujeito à soberba; por isso Lúcifer foi o primeiro a cair nesse pecado e a rebelar-se contra Deus. O raciocínio não faz uma ruga mas presta-se a reflexões que podem deitar por terra inclusivamente as concepções tradicionais acerca da queda dos anjos rebeldes.

Deus é o criador único de todas as criaturas e só d'Ele receberam e recebem todos os requisitos e qualidades. Foi pois Deus que quis fazer de Lúcifer, para usar da linguagem de Dante, «o resumo de todas as criaturas». Mas Deus é também omnisciente, omnividente e omniprevidente e devia portanto saber que Lúcifer, devido à sua mesma superioridade, era sujeito a cair, e que viria a cair. Ele fez ao Seu anjo predilecto – como a todos os anjos e a todos os homens – o dom inestimável do livre querer; mas este dom – Ele não podia ignorá-lo – daria a Lúcifer a possibilidade de pecar e cair. A superioridade foi assim o que determinou a soberba; a liberdade foi a condição que tornou possível a queda.

Deus, autor do Universo, criou um mundo no qual o pecado é possível, o mal é possível, a perdição é possível. Se não tivesse havido no Mundo a possibilidade (melhor, a facilidade) do mal, a liberdade angélica e a humana teriam podido sempre escolher, mas escolher livremente entre várias ordens de bens, de obras boas, de acções justas. Lúcifer não criou o Mundo nem se criou a si mesmo, e não é pois culpa sua se a ordem do Mundo – estabelecida por Deus – permite e tolera o pecado; não é culpa sua se a mesma superioridade a ele outorgada o predispõe e o inclina, como afirma S. Tomás, ao pecado da soberba.

Se Deus é autor e legislador de tudo, se nada é possível e pensável fora da Sua vontade e da Sua lei, seríamos tentados a concluir que Ele tem uma parte de responsabilidade no que sucede às Suas criaturas. Criou-as daquele mesmo modo, colocou-as numa realidade criada por Ele, onde tudo é possível, e daí vem que todas as coisas, por admiráveis ou terríveis que sejam, têm n'Ele causa e princípio.

Se as razões de S. Tomás são exactas e ortodoxas, será justo atribuir a Satã a culpa toda?

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Iv

A queda de Satã e a dor de Deus

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A Queda De Satã E A Dor De Deus

Se Deus é amor, deve ser, necessariamente, também dor. Se o amor é comunhão perfeita do amado e do amante, resulta daí que toda a pena e desventura do amado entenebrece e intoxica a alma do amante. Se Deus ama as suas criaturas como um pai ama os seus filhos, indizi-velmente mais do que um pai terrestre ama os filhos do seu sangue, Deus deve sofrer e seguramente sofre pela desdita dos seres que a Sua potência suscitou do nada. E se em Deus, por natureza, tudo é infinito, podemos pensar que a Sua dor seja infinita, como é infinito o Seu amor.

Nós não cuidamos bastante nesta infinita dor de Deus. Nós não temos piedade nenhuma deste tormento de Deus. Mesmo entre os que seus se reconhecem, os mais deles não procuram compreender e conso-lar a desmedida aflição de Deus. Nós pedimos aos pais dons, socorros, perdões, mas ninguém participa, com a ternura de um affecto filial consciente, da perene angústia de Deus.

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Houve santos, e talvez ainda os haja, que quiseram ressentir e aceitar e repetir neles mesmos as torturas atrozes da visível Paixão de Jerusalém. Mas a dor de Cristo não foi senão um momento, seja embora essencial e supremo, da dor de Deus. Foi, se é lícito usar uma palavra toda profana num tema todo sublime e sacro, a «fase espectacular» da dor divina. Manifestou-se num ponto da Terra, em formas terrivelmente humanas, e agitou, comoveu e sacudiu as demasiado humanas fantasias dos amantes. Mas a Paixão de Cristo não foi senão a Epifania física, circunscrita no tempo e no espaço, de uma Paixão que é anterior e posterior à Cruz. A Cruz não é senão o símbolo finito e tangível de uma Crucificação que a precede e a segue. «Cristo estará em agonia até ao fim do Mundo», escreveu um homem que penetrou o sentido trágico do Cristianismo bem mais do que os redactores das pandectas dogmáticas. Mas ele teria podido ajuntar que Deus esteve em agonia desde os primeiros tempos do Mundo. A vida do Criador tem sido, desde o princípio, Paixão, isto é, um «padecer», um sofrer, um eterno alancear e doer. Quem não ama Deus na Sua dor, não merece que Ele o ame.

Maravilhosamente escreveu o grande Orígenes: «O Salvador desceu sobre a Terra por piedade do género humano. Suportou as nossas paixões antes de sofrer a Cruz, antes mesmo de se ter dignado assumir a nossa carne: se deveras não as tivesse suportado primeiramente, não teria chegado a participar da nossa vida humana. Mas que paixão é essa que Ele padeceu por nós? — É a paixão do amor. Mas o próprio Pai, Senhor do Universo, Ele que é cheio de longanimidade, de misericórdia e de piedade, será verdade que em qualquer modo também Ele sofre? Ou ignoras porventura que, logo que Ele se ocupa das coisas humanas, Ele sofre uma paixão humana? Porquanto o Senhor, teu Deus, tomou à Sua conta a tua vida, como aquele que toma à sua conta o filho que nasce do seu sangue. (Deut. I. 31) Deus toma assim à Sua conta a nossa vida, como o Filho de Deus toma as nossas paixões. Nem de longe o Pai é impassível. Se O invocamos, Ele tem piedade e compaixão. Sofre uma paixão de amor ...»

A via de Deus, como a do homem, é, pois, tragédia. A Criação, surta da sua amorosa vontade de fazer participar outros seres na alegria da Sua perfeição, foi causa e meio de perdição. Ele desejava alçar, elevar, fazer subir as criaturas até àqueles cumes onde o não ser pode atingir o ser, e teve de assistir aos abandonos, às revoltas, às deserções, às quedas. Tinha criado um anjo mais que os outros perfeito, mais que todos próximo e semelhante a Ele, e esse anjo caiu. Tinha criado, no jardim da Terra, um ser milagroso, modelado pelas Suas mãos, animado do Seu sopro, munido de consciência e de ciência, e o homem tam-

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bém caiu. A mais divina criatura celeste insurgiu-se contra Deus; a mais divina criatura terrestre desobedeceu-lhe. Nem a uma nem a outra Ele recusara o privilégio da liberdade, selo de uma desejada semelhança entre o artesão e as suas obras-primas, mas uma e outra criatura usaram da liberdade para deturpar e renegar aquela semelhança. Assim a perfeição dá origem ao pecado, a alegria engendra a condenação, a luz tem como resposta a ofensa das trevas. Houve jamais, no Universo e no Infinito, pensando bem, tragédia mais medonhamente trágica do que esta dialéctica da liberdade?

Todos acharam sumamente justa a condenação de Satanás. Mas houve jamais alguém, até hoje, que tenha pensado e sentido como esta condenação foi ao mesmo tempo a condenação de Deus à dor? O castigo de Lúcifer tornou-se repentinamente, noutra forma, o castigo de Deus.

Nem mesmo Deus pode escapar a uma lei por Ele mesmo tornada imanente em todo o acto de Justiça: nenhum juiz pode infligir uma pena sem tomar sobre si uma pena equivalente à cominada pela sua sentença. O justo é inteiramente justo só na medida em que aceita pagar, ele também, pelo culpado.

Lúcifer foi condenado justamente à pena mais atroz: a de não poder amar. Deus é condenado a uma pena quase tão cruel: ama sem receber amor em troca, sofre à ideia da tortura querida por Ele.

Buscai – se tendes um átomo de imaginação, um coração a pulsar no peito – entender, penetrar, adivinhar a lacerante premissa desta «divina tragédia». Quem não consente em tal esforço e continua a afigurarse Deus como um óptimo e plácido Velho ocupado na distribuição de elixires e prémios aos seus servidores, ainda não chegou sequer ao limiar do Cristianismo.

Pensai. Deus, em ordem à Sua justiça, pode condenar mas não pode odiar. Se Ele é, por essência, o Ser, não pode nutrir em Si aquela sede de aniquilamento que é o ódio. Se Ele é, por essência, Amor, todo Amor, não pode n’Ele subsistir o oposto do amor, aquela negação do amor que é o ódio. Ele condenou necessariamente Lúcifer, mas não o odeia nem poderá jamais odiá-lo. Precipitou-o no abismo, mas para além deste abismo de horror há um abismo ainda mais profundo, que é o abismo do seu amor. Enquanto Lúcifer era o mais sublime dos anjos, isto é, o mais semelhante a Ele, amava-o mais do que os outros. E quanto mais forte e pleno era o seu primitivo amor por Lúcifer, tanto mais forte e pleno deve ser o seu misericordioso afã após a queda. Amava-o imensamente antes da revolta, quando era feliz entre os felizes; não há-de amá-lo mais ainda, agora que se tornou o mais desespe-

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radamente infeliz entre os infelizes? O castigo de Lúcifer é o mais hor-rendo que mente divina ou humana possa conceber: já não ama, já não é capaz de amar, mergulhado nas profundezas e confinado na escuri-dão intérmina da ausência e do ódio. Nenhuma condenação pode comparar-se à que oprime Satã. Ele é verdadeiramente «o mais infeliz», numa acepção que pavorosamente transcende a que foi entendida por Kierkegaard. Não há sobre a Terra malfeitor tão desgraçado que não tenha conhecido um espontâneo ímpeto de afecto, um confuso lampejo de esperança. Esses míseros, e contudo inestimáveis respiradouros, são negados a Lúcifer.

Deus bem o sabe. Deus não pode fugir a sofrer tamanha infelecida-de, que é absoluta, à igualha da Sua misericórdia. O amor, no homem, é levado, nos seus ímpetos mais sublimes, a amar quem mais sofre, ain-da que por própria culpa. Que acontecerá, pois, no grande coração de Deus, n’Aquele que é fonte primeira e suma de toda a compaixão e de toda a piedade? Talvez que Ele ame agora Lúcifer mais do que no tem-po em que o Anjo predilecto esplendia no Empíreo a Seu lado. Mas o amor que dedicamos a um infeliz, ao mais desesperado entre os deses-perados, é por necessidade um amor doloroso, amor de condolência e de angústia. Deus, que tudo sabe e nada esquece, não pode senão sofrer infinitamente pela desdita da criatura maravilhosa, à qual concedeu, nos mais vastos limites da finitude, todos os dons e na qual, mais do que nos outros, viu reflectida a Sua grandeza e a Sua alegria. Amou-o, um dia, como só Deus pode amar; e não haveria de ter experimentado uma dor inenarrável quando viu Lúcifer levantar-se contra Si? E não deve ainda sofrer martirizante nostalgia ao espectáculo dessa luz tão amada e agora extinta? Não deve padecer indizivelmente à ideia de que a criatura por Ele colocada mais ao alto está agora caída e reclusa abai-xo de toda a baixeza imaginável?

Ele ainda o ama; o Seu amor, porém, é tanto mais doloroso quanto Ele sabe, sem ilusão, que Lúcifer não pode responder ao divino amor, precisamente porque o castigo consiste na absoluta privação e incapacidae de amar. Nem mesmo a sua piedade infinita pode superar tal impotência. Deus ama, sabendo que não é correspondido, que não pode ser correspondido. Deus sofre infinitamente porque infinitamente ama aquele mesmo que está condenado a não amar.

Ele não pode por Si restituí-lo ao primeiro e altíssimo estado; não pode salvá-lo sem a voluntária cooperação de uma outra criatura. Nem tão-pouco Lúcifer pode a si próprio redimir-se. Bastar-lhe-ia no entan-to um único e puro movimento de amor para romper voo do abismo das funduras ao abismo das cumeadas, para reaparecer, fúlgido, à ca-

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beca dos Troncos e das Dominações. Mas a sua condenação consiste, em rigor, na incapacidade desse movimento. É necessário que alguém lhe estenda a mão e reacenda o seu espírito e este alguém não pode ser Deus. Mas este «alguém», que na humana linguagem se chama homem, não sabe ou não recorda ou não quer. Devia ser o salvador de Satã e veio a tornar-se, ao invés, o seu servo, isto é, aquele que o ajuda a permanecer onde está, no fundo mais profundo da Ausência.

Uma das razões que induziram Deus a criar o homem, após a queda de Lúcifer, foi talvez a esperança na redenção de Satã. O homem, feito de lama, mas de natureza quase angélica, houvera de ter sido o intermediário entre Deus e o grande Anjo Negro. Satã ter-se-ia avizinhado da nova criatura para dela fazer o instrumento do seu rancor contra o Pai, e o homem teria podido fazer então o que Deus não podia: teria podido, por sua vez, tentá-lo, reconduzi-lo ao seu destino primordial, com o exemplo da sua inocência, da sua obediência, da sua humildade. Adão houvera de ter sido a isca para o seu retorno à glória. Tal era a esperança D’Aquele que é ilimitado e universal Amor; bem depressa desfeita e traída.

Adão preferiu obedecer a Satã e desobedecer a Deus; o intermediário tornou-se escravo, cúmplice e vítima. O homem, com a sua queda, não se precipitou unicamente a si mesmo na Dessemelhança, mas, ao mesmo tempo, perpetuou a danação do Rebelde. Adão, prestando fé à palavra do Tentador, subverteu o amoroso desígnio de Deus. O Exul, escorraçado, prorrogou o exílio do Fulminado.

Esta traição, que explica melhor a dureza das sanções do pecado original, foi a primeira causa da segunda grande dor de Deus. Ele tinha criado um ser destinado à ventura e teve de condená-lo à desventura. Tinha extraído da Terra uma criatura belíssima, e teve de vê-la desfigurada pelo remorso, pela culpa, pelo cansaço. Tinha criado um ser todo iluminado pela luz da sabedoria, e teve de vê-lo caminhar às apalpadelas nos foscos do erro e da dúvida, na noite da cegueira. Tinha criado uma criatura livre e teve de vê-la acorrentada, qual símio sob o jugo, nas mãos do Demónio. Tinha-a criado para a vida e teve de assistir à incessante imitação do primeiro fraticida.

Deus criou o homem por amor, e mesmo hoje, não obstante o que aconteceu, apesar de tudo, ama os homens. Mas precisamente este amor obstinado aos homens é a causa da Sua segunda dor. Como poderia Ele não sofrer ao contemplar a cada instante a mísera infelicidade dos Seus filhos? O Seu amor ao homem levou-O ao ponto de fazer por ele o que não tinha feito, e não pode fazer, por Lúcifer: Ele mesmo Se fez homem para resgatar os homens. Mas nem sequer este inefável e

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inaudito sacrifício bastou. Poucos homens aceitaram com simpleza de coração os frutos rubros da nova árvore. O holocausto da Redenção foi aceite tão somente por uma minoria, e mesmo esta, quase sempre como fórmula de um credo, mais do que como substância activa de vida transfigurada. Os homens, após a Crucifixão, continuaram na mesma a trair, a sofrer, a esquecer, a matar e a emputrescer como dantes.

Deus, depois da Sua Paixão na Terra, voltou a padecer a Sua eterna, infinita, divina Paixão. Ele ama os homens e é forçado a ver estes filhos sempre amados, que se enganam, se emporcalham, se massacram, se odeiam, se revoltam, bramam, soluçam, e se pranteiam e se desesperam. A infelicidade do homem espelha-se, multiplicada pela misericórdia paterna, na infelicidade de Deus.

Ele, que tudo sabe, sofre pelos que sofrem de O não conhecerem, de O não seguirem, de Lhe não obedecerem, de O não amarem. Sofre atrozmente ao verificar que os mesmos que O invocam com a boca, O negam com a alma e com a vida. Sofre indizivelmente ao descobrir que os mesmos que se ufanam de servi-Lo e interpretá-Lo, mais não são do que charcos de água morta, em vez de fontes borbotantes, ecos chochos da Sua palavra mais do que centelhas do Seu fogo.

Sofre de todas as ruínas, de todas as misérias, de todas as imbecilidades e ferocidades dos Seus «filhos pródigos», dos fiéis infiéis, dos deicidas suicidas. Sofre, enfim, com o reconhecer que todo o Seu sangue não pôde impedir que a Terra esteja ainda empastada, ensopada, embebida de sangue fraterno.

Eis a dupla raiz da dor de Deus, da infinita dor de Deus. Os Céus narram a Sua glória, mas o universo espiritual narra a Sua desventura. Assemelha-se a um artífice que veja desfazer-se ou alterar-se as suas obras mais admiráveis, mais caras ao seu espírito. O gigante celestial abismou-se; o imperador terrestre feriu-se e envelheceu. Quase parece que a predilecção divina seja uma antecipação de conforto às quedas iminentes. O Seu amor parece ter os mesmo efeit os que o raio. As torres que Ele ergueu ao de cima do Céu e da Terra são as primeiras a desabar. A supremacia torna-se em fatalidade de maldição.

Lúcifer nada pode para aliviar a dor divina: a sua própria condenação é também a absolvição da sua medonha aridez. Mas o homem pode ainda fazer qualquer coisa pelo seu Deus, que se mortifica e padece por ele. Não está abolida no homem, a despeito da hegemonia de Caim, toda a virtude da caritas. Nós podemos amar Deus, não somente em retribuição do Seu amor, mas também por compaixão da Sua Paixão, por piedade da Sua sobrenatural tortura. Mas podemos ainda fa-

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zer mais, inauditamente mais, contanto se saiba e se queira. Aos redimidos, quando forem deveras todos redimidos, compete iniciar uma segunda, e por ora inimaginável, redenção. A dor de Deus é o último mistério da nossa fé, cuja solução, remota embora, talvez nos esteja confiada, a nós somente.

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V

Deus e o Diabo

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O Diabo E O Ateísmo

O Diabo não é ateu: longe disso. Ele está seguro, ainda mais do que nós, da existência de Deus, por havê-Lo contemplado de perto, por tê-Lo visto trabalhar. Pode até afirmar-se que ele conhece alguns dogmas da teologia cristã bastante melhor que os teólogos, que amiúde devem remeter-se à fantasia silogística para desamaranhar certos mistérios.

Diremos mais: o Diabo não é de maneira nenhuma favorável ao ateísmo; é provável, mesmo, que seja inimigo dos ateus. Ele avonde sabe que o seu poder está estreitamente ligado ao do Senhor dos Céus.

Os homens que não crêem em Deus não se propõem ofendê-Lo ou desobedecer-Lhe, não cometem sacrilégios e, quando são coerentes, não cuidam sequer em blasfemá-Lo. O Diabo tem sobre eles, portanto, menos presa: estão destinados ao seu reino, mas sem batalha; isto é, sem o gosto da luta e da vitória.

Poderia dizer-se, entretanto, que Deus é ateu. A fé, com efeito, pressupõe uma relação entre quem crê e o objecto da crença. Mas Deus é aquele que é e nenhum outro ser existe acima d’Ele. Ele tem o conhecimento de Si, mas não já o que nós chamamos fé ou crença. A Deus só, porque Deus, é permitido ser ateu.

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Satã, ao invés, que é uma criatura, é forçado a crer em Deus: é um teísta. Pode combatê-Lo, mas, precisamente por isso, conhece-O e aceita-O.

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Satã Como Deus?

Em todo o Antigo Testamento a palavra Satã é usada com artigo, quer dizer, como nome comum, e significa, sabemos-lo, Inimigo, Adversário. Mas há uma excepção, que merece ser posta em evidência, embora os comentadores costumem desembaraçar-se dela com poucas palavras.

No livro das Crónicas (XXI, 1) lê-se: «Satã levantou-se contra Israel e induziu David a fazer o recenseamento de Israel.» Neste passo – o único – Satã não é precedido do artigo e designa pois uma pessoa determinada, isto é, precisamente o chefe dos rebeldes, o insidioso, o Anti-Deus.

Aparece aí, de facto, como um ser dotado de um poder quase sobre-humano, visto que não só se eleva contra todo o povo de Deus, mas consegue dominar a vontade do rei, desse David que Deus escolhera para soberano e que sempre nos é apresentado como servidor fiel e cantor inspirado de Jeová.

Satã mostra nesta emergência um poderio igual ao de Deus, porquanto logra subjugar na alma do piedoso David a inspiração divina, obrigando-o a fazer o que o povo de Deus considerava ilícito: um recenseamento. Neste episódio, ainda que em forma de alusão fugaz, Satã aparece como um ser quase divino, capaz de contrabalançar o poderio de Jeová, um vencedor de Deus.

Poderia indagar-se quais as razões que induziram os Hebreus a julgar obra satânica o apuramento numérico do povo. Mas o que conta para nós é a prova de que, ao menos uma vez, a Bíblia reconhece em Satã um poder quase divino, David não o adora mas obedece-lhe, conquanto ligado fortemente a Jeová.

E a este propósito ocorre-nos um verseto do Corão (XIX, 45), no qual Abraão diz a seu pai Tare: «Meu pai, não adoreis a Satã. Em verdade Satã rebelou-se contra o Misericordioso.» Havia pois, mesmo em Ur, mesmo na família de Abraão, daquele que devia ser o pai do povo eleito, a adoração de Satã como divindade?

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Deus Imita O Diabo?

O padre Lacordaire, dominicano, um dos mais abundantes e triun-

fantes pregadores do Oitocentos francês, pronunciou um dia, da cáte-

dra de Notre-Dame em Paris, estas palavras: «Dieu, mes frères,

emploie quelques fois des moyens diaboliques.»

Colho a citação num livr0 de Léon Bloy e não fui procurá-la nas

Opera Omnia do famoso pregador. Mas estas palavras de Lacordaire -

ainda que não fossem de Lacordaire - merecem uma apostilha perti-

nente.

É porventura concebível que Deus, o Omnipotente perfeitíssimo,

se baixe até imitar as artes e os estratagemas próprios do Demónio?

Acaso Ele se propõe usar laços e armadilhas, seja embora com santo

intuito?

A coisa, ao primeiro aspecto, surge blasfema e incrível. Mas, se

recorrermos a uma parábola do Evangelho, não é difícil dar razoável

sentido à ousada afirmação de Lacordaire. É a parábola do feitor infiel,

na qual o patrão (que significa Deus) afirma que «os filhos deste Mun-

do são mais advertidos entre eles do que os filhos da luz» (S. Lucas,

XVI, 6) e aconselha a imitação. Os «filhos do século», contrapostos

aos «filhos da luz», não podem ser senão os discípulos e sequazes de

Satã («príncipe deste Mundo») e temos assim a prova de que a Segunda

Pessoa da Trindade - Cristo - aconselha os «filhos da luz» a seguir

algumas vezes o exemplo dos «filhos das trevas».

Temos disso a confirmação numa exortação célebre de Cristo aos

Apóstolos: «Sede cautelosos como as serpentes e simples como as

pombas» (S. Mateus, X, 16). O significado simbólico destes animais na

Bíblia é conhecido: a Pomba é o Espírito Santo, a Serpente é o Demó-

nio. Também neste caso Deus aconselha aos seus fiéis a imitar a pru-

dência (astúcia) de Satã.

Toda a diferença se reduz a um único ponto: as artes da Serpente

(Diabo) devem ser postas em obra para salvar as almas e não para per-

dê-las. E Deus (isto é, Cristo) não pode aconselhar aos seus amigos o

que ele próprio não queria fazer nunca. O padre Lacordaire, como se

vê. tinha as suas boas razões, quando ensinava, do mais famoso púlpito

da França, que Deus pode servir-se, uma vez por outra, também dos

«meios diabólicos».

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Os Dois Tentadores

O Diabo tem a fama de ser o Tentador por antonomasia e todos, a este respeito, concordam. Se o mister de Deus, segundo Heine, é o per-doar, o de Satã é o tentar.

Mas será deveras o único a pôr à prova a fraqueza das criaturas humanas? E não será ele, também nesta arte, somente simia Dei?

O Éden patenteia-nos, desde o princípio, um aparato de tentações. Existem, naquele ditoso jardim, duas árvores, as mais apetecíveis, as mais desejáveis, as mais admiráveis de todas: a árvore da Ciência e a árvore da Vida. Mas precisamente estas, e tão-só estas, são proibidas. O Homem e a Mulher sabem a natureza e a virtude dessas árvores, t podem ver, entre as folhas, os frutos que pendem ao alcance da mão e dos olhos, podem admirá-los e tocá-los; adivinhamos e sentem-nos preciosos mais do que todos os outros, e contudo precisamente esses e só esses não devem eles comer. Não semelha esta proibição dupla uma verdadeira e rigorosa tentação? Se Deus não queria que Adão adquiris-se o conhecimento e a imortalidade, não tinha forma de evitar pôr essas árvores no Éden, ao alcance do homem? Ele tinha plasmado Adão e devia saber quão frágil era a argila de que era feito: porquê expô-lo en-tão a tão dura e difícil prova?

O Homem e a Mulher, com efeito, não souberam resistir, à cobiça de tais frutos e caíram miseramente. A tenção, é verdade, foi obra de Satã, mas é admissível que a Antiga Serpente tivesse penetrado no Jar-dim e tivesse abordado Eva contra a vontade do Patrão do Jardim? Adão recebera de Deus o dom da liberdade, mas de Deus recebera também tudo o que possuía e, portanto, também a possibilidade de concupiscência e da desobediência, inclusas na fraqueza da carne e da vontade.

Deus aparece-nos pois, desde a primeira hora da vida humana, um tentador. E este seu atributo é reconfirmado por essa oração modelo, o Pater Noster, que o Filho de Deus ensinou aos seus discípulos.

Todos conhecem o remate da sublime oração: «Não nos induzas em tentação, mas livra-nos do mal» (S. Mateus, VI, 13). Todos repetem estas misteriosas palavras sem levarem bem em conta o seu significado inaudito.

A oração, ditada por Deus, é endereçada directamente a Deus e é precisamente a Ele, por conseguinte, que devemos pedir que não nos


 

induza em tentação: o próprio Deus se reconhece como Tentador.

A coisa pareceu tão inverosímil que se procurou traduzir com outras expressões o verseto revelador. Alguns propuseram: «Não nos exponhas à tentação», ou ainda «não nos deixes cair em tentação». Mas o texto é claro e não pode ser alterado por interpretações acomodaticias. O texto semita, subjacente ao grego actual, não permite tais variantes; a Vulgata, com efeito, traduz honestamente: «não nos induzas em tentação». E de resto «expor à tentação» ou «não nos deixar cair» não excluem, antes supõem, uma intervenção de Deus: Ele pode expor-nos ao perigo, Ele pode permitir a nossa derrota. Poder-se-á quando muito entender a palavra πιερασυσ como «prova» e não como directa solicitação ao mal, à semelhança da «prova» das duas árvores. Mas submeter alguém à prova — e a uma prova quase sempre difícil — não está muito longe do conceito e do facto da tentação.

É bem assim verdade que logo depois o orante ajunta «mas livra-nos do mal», e os mais antigos intérpretes — Orígenes, S. Crisóstomo, Tertuliano -, seguidos de muitos modernos, identificam o «mal» com o Maligno, isto é, com o Diabo. Todavia estas últimas palavras, que encontramos no Evangelho de S. Mateus, faltam no de S. Lucas.

De qualquer modo a Oração Dominical encerra-se com duas implorações: que Deus não nos induza em tentação e que nos livre das tentações do Demónio. Os Tentadores, portanto, seriam dois.

Nem se pode dizer que as «tentação» de Deus devem, por necessidade, ser opostas às de Satã, e por isso benéficas e santas. Em tal caso, que sentido teriam as palavras da oração, que claramente pedem a Deus que não induza em tentação? Seria acaso concebível que Cristo tenha exortado os fiéis a recusar as solicitações ao bem?

Permanece, pois, o enigma da natureza dessas possíveis tentações divinas. Aludir-se-á talvez às tentações que têm a raiz na nossa própria natureza, a qual é, em definitivo, obra de Deus? Ou será um modo de requerer mais válida força de resistência às tentações diabólicas? Mas o «induzir», que implica uma acção sobre a vontade humana, opõe-se a qualquer hipótese para nós inteligível. O mistério das «tentação» de Deus» ajunta-se, creio, aos outros mistérios em torno dos quais se afadiga, de há séculos, a teologia cristã.


 

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Satã Como Agente De Jeová

Cuida-se geralmente que Satã, depois da rebelião e da queda, haja sido relegado no abismo e nunca mais admitido à presença do Criador.

Outra é a verdade. O Livro de Job revela-nos que, mesmo após a expulsão do céu, houve relações cordiais entre o Senhor e o Rebelde. Recordais-vos? «Ora aconteceu que um dia, quando os filhos de Deus (os anjos) vieram a apresentar-se diante de Jeová, Satã veio também no meio deles.» E Deus, sem curar dos outros, dos fiéis, dirigiu súbito a palavra ao Maldito. «E Jeová disse a Satã: De onde vens? E Satã respondeu a Jeová: De girar e correr o Mundo. E Jeová disse a Satã: Viste o meu servo Job?» É inútil referir o resto, já que todos conhecem a proposta de Satã, que queria pôr à prova o piedoso patriarca para o fazer renegar Deus. Jeová aceita o céptico e impudente repto do Inimigo: «E Jeová disse a Satã: Tudo o que é possível está em teu poder; somente não estenderás a mão à sua pessoa. E Satã retirou-se da presença de Jeová.»

Conhecemos de sobejo o que aconteceu depois desse amigável colóquio. Basta-nos aqui pôr em relevo três importantes verdades que se podem deduzir do texto inspirado.

A primeira é que Satã, não obstante a sua revolta — acontecida muitos séculos antes da idade em que Job viveu — podia inscuisr-se no meio dos anjos fiéis (os «filhos de Deus») e apresentar-se junto com eles à face d'Aquele que tinha tentado superar. O que mostra que Deus, na Sua infinita misericórdia, conservava uma paterna indulgência por Lúcifer. Deus é, com efeito, sempre mais longânime e amoroso do que nos levam a supor certos rigorosos e rigoristas teólogos.

A segunda verdade é que Satã agia, num certo sentido, como inspector, «revisor» de Deus em meio dos homens e que Deus escutava benignamente os seus relatos, os seus juízos, as suas acusações. Coisa confirmada pelo santo profeta Zacarias, o qual viu o sumo sacerdote Josuah perante o Anjo de Jeová «e Satã, que lhe estava à direita para acusá-lo» (III,1 ). O Diabo, portanto, é um agente de Deus, reconhecido de Deus: algo semelhante a um investigador ou a um acusador público. Dir-se-ia quase um «procurador do Rei do Céu».

A terceira verdade, não menos importante, é que o Senhor estava pronto, em determinados casos a conceder a Satã poderes iguais aos seus: «tudo o que é possível está em teu poder». É um privilégio enor-

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me, que o Pai concedeu só ao Filho quando Este se encarnou sobre a Terra.

O Livro de Job apresenta-nos assim, de modo totalmente inesperado, as relações entre o supremo Juiz e o condenado rebelde. Será preciso tê-lo em conta quando se quiser discorrer acerca de um possível retorno de Lúcifer ao seu primitivo assento de anjo perfeitíssimo.

E as relações entre Cristo e Satã foram, como veremos, igualmente amigáveis.

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O Enganador Enganado

O Diabo nunca deixa de ser apresentado como o burlão fraudulento, o pérfido artífice de armadilhas e emboscadas. Mas nem sempre é assim. Um observador honesto e não prevenido é forçado a reconhecer que o mestre de enganos foi, mais de uma vez, atraiçoado e zombado. O cúmulo da justiça não consiste porventura em sermos équos para com os iníquos?

S. Gregório Magno, papa - que S. Tomás cita amiúde como autoridade teológica - expõe nas suas Moralia (XXXIII, 13-41) uma estranha teoria da Redenção fundada numa fraude a expensas do Diabo. Ele escreve: «Nosso Senhor vindo para a redenção do género humano, fez-se a si mesmo, em certo modo, anzol, para destruir o Diabo. Ele tomou realmente um corpo a fim de induzir este Behemoth (o Demônio) a matar a carne, que se tornou assim para ele uma isca. Desejando injustamente a morte do corpo (de Cristo) foi picado pelo acúleo da Divindade. Ali estava a Divindade, que havia de trespassá-lo ... Ele ficou por conseguinte preso ao anzol, porque isso que ele devorara o matou. Este Behemoth sabia certamente que o Filho de Deus se tinha encarnado, mas ele ignorava o destino da nossa redenção. Sabia que o Filho de Deus se encarnara para o nosso resgate, mas de todo ignorava que este Redentor, morrendo, o teria traspassado ... Este Leviatan (o Diabo) ficou preso ao anzol porque, enquanto por meio dos seus satélites mordia no nosso Redentor a isca do corpo, o acúleo da Divindade traspassava-o. O acúleo ficou na guela do guloso e mordeu quem o mordia. Behemoth Leviatan pode ser comparado ao pássaro: o Senhor apanhou-o como se apanha um pássaro, pondo-lhe diante a Paixão do

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seu Filho unigénito como uma isca, mas escondendo a armadilha. Era preciso que a morte dos pecadores que morrem justamente fosse rematada com a morte do Justo que morre injustamente.»

O pensamento de S. Gregório é claríssimo. O Príncipe deste Mundo, o Demónio, era, em seguida ao pecado original, o legítimo proprietário dos homens. Deus, para resgatar o gênero humano, devia fazer com que o Diabo cometesse uma injustiça tão grave que permitisse despojá-lo, justamente, do que possuía. E Deus - segundo S. Gregório Magno - recorreu ao engano: serviu-se do corpo humano de Cristo como de uma isca sófrega para induzir Satã a lacerá-Lo e a dar-Lhe a morte. O deicídio, consumado pelos fámulos do Diabo, foi o acto irreparável que lhe arrebatou, de jure, o domínio sobre os homens. Satã foi pois enganado por Deus por amor dos filhos de Adão. O corpo humano de Cristo foi o bolo que o moveu em tentação: Satanás não se apercebeu da trama e perdeu a partida. O humano resgate foi obtido graças a uma fraude à custa do Adversário.

Esta teoria da Redenção foi abandonada dos teólogos que vieram depois de S. Gregório Magno; mas que um Santo Pontífice a tenha concebido e sustentado é a prova de que, na consciência cristã, é lícito enganar o grande enganador. Já que é Deus mesmo, neste caso, que arquitecta a fraude e oferece o próprio Filho como o pescador oferece o verme à gula do peixe.

Iblis - O Diabo do Islão - acusa abertamente o Criador de o ter enganado, mas por uma razão diversa da imaginada por S. Gregório Magno, conforme veremos.

Na literatura medieval encontram-se muitas lendas nas quais o Diabo figura como burlado pelos anjos bons, que conseguem tirar-lhe das mãos as vítimas já por ele aferradas. O episódio de Buonconte de Montefeltro na Divina Comédia (Purgatório, V, 104 e seg.) poderia ser um eco do tema do Diabo mistificado, que no último momento perde uma alma que julgava presa sua.

Ben Jonson, na sua comédia The Devil is an Ass (representada em 1616 e impressa em 1631), desenvolve outro tema: o Diabo Pug, enviado à Terra para prestar provas da sua malvadez, acaba por ser subjugado e burlado pelos embustes dos humanos trapaceiros e retorna, coberto de afronta, ao Inferno. Motivos semelhantes encontram-se noutros poetas elisabetanos: em William Haughton (the Devil and his Dame, 1600) e em Thomas Dekker (The Devil is in it, 1612).

Mas o exemplo mais famoso, na literatura, do Diabo defraudado é o Mefistófeles, de Goethe. Ele esmerou-se durante longos anos em satisfazer todos os apetites, puros e impuros, de Fausto, e, quando este

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vem a morrer, ele está seguro de agarrar, como sua legítima presa, o corpo e a alma do velho doutor. Mas Goethe, como é sabido, faz descer do Céu coros inteiros de anjos que desbaratam as milícias de Mefistófeles; e este não pode fazer outra coisa senão reconhecer a derrota. Fausto, a despeito dos penhores cedidos, e contra todo o direito de propriedade, vem a ser salvo.

A alma grande, prometida em pacto

A mim, arrebataram-ma com fraude.

E agora a quem farei queixa?

Quem me dará jamais o que me cabe?

Mefistófeles, no entanto, atribui a derrota mais à estultícia do Diabo do que ao engano operado por Deus por intermédio dos anjos.

Velha raposa como é, foi intrujado

Com insossas brincadeiras por rapazes.

Deitadas as contas, não foi pequena, deveras,

A sua estupidez.

Tem-se falado em demasia da superfina e inigualável esperteza do Diabo. Gregório Magno e Goethe – um grande santo e um grande poeta – informam-nos, ao invés, da sua imbecilidade, que lhe tem feito perder tantas valiosas presas. Os poderes celestes aproveitam-se da sua estultícia para o enganarem, isto é, no fundo, para imitarem a sua arte. Eis porque as suas derrotas poderiam ser julgadas, de certa maneira, as suas desforras: para o vencer, é preciso agir como ele.

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O Diabo Devedor De Deus

O jovem hebreu misógino e suicida, autor de Sexo e Carácter, Otto Weininger, compreendeu, melhor do que certos teólogos, uma das características essenciais do Diabo. Num dos seus últimos aforismos encontra-se este pensamento profundo: «O Demónio tem todo o seu poder só de empréstimo; ele sabe-o e por isso reconhece em Deus o seu fornecedor de capitais; e também por isso se vinga de Deus; todo o mal é destruição do credor; o deliquente quer eliminar Deus...»12

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O ódio do Diabo não nasce apenas do seu primeiro impulso de prescindir d’Ele, da Sua graça, da Sua soberania. Esse ódio é acrescido, mais e mais, pelo sentimento da sua dependência eterna, mesmo depois de escorraçado. Se o Demónio é ainda Príncipe, se lhe resta algum poder, algum domínio, unicamente o deve à vontade de Deus, que, para os seus imperscrutáveis fins, não o aniquilou, mas outrossim lhe confiou um reino e uma missão. A consciência desta dependência exaspera-o. Ele é incapaz de gratidão, e menos ainda que os homens – o que é dizer muito – consegue praticar o reconhecimento.

Há nele, por isso, ódio secreto e profundo do beneficiário ao benfeitor, do devedor ao credor, e portanto a mania de suprimir ou, ao menos, de ferir credor e benfeitor. E por essa razão ele se esforça por instigar os homens ao deicídio, isto é, àqueles pecados que são, segundo os teólogos, formas ou projectos de deicídio. Eis porque ele colaborou na Crucifixão do Gólgota, porque incita ao assassinío, que é a destruição violenta de uma criatura de Deus, de um ser criado por Deus, feito à imagem e semelhança de Deus: deicídio intencional.

O Diabo é o credor rancoroso e vingativo, que se serve dos homens nas suas tentativas de lesar e ferir Aquele a Quem, apesar da sua condenação, tudo deve, excepto o seu ódio implacável.

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O Diabo Reverso De Deus

Em consequência da sua revolta, o arcanjo dito Lúcifer tornou-se o contrário de Deus, o Antideus.

Deus é Amor e Satã é Ódio; Deus é criação perpétua e Satã é destruição; Deus é Luz e Satã é Treva; Deus é promessa de eterna beatitude e Satã é a porta da eterna danação.

Mas esta oposição não é, como parece à primeira vista, total. Deus é omnisciente, mas Satã não é de todo ignorante: S. Tomás de Aquino circunscreveu mas reconheceu entretanto a ciência dos demónios¹³.

Deus é omnipotente mas o Diabo não é de todo impotente, como o demonstra o mesmo Doutor da Igreja¹⁴.

Deus definiu-se a si mesmo: Eu sou Aquele que é. Se o Diabo fosse o absoluto oposto d’Ele, deveria ser idêntico ao Nada. Mas se fosse o Nada não poderia agir, como age, sobre os vivos e os mortos. E deveria sustentar-se, por jogo dialéctico, que o Criador, tendo formado o

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Mundo do Nada, extraiu-o do Demônio e que a própria substância do Universo sensível é diabólica.

Esta ilação é absurda. Se todavia quiséssemos contrapôr ao Ser absoluto, a Deus, o Demônio como o Nada, não chegaríamos ainda assim a destruí-lo. De Fridugiso, no seu tratado De Nihilo et Tenebris, a Bergson e Heidegger, os filósofos têm tentado sugerir que mesmo o Nada é «qualquer coisa».

Hegel vai mais longe e afirma que o próprio ser, na sua indeterminação, é algo de inefável «cuja diferença do nada é uma mera intenção».

O Diabo, por conseguinte, não é de todo o oposto do Criador: também ele participa do ser, também ele tem um resíduo de potência e de ciência que o colocam abaixo de Deus mas acima dos homens. O Criador concedeu-lhe, como às demais criaturas angélicas e humanas, a liberdade, e o Inimigo usou dela no modo que sabemos. Deus, bem que omnipotente, não pôde impedi-lo de usar desse terrível modo a liberdade que lhe concedera: no momento da fatal escolha, Satanás foi, num certo sentido, o igual de Deus, já que Este, tivesse-o querido embora, não teria podido opor-Se à livre decisão do Rebelde. Ao menos por um instante, nesse instante o querer de Lúcifer prevaleceu sobre o poderio e sobre o amor do Pai.

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Vi

Cristo e Satã

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Cristo E Satã

Não terminámos com a tentação e as relações entre o Salvador e o Príncipe deste Mundo. E vale a pena recordá-las porquanto mostram que não houve entre eles essa inimizade absoluta que todos os cristãos imaginam.

Quando Jesus desembarcou no país de Gerasâni um homem estranho saiu, nu, de um túmulo e mal O viu foi-Lhe ao encontro. Era possuído, como diz S. Marcos, de um espírito impuro, ou, como narra S. Lucas, de muitos demónios que o atormentavam. Prostrou-se aos pés de Jesus, soltou um imenso bramido e, por sua boca, o Demónio disse: «Que há entre mim e ti, Jesus, filho de Deus Altíssimo? Não me atormentes, esconjuro-te por Deus.» (S. Marcos, V, 2-7). Jesus, como nos é revelado pelo seguimento da narração, não aquiesceu à imploração do Demónio e expulsou-o, com todos os seus companheiros, do corpo desse desgraçado. Mas a palavra mais significativa de todo o episódio está na invocação do Demónio, onde Jesus é chamado abertamente «filho de Deus Altíssimo».

Os mesmos Apóstolos, nesse momento, ainda não tinham reconhecido em Jesus o Filho de Deus: a primeira, nítida, proclamação da divindade de Cristo é feita, portanto, pela voz de um filho de Satanás.

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E há ainda, no Evangelho, uma outra prova de que Jesus Cristo teve outros colóquios com Satã. Um dia, voltando-se para Pedro, disse-lhe: «Satã pediu-me para te joeirar, como se joeira o trigo, mas eu orei por ti, para que a tua fé não desfaleça» (S. Lucas, XII, 31).

Estas misteriosas palavras, pronunciadas num momento solene, não têm sido bastante iluminadas pelos comentadores. A quem pediu Satã para joeirar os Apóstolos? Ao Pai, ou, como seria mais natural, ao próprio Cristo? E por que importa tanto a Satanás, ao Inimigo, que os Apóstolos sejam joeirados, como se faz com o trigo, de jeito a expelir aqueles que não têm bastante fé no Messias? Talvez que Satã os estivesse tentando para que abandonassem o Mestre e teria já tentado o mais fervoroso de todos, Simão dito Pedro? Não esqueçamos que Jesus, uma vez, apostrofou Pedro precisamente com o nome do Tentador: «Vai-te de mim, Satã» (S. Marcos, VIII, 33).

Mas por que via soubera Jesus o pedido de Satã? Por divina intuição ou antes por o Tentador se Lhe ter dirigido? De qualquer modo Jesus não descura nem despreza aquela sugestão do Diabo. Tem-na ao contrário na conta devida, porquanto se resolve Ele mesmo a rogar ao Pai, a fim de que a fé de Pedro se mantenha, a despeito de quaisquer vacilações. Acaso não teria Ele podido ignorar ou repelir, sem mais, o requerimento satânico do joeiro?

Cristo não pode ser amigo de Satã e inclusivamente dará aos discípulos o poder de calçar aos pés as serpentes e escorraçar os demónios. Contudo Ele não se mostra inimigo acérrimo do Inimigo, conquanto Satanás seja o Seu mais encarniçado adversário. Há aí uma diversidade de linguagem e de atitude que é preciso revelar. Em Cristo, que é Amor absoluto, pode haver irritação, ira, mas não ódio.

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O Diabo Irmão Do Verbo

O númida Lucius Caecilius Firmianus – celebrizado sob o nome de Lactânio –, que viveu na segunda metade do século III e dos alvores do IV, não tem grande autoridade como teólogo, mas Tixéront, na sua Patrologia, disse dele que foi «une nature calme, pondérée, amie de la paix, un chrétien sincère qui accomplit sans bruit son devoir».

Na sua grande obra de apologética (Divine Institutiones, II, 9) encontramos uma notícia assombrosa, e da qual não conhecemos bem a origem. Lúcifer, segundo Lactâncio, teria sido nada menos do que o

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irmão do Logos, do Verbo, isto é, da Segunda Pessoa da Trindade. Eis aqui o texto surpreendente: «Deus, antes de criar o Mundo, engendrou um espírito semelhante a Ele, acumulado das virtudes do Pai. Em seguida engendrou outro, no qual o cunho da origem divina se apagou, porque foi manchado pelo veneno da inveja e por isso passou do bem ao mal ... Foi invejoso do seu irmão primogénito que, ficando unido ao Pai, se assegurou do Seu afecto. Este ser que, de bom, se tornou ruim, é chamado Diabo pelos Gregos».

No Espírito primogénito, cumulado de todas as virtudes divinas e que Deus amou sobre todos os outros é fácil reconhecer o Verbo, isto é, o Filho por excelência. Mas a narrativa de Lactâncio faz pensar que o outro espírito, igualmente dotado, era o secundogénito do Pai: o futuro Satã seria destarte nada menos que o irmão mais novo do futuro Cristo. E Satã não teria sido invejoso do homem — como sustentaram S. Cipriano, Sto. Ireneu e S. Gregório de Nissa — mas invejoso, sim, do próprio irmão. O ciúme de Caim para com Abel teria sido prefigurado no céu, ao princípio dos tempos, pelo de Lúcifer para com o Logos.

Esta opinião inaudita de Latâncio não tem sido, que eu saiba, aceite ou repetida por nenhum teólogo cristão. Talvez Brotasse nele da exageração de uma doutrina bastante divulgada, dessa época em diante, na qual era tido Lúcifer por o mais luminoso e perfeito dos anjos, e daí o mais próximo de Deus e porventura o primeiro.a ser criado. O mais alto dos anjos, porém, está todavia sempre longíssimo, por natureza e essência, do Deus uno e trino.

É entretanto bem singular que um cristão sincero e douto pudesse ensinar, no século IV, que Satã não era tão-só o primeiro dos arcanjos, mas inclusivamente o irmão de Deus.

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Jesus, Tu Cá Tu Lá Com O Diabo

Os textos de S. Mateus e de S. Lucas são concordes e claríssimos. Jesus foi tentado pelo Diabo durante quarenta dias, isto é, durante o tempo todo que Ele permaneceu no deserto. As tentações particulares narradas pelos Evangelistas — e que adiante buscaremos compreender — foram tão-só as últimas, as tentações finais, as tentações da penúltima hora.

Durante quarenta dias o Diabo tentou o Filho de Deus. Como podemos entender essas tentações? Foram carnais ou espirituais? Fo-

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ram assaltos furiosos ao solitário ou disputas intelectuais? Jesus não quis revelar a natureza delas e nós não podemos correr o risco – sem o temor de irreverência – de imaginá-las. Mas uma verdade ressalta evidente dessa longa e obstinada perseguição diabólica: Jesus não quis rechaçar o Diabo, Jesus tolerou e suportou as repetidas tentaçãoes do Inimigo, Jesus aceitou na solidão uma singela e única companhia: a do Diabo. Ele era Deus, bem que em forma humana, e teria podido sacudir da sua ilharga, com uma simples palavra, o obstinado Tentador. Não o fez, não quis fazê-lo. Isso mostra, em meu parecer, que Ele não desdenhava aquela companhia, que ele não aborrecia a vista do Arcanjo rebelde, que Ele condescendia a dalar com ele, a escutá-lo, a responder-lhe. Há mais. Jesus meteu rumo ao deserto precisamente para esse fim, precisamente para se submeter a essa prova. Afirma-o explicitamente o Evangelista S. Mateus: «Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo Diabo» (IV, I). Em que sentido devemos entender o Espírito que guiou Jesus para esse precioso escopo, na árida solidão? Trata-se do Espírito do Pai? Ou antes, provavelmente, do Espírito Santo?

Mas de qualquer maneira podemos tirar dessas palavras de S. Mateus uma consequência, que não foi destacada pelos comentadores. Jesus tinha recebido o baptismo e estava para encetar a sua missão pública. Antes de dar começo à sua obra de Mestre, era no entanto necessário que Ele fosse tentado pelo Demónio. Esta tentação era pois uma prova, à qual o Redentor não podia eximir-se. Era uma condição e uma preparação à Sua divina tarefa. Ele é como uma lâmina que não será apta a talhar com perfeição enquanto não for submetida ao ardor da chama.

A tentação aparece pois, segundo os Evangelistas, como uma necessidade, uma vigília de armas antes da batalha para a conquista das almas. O Diabo é tido por uma das personagens necessárias, seja embora na acepção de antagonista, da tragédia da Paixão. As suas tentações são o preâmbulo, não suprimível, dos suplícios futuros. O Diabo avulta, sob esse aspecto, como um colaborador de Cristo.

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A Primeira Tentação De Jesus

A primeira tentação que chegou ao nosso conhecimento é a do pão. «E nesses dias – diz S. Lucas – nada comeu; e depois que decorre-

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ram, sentiu fome. E o Diabo disse-lhe: Se tu és o Filho de Deus, ordena a esta pedra que se mude em pão» (IV, 3-4). É costume dizer que o Tentador quis aproveitar-se da fome de Jesus para O desafiar. Mas o pensamento de Satã é mais subtil e complexo. Talvez ele não tivesse a certeza de que Jesus fosse o Filho de Deus e quis obter d'Ele um prodígio, uma transmudacão material; se Jesus o tivesse realizado, o Diabo teria resolvido a sua dúvida. Cristo porém não quis operar esse milagre, que para um Deus teria sido coisa insignificante. Teria podido transmutar em pão aquela pedra, mas isso não o quis fazer. Satã mostrava ter um conceito materialista no domínio sobre as coisas exteriores e visíveis. Cristo quis dar-lhe uma lição. Para as turbas famintas do deserto Ele há-de voluntariamente multiplicar os pães, para os convidados de Caná transmudará a água em vinho; ao Diabo, contudo, não quer dar satisfação. E responde-lhe com as palavras famosas: «Está escrito: não só de pão vive o homem.» Estas palavras encontram-se no Deuteronómio (VIII, 3). «O homem não vive só de pão, mas de tudo aquilo que sai da boca de Deus.» O verdadeiro alimento do homem é, portanto, espiritual; a sua vida mantém-se mercê das palavras que saem da boca de Deus, isto é, da Verdade. A réplica não podia ser mais apropriada: o Diabo está imerso na matéria e é pai da mentira; Jesus contrapõe-lhe o Espírito e a Verdade. A primeira prova é assim divinamente superada. O Diabo terá de escgitar outras insídias para cumprir, até ao derradeiro momento, a sua missão.

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A Segunda Tentação De Jesus

«Então O conduziu a Jerusalém e O colocou sobre o pináculo do Templo e Lhe disse: Se Tu és Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo, porque está escrito: Ele ordenará aos Seus anjos que Te protejam e estes Te hão-de alevantar ao alto em cima das mãos, de forma que não aconteça que batas com o pé naquela pedra» (S. Lucas, IV, 9-11). Duas coisas são de notar nesta segunda tentação. Se o Diabo conduziu Jesus, com tamanha rapidez, a Jerusalém, e pôde pousá-Lo no mais alto cume do Templo, deve tê-Lo transportado em voo: o Diabo, por conseguinte, possuía ainda as suas asas de arcanjo.

A segunda é que o Diabo, para conformar-se ao estilo de Jesus, cita as palavras da Escritura. Ela dá mostras, assim, de conhecer de

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memória o texto sagrado, visto que a sua citação é tirada literalmente de um Salmo (XCI, II-12).

Satã, sempre incrédulo, reclama outro prodígio. Depois da prova da transmudação, a prova da levitação. Jesus deve deixar-Se cair do pináculo do templo e tocar o solo sem Se molestar. Satã continua a não perceber: como os Judeus grosseiros ele pede um sinal, um milagre visível, material.

Também nesta segunda tentação se revela, entretanto, a verdadeira natureza do Diabo, que tende a puxar para baixo. Ele não pede a Jesus que Se eleve no Céu – como Este fará depois, na Ascensão – mas que Se precipite do alto, isto é, desça e não suba; queria assim que Deus o imitasse.

Jesus também desta vez se recusou a consentir naquela prova ridícula e humilhante e contentou-Se em responder com outra palavra da Escritura: «Não tentarás o Senhor teu Deus» (Deuter., VI, 16). Jesus confirma, com estas palavras, que Satã pode tentar até mesmo a Deus: reconhecimento de que veremos noutra ocasião o significado e a importância. É simultaneamente revela ao Tentador o Seu verdadeiro ser, isto é, a natureza divina, aplicando a Si as palavras que o Deuteronómio refere a Jeová. Ninguém, creio, notou que Cristo fez a primeira confissão da própria divindade ao Diabo, precisamente àquele que ousou desafiar Deus, que «contra o seu Criador franziu a testa»15, como Dante, numa estupenda imagem, diz. Na hora do baptismo uma voz tinha proclamado Jesus vero Filho de Deus, mas era voz descida do Céu, não a Sua própria. Aqui, ao invés, é o mesmo Cristo que afirma ser Deus, e afirma-o, antes que a outrém, ao Adversário vencido. Mais tarde há-de dizê-lo também aos homens, mas é preciso não esquecer que o disse, com as próprias palavras divinas, ao Adversário que delas duvidava.

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A Terceira Tentação De Jesus

A mais reveladora de todas é a terceira tentação. O Diabo toma novamente em voo, aos ombros talvez, o afamado anacoreta, e transporta-O ao cimo de um monte. «E o Diabo, tendo-O transportado lá acima, mostrou-Lhe num relance todos os reinos do Mundo e disse-Lhe: Eu Te darei todo este poder e o esplendor destes reinos, já que me foram dados e eu os dou a quem quero. Se, pois, Te prostrares a adorar-me, tudo será Teu» (S. Lucas, IV,5-8). Aqui se manifesta em plena

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luz o fundo mais profundo da alma de Satã. Não está ali um impostor ou um usurpador: Deus fé-lo deveras «Príncipe deste Mundo» e é certo, portanto, que aqueles reinos espalhados entre mares e montes são seus, todos seus. Ele pode pois dá-los a quem quiser, cedê-los ou malbaratá-los. Mas aquele universal domínio terreno não lhe basta, não o consola bastante do soberbo sonho desfeito acerca de outro, bem diverso, império. Ele não quer reinar, mas quer ser adorado; não lhe basta ser o monarca da Terra, quer ser um Deus ante o qual até o Filho de Deus se deva prostrar. E por isso ele está pronto a abandonar a Jesus o império do Mundo, contanto que Este reconheça a sua divindade, o adore de joelhos, e lhe conceda enfim o que ele desejou desde o dia remotíssimo da revolta contra o Criador. Se Jesus é deveras o Filho de Deus e consente em prostrar-se num acto de adoração, Satã terá finalmente a sua desforra. Renuncia ao principado, mas para alcançar a paridade com Deus. É este o escambo que ele propõe a Jesus, e juntamente a prova da sobrevivência pertinaz da sua antiga cupidez e a contraprova da sua cega e arrogante estultícia. Como podia ele pensar que Cristo, o Primogénito do Pai, que descera à Terra para o resgate dos homens escravizados a Satã, se teria deixado tentar pela oferta dos reinos e teria vindo adorar, de joelhos, o Inimigo de Deus e do género humano?

Ainda desta vez Jesus replica com uma citação do Antigo Testamento: «Mas Jesus lhe respondeu: Está escrito: Adora o Senhor teu Deus e a Ele só prestarás culto» (Deuteronómio, VIII, 13). É uma das afirmações do monoteísmo judaico, que se contrapõe nitidamente ao dualismo iraniano. O próprio Satã não admitiria ser um Deus ao lado de outro Deus, mas quereria ser único, e o velho Deus, desapossado, houvera de ser o primeiro a prostrar-se diante dele.

Depois desta terceira recusa o diabo deixou só a Jesus, mas não para sempre. Haveria de tornar de novo, em hora mais propícia: «E o Diabo, tendo acabado de tentá-Lo por todas as formas, apartou-se d’Ele, até outra ocasião» (S. Lucas, IV, 13).

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De Que Modo Cristo Sublimou

As Tentações Do Diabo

Assim, pois, Jesus repeliu as tentações de Satã – essas provas, que, no entanto, eram um prólogo necessário, imposto pelo Espírito, à sua

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actividade libertadora. Mas será bom observar que Jesus não dá qualquer sinal de animosidade e de cólera contra o Tentador. Responde-lhe com palavras verdes, pacatas; com palavras não Suas mas sim com aquelas que o Pai já tinha inspirado aos Seus amanuenses terrestres. Não há nada, no comportamento de Jesus, que faça pensar numa repugnância, num asco, num horror. Cristo não é e não podia ser um amigo de Satã. Rebate, seco e resoluto, as suas propostas, mas depois de se ter fiado docilmente no Inimigo, que o transporta em voo ao cimo da montanha e ao pináculo do Templo. Teria podido fugir, teria podido injuriá-lo – como fará mais tarde com os fariseus e com os mercadores – teria podido fulminá-la com um só gesto da mão. O Homem-Deus comporta-Se da mais humana e divina maneira. Suporta pacientemente ao longo de quarenta dias a sua companhia; escuta placidamente os seus propósitos; replica sem desvio, embora com outras palavras, às palavras do Adversário. Isto confirma que as relações entre Deus e Satã não foram de todo interrompidas após a Queda e que Jesus Cristo Se mostra disposto a ensinar, a ele como aos homens.

Poderia ir-se mais longe. Poderia pensar-se que Cristo não esqueceu as tentações de Satã e quis em seguida verificá-las por Sua conta, bem que de modo bastante diverso e infinitamente mais sublime.

Considere-se a primeira tentação. O Diabo pede uma transmutação, um milagre: que as pedras se tornem em pães. Cristo não quer operar esse milagre: mais tarde, porém, aquando da vigília da morte, anunciou e operou, por todos os séculos, uma dupla transmutação, essa mesma à qual cada dia assistimos. Ele quis que o pão se tornasse na Sua carne, quis que o vinho se tornasse no Seu sangue. A transubstanciação porventura não é uma resposta, divina resposta, ao primeiro pedido de Satã?

A segunda tentação, como vimos, foi o convite a precipitar-se do alto do Templo. Jesus não se dignou executar essa fácil proeza, porém, mais tarde, depois de haver dado aos Discípulos a prova da Sua ressurreição dentre os mortos, quis soltar-Se no ar. Mas, em vez de voar de alto para baixo, como Satã Lhe pedira, fez o contrário; desprendeu-Se da Terra para o Céu: à descida, proposta pelo Tentador, respondeu vitoriosamente com a Ascensão.

Na terceira tentação o Diabo oferece a Jesus todos os reinos da Terra «e o esplendor deles». Jesus não quis nunca ser monarca. Certa vez que pretendiam fazê-Lo rei, conta S. João (VI, 15), Ele escondeu-se e fugiu. E a Pilatos, que O interroga, Ele responderá com as palavras famosas: «O meu reino não é deste Mundo.»

E todavia Jesus quis igualmente ser imperador de todos os povos.

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Ordenará aos Apóstolos e aos Discípulos que se dirijam a todos os países da Terra, levando a Sua mensagem. Ele desejava - e ainda deseja - apossar-Se de todas as almas dos homens, ser reconhecido e adorado onde quer que seja, como Senhor. Não Lhe importam os ceptros, as coroas e as riquezas dos príncipes, mas quer conquistar aquele mais genuíno e autêntico «esplendor», que aparece ou pode aparecer nos espíritos humanos. Quando vier a ser o dominador de todas as almas dos habitantes de todos os reinos da Terra, não Se terá tornado verdadeiramente mais rei do que os reis, mais imperador do que os imperadores? Estes possuem somente as terras, as casas, as vestes, os corpos dos súbditos; mas Cristo, quando a Cidade de Deus crescer até ficar do tamanho do Mundo, será mais poderoso do que os poderosos, porque possuirá então as almas, às quais todas as formas da vida obedecem.

As tentações do Diabo são ou virão a ser, uma por uma, sublimadas e transfiguradas por Cristo, com um sentido novo, numa ordem indizivelmente mais excelsa. As toscas armadilhas de Satã vêm a tornar-se, para sua vergonha e despeito, em divinas realidades.

Mas talvez essa toleima materialista das três tentações não seja de todo ingênua, senão, ao contrário, sinal de refinada malícia. Satã, segundo o testemunho divino e humano, é um espírito astuto, e não teria proposto esses prodígios, mais dignos de um feiticeiro que de um Deus, se não tivesse tido outra mais pérfida intenção. Ele não estava de modo nenhum seguro de que o Filho de Maria fosse o Filho de Deus, e pensou que, se Este viesse a operar os prodígios sugeridos por ele, teria revelado a sua natureza inferior, demasiado humana, ter-se-ia diminuído a seus olhos e ter-lhe-ia dado a confirmação de que o invólucro carnal desse famélico solitário não abergava a Segunda Pessoa divina. Jesus deu a Satã a prova da Sua divindade, recusando-Se a produzir tais milagres, e só mais tarde, como vimos, Se inspirou nessas tentações, mas respondendo então de modo inteiramente diverso, com aquela altura de estilo própria de um verdadeiro Deus.

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Os Demônios Crucificaram Cristo

Por Ignorância?

Na I Epístola de S. Paulo aos Coríntios (II, 8) lemos uma surpreendente notícia, que merece ser meditada:

«Nós expomos a sabedoria de Deus, misteriosa e oculta, que Deus

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de toda a eternidade tinha destinado à nossa glória, e que nenhum dos

príncipes deste Mundo jamais conheceu; porque, se a tivessem conheci-

do, não teriam crucificado o Senhor da Glória. »

Na linguagem de S. Paulo os «príncipes deste Mundo» são certa-

mente os Demónios; estes, pois, fizeram crucificar Jesus, mas não o te-

riam feito se tivessem conhecido o recôndito desígnio de Deus, anterior

aos séculos, isto é, ao tempo. E aqui surgem as dificuldades.

Os Demónios, antes de serem tais, foram anjos e sabemos que,

segundo muitos teólogos, a estes seres primordiais, todos espírito, fo-

ram comunicados os mais profundos mistérios da ideia divina. Tanto

assim é que, na opinião de alguns, a rebelião de Satã foi suscitada pelo

ciúme, quando soube que haveria de ser criado o homem e que Deus

viria a amar esta criatura até ao ponto de transformar-Se em vítima

para salvá-la.

Mas os Demónios, segundo S. Paulo, não teriam conhecido nem

podido conhecer os mistérios da Messianidade e da Encarnação e tão-

-só por causa de tal ignorância teriam feito crucificar o Filho de Maria.

Mas se isso é verdade não poderia ser repetida, com respeito aos

Demónios, a imploração de Cristo no Calvário «Perdoa-lhes, Pai, que

eles não sabem o que fazem» ?

A ignorância, quando é devida, como afirma o Apóstolo acerca

dos Demónios, à vontade divina, não pode constituir nem pecado nem

culpa. Dever-se-á então chegar ao supremo paradoxo de afirmar que o

Diabo, na tragédia da Paixão, foi o único inocente?

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O Beijo De Judas

Um poeta italiano, ainda pouco conhecido ou mal conhecido, Fer-

dinando Tirinnanzi, o autor de Catilina e de Canossa, foi o primeiro,

há muitos anos, a propor-se o problema do beijo de Judas. Por que

escolheu o Traidor esse modo inaudito para indicar a Vítima à gente

armada que de noite irrompeu no horto de Getsémani? Não haveria

outros meios, mais simples e comuns, para obter o mesmo resultado?

Os Evangelistas dizem-nos concordemente que Satã, na tarde da Ceia,

entrou em Judas. Judas, portanto, era possuído de Satanás; era, naque-

le momento, a veste e a forma humana de Satanás. Judas que beija

Cristo é Satã que beija Deus. Há, pois, na tragédia da Paixão, um outro

encontro entre o Redentor e o Adversário, um contacto corpóreo.

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Qual é, pois, o verdadeiro significado desse beijo, o último beijo recebido por Jesus? Este sabia que em Judas estava Satã, e, todavia, ao vê-lo adiantar-se na sombra, chamou-o com o doce nome de amigo: «Amigo, que vieste aqui fazer?» (S. Mateus, XXVI, 49).

Ferdinando Tirinnanzi tentou achar o sentido do mistério. Dirão que se trata de uma fantasia de poeta, mas acaso os poetas não souberam, quantas vezes, penentrar os segredos divinos mais profundamente do que os doutos escribas? E agora cedo-lhe a palavra:

«O momento supremo da Paixão sofrida por Cristo, o fim a que tendeu o Eterno acerando-se no tempo, foi o beijo de Judas. Foi sobretudo por esse beijo que Deus desceu à Terra e se encarnou.

Releíamos o Evangelista (S. João, XIII, 26-27). Era a última Ceia. Jesus estava sentado à mesa com os seus: «e depois de ter ensopado um pedaço (de pão) deu-o a Judas, filho de Simão Iscariote. E logo, depois desse bocado, Satã se apossou dele. E Jesus lhe disse: «Faze depressa o que tens para fazer».

Que sobre-humano e superdiabólico poder no pedaço de comida e no comando! Apenas sabemos que Satã estava ali, a aferrar uma carne que devia fazer-se traidora com um beijo; e ele, mesmo, que aprisionava, estava ali, posto a ferros. Não a Judas, mas a ele, ao Adversário, fora dirigido o divino comando; e aquela, e não outra, era a forma da traição. Era preciso: só para aquilo se lançara o Infinito no atascamento do Finito. Não havia outro meio para que os lábios da Treva tocassem os lábios da Luz; para que o Ódio beijasse o Amor. E o Ódio tendeu-se como na figuração de Giotto. Recordemo-la: as pupilas do Redentor são dois raios quietos, inflexíveis, apontados a traspassar o empedernido da sombra do que, vivo, em forma de homem, é atraído por força invencível; e não sabe. Esses raios já o alcançaram, mas a figura de pedra ainda resiste; e esses, à espera, mantêm-se firmes, seguros: um dia, para sempre, sombra e pedra gaudiosamente falecerão...

Satã foi levado, do modo que se disse, ao beijo de Deus. E mal ele tocou, com os lábios daquele dentro do qual estava, a divina essência, um arrepio nunca imaginado lhe percorreu todas as fibras. Terror? Desespero? Desmaio? Nenhuma palavra humana poderá dizê-lo. Titânica protérvia. Nostálgica, inatingível beatitude! Ou – se foi acaso atingida – podridão do eu! Fugir, fugir! A pessoa na qual estivera escondido foi atirada fora como um trapo e como um trapo ficou a abanar de um ramo. Desvairado, o Traidor, amorosissimamente traído, irrompeu: obscureceu os Céus; deu tremores à Terra; com espinhos, com lanças, com fel, rasgou sobre a Cruz o Corpo que trazia aquele vulto e aqueles lábios. Que mais cega loucura! Forma, sentidos, corpo, não são

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o seu reino? Não se enfurecia pois, não se lançava a si mesmo? E que resta a fazer, quando nada mais é possível? Volver-se pois, naquele instante, e depois sempre, contra si mesmo: abocanhar-se, fazer-se em pedaços ... e um dia? Um dia, abrasar. Mas nos seus membros lassos, por entre os coágulos acres do sangue, há um pouco de carne intacta, onde ele como Judas beijou: a noite, em farrapos, tem uma estrela, um selo indelével: essa estrela, num rasgo, desmedidamente se alarga, inunda, triunfa: e do abismo, um pranto, um grito: «Pai, perdoa! Beija-me, Pai!»

Então, no alto de uma cruz candidíssima, aqueles braços que o Ódio lá tinha presos com pregos, e fez, ele, abertos a abraçar, em radiosa caridade se estenderam, desceram, a envolver o assombrado implorante, o assombrado Mundo: «Vem. Tanto tempo te aguardei, como o pai ao filho pródigo; tantas lágrimas verti por tua causa. Mas uma última coisa imponho: olha-Me, esquece. E tu agora, que tornaste a ser qual foste, na Luz e no Amor, agora, tudo o que o pensamento indagou e jamais soube, tudo verás, saberás.»

E no Mundo criado, um pouco mais seguro, de novo um canto, um canto imperecível.»16

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Vii

O Diabo e os servos de Deus

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O Diabo E O Arcanjo S. Miguel

Na Epístola Católica de S. Judas encontramos uma narrativa que ilumina de luz inesperada as relações entre Satã e as hierarquias angélicas.

«O Arcanjo Miguel, quando contenda com o Diabo e disputava com ele por causa do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele um juízo em termos injuriosos, mas disse simplesmente: O Senhor te castigue!» (Judas, 9).

Surpreende, antes de tudo, a notícia de que o Diabo pudesse manifestar direitos sobre o cadáver de Moisés, a quem Deus falara abertamente face a face. Mas ainda mais espanta a respeitosa compostura do arcanjo, que heroicamente tinha abatido o rebelde Satã.

Miguel era o vencedor, o capitão dos anjos fiéis, e contudo não ousa insultar o Diabo, já condenado por Deus, já precipitado no abismo. «Oh, a grande bondade dos arcanjos antigos!» Podia fulminá-lo com as palavras, como já o tinha ferido com a sua espada flamejante, e todavia contenta-se com dizer-lhe que Deus o punirá.

Esta brandura, da parte do grande Adversário do Adversário, deve entretanto ter a sua razão e convém seja meditada. Poderia ter a confirmação de uma hipótese baseada sobre não poucos indícios, isto é, que as relações entre os anjos e Satã, mesmo após a queda, não foram tão más como tanta gente cuida.

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Satã E Moisés

O médico lombardo Giovanni Rajberti — arguto e não esquecido escritor — relata, na sua Viagem de Um Ignorante (1857) as suas impressões acerca do Moisés de Miguel Ângelo, e entre outras coisas observa: «Este colosso é majestoso, concedo: porém, dessa hórrida majestade no fero aspecto, com a qual o Poeta17 entendeu que havia de descrever Satanás.»

A aproximação feita por Rajberti, por estranha que possa parecer, não é mero devaneio e pode ser desenvolvida muito para além da alusão ao Plutão de Tasso e à obra de Miguel Ângelo.

Buonarroti representou o libertador do povo hebreu irado e sarnhudo, tanto que a sua estátua tem verdadeiramente reflexos demoníacos. O escultor não esqueceu os cornos, atributo comum a Moisés e ao Diabo. Mas não faltam, entre o Profeta e o Rebelde, outras semelhanças e relações.

O primeiro gesto de Moisés, conforme narra o Êxodo (II, 11-15), foi o de matar um egípcio e sepultar o cadáver dele na areia do deserto. Na sua contenda com os magos egípcios, Moisés aparece-nos como um taumaturgo dotado de infernais talentos. No deserto, quando os Hebreus foram assaltados pelas cobras assanhadas, o inimigo da idolatria agitou, como remédio, uma serpente de bronze. Tratava-se de um acto de caridade ordenado por Deus, mas convém não esquecer que a serpente, desde as primeiras páginas da Escritura, é o símbolo e a encarnação de Satã. E Moisés, à imitação de Satã, pode imergir incólume no fogo: relembremos a Sarça Ardente.

Mas pode-se ir mais além. O Apóstulo S. Paulo escreveu: «O pecado não teríeis conhecido se não fora a Lei... porquanto, fora da Lei, morto é o pecado.» (Aos Romanos, VII, 7-8). Se o pecado, como diz S. Paulo, fora da Lei é morto, aquele que promulgou a Lei, isto é, Moisés, contribuiu a introduzir o pecado nas almas dos homens.

Dir-se-á que o grande Salvador e Legislador dos Hebreus foi, em tudo isso, o mandatário e o instrumento de Jeová. O que não impede que na figura e na acção de Moisés se achem traços que evocam irresistivelmente a imagem de Satã: o sangue da vingança, os cornos na testa, a serpente, a familiaridade com o fogo, o sentido do pecado. Compreende-se melhor, agora, o trecho acerca de S. Judas, que recordámos

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e no qual aparece claramente que Satã se arrogava direitos sobre o corpo de Moisés e o disputava ao arcanjo. As inegáveis afinidades entre o enviado de Deus e o adversários de Deus poderiam ser mais uma prova de que as relações entre o Criador e o Tentador não têm sido sempre tão rigorosamente antagónicas como leva a crer uma tradição demasiado simplista.

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O Diabo E Os Santos

Numa das obras mais famosas de S. João da Cruz - Na Noche obscura del Alma - encontramos (liv. I, cap. XXI) uma teoria que ilumina de luz inesperada e inquietante as relações entre o Diabo e os Santos.

O místico sumo — que a Igreja proclamou seu Doutor — ensina que a Fé, quando é plena e perfeita, reveste a alma de uma túnica tão cândida e esplendente que o Demónio não consegue nem sequer vê-la e por isso nada pode intentar. Essa veste, afirma o místico Doutor, é tal que para o Demónio é mais que treva. Quem, por conseguinte, possua aquela fé não mais será exposto às insídias e às agressões do Diabo.

Por que sucede então que todas as vidas dos Santos estão cheias dos relatos das tentações do Demónio? Alguns, até, acentuaram que Satã se encarniça principalmente contra os Santos e que os homens comuns não são tentados na mesma medida em que o são os que vivem somente em Deus.

Há aqui uma contradição que só os teólogos poderiam, à força de silogismos subtis, conciliar. A opinião de S. João da Cruz ou é falsa - e então se deveriam acusar de erros doutrinários nada menos que os Doutores da Igreja; ou ele diz a verdade e então deveremos concluir que nenhum cristão, nem mesmo os Santos mais famosos, jamais teve uma fé assim branca, isto é, tão íntegra e segura, capaz de fugir aos olhos do Diabo. Ao próprio João da Cruz não faltaram as tentações sensíveis do Demónio, como o demonstraram inclusivamente certos episódios da sua vida. De onde se tira que nem sequer aquele que quis ensinar a perfeita união com Deus chegou a possuir essa túnica da fé que nos torna invisíveis à argúcia do Diabo.

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O Diabo Em Hábito Religioso

A dezanove quilómetros do famoso Castelo de Rambuoillet, em Seine-et-Oise, o burgo de Monfort-l’Amaury é célebre sobretudo pela sua catedral, construída entre os séculos XV e XVI. Num dos vitrais a cores desta catedral vemos representada a tentação de Jesus no deserto, onde, para maravilha nossa, o Diabo é figurado sob a veste de um santo eremita, com saiote capucho, com aspecto de devoto viageiro mais do que tentador. A única alusão ao seu carácter infernal pode reconhecer-se na cor rubra das meias. O vitral é obra do século XVI e talvez contemporâneo das primeiras investidas heréticas. Quis o anónimo vitralista talvez maliciosamente insuar que, no tempo em que vivia, inquieto e corrupto, o Diabo usava esconder-se sob as vestes dos monges e dos frades?

O certo é que em toda a história cristã – dos eremitas da Tebaida ao cura d’Ars – o Diabo manteve sempre comércio com os homens de Deus, com religiosos e com ascetas, quer como persegutor e tentador, quer como inquilino molesto das almas.

Deixando, porém, a Idade Média, que oferece documentos inumeráveis, mas nem sempre irrefutáveis, volvámo-nos, sem sair de França, ao «grande século». Um dos casos mais célebres de invasamento demoníaco é o do padre Jean Joseph Surin, douto jesuíta, nado em Bordéus em 1600, a quem se devem obras de profunda piedade, como Catéchisme spirituel (1661) e os Fondements de la vie spirituelle (1669).

Este piedoso jesuíta era um exorcista emérito, pelo que foi chamado a exorcizar as famosas Orsolinas de Loudun, perseguidas implacavelmente por obsessões diabólicas. O Pe. Surin desempenhou-se do seu papel a contento, logrando libertar algumas monjas obsessas, mas o Diabo então tomou-se de razões com ele e cruelmente se vingou.

Temos testemunho do caso pelo mesmo Pe. Surin, numa carta escrita por ele ao Pe. D’Attichy, jesuíta de Rennes, em 3 de Maio de 1635. O pobre exorcista queixa-se de andar continuamente acompanhado e acicatado por vários demónios e sobretudo pelo tremendo Leviatã, que, junto com Lúcifer e Belzebu, constitui a trindade infernal.

«Tenho poucos movimentos livres – conta o pobre jesuíta. – Quando quero falar, suspende-me a palavra; na missa estaco subitamente; à mesa não posso levar a comida à boca; no acto da confissão, esqueço de repente os meus pecados; e sinto o Diabo ir e vir dentro de

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mim como na sua casa própria. Logo que desperto, ele está ali; na oração desvia-me o pensamento quando lhe apraz; quando o coração se me começa a dilatar, enche-o de raiva; nas vigílias insufla-me o sono; e publicamente, pela boca da possessa, gaba-se de me ter às ordens, ao que não tenho nada a contrapor ...»

Trata-se pois de uma «possessão» diabólica em regra. O Diabo ocupava a alma e dominava a vida do desventurado exorcista, quase sem resistência. E a possessão não foi breve; durou nada menos que vinte anos, com raríssimas e efêmeras remissões. O Diabo era a tal ponto senhor da alma e do corpo do Pe. Surin que de uma vez obrigou-o a lançar-se de uma janela abaixo, do que resultou ele quebrar uma perna.

O Pe. Surin, conforme averiguámos, nada tinha do satanista e o ocultismo inspirava-lhe horror. Era notoriamente um acérrimo inimigo de Satã, que se esforçava em escorraçar mediante as sagradas fórmulas, e não podia ter a menor complacência para com o Inimigo de Deus e dos homens. E contudo Satã habitou nele durante vinte anos, e tão-só a decrepitude libertou o desventurado jesuíta dessa horrível perseguição. Porquanto o Pe. Surin não foi só perseguido e tentado pelo Demónio — como tantas vezes tem sucedido a gente da Igreja e a enamorados de Deus — outrossim «possuído», habitado por ele.

A primeira causa que à mente ocorre para dar razão de semelhante caso é a vingança: o Diabo quis tomar a desforra sobre o exorcista, seu adversário declarado. Mas talvez não se trate apenas de vingança.

É precioso não esquecer que Satã é, acima de tudo, o inimigo de Deus que é levado pelo seu ódio ao tentame de subtrair a Deus os Seus servidores mais fieis. A obra-prima do Demónio consiste precisamente em tomar o lugar de Deus na alma de quantos seguem e amam Deus sobre a Terra. É a sua grande vitória, a mais almejada compensação da sua queda. E assim como ele é, por natureza, maligno e manhoso, deve saborear uma penetrante e profunda volúpia quando consegue assenhorear-se de um religioso, quando tem ensejo de se pavonear sobre as avenidas da Terra debaixo do saio de uma cenobita ou da veste talar de um sacerdote de Cristo.

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Dois Papas Em Relações Com O Diabo

Muitos amigos tem tido o Diabo, em todos os tempos, entre os homens. E entre eles se incluem, se devemos dar crédito a antigos testemunhos, nada menos que dois pontífices da Igreja Católica.

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O primeiro é João XII, filho de Alberico II e neto da famigerada Marozia, o qual foi papa de 954 a 964. Subiu à sege de Pedro ainda muito jovem, e a sua vida pouco teve de exemplar. Na Intimatio que o Sínodo romano de 963, convocado pelo imperador Otão, enviou para que comparecesse a justificar-se, lêem-se, entre outras, estas palavras: «Deveis saber, portanto, que não alguns poucos, mas todos, leigos e clérigos, vos acusaram de assassinío, de perjúrio, de profanação de igrejas, de incesto com parentes vossos e com duas irmãs. Outras coisas eles declaram, que ao ouvido repugna escutar, isto é, que vós, bebendo, fizestes brindes ao Diabo (diaboli in amorem), e, jogando, invocaste Júpiter, Vénus e outros demónios (ceterorumque daemonorum).»18

As acusações são graves e provêm dos inimigos de João XII, mas há que reconhecer que nem tudo podia ser inventado, tratando-se de um documento redigido por um Sínodo do qual faziam parte cardeais e bispos e que é referido por Liutprando, homem douto e bispo de Cremona. O que sabemos da Roma do século X – e, de modo particular, do pai de João XII, Alberico II, e da avó Marozia – faz parecer bastante crível que João XII não fosse uma tíbia de santo19. E é também possível que certa vez, presa do vinho, tenha brindado à saúde do Diabo e tenha invocado esses deuses pagãos que na Idade Média se transformaram em demónios.

De um outro papa, posterior e mais célebre, Silvestre II, se disse ter comércio com Satã. Gerberto d’Aurillac vivera e estudara longos anos em Espanha, e em Toledo floresciam, na Idade-Média, as ciências mágicas. Silvestre II, papa de 999 a 1003, foi certamente homem doutíssimo, não só em teologia, e é possível que a sua perícia em muitas ciências, algumas profanas, lhe tenha granjeado a fama de mago. Ele fora discípulo de Teofilato – mais tarde, papa, sob o nome de Bento IX – que, ao que se dizia, prestava culto aos demónios, e com a ajuda deles seduzia as mulheres. Uma alusão à magia de Silvestre II encontra-se já num poema de um seu contemporâneo, escrito em 1006, o famoso Adalberão, bispo de Laon. Mas o primeiro que discorre amplamente acerca das relações de Gerberto com o Diabo é Beno, ou Benone, que Estêvão IX fez cardeal em 1058. Este Benone, que tinha desertado do partido de Gregório VII, escreveu pouco depois, em 1088, dois violentos opúsculos, que foram reunidos sob o título Gestae Romanae Ecclesiae contra Hildebrandum, nas quais se fala também de Silvestre II; e assim é contada a morte dele: «Fora-lhe dito por um seu diabo que não morreria enquanto não celebrasse missa em Jerusalém.» O papa naturalmente julgou que se tratasse da cidade de Jerusalém e um dia veio a celebrar a missa numa igreja de Roma, que era chamada precisamente

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Santa Cruz em Jerusalém - igreja antiquíssima, fundada, consta, pela imperatriz Helena e que ainda existe - e lá foi acometido de doença súbita e sentiu que estava para morrer. «Sentindo vir a morte - proseguiu Benone - suplicou que lhe fossem cortadas as mãos e a língua, com as quais, sacrificando aos demônios, tinha ofendido a Deus»^20. Tratar-se-á, também neste caso, de uma lenda? Benone era inimigo acérrimo de Gregório VII, mas nascera certamente depois da morte de Silvestre II e não podia ter motivos de ódio contra ele. O facto é que o relato dos poderes mágicos do papa Gerberto — e por isso, das suas relações com o demónio — foi retomado e confirmado por muitos escritores até ao século XIII.

Tanto no caso de João XII como no de Silvestre II, trata-se provavelmente de lendas. Mas é importante e significativo o facto de que aquelas acusações se não lêem em 'recolhas de fabuletas e facécies, mas em textos de carácter histórico, e não são devidos, note-se, a leigos suspeitos ou a heréticos empedernidos, se não a altos dignitários da Igreja. Poderá parecer sumamente estranho a nós, modernos, mas é assim. Um bispo como Liutprando, um cardeal como Benone, acreditavam e afirmavam publicamente que um Papa tivesse brindado ao Diabo e que um outro Papa tivesse sacrificado aos Demónios. Tais factos suscitavam a indignação deles, mas tinham-nos entretanto por verídicos e possíveis e não duvidavam de os relatar em obras destinadas a serem lidas, mormente pelo clero. Não parecia, pois, incrível nem inverosímil, entre os séculos X e o XII, que um Vigário de Cristo pudesse ter relações amigáveis com o antigo Adversário.

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Viii

O Diabo e os homens

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A Tentação De Adão

Alguns espíritos bizarros, dedicados à pesca dos porquês, têm-se maravilhado de que a serpente do Éden, tão astuta, tão ardilosa, tão ousada, tenha querido tentar a Mulher - presa demasiado fácil, como se viu - em lugar do Homem. Afigurava-se-lhes inconcebível que o grande Rebelde, o reptador do sumo Poder, houvesse escolhido a via mais cómoda, endereçando as suas palavras enganosas à cândida Eva, a qual, como bem sabemos, não opôs dificuldade nem resistência. Não teria sido digno de Lúcifer defrontar directamente Adão, constituído por Deus senhor e rei da Terra?

Imaginou-se daí que o Diabo havia tentado Adão antes de Eva, e que, não tendo logrado persuadir o macho, se resignasse a seduzir a fêmea. Mas esta suposição encontrou a sua forma poética numa única tragédia latina, composta por um jovem de menos de dezoito anos e impressa em 1601: Adamus exul (Adão exilado).

O poeta adolescente era Hugo van Groot - entre nós conhecido por Ugo Grócio -, isto é, um dos maiores génios que produziu a genial Holanda. Antes de se dedicar por completo ao direito e de pôr os fundamentos, com a sua obra famosa De Jure Belli et Pacis, do direito internacional, Van Groot foi um precocíssimo humanista. Aos nove anos compunha já versos latinos, aos doze foi declarado maduro para a Universidade. Entre os dezasseis e os dezoito anos compôs três tragé-

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dias latinas: Christus patiens, Sophombpaneas (sobre José, o Hebreu) e

Adamus exul. E é nesta última tragédia que o mocíssimo humanista

cristão descreve, em elegantes versos latinos, a tentação de Adão. E não

se cuide que esta tragédia, bem que escrita por um jovem, tenha ficado

ignorada. Milton, em 1638, travou conhecimento com Van Groot, então célebre, e os críticos ingleses admitem que o Adamus exul esteja

compreendido entre as obras que inspiraram ao grande poeta puritano

o Paraíso Perdido.

No terceiro acto dessa tragédia assistimos a um dramático diálogo

entre Adão e Satã, admirável pela invenção e pela agudeza de certos

lances, que poderiam figurar muito bem em qualquer drama do contemporâneo Shakespeare.

O colóquio é precedido de um monólogo do Anjo caído, que revela aos leitores os seus intentos de pérfida simulação. Logo que Adão

descobre o Adversário, tem o pressentimento do perigo, turba-se e volta a cara para outra banda. Satã, então, procura aplacá-lo e amolecê-lo

com hipócritas ofertas de amizade. «É verdade - diz-lhe -, que eu perdi

a amizade de Deus, enquanto tu ainda a possuis, mas estás certo de a

conservares para sempre? Não repilas a mão que eu te estendo; jura-me

fidelidade eterna.»

Adão, indignado com tamanho descaro, invectiva-o duramente:

«Rebelde, perjuro, que a tua mão nojenta não toque a minha carne

pura! Eu não quero ter outro amigo além de Deus. Tu, que mereceste a

danação eterna, aparta-te daquele que teme Deus!»

Satã aguenta sem pestanejar a chicoteante recusa, e depois dirige ao homem uma repreensão que não é de todo injusta: «A irritação e o rancor não ficam bem aos fortes, aos justos, aos amigos de Deus. Não deves odiar-me, não deves desprezar a paz que te oferece um suplicante infeliz.» «Não creio - responde orgulhosamente Adão - que tu valhas

o meu ódio, e ainda menos o meu amor.»

Satã passa então daí às ameaças encobertas. Que Adão não pense que lhe não ficou nenhum poder. «Tu és o senhor da terra e do mar,

mas também a mim me foi dado um reino e um domínio. Ambos somos reis e nenhum rei pode prescindir dos aliados.»

«Mas a terra - responde Adão - é a morada de Deus, e só com Ele

tenho pacto de aliança. Outros aliados não busco nem desejo.»

«Quem recusa um dom? - rebate Satã. - A ninguém aproveita a guerra.»

«Quem nada teme - responde o homem - não é tentado pela esperança.»

A esgrima verbal entre o Tentador e o Fiel continua, cada vez mais

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cerrada. Satã insiste nas suas ofertas: «Tudo o que me pertence será teu.» «Mas tu – replica Adão – nada tens de teu senão o mal e não podes dar senão o mal.»

O Demônio leva a impudência até ao ponto de querer jurar em nome de Deus, mas Adão recorda-lhe que ao Anjo caído e amaldiçoado não é concedido jurar ao nome d’Aquele que ofendeu e traiu.

Finalmente, Lúcifer, vendo a inutilidade das suas insídias e imposturas, deita fora a máscara e anuncia ao homem a sua próxima vingança e a sua perseguição perpétua.

Resumi o melhor que pude o dramático diálogo que, pela finura dialéctica, não se diria na verdade saído da pena de um poeta com pouco mais de dezassete anos. Mais todavia que o génio precoce de Van Groot importa aqui o tema da tentação, diverso do narrado no Gênesis. Satã, falando a Eva, promete a deificação da criatura humana – «sereis como deuses» – ao passo que nesta primeira tentação falhada, propõe ao homem, em vez da desobediência a Deus, algo de bem diverso: a sua amizade e a sua aliança.

Talvez ele soubesse que Adão seria menos crédulo do que Eva e não teria dado fé à promessa de ser transformado num ser divino, semelhante ou igual ao Criador. Mas oferecendo-lhe uma estreita aliança, ele, o grande rebelde, o danado, o príncipe e princípio do mal, acaso não tentava associá-lo à sua revolta, fazer dele um inimigo de Deus?

Adão, segundo o jovem poeta de Delft, recusou pertinazmente a ardilosa proposta da infame aliança, mas os descendentes de Adão – os filhos da queda – nem sempre a recusaram. Ainda hoje, sobre a Terra, são em grande número os homens que aceitaram aquela aliança ou a solicitaram, e que são fiéis à amizade de Satã bastante mais do que os cristãos de fraca tempérase se mostram amigos de Deus.

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Adão Premiado

Nenhum ponto da doutrina e da tradição católica surpreende e confunde um entendimento raciocinante, como o destino de Adão depois da morte.

Pensai: Adão foi o primeiro a sucumbir à tentação de Satã e a sua queda foi ainda mais grave e culposa pelas razões que toda a gente conhece. Antes de tudo porque era munido de virtudes sobrenaturais

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que houveram de tornar mais aguda a sua inteligência e mais forte a sua vontade; depois, porque não opôs, segundo consta dos textos revelados, nenhuma resistência à oferta da serpente; enfim, porque a sua queda não rebaixou, vulnerou e corrompeu unicamente a sua esposa, mas arrastou todos os seus descendentes e, segundo a palavra de S. Paulo, até a inteira natureza. Quem encare o assunto pelo prisma da razão natural, esperaria que este culpado, o primeiro e o maior de todos, fosse punido pela Justiça divina de modo drástico e inusitado. Verificamos, ao invés, com infinito espanto, exactamente o contrário.

O próprio Criador, depois que Adão cometeu o maior dos pecados possíveis, deixou-se levar a uma incrível indulgência e comutou a pena de morte na do exílio. Com efeito, quando Deus largou o homem no Éden disse-lhe: «De todas as árvores do Jardim podes comer, mas não da árvore do bem e do mal, porque no dia em que comesses dessa árvore, morrerias.»

O Criador, portanto, ou movido de piedade por Adão ou por outras razões para nós veladas, chegou ao ponto de anular a Sua decisão peremptória da véspera.

Mas não é tudo. Adão viveu sobre a Terra 930 anos e quando morreu o seu corpo foi deposto, segundo antigas lendas, nas vísceras do monte que veio depois a ser o Gólgota. E Adão dormiu silencioso na Terra, milénio após milénio; e Cristo, logo em seguida à Ressurreição, o seu primeiro cuidado, como testemunha S. Pedro e S. Paulo, foi o de descer ao reino dos mortos para de lá trazer as almas dos Patriarcas e dos Justos e, primeiro entre estes, Adão, a fim de o levar consigo para o Céu, para a estância da salvação e da beatitude.

Esta liberação do Limbo, que nos é profusamente narrada no Descensus Christi ad Inferos — e que se encontra em geral unida ao Evangelho de Nicodemos — foi aceite da Igreja, da piedade popular e da escolástica. E Dante faz contar a Virgílio a descida triunfal de Cristo ao Limbo:

... ci vidi venire un possente

con segno di vittoria coronato.

Trasseci l'ombra del primo parente,

d'Abel suo figlio ...²¹

(... vimos chegar um poderoso / coroado com o sinal da vitória./ Trouxe-nos a sombra do primeiro pai / de Abel, seu filho...) De sorte que Adão, conquanto o primeiro dos pecadores, foi também o primeiro a ser premiado com a ascensão ao Paraíso, após a Ressurreição do Re-

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dentor. Tanto assim é que Dante encontra-o no Paraíso, designadamente no céu estrelado, onde participa do triunfo de Cristo. É precisamente no colóquio entre Dante e Adão que o primeiro dos vivos tenta uma explicação da sua culpa:

Or, figliuol mio, non il gustar del legno

fu per me la cagion di tanto assillo

ma solamente il trapassar del segno.²²

[Ora, meu filho, não foi o provar da árvore (maçã) a razão, para mim, de tanto distúrbio / mas somente a transgressão do signo (ordem divina)]. Nestes três versos Dante não faz senão resumir uma opinião do Doutor Angélico, segundo a qual o pecado de Adão não teria sido de gula, mas de soberba; o que torna a culpa ainda mais grave²³.

E essa culpa, que Adão não tentara atenuar, não o impede todavia de esplender, junto aos santos mais gloriosos, no alto das esferas celestes.

A fama da salvação do Primeiro Homem estava tão radicada no mundo cristão que a Igreja Grega instituiu uma festa para Sto. Adão e Sta. Eva, que se celebrava em 19 de Dezembro. Tal festa foi, ao que parece, aprovada pela Igreja Ocidental, pois se encontra igualmente registada nos Bolandistas e nos dicionários hagiográficos, aprovados por Roma. Um martirológio romano afirma que a festa de Sto. Adão, em lugar de ser em 19 de Dezembro, é em 24 de Abril; outros indicam a semana da septuagésima, 18-23 de Janeiro.

Em Jerusalém, nas faldas do Calvário, existia um oratório dedicado a Sto. Adão, que era oficiado por sacerdotes gregos, os quais não usavam o incenso para o seu culto porque, devido talvez a um resto de pudor lógico, não o tinham em pé de igualdade com os grandes santos. Esta capela foi visitada pelo Pe. Francesco Quaresmio, um franciscano lombardo, ilustre, que viveu muitos anos no Oriente durante os primeiros decênios de 600 e que a descreveu na sua obra famosa sobre a Terra Santa²⁴.

Um lugar chamado Capela de Adão existe ainda hoje aos pés do Calvário, mas não está aberto ao culto.

A glorificação póstuma do Grande Pecador foi assim levada a cabo; aquele que arrastou na sua ruína o género humano por ter cedido à tentação do Demónio foi premiado pela indulgência do Criador, que, depois de o ter condenado à morte, o fez sobreviver mais de nove séculos; foi premiado por Cristo, que o tirou da escuridão inferior para o arrebatar até ao Paraíso; foi premiado pela piedade cristã que o inscre-

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veu entre os santos e lhe dedicou, ao menos por alguns séculos, real e próprio culto. Essas altíssimas recompensas, concedidas por Deus e pelos homens àquele que, segundo a teologia, é o primeiro responsável da nossa escravização a Satanás, são de índole, deveras, a fazer pasmar qualquer alma não desprovida do uso da razão. E o que há de mais estranho é que nenhum teólogo tenha sabido dar ao inverosímil paradoxo uma justificacão convincente.

Permanece pois o mistério desta apoteose do primeiro e maior culpado, um mistério que faz entrever mistérios ainda mais insondáveis. Poderia com efeito inferir-se que obedecer a uma louca tentação de Satã não é um pecado tão grave como em geral se afirma e supõe, desde o momento que Adão foi de entrada muito punido com pena menor do que a prevista e depois salvo pelo próprio Salvador, e por último comemorado nos altares. E disto se poderia deduzir ainda uma outra verdade: que a misericórdia divina é de tal maneira ilimitada que premeia, além de perdoar, aquele que foi vítima de uma tentação diabólica.

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O Calcanhar De Eva

O texto mais antigo das relações entre o Diabo e a mulher é o do Gênesis (III, 15). Após a queda do par edênico, o Senhor sirige-Se à Serpente com estas palavras: «Eu lançarei a inimizade entre ti e a mulher e entre a tua descendência e a sua descendência; essa te esmagará a cabeça, logo que chegues ao seu calcanhar.»

Este verseto foi chamado o Proto-Evangelho, porque conteria a obscura profecia da redenção: o filho da mulher, isto é, de Maria, esmagará a cabeça de Satã.

Em verdade as palavras divinas são bem mais misteriosas do que parece à primeira leitura. Afigura-se-nos muito estranha, antes de tudo, a ameaça com que abre a sentença. É Deus mesmo, por conseguinte, que lança, interpõe e alimenta a inimizade entre a mulher e a Serpente. Poderia daí pensar-se que essa inimizade não existia ao começo e que a mulher, modelada pelas próprias mãos do Criador, se tivesse tornado subitamente amiga do Diabo. A aquiescência imediata de Eva às solicitações de Satã leva a crer que essa amizade existia desde os primeiros instantes. O que veio a acontecer nos milênios seguintes sobre a face da Terra faria pensar que uma real e autêntica inimizade entre as filhas de

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Eva e os filhos de Lúcifer jamais tenha existido, a despeito do Mandamento do Senhor, e nem sequer após a vinda de Cristo.

Recorde-se que quase toda a literatura cristã da Idade Média subentende uma estreita colaboração entre o Diabo e a mulher. A mulher, segundo muitíssimos clássicos da ascese, é o instrumento de perdição predilecto do Grande Adversário. Ela é definida amiúde como o laço e a armadilha de que Satã se serve para alcançar, mediante o pecado da carne, as almas. As tentações mais comuns, narradas ou figuradas, acerca dos grandes anacoretas e penitentes, são mulheres que buscam induzir os santos à traição para com Deus. As mulheres, segundo o testemunho dos Santos e Doutores, são destarte as mais activas fornecedoras de carnagem infecta aos fogos do inferno. O pecado máximo de Satã, segundo os teólogos, era a soberba; ao invés, segundo os moralistas, os pregadores e os místicos da alta Idade Média, os homens tornaram-se presa de Satã através da luxúria.

Foi necessária a revolução poética das cortes trovadorescas e do doce Estilo Novo para contrapor a mulher angelical, capaz de elevar as almas a Deus, à nua tentadora das tebaidas. A infame Circe das lendas medievais transformou-se, graças à poesia, na Beatriz de Dante, que ri ao seu poeta no fulgor do Empíreo. Mas esta revolução triunfou somente no mundo da literatura, porquanto os moralistas cristãos, até aos nossos dias, continuaram a denunciar na sensualidade provocada pela mulher uma das primeiras causas da putefracção e morte da alma.

Não se vê bem, por isso, em que modo a mulher haja verificado a profecia do seu Modelador. A guerra entre o Diabo e a mulher não tem sido, na realidade, contínua e acérrima, como fariam supor as palavras do Génesis. Tem havido no mundo cristão mais bruxas do que bruxos, mais ledoras da sina do que nigromantes, mais possessas do que possessos. Nenhuma criatura se gabou, como a mulher, da amizade e protecção de Satã, nenhuma se subordinou e se prostituiu a ele como as descendentes de Eva. Nem todos sabem que, ao lado da lenda de Fausto, há também a lenda da mulher que aceitou alegremente viver com o Diabo por muitos anos, obtendo dele prazeres e favores de toda a espécie. Esta lenda deu origem a uma das obras-primas da literatura holandesa, a famosa Marieken van Nimwegen, composta, ao que parece, por volta de 1500 e que termina, como o Fausto goethiano, com a salvação final da heroína.

Mas, assim como nenhuma palavra de Deus pode ter sido formulada em vão, nós aguardamos ainda a verificação dessa obscura profecia. E talvez os homens se apercebam de que a mulher os salvará de Satã, mas de modo completamente diverso do que o que se encobre nas pala-

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vras do Génesis, as quais aparecerão, enfim, no seu divino significado: o Inimigo pode ser esmagado até mesmo com o excesso de amor.

É bom não esquecer, com efeito, que na mulher, ser mais simples, porém, mais violento e decidido nas reacções espirituais, se encontram os exemplos mais clamorosos das posições extremas. Entre as mulheres não surgem apenas os mais furibundos servos de Satã, como também os mais fogosos enamorados de Deus. Os santos mais apaixonados, os estáticos mais iluminados, os místicos mais próximos da união divina foram mulheres, assim como foram mulheres os mais asquerosos bruxos e os mais exasperados pecadores. Nas mulheres que se elevam ao de cima do grosso rebanho do sexo, há uma temperatura interna, ignorada quase sempre do homem. Coexistem nessas as duas postulações opostas: aquele fogo pode ser labareda que nos arrebata para o céu como uma língua sequiosa de amor, ou pode tornar-se a chama devoradora destinada ao Inferno.

Mas volvemos à profecia do Génesis. Não se vê como se poderia afirmar que a mulher tenha esmagado a cabeça da Serpente antiga. O monstro já se chegou e se chega ao seu calcanhar, mas ela não conseguiu ainda machucar aquela cabeça chata, atulhada de veneno, nem sequer em seguida ao parto de Maria.

Os antigos hebreus, talvez na esperança de fazer perdoar mais facilmente a Eva o seu pecado, contaram que, antes dela, Adão tivera outra esposa, Lilith. Esta gerou muitos filhos a Adão, mas em certo momento abandonou-o e juntou-se ao demônio Samael - a qual foi assim o primeiro demônio-mulher da história humana, e a literatura rabínica sustenta que Lilith odeia por ciúme todos os filhos de Eva e das suas descendentes, tanto que na véspera do nascimento de um filho os Hebreus supersticiosos suspendiam, fora e dentro de casa, cartões com estes dizeres: «Adão e Eva estão aqui. Lilith, vai-te embora.»

Não sabemos que destino tiveram os filhos que Adão teve da demoníaca Lilith e os que ela, ao que parece, gerou do novo marido Samael. Contudo a prole demoníaca atribuída a Lilith, tanto com Adão como com Samael, não explica as duas dinastias humanas dos bons e dos malvados, porquanto Caim, o primeiro fraticida, foi filho de Eva, como o cândido Abel.

A lenda de Lilith não ajuda pois a resolver o mistério das mulheres diabólicas e daquelas que Giordani chamou, no seu libelo O Pecado Impossível, as «concubinas infernais»25.

Até ao século XIX, certos teólogos acreditaram, ou pelo menos ensinaram, que as mulheres podem ser algumas vezes sucubas de demônios em forma humana26, mas quero supor que tal opinião não seja

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doutrina de fé; e foi de resto abandonada dos moderns teólogos, pois que não há deveras necessidade de recorrer a demónios encarnados e ao que Giordani chama «coito diabolesco» para achar razões das quedas e das perfídias das mulheres.

Uma teoria conhecida pelo nome do médico Beverland27, mas que é bem mais antiga do que ele, interpreta a primeira falta do homem no sentido da conjunção dos sexos, e se isto fosse verdadeiro, teria sido realmente Eva, como mulher, a introduzir o pecado, isto é, a vitória de Satã no Mundo. As suas relações com o demónio são antigas e evidentes; contudo permanecem ainda obscuras na sua essência e socorre-nos tão só a ideia sugerida pelas próprias palavras de Deus: a de que a mulher, que foi a primeira a obedecer a Satã, será, antes do fim dos tempos, quem nos há-de libertar daquela sujeição. De que modo essa dupla redenção poderá ser operada não nos é dado saber; a nós basta-nos uma esperança, que em breve se poderá tornar numa certeza.

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De Que Modos O Diabo Tenta Os Homens

Dmitri Merejkovski, seguindo o pensamento do Grande Inquisidor de Dostoievski, demonstra com agudeza que os homens são tentados pelo Diabo da mesma maneira que foi tentado Jesus no deserto.

«Tem razão o Grande Inquisidor: os destinos da Humanidade, do princípio ao fim dos tempos, são prefiguradas nas Três Tentações, e se nós não fôssemos cegos, agora vê-lo-íamos tão claramente como ninguém jamais o viu em dois mil anos de cristinanismo.»

Merejkovski procura mostrar de que formas essas tentações continuam a ser propostas ao homem, particularmente na nossa época. Algumas das suas interpretações persuadem, outras não.

A primeira tentação, a do pão, é certamente como ele diz: «O poder do homem sobre a Natureza, a ciência, a mecânica e a magia, o milagre do não eu, o fim dos sofrimentos físicos no Mundo.»

Mas a segunda, a do voo, não é apenas o que Merejkovski julga, isto é, «o poder do homem sobre o próprio corpo, a liberdade» e a terceira, a dos reinos, não se pode deveras entender como «o amor que liga um a todos, o milagre no eu e no não eu». O formulário filosófico, de cunho germânico, fez esquecer a Merejkovski que o Diabo não podia propor-se como fim a liberdade, a unidade, o amor, o fim dos sofrimentos humanos.

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Satã renegou o espírito, é todo matéria e não pode ter em mira se não triunfos materiais. Segundo o autor de Jesus Desconhecido, ele apareceria, nas tentações que renova ainda hoje perante nós todos, um benfeitor, um salvador dos homens, por libertá-los da separação e da dor.

A segunda tentação, a meu ver, é, também, francamente material. Satã é profeta. E, como, na primeira, a da transmudação das pedras em pão, ele adivinhou os prodígios da física e da química modernas – que chegam a obter sínteses de substâncias orgânicas da matéria inerte – assim na segunda o Diabo profetizou o presente domínio do homem sobre a gravidade. O sonho do homem, de Ícaro a Simão, o Mago, foi sempre o de voar, poder deslocar-se livremente no espaço, a seu gosto, sem o perigo de se precipitar. Um dos nossos sonhos mais comuns é, com efeito, o de voar, de soltar com segurança o nosso corpo para além do solo. A conquista do céu material é um dos símbolos de potência que mais atraem e embriagam os homens e estes, no presente século, cedendo à tentação diabólica, alcançaram-na finalmente. Os aviões a reacção por jacto e a velocidades ultrassónicas, e sobretudo os pára-quedas, outra coisa não são do que o resultado da obediência do ho-mem à segunda tentação diabólica. E a prova que os engenhos que nos permitem vencer a gravidade, navegar no céu e descer sem dano de grandes alturas são devidos a inspiração satânica, achamo-la no facto de que servem, e cada vez mais hão-de servir, para espalhar a ruína e a morte. O voo não leva à liberdade, como pensava Merejkovski, mas à sujeição e ao massacre. O jogo destruidor, como já anunciava o Apocalipse, desce de há tempos no Céu porque os homens aprenderam a voar.

Também a terceira tentação, a dos reinos, tem um evidente carácter político e não espiritual. Trata-se de reunir todas as nações da Terra sob um único dominador, sob uma única ditadura. Nos tempos de Jesus existia um Império, o de Roma, que, aos povos da bacia mediterrânea, parecia imenso e quase universal. Mas nós sabemos que incluía apenas uma pequena parte da Terra habitada; impérios vastíssimos, como os do Oriente, e continentes inteiros não ainda descobertos, como a América e a Austrália, ficavam de fora. Hoje, porém, todos sentem que um império verdadeiramente universal é possível. Todas as terras estão descobertas e habitadas e o Mundo está dividido em duas poderosíssimas confederações de Estados. Estes dois potentados gigantescos olham-se de esguelha e contendem em todas as regiões dos dois hemisférios, aguardando o momento da final Armagedon, que dará o domínio mundial a um só ou então porá fim para sempre à vida sobre a

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Terra. A posse de todos os reinos e impérios, que Cristo recusou no cimo da montanha, é agora cobiçado por dois antagonistas hegemónicos.

Advirta-se, entretanto: a união de todos os homens num único império não é, por si, programa demoníaco e foi sonhado, entre outros, por Dante, Campanella, Leibnitz, Kant, que não foram espíritos demoníacos. Mas são abertamente demoníacos os meios, os modos e os instrumentos com os quais os presentes protagonistas projectam consegui-lo e effectvá-lo, isto é: a mentira, a violência, a revolta e a guerra.

Ao género humano abrem-se dois impérios: o de Cristo, o eterno reino dos Céus, e o de Satã, o reino universal terreno. O género humano até à data tem escolhido quase sempre o segundo: hoje, com mais evidência que ontem; amanhã, talvez nem saiba sequer fazer a escolha: não conhecerá senão o convite do Diabo.

O Grande Inquisidor de Dostoievski, portanto, não errou quando disse que as Três Tentações de Cristo viriam a ser continuamente repetidas ao homem, no decurso da história. Mas não é só a essas que o Diabo recorre contra nós. Outras há igualmente terríveis, que foram poupadas ao Filho do Homem.

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As Encarnações De Satã

Deus encarnou-Se uma única vez, em Cristo, para fazer-Se vítima dos homens em benefício eterno dos homens. O Diabo encarnou-se inúmeras vezes, em várias formas e pessoas, e sempre para dano e afronta dos homens.

Deste seu hábito de eleger domicílio nas almas temos certíssimo testemunho no Evangelho, lá onde se diz de Judas que «Satã entrou nele». Judas deve pois ser considerado a primeira encarnação do Diabo sobre a Terra.

Mas no curso dos séculos houve muitos homens famosos – sobretudo reinantes – cuja natureza diabólica se afirmou. Um dos primeiros a ser tido por encarnação de Satã foi Nero e, depois dele, Átila, Teodorico, Ezzelino da Romano, Frederico II da Suécia, Ivan, o Terrível, Napoleão, Hitler... Segundo Lutero, o próprio Pontífice romano coevo não era senão o Demónio em manto papal. E os católicos, retor-

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quindo, disseram ser filho de Satã o frade rebelde. Foram julgados encarnações ou filhos de Satã aqueles príncipes ou chefes de Estado que se entregaram a enfurecidos actos de malvadez contra os seus súbditos e que foram adversários e perseguidores da Igreja e de Cristo. Qualquer desapiadado ordenador de carnificinas é, aos olhos das plebes, encarnação do Diabo.

Mas de que modo se pode entender esta encarnação? Trata-se de uma possessão diabólica transitória e intermitente, ou de uma direct.a e flagrante descendência carnal do Maligno?

Jornandes, no sexto século, afirmava que os Hunos eram gerados por demónios que se tinham copulado, como incubas, com bárbaras feiticeiras. Ezzelino da Romano, o famigerado e sanguinário tirano de Verona, era, por confissão da mãe, Adelinda, filho de Lúcifer.

Também Roberto, o Diabo, duque de Normandia desde 1027, foi tido por filho do Diabo, bem que tivesse morrido em Niceia durante o regresso de uma piedosa peregrinação a Jerusalém (1035). Consta, porém, que envenenara o irmão, o duque Ricardo III, e que deveu o seu cognome à crueza por ele patenteada na guerra.

Estas filiações são lendas, claro está, mas não são lendárias as possessões diabólicas, acerca das quais temos provas e memórias seguras, mesmo nos tempos modernos. Não é impossível ao Diabo, segundo a teologia, assenhorear-se de uma alma, substituir-se a ela nas decisões e nas palavras, a fim de proporcionar morte e perdição ao maior número de seres humanos. E certos poderosos, medidos com o metro cristão, não há dúvida que agem e pensam como se Lúcifer estivesse morando neles.

O Príncipe deste Mundo — que de há algum tempo não quer mostrar-se em pessoa, como usava fazer na Idade Média — pode bem servir-se, no propósito de aumentar sobre a Terra a apostasia e o terror, de seres humanos como seus sucubos e mandatários. A História Universal, antes e depois de Cristo, confirma e não desmente essas satânicas infestações e encarnações. Mas não está dito que Lúcifer possa e deva habitar somente os grandes da Terra. Existiram, e ainda existem, certos homens — malfeitores astutos e sádicos, ou espíritos exaltados e destrambelhados — nos quais se pode muito bem suspeitar a presença do Diabo. Qualquer de nós pode ter encontrado algum desses seres secretos e trágicos, antes que o cárcere ou o manicómio os recebessem como hóspedes. Alguns deles, com infernal esperteza escapam pela vida fora a toda a sanção. Talvez algum de nós tenha hoje falado, sem reparar, sem o saber, com um desses demónios clandestinos, isto é, topou no Diabo em forma humana.

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O Diabo E D. João

Satã promete tudo o que desejam àqueles que lhe vendem a alma; e, visto que entre os bens mais apetecíveis, para os varões, está o amor das mulheres, não há que pasmar de que Fausto, por exemplo, obtenha, por intermédio de Metistófels, a virgindade de Margarida. Mas Fausto, á igualha de todos os outros firmatários do contrato demoníaco, não pede ao Diabo apenas a volúpia do amor triunfante. Pede bastante mais e de bem diversa espécie, como sabemos da lenda faustiana e do poema de Goethe. A posse da donzela cândida não é senão uma das cláusulas do pacto e não a de maior monta: talvez um simples acréscimo à mercadoria.

A história das almas vendidas oferece-nos, que eu saiba, uma única excepção: a de Luís Gaufridi (ou Gofridi), sacerdote francês nascido aí por 1550, o qual, por meio de um livro mágico que recebera por herança de um tio – padre também –, entrou em relações com o Diabo, a quem, no dizer da crónica, pediu um só favor: « seduzir todas as mulheres sobre as quais ele soprasse». E então, acrescenta um malicioso biógrafo, on ne sera pas supris s’il souffla sur beaucoup. Denunciado pela família de uma das suas mais ilustres vítimas – Madeleine de La Palud – foi processado pela Inquisição e veio a ser queimado vivo em Aix, em 1611.

Este sátiro em vestes talares não pediu, por conseguinte, ao Diabo, nenhum outro poder ou privilégio afora o de « soprar» sobre as damas, de modo a alcançar, sem perda de tempo, o supremo favor. Satã aparece-nos neste episódio histórico – e bem documentado pelo mesmo inquisidor que condenou Gaufridi – como um « pourvoyeur» de vítimas indefesas a um insaciável D. João tonsurado. E há que admitir deveras um qualquer poder sobrenatural, visto que aos sessenta anos feitos ele conseguia manter bem uma rapariga jovem.

Tirso de Molina publicou o seu Burlador de Sevilla y Convidado de piedra – que é a primeira forma da lenda donjuanesca – em 1630, quer dizer, poucos anos depois do auto-de-fé de Gaufridi. Não será o caso que o frade espanhol tenha tido notícia das gestas eróticas do padre provençal, punidas com morte horrorosa?

E será muito arriscada a hipótese de que o original autêntico do D. João espanhol – seja Don Juan Tenório ou Miguel de Manara – haja também obtido do Diabo um dom semelhante ao que fora concedido ao libidinoso cura francês?

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O Diabo E O Paraíso Na Terra

Disse Cristo: «O meu reino não é deste Mundo.» O Diabo, para combater o cristianismo, que promete a felicidade eterna só depois da morte, tinha pois de recorrer, entre outros ardis, ao de fazer acreditar aos homens que se pode preparar e obter, no futuro, uma espécie de paraíso na Terra, um reino da felicidade terrena.

Daí resulta, claro está, que todos os que imaginam e prometem um convívio perfeito e feliz nesta vida, seja embora num futuro remoto, isto é, os utopistas, os visionários, os messiânicos materialistas, os sonhadores de um Eden social, todos os que em suma anunciam e sonham, no lugar do Reino dos Céus, um Reino humano e terreno, são inspirados, que o saibam ou não, pelo Demónio. O qual escogitou essas fantasmagorias para que os homens não cuidem no seu verdadeiro destino supraterreno e sejam conduzidos, portanto, a abandonar o Cristianismo.

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Falar Ao Diabo

«Quando não falamos a Deus ou para Deus, é ao Diabo que falamos, e ele escuta-nos num formidável silêncio...»

Estas palavras foram escritas por Léon Bloy e não podiam ter sido escritas senão pelo Pélerin de l’Absolu. São terrivelmente verdadeiras. Para o cristão há uma única essência e uma única existência: a de Deus, d’Aquele que é. Não se pode pois falar senão a Ele ou acerca d’Ele ou ao serviço d’Ele. Qualquer outro discurso, qualquer discurso que não tenha por tema o Criador e a Sua Criação e a Sua Redenção, não pode ser senão um discurso a respeito daquilo que se contrapõe a Deus, isto é, o Mal e o Príncipe do Mal. Há quem fale sobre o Nada e acerca do Nada – o que sucede mais vezes do que se imagina aos oradores políticos e aos tagarelas metafísicos – mas o Nada, em definitivo, é um dos nomes do Demónio, enquanto ele é o espírito que nega e a força que destrói.

Esta tremenda verdade ilumina de temerosa luz a vida dos nossos

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tempos. Existem ainda, em todas as partes do mundo, sacerdotes que falam de Deus, solitários que procuram unir-se a Deus, infelizes que se volvem para Deus. Em comparação todavia com a massa falante, são como gaivotas dispersas sobre um oceano furioso e roncante. Os discursos dos homens — nas casas, nas praças, nos parlamentos, nas escolas, nos jornais — são de natureza e conteúdo bem diversos. Fala-se universalmente de negócios e de prazeres, de dinheiro a ganhar e a gastar, de máquinas e de tarifas, de estipêndios e dividendos, de armas e de guerras, de meios para vencer o espaço e meios para destruir o que existe. Discorre-se para enganar as mulheres e para enganar os povos, para acrescer a própria fortuna ou a própria força, para aplacar os rivais ou para ameaçar os inimigos, para fazer rir os ociosos ou para para deslumbrar os requintados. As palavras humanas, pronunciadas ou impressas, concorrem para os fins mais comuns do homem contemporâneo: gozar e possuir, dominar e suprimir.

Léon Bloy tem pois razão. Todos esses discursos, na realidade, são discursos acerca do Mal, discursos endereçados ao Demônio ou que se referem ao Demônio, ainda que o seu nome nunca seja pronunciado pelos seus inconscientes servidores. E Satã ouve em silêncio esses innumeráveis, repetidos, quotidianos discursos. Para que havia ele de responder? Os homens falam a sua linguagem, parafraseiam os seus princípios, executam os seus propósitos. O Diabo não tem nada a dizer, nada a replicar. Eles aprenderam bem a lição, ocupam-se dele e só dele, conquanto o não nomeiem. O Diabo escuta em silêncio, a fim de não perturbar a disciplina dos seus alunos: a sua hora de falar há-de vir.

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O Diabo E Os Imbecis

Entre os modernos, um dos mais subtis entendedores da psicologia diabólica foi Paul Valéry, que era cartesiano mas também poeta.

«O Diabo diz: Aquele não era bastante inteligente para que eu levesse a melhor com ele. Não tinha espírito bastante. Era tão pateta que me venceu. Seduzir um imbecil, que problema! Este nada compreendeu das minhas tentações.»28

A observação é arguta mas é sobretudo maligna. Antes de tudo Valéry coloca em má luz o Diabo que, não obstante a sua famigerada astúcia, se declara impotente diante dos imbecis. As tentações inefica-

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zes, a que alude o autor de Ébauche d’un Serpent, são provavelmente as intelectuais, as que fazem sucumbir as mentalidades altaneiras. Mas para os imbecis outras há, mais grosseiras e bestiais, que o Diabo pode sempre usar, com menor gozo talvez, mas com a certeza da vitória.

Aliás, o pensamento de Valéry é bastante mais diabólico do que parece à primeira vista. Ele quer insinuar que os rombos às tentações, isto é, os «pobres de espírito», que crêem com sancta simplicitas e guardam intacta a fé, são imbecis, escapos às insídias de Satã unicamente porque imbecis.

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O Diabo Lapidado

É costume velho de quantos são molestados por Satã buscar agredi-lo, junto com as palavras exorcizadoras, com os objectos que têm à mão: pedras contundentes os volumes compactos. Reacção pueril – geralmente ineficaz – mas natural até nos santos de mais perfeita mansuetude.

Santo não era Martinho Lutero que, durante o seu estágio na Wartburg, foi tentado, assaltado e assediado – como ele mesmo contou – por milhares de demónios. Uma vez que Satã em pessoa o importunava sobremaneira, o iracundo agostiniano pegou no tinteiro e arremessou-o contra o Maligno. Dizem que se vê ainda hoje a nódoa de tinta sobre uma das paredes do quarto.

Os modernos teólogos luteranos não esqueceram, ao que parece, este exemplo lapidatório. Thomas Mann no seu Doctor Faustus conta que um professor de Teologia da Universidade de Halle, Ehrenfried Kumpf, tinha o hábito de convidar para a ceia um dos seus discípulos e, depois de ter comido e bebido como pode comer e beber um professor teutónico, entrava a cantar, dedilhando uma guitarra. Semelhante alegria teológica, porém, não agradava ao antigo Adversário. Cedo aqui a palavra a Thomas Mann: «Olhai – gritou – ei-lo acolá, no canto, aquele calamitoso Berlique, o espírito ácido e triste que não atura ver-nos alegres em Deus, entre iguarias e canções! Mas não nos há-de ferir, esse malvado, com os seus dardos agudos e candentes! Apage! – E logo, blasonando, pegou num pãozinho e lançou-o no ângulo escuro.»

Este episódio, segundo Mann, é dos primeiros anos deste muito luminoso século XX. Os costumes amaneiraram-se. Lutero arremessa-

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va contra o anjo negro o líquido negro que lhe servia para escrever os seus tratados. O Prof. Kumpf, mais bonacheirão, lançava a Berlique um belo pãozinho, macio e loiro, o mesmo alimento que se atira a um cachorro importuno para que saia de ao pé de nós. Imaginaria talvez o professor de Teologia Luterana que o Diabo tivesse fome «só de pão»?

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A Rebelião Contra Satã

Segundo a Escritura, a fé e a teologia, o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Mas o espectáculo da vida humana e o curricu-

lum da história humana demonstram, até aos mais fiéis discípulos do Dr. Pangloss, que a divina semelhança se apagou quase por completo. Isso deve-se, conforme o ensina a Igreja, à queda de Adão, da qual Satanás foi o primeiro autor. Desde esse tempo, não obstante os Profetas e os Santos, o homem assemelhou-se cada vez menos a Deus e cada vez mais ao Diabo. O Cristianismo, encarado no seu ofício fundamental, deveria consistir no corte progressivo da semelhança com o Adversário e na recuperação progressiva da semelhança com Deus. Após quase dois milénios da Encarnação continuamos a ser bastante mais semelhantes ao Rebelde do que ao Salvador.

A experiência quotidiana e a memória do passado indicam, numa assustadora concórdia, que quase todos os homens vivem de maneira em tudo oposta aos Mandamentos do Decálogo e às exortações do Evangelho. Cristãos declarados adoram, mais ou menos ostensivamente, outras divindades (Mamon, a Matéria, a Ideia, a Ciência, o Sexo, etc.); blasfemam amiúde o nome de Deus; cansam, amarguram e mortificam os pais, em vez de os honrar; matam, na paz e na guerra, os seus inimigos; apoderam-se, pela força ou pelo engano, dos bens alheios; desejam a mulher e os bens de outrem; praticam sem escrúpulo a fornicação e pior...

Jesus ensinou que devemos amar os inimigos e nós, ao invés, estamos prontos a odiar, ou pelo menos a invejar os próprios amigos. Jesus ensinou que não devíamos fazer aos outros o que não queremos que nos façam, e nós prosseguimos na norma contrária e, mais ainda, não damos quase nunca aos outros o que queremos nos fosse dado.

O pecado satânico por excelência é a soberba, a presunção, a protérrvia. E nós vemos hoje em dia homens que pretendem dar assento ao

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Universo com meia dúzia de conceitos e fórmulas; homens que proclamam ter conquistado, por meio de máquinas, os atributos divinos; homens de escasso entendimento e fraco ânimo, que se arrogam o direito de dominar e guiar povos e nações e os conduzem, com empáfia senil, à escravidão e ao extermínio; homens sem generosidade de afectos nem profundez de ideias, que se exibem como mestres de poesia, de filosofia, de política, de moral. Se o Diabo é orgulho, somos todos mais ou menos diabólicos.

A vida humana, pelo efeito destas desobediencias pertinazes, ondeia entre a loucura e a delinquência; às vezes a loucura faz de obstáculo à delinquência, mas por via de regra a delinquência está ao serviço da loucura e esta suborna e justifica a delinquência.

É claro, por conseguinte, que os homens são antes levados à imitação de Satã do que à imitação de Deus. Também Satã tem os seus mandamentos: mata Deus em ti; destrói quantos entes vivos puderes; desafoga a tua lascivia; acumula dinheiro. E estes terriveis mandamentos – como atestam as histórias de todos os povos e como nos lembra cada manhã o jornal – são pontualmente obedecidos dos grandes e pequenos da Terra. Contudo esta obediência torna a vida cada vez mais triste, mais dura, mais perigosa, mais atroz. As carnificianas e as catástrofes deste último meio século mostram a que horríveis consequências conduz a imitação do Diabo.

É necessário, pois, que a Humanidade se desvincule de Satã. Importa cancelar a nossa semelhança com Satã. Devemos, sem demora, rebelar-nos contra Satã.

Ele não pôde destruir de todo a nossa semelhança com Deus. Houve e há ainda adversários humanos do Adversário: são os Santos e os Prudentos. Até mesmo no demente incurável há um resíduo de razão; no delinquente empedernido há ainda uma leve reverbação de bondade. Mas os Santos e os Prudentos são raros, cada vez mais raros e com mais frequencia perseguidos do que escutados. E os próprios que os respeitam e veneram raramente são capazes de os seguir.

De que modo, pois, é lícito emprender a nossa rebelião contra Satanás? Os métodos ensinados pelos moralistas e ascetas foram-se mostrando, no decurso do tempo, pouco eficazes, porque a imitação e a dominação do Inimigo têm ido sempre crescendo. Escapar às tentações tornou-se na vida de hoje quase impossivel; até a oração, que foi noutros séculos arma eficaz, decaiu na maior parte dos casos em exercício meramente labial e, por isso, inoperante.

Detestar o Demônio não basta. A defesa contra as investidas do Demônio revela-se dia a dia mais fraca e vã. Que fazer?

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A universal revolta reduziria o Diabo à impotência e destarte se chegaria ao cumprimento da nossa redenção. Mas é porventura concebível que os homens, a despeito das terríficas lesões da nossa época consigam soltar-se da inveterada obediência à lei de Satã?

E contudo – para efeito da nossa própria conservação sobre a Terra – aparece como improrrogável e urgente pôr termo à nossa servidão. O Príncipe deste Mundo está preparando, dia e noite, a nossa ruína: é preciso a todo o custo livarmo-nos dele.

Se os homens são incapazes de se tornar angélicos, é indispensável que Lúcifer volte a ser anjo. Se os homens são incapazes de uma total e efectíva conversão, há que contar com a conversão do Demônio.

Mas semelhante conversação é pensável? Aquele que é todo ódio poderá acaso, com as suas únicas forças, redescobrir em si um anelo de amor, um princípio de resgate? E Deus, por outro lado, quererá perdoar ao primeiro rebelde que arrastou os anjos e os homens à rebelião? A sua omnipotência não tem limites – nem sequer no campo do que nós chamamos justiça – e S. Paulo ensinou-nos a julgar sabedoria aos olhos de Deus o que parece loucura aos olhos dos homens. Deus poderia obter essa conversão, mas uma conversão imposta do Alto estaria em contraste com a liberdade concedida por Deus às suas criaturas.

Entretanto, os homens, que Deus mesmo convidou a serem Seus colaboradores na Redenção, poderiam fazer algo para o resgate de Satã? Todos os dias há cristãos que se voltam para o Senhor a pedir-Lhe que os liberte do Maligno, mas ninguém pensa que tal libertação não pode vir unicamente de Deus. É talvez necessário que o corpo místico de Cristo se ofereça, qual vítima, para a salvação do Demônio e, como natural consequência, para a salvação de todos?

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Os amigos do Diabo

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Mágicos E Bruxas

Não quero cair na tentação vulgar a que têm cedido muitos dos que têm tratado do Demónio, a qual é gastar espaço e tempo com os servidores, relegando o patrão. Muitas dessas obras são meras excursões eruditas ou jornalísticas através do mundo infame e nocturno dos bruxedos, feitiços e fantasmas, em vez de retratos de grandeza natural daquele que é um dos autênticos protagonistas da História divina e humana. Bem longe de sondarem os problemas que podem iluminar aos nossos olhos a gigantesca figura do Antagonista de Deus, divertem-se os autores a descrever as ambições e as empresas dos mágicos, os desatinos e as mixórdias das bruxas.

Esta fantochada romântica tem importância unicamente para a história dos costumes e para o conhecimento de algumas extravagantes singularidades do espírito humano, mas pouco ou nada diz sobre a natureza do Príncipe deste Mundo. Admitindo mesmo como verdadeiras a gabarolice dos mágicos, as pretensões dos ocultistas, as proezas das bruxas e as eructações dos obsessos, pouco haveria a apurar com segurança acerca do seu inspirador e patrono. Trata-se, como é fácil entender, ou de parasitas abjectos ou de prepotentes mistificadores.

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Os mágicos não podem ser colocados entre os amigos de Satã porque não o amam nem servem, mas apenas almejam poder, com a ajuda de certas fórmulas e de certos ritos, sujeitá-lo, a fim de obterem dele os tais prodígios irrealizáveis mediante as simples forças humanas. O ideal do mágico é o de capturar um ou mais demônios e transformá-los por algum tempo em outros tantos servos dóceis. Esta ambição, não sei se mais ingénua, se enfatuada, reflecte as concepções mágicas dos primitivos e do chamado enxamismo, ainda florescente em algumas populações selvagens.

A estatura do formidável Rebelde ultrapassa de muito estas práticas puerís, grotescas e mesquinhas. Todas essas histórias de círculos mágicos e diabos bons à tout faire não merecem outra conclusão além da de mal cheiroso, que aponta Cellini numa página célebre da sua Vita, onde recorda uma evocação demoníaca a que assistira no Coliseu.

No caso das bruxas e das obsessas é bem diverso. Não há aí sombra de teorias que tendam a transformar Satã em lacaio do homem. Essas mulheres imaginavam ser possuídas do Diabo. Eram, em maioria, histéricas alucinadas, naturezas perversas que buscavam inconscientemente nas tragicomédias visionárias um desafogo aos seus instintos sádicos ou às suas fantasias mórbidas – sobretudo de carácter sexual – e, daí, pouco ou nada nos poderem ensinar acerca do ente sobrenatural que se iludiam de cortejar e a cujas ordens se punham.

Em certos países tidos por civilizados, as bruxas foram condenadas e queimadas vivas até ao século XVIII, e era certamente uma pena atroz e imerecida para uma alteração mental que teria reclamado antes judiciosa terapêutica/ Mas essas desventuradas mostravam-se tão orgulhosas por enfileirarem nas turbas diabólicas, por se poderem vangloriar de privilégios milagrosos que as distinguíam das demais mulheres, eram tão fortemente convulsionadas pelo seu fantástico delírio, que se tornavam alegremente cúmplices da crueldade dos juízes, confessando obscenidades e turpitudes cometidas no Sabá por instigação do repugnante déspota infernal./

Tanto os mágicos como as bruxas pertencem pois à patologia da inteligência, do sentimento, da fantasia e da paixão. Podem contribuir para o estudo da natureza humana mas nada podem ensinar-nos acerca da diabologia, no sentido rigoroso e próprio do termo. Mas os homens, até os cultos, preferem em geral a diversão das anedotas picarescas ou macabras ou sujas, que tão amiúde se encontram na história dos seus semelhantes, à severa meditação acerca do mais terrível herói desse poema cósmico a que puseram mão o Céu e o Inferno.


 

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O Pacto Com O Diabo

Não há demonologia científica ou histórica onde não se fale, com erudita e prolixa complacência, dos homens obscuros ou famosos que venderam ao Diabo sob a forma de um contrato em regra, a própria alma. Em todas as obras de teatro em que Satã figura como protagonista, desde El esclavo del Demonio (1612) de Mira de Amescua até ao Faustode Goethe, assiste-se à estipulação desse pacto.

Cristóvão Marlowe, na sua Tragical History of Doctor Faustus, pertence ao número dos que dão inclusivamente o texto do contrato: nas seguintes condições:

«Primeiro: que Fausto possa ser um espírito em forma e substância. Segundo: que Mefistófeles será seu servo às suas ordens. Terceiro: que Mefistófeles lhe falará e lhe remeterá todas as coisas pedidas. Quarto: que ele andará, na sua casa ou no seu quarto, invisível. Último: que ele aparecerá ao dito Fausto em qualquer momento, na forma ou no aspecto que queira.

Eu, Johannes Faust, de Wittenberg, doutor, com o presente acto, cedo corpo e alma a Lúcifer, príncipe do Este, e ao seu ministro Mefistófeles, e além disso concedo-lhes pleno direito, decorridos vinte e quatro anos e permanecendo inviolados os artigos supracitados, de transportar o sobredito Johannes Faust, corpo e alma, carne, sangue e bens, à morada dele, onde quer que seja. Pela minha mão: Johannes Faust.»

Não transcrevi este fantástico documento por simples luxo literário, mas para demonstrar até que ponto são balofos e inverosímeis esses famigerados pactos. Marlowe, que era aliás um poeta de recursos geniais, não encontrou melhor do que este truque ingénuo: um homem terá ao seu serviço um demónio durante vinte e quatro anos e por último recompensa-o entregando-se ao cárcere atroz e eterno, nas labaredas infernais. Não obstante a sede de sabedoria e de império que atormentava o Dr. Fausto, não é esse escambo, aos olhos da inteligência mais banal, um marché de dupes?

Estou certo, a despeito dos fantásticos testemunhos e das lendas, que não foram nunca firmados contratos de qualquer espécie entre os homens e Satã. Teria sido uma prova mais da loucura humana e da imbecilidade diabólica. Se Mefistófeles não é um idiota e se o Dr. Faus-

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Universidafe Federal Do Rio Grande Do |Ut

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIENCIAS HUMANAS / INSTITUTO DE LETT...


 

to não é um insensato, não se vê nem se compreende a razão por que aceitaram tais acordos.

Qual pode ser, antes de tudo, o ganho do Diabo? Com as mais grosseiras tentações ele apodera-se de almas inúmeras; outras tantas caem nas suas mãos sem que ele faça um gesto ou dê um passo. Porque haveria de sustentar tamanhas despesas de favores e serviços para adquirir algumas almas sobressalentes?

Dir-se-á que se trata de almas eleitas e magnas, que nele excitam a gula. Mas ele deve considerar no entanto que, se tais almas estão prontas a subscrever o empenho de aceitar o Inferno para toda a eternidade, em troca de qualquer jogo de prestígio e de qualquer volúpia da carne ou do espírito, é claro que nessas almas habita já a concupiscência e a semente do mal. Não é pois necessário que o Diabo se torne escravo dos seus caprichos e medianeiro dos seus prazeres: cedo ou tarde esses homens, assim prontos a renunciar a Deus e à salvação, hão-de cair por seu próprio pé no pecado e na desgraça. Bastará aguardar ou, quando muito, aquecer neles os espíritos perversos com alguns toques adequados à tentação. Conceder-lhes preponderância sobre os espíritos do mal é uma despesa supérflua e inútil. No caso em que o Diabo receie o arrependimento in extremis do pecador, que porventura o subtraia às suas garras aduncas, deve pensar que a misericórdia e a onipotência de Deus desconhecem obstáculos e que a alma será salva a despeito dos pactos, tivesse embora firmado cem pergaminhos.

E qual é, do outro lado, a conveniência de quem promete a alma ao Demônio? Se este crê em Satã e no Inferno, é quase certo que tembém crê, por necessidade lógica, em Deus e na Sua justiça. Deve saber, portanto, ao firmar o pacto, que existe uma beatitude eterna e uma danação eterna. Mas como é concebível que um homem, não acometido pela demência, aceite um pacto segundo o qual promete pagar poucos anos de satisfação terrena com uma pavorosa tortura, física e espiritual, que não mais terá fim? Que são vinte e quatro anos — ou cinquenta — de soltura às concupiscências mentais e carnais em comparação com a eternidade? Algumas curiosidades saciadas, algumas donzelas seduzidas, alguns prodígios efémeros podem acaso valer, mesmo aos olhos do mais ávido intelectualista, a perda de uma felicidade inefável e perene?

Tem havido, sim, sobre a Terra homens que por uma hora de deleite perdem por toda a vida a liberdade, mas estes são julgados quase sempre vítimas de um furor invencível ou de uma natureza incuravelmente perversa.

Pactos semelhantes ao do Dr. Fausto pressupõem, por consequin-

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te, que o Diabo seja néscio e o homem louco. Nem uma coisa nem outra são de todo impossíveis, como o demonstra a história diabólica e a humana. Mas por outro lado o Demônio tem fama de astuto e os quantos que lhe teriam vendido a alma são notoriamente homens ricos de ciência e de engenho. O diabo pode, quando queira, encarnar-se neles e dominá-los; custa imaginar todavia que se acostume a servi-los.

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Os Adoradores Do Diabo

Existem ainda sobre a Terra cerca de setenta mil adoradores do Diabo. São os Yezidas, que vivem sobre o monte Sindiar, na alta Mesopotâmia. Trata-se de uma seita herética muçulmana, que venera, como seu herói, o califa Yezid, o qual mandou matar o neto de Mohamed Hussaia.

Mas o Diabo que eles adoram não é - como se tem suposto - o conhecido e temido no Ocidente. O demônio muçulmano, Iblis, danou-se — segundo os teólogos do Islão — por causa do seu amor exclusivo à pura ideia da Divindade.

Segundo os livros sagrados dos Yezidas - o Livro da Revelação e o Livro Negro - é outrossim um arcanjo caído, mas que depois foi perdoado e a quem Deus entregou o governo do Mundo e a missão de transfigurar as almas. Este anjo, que os Yezidas chamam Malak Taús, isto é, o Anjo Pavão, é pois um ministro da divindade suprema, um rebelde arrependido e perdoado, e por isso digno de culto e veneração.

Este Diabo poderia parecer à primeira vista diverso do Satã do Judaísmo e do Cristianismo, mas toda a diferença, na verdade essencial, está no facto de Deus lhe ter perdoado. Note-se no entanto que alguns padres cristãos consideram, à igualha dos Yezidas, que a Satã foi igualmente confiado o governo do mundo material, e um deles, Orígenes, sustentou que, no fim dos tempos, ele também será perdoado.

Não será inútil acrescentar que os Yezidas veneram, além do Diabo, o famoso Halai, que foi crucificado em Bagdad, em 922 d. C., pela sua doutrina da deificação do homem mediante o puro amor de Deus.

A teoria da deificação do homem, conquanto teologicamente desinfectada, permeia a filosofia cristã e pode encontrar facilmente as suas justificações na Escritura. Mas tão-só a religião dos caluniados Yezidas reúne estes dois cumes paradoxais da fé: que o denônio voltará

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a ser anjo e que o homem se tornará semelhante a Deus. Esses pretensos «adoradores do Diabo», que ao invés adoram o perdão de Deus e a divindade do homem, representam um dos mais altos testemunhos da consciência religiosa.

Apesar disso o seu número vai-se continuamente atenuando e acerca dos Yezidas hoje apenas se murmura, como de uma estranha curiosidade provincial da Ásia supersticiosa e dormente.

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O Apologista Do Diabo

Dos modernos o único que escreveu uma apologia do Diabo foi, que me conste, um alemão, um médico convertido desde jovem à mais germânica das filosofias, a de Kant.

Chamava-se João Benjamim Ehrard (1766-1827) e com apenas vinte e nove anos, em 1795, publicou no Philosophisches Journal a sua Apologia do Diabo. Bem que tal escrito tenha sido congeminado, como é provável, durante o Terror, nada há nele de caracterizadamente revolucionário. E tão-pouco de histórico ou de teológico: o Diabo de Ehrard não é o Satã do Cristianismo, ou o Ahriman de Zaratustra, ou Iblis muçulmano, mas simplesmente um conceito abstracto, que se poderia identificar com o da pura Malignidade.

Julga Ehrard que seja possível construir, ao lado da ideia de uma moralidade fundada sobre o Bem, uma outra moralidade, não menos coerente, fundada sobre o Mal; e esforça-se por edificá-la e esclarecê-la, com lógica de filósofo e de jurista, tirando as consequências dos princípios. Trata-se pois da fantasia dialéctica de um kantiano e não já de um tentame de heresia satanista, como poderia levar a supor o título do ensaio.

Não vale a pena referir aqui os subtis e tantas vezes penetrantes argumentos do jovem médico filósofo. Contentar-me-ei com reproduzir o trecho, a meu ver mais saboroso, do escrito de Ehrard, isto é, as sete regras de vida que teriam derivado de uma moral consciente da pura Malignidade.

1. Não sejas veraz e contudo faze por parecê-lo. Porque se fores veraz, os outros podem contar contigo; serves aos outros e eles não te servem.

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2. Não reconheças nenhuma propriedade, mas afirma que a propriedade é sagrada e inviolável, e apropria-te de quanto possas. Se conseguires possuir tudo como teu, sem costestação, tudo dependerá de ti.

3. Serve-te da moralidade alheia como de instrumento para os teus fins.

4. Instiga cada qual ao pecado, enquanto pareças reconhecer a moralidade como necessária.

5. Não ames ninguém.

6. Faze infeliz todo aquele que não queira depender de ti.

7. Sê plenamente coerente e não te arrependas jamais de coisa alguma. O que decidiste uma vez, fá-lo sem tergiversar, aconteça o que acontecer. Assim demonstras a tua independência e, pela igualdade do teu proceder, tomas a aparência de um homem justo, o que é um meio hábil de fazer os outros teus escravos antes que dêem por tal.

Quando o especulador kantiano adere, como nestas máximas, ao concreto da vida, mostra ser bom médico, isto é, um naturalista que sabe observar e prever a conduta dos homens.

Na verdade, meditando sobre essa página, podemos fazer uma estranha descoberta. Essas sete máximas que no pensamento de Ehrard deviam ser ficções hipotéticas de uma moralidade baseada sobre o puro Mal são cada dia aplicadas, sob os nossos olhos, por uma grande parte da «nossa venerável espécie». E não só dos embusteiros e os malfeitores, mas de uma maioria de «pessoas respeitáveis», entre as quais não faltam homens políticos e homens de negócios, condutores de massas e por último governos inteiros. O que significa, se não estou em erro, que tinha razão o meu papa Celestino VI quando afirmava que a vera doutrina inspiradora da conduta dos homens e dos povos — inclusivamente dos que se ufanam de cristãos — é antes o arimanismo do que o cristianismo ou a moral humanitária ou solidarista ou laica, e por aí fora.

A maior parte dos homens proclama querer seguir o bem, o amor, a justiça, a verdade, a lei moral, seja divina ou humana, mas depois, na prática efectiva do viver, não são mais do sequazes e discípulos do Diabo, isto é, aplicadores diligentes daquelas máximas tão claramente e desassombradamente enunciadas pelo moralista kantiano.

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X

O Diabo e a literatura

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O Diabo E Os Poetas

Já referi a denúncia de Baudelaire: «A mais bela manha do Diabo é persuadir-nos de que não existe.»

Frase especiosa que agradou e agrada. Mas corresponde realmente à verdade? Mesmo se se cuidou de tal astúcia, não se vê como dela tenha tirado proveito. O próprio Baudelaire, com as suas Litanies de Satan, demonstrou não ter caído na esparrela.

E os poetas, bastante mais sensíveis do que os teólogos, não ficaram enredados nas artimanhas de Satã e cuidaram em manter viva a sua terrível figura aos olhos de muitos, da maioria dos homens, de quantos lêem poemas e tragédias e nunca folhearam um livro de teologia.

A literatura da Idade Média está povoada de diabos de toda a sorte e figura; no Renascimento foram sobretudo os pintores que recordaram aos homens o Demônio: bastam-nos Signorelli e Miguel Ângelo.

Mas nos tempos modernos foram sobretudo os poetas a manter acordada a fantasia dos pecadores. Tasso faz campea o seu Plutão no princípio da Jerusalém; o maior poeta holandês, Vondel, consagra a Lúcifer a sua obra-prima (1654); Calderón coloca-o no seu Mágico Prodigioso (1637); Milton faz dele a principal personagem do Paradise Lost (1667); De Vigny e Lermontov (1840) fazem dele heróis de famosos poemetos; Goethe, no seu Fausto, faz de Mefistófeles um dos protagonistas da sua tragédia. Leopardi esboça um hino a Ariman (1835); Vítor Hugo consagra-lhe um livro inteiro, La Fin de Satan (1886); Dostoievski fá-lo discorrer longamente no mais célebre dos seus ro-

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mances, Os Irmãos Karamazov (1879-1880); Ibsen evoca-o com o

nome de «Grande Curvo» no mais significativo dos seus dramas, Peer

Gynt (1867). E não cito os menores, que são, como o Diabo, legião.

Após a deserção dos teólogos, tomaram posto, como escoltas de

alarme, os poetas mais ilustres, e assim o Diabo falhou, por mérito deles,

no seu intento diabólico de fazer olvidar a sua existência.

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O Diabo E O Titanismo Romântico

Uma ressurreição e uma reabilitação do Diabo podemos descortiná-las

no titanismo dos românticos do Sturm und Drang. Os primeiros

românticos, como todos os revolucionários frenéticos da primeira hora,

ressentiam o ímpeto de tudo ousar e tudo destruir, de sacudir todo o

jugo, de subverter toda a autoridade.

Não espanta, por conseguinte, achar uma apologia de Lúcifer naqueles

Bandoleiros (1781) de Schiller, que foram um dos mais claros manifestos

do romantismo alemão. «Não era um génio extraordinário - grita

Moor - aquele ser que ousou provocar o Omnipotente em duelo? ... Antes

mil vezes no fogo de Belial, em companhia de Bórgia e Catarina, do que

tomar assento à mesa celeste com todos os vulgares imbecis.»

O modo de pensar é puerilmente ingénuo e todavia repercute uma

frase atribuída a um homem considerado argutíssimo: nada menos que

Maquiavel. O autor de Belfagor Arquidiabo teria dito que preferia ir

dar ao Inferno, onde poderia entreter-se com tanta gente douta e engenhosa,

a subir ao temeroso reino dos beatos.

Este discurso é algo duvidoso. Mas, se Maquiavel o tivesse feito, seria

uma prova mais a favor de Alfredo Oriani, o qual pretende demonstrar

- e consegue-o, a meu ver - que o Secretário Florentino, a despeito da

sua fama, foi bastante mais ingénuo do que lúcido.

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Byron, Criança, E O Diabo

Quando George Byron tinha pouco mais de quatro anos, enviou-o sua mãe à escola de Mr. Bowers, onde se pagavam cinco xelins por tri

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mestre, para se ser iniciado nos mistérios da leitura.

Numa das primeiras páginas no livrito do texto o pequeno Byron leu estas palavras, que não mais esqueceu: «God made Satan – And Satan made sin ...» (Deus fez Satã – E Satã fez o pecado ...).

George fora educado pela sua nurse Mary Grant no terror salutar de Satã e das suas labaredas. Mas eis que o livro de leitura lhe ensinava que Satã fora criado por Deus e que este filho de Deus tivera por filho o pecado. Como podia ser que Deus tivesse criado Satã com a capacidade de errar, de pecar, de fazer o mal? Deus era o pai de Satã, Satã era o pai do pecado; logo, pensou imediatamente Lord Byron, Deus é o avô do pecado. Ou não deveria ter posto no Mundo Satã, ou então deveria tê-lo formado de uma substância mais pura, incapaz de fazer mal a si e aos outros.

Raciocínio de criança, de acordo, mas acaso não disse Cristo que às crianças será dado perceber o que aos sábios é obscuro?

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O Cantor De Ariman

O verdadeiro «cantor de Satã» não é, em Itália, Carducci, o qual viu em Satã, sob a influência de Michelet, o símbolo da liberdade, da ciência, do progresso, isto é, um nume benfazejo, contrapos to ao «leová dos sacerdotes», divindade boa, propícia, previdente e simpática, redentor em suma. O de Carducci nada tem, pois, com o Lúcifer da tradição e da teologia cristãs.

O verdadeiro «cantor de Satã», entendido como princípio e soberania do Mal, é outrossim Giacomo Leopardi. Num seu poema famoso aludira ao

poder bruto

que, emboscado, para o comum dano impera

mas sem ter a coragem de o designar pelo nome. Percebia-se, no entanto, que esse «poder bruto» era o Diabo, e que só ele reinava, não como antagonista de Deus, mas no lugar do Deus único.

Quase no fim da vida, Leopardi - que anos antes tomara apontamentos para alguns hinos cristãos – esboçou um hino a Satã, mas desta vez tão-pouco – talvez por um estranho escrúpulo verbal – ousou cha-

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má-lo com o seu nome hebraico e cristão e, recorrendo à teologia de Zaratustra, chamou-o: Ariman.

Esse compêndio da religião satânica de Leopardi jamais foi levado a termo e ficou inédito até 1898, data em que foi publicado, junto com outros escritos, por empenho de uma comissão a que presidia o próprio «cantor de Satã».

O hino a Ariman, no esboço que ficou, não é longo, mas contém todos os elementos do pensamento desesperado de Leopardi. Vale a pena transcrevê-lo na íntegra:

Rei das coisas, autor do Mundo, arcana

Malvadez, sumo poder e suma

Inteligência, eterno

Dador dos males e regulador do movimento,

eu não sei se isto te fará feliz, mas vê e goza etc., contemplando eternam [ente]29, etc.

produção e destruição, etc., para matar engendras, etc., sistema do mundo, tudo é padeci[mento]. Natureza é como criança que desfaz súbito o [que está] feito. Decrepitude. Tédio ou paixões cheias de dor e desesperos: amor.

Os selvagens e as tribos primitivas, sob diversas formas, não reconhecem senão a ti. Mas os povos civilizados, etc., a ti com diversos nomes o vulgo chama Fado, natureza e Deus. Mas tu és Ariman, tu aquele que, etc.

E o mundo civilizado te invoca.

Calo as tempestades, as pestes, etc., dons teus, que outras coisas não sabes dar. Tu dás as ardências e os gelos.

E o mundo delira, buscando novas ordens e leis e aguarda perfeição. Mas a tua obra permanece imutável, porque [por] natureza do homem, sempre reinarão [os teus dons]. A temeridade e o engano, e a sinceridade e a modéstia ficarão para trás, e a fortuna será inimiga do valor, e o mérito não achará meios de expandir-se, e o justo e o fraco serão oprimidos, etc., etc.

Vive, Ariman, e triunfa, e sempre triunfarás.

Inveja dos antigos atribuída aos deuses para com os homens.

Animais destinados em alimento. Serpente, adorno. Nume lastimoso, etc.

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Porquê, deus do mal, puseste na vida algumas aparências de pra­zer? O amor?... para nos afligires com o desejo, com o confronto dos outros e do nosso tempo anterior, etc.?

Não sei se amas os louvores ou as blasfémias, etc. O teu louvor se­rá o pranto, testemunho do nosso padecer. Pranto meu por certo não o terás; mil vezes pela minha boca o teu nome será maldito, etc.

Mas eu não me resignarei, etc.

Se jamais uma graça foi pedida a Ariman, etc., concede-me que eu não passe o 7.º lustro. Eu tenho sido, vivendo, o teu máximo pregador, etc., o apóstolo da tua religião. Recompensa-me. Não te peço nenhum de aqueles que o Mundo chama bens: peço-te o que é tido por o maior dos males, a morte (não te peço riquezas, etc., não amor, a causa única digna de viver, etc.).

Não posso, não posso mais com a vida.³⁰

Os conceitos são claros, mesmo demasiado claros, e reduzem-se a uma sucinta e apressada exposição do pessimismo leopardino: o Mal triunfa e triunfará sempre, o autor e regedor de um mundo assim tétri­co e desgraçado não pode ser senão o próprio Deus do Mal, isto é, para dizê-lo à persa, Ariman.

Leopardi apenas aproveita do zoroastrismo a divindade maligna; nem sequer alude a Ormuzd (ou Ahura Mazda), princípio luminoso do Bem, e ainda menos ao seu triunfo derradeiro, qual aparece no Avesta.

Leopardi foi, por momentos, grandíssimo poeta, mas foi pensador medíocre e pouco original, como o demonstra inclusivamente este seu hino a Ariman. Não lhe ocorre sequer o problema da resistência e so­brevivência do Mundo: se tudo fosse inspirado e governado pelo Mal, que é destruição e suicídio, como poderia ainda haver vida? E como poderiam os homens imaginar e definir e desejar o Bem se todo o Uni­verso e toda a Humanidade não fossem mais do que formas e leis e ac­ções do Maligno? Se o homem se rebela contra o Mal e se lamenta e procura, quando pode, debelá-lo e superá-lo, é sinal irrecusável de que há nele uma ideia, um germe, uma semente, um instinto do Bem. O próprio Leopardi entoa o hino a Ariman com profunda amargura e com dolente sarcasmo: quer dizer que a sua alma não adere a esse mal que seria a total substância, o verdadeiro dominador do Mundo e dos homens.

O hino a Ariman de Leopardi é pueril e contraditório, como tantos outros ensaios filosóficos dele. Mas era necessário recordá-lo porque representa, na literatura italiana, o único testemunho de uma teoria teológica do Mal absoluto, isto é, do Diabo.

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O Diabo E O Romancista Americano

Indro Montanelli, o autor dos Incontri, quis conversar um dia, em Veneza, com o famoso romancista americano John dos Passos. Em dada altura o escritor teve uma imagem singularmente justa, isto é, a de que «cada ronco de motor é um acesso de tosse do Diabo».

Mas Dos Passos não compreendeu o que estava subentendido na comparação arguta. «What? The devil? What you mean by the devil?» (Quê? O diabo? O que é que v. entende por o diabo?) E Montanelli, pasmado de tal pergunta, acrescentou: «Um homem que ignora o Diabo, se eu fosse Deus, não me faria dele e mandá-lo-ia ao Inferno para que se inteirasse.» (Corriere della Sera, 4 de Outubro de 1949.)

Bem pensado e bem dito. Essa ignorância é de resto escandalosamente vergonhosa num romancista, que maneja e amassa, como matéria-prima, o pecado, e nomeadamente em Dos Passos, que descreve as formas mais diabólicas da vida americana dos nossos dias.

A criação da obra de arte exige e implica uma certa dose de sensualidade e uma certa dose de orgulho, e envolve por isso uma tal ou qual cumplicidade, nem sempre apercebida, com o Demónio. Um artista que não tenha qualquer familiaridade com o Adversário, seja embora para esquivar-se dele e dominá-lo, não pode ser um verdadeiro artista.

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Livros Inspirados Pelo Diabo

A Sagrada Escritura, conforme ensina a Igreja, é divinamente inspirada. Poderão existir, em contraste com essa, escrituras humanas diaboliamente inspiradas? Ao Diabo nunca foi negada uma peculiar genialidade perversa e seria estranho que não tivesse aproveitado, ajuntando-a às outras suas artes maléficas, também a arte literária exercida pelos homens.

Na literatura europeia existem obras que, pelo seu conteúdo sofístico, blasfemo e niilista, poderiam ser devidas a ditados do espírito satânico. O Diabo, convém não o esquecer, é loico (louco)³¹, como diz Dante, e compraz-se na negação intelectual tanto quanto na bestial chocarice.

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Certos polemistas católicos consideraram «obra do Diabo» muitos livros que lhes pareciam errados e nefastos na medida em que se opunham aos princípios e aos interesses da Igreja. Mas eles costumam usar a expressão com grande facilidade e provavelmente sem cuidar numa vera e própria inspiração directa de Satã. Há, porém, livros para os quais a hipótese de uma colaboração demoníaca se nos depara sobremaneira verosímil.

Um desses livros é certamente o De Tribus Impostoribus, no qual se pretende demonstrar que Moisés, Jesus e Maomet não foram senão mistificadores astutos. A primeira edição deste famigerado e raríssimo opúsculo é de 1598, e foi atribuída nada menos que ao imperador Frederico II da Suécia, suspeito de irreligião. O autor do texto que possuímos é, porém, com certeza, mais tardio e muitos nomes foram sugeridos, entre os quais o de Fauto da Longiano.

No mundo protestante, e especialmente no inglês e puritano, andou muito difundida a opinião de que o Príncipe de Maquiavel fosse uma obra inspirada pelo Demónio, por se antolhar a esses fanáticos cândidos que era um breviário de todas as artes infernais tendentes a dominar e suprimir os homens. Ninguém hoje, ao menos entre os católicos, segue tão maligna opinião, ao passo que se poderia atribuir inspiração diabólica, com maior verosimilhança, à obra de um inglês, o famoso Leviathan (1651) de Thomas Hobbes. Este livro, como toda a gente sabe, é uma síntese terrível do materialismo radical e do determinismo absoluto; nada de espírito, nada de liberdade; a conclusão natural é que a vida consiste na «guerra de todos contra todos».

No mundo anglo-saxónico não faltam outras obras que poderiam parecer inspiradas pelo Adversário. Pense-se, por exemplo, no Matrimónio do Céu e do Inferno (1970) de William Blake, onde os provérbios do Inferno têm um inconformismo irreverente que lembra o futuro Nietzsche. Pense-se ainda no Manfredo e no Vampiro de Byron e no Melmoth Errante de Maturin (1820), que narra a vida horrorosa de um dos mais terrificantes monstros morais criados pela chamada escola do «romance negro». Não se deve esquecer o célebre ensaio O Assassinío como Uma das Belas-Artes (1827, 1839, 1854) de De Quincey, do qual achamos um eco noutro ensaio famoso, este de Oscar Wilde, Pen, Pencil and Poison, publicado no volume Intenções (1891), no qual se contam as gestas delituosas do criminoso diabólico Thomas Griffiths Wainewright. A teoria da complacência do mal pelo mal foi exposta, com a costumada implacável agudeza, por Edgar Allan Poe na sua célebre novela filosófica The Imp of the Perverse, na qual é descrita a atracção do abismo. Estas ideias de Poe tiveram muita influência em

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Baudelaire e através dele sobre não poucos europeus decadentes. Reflexos satânicos encontram-se ainda na obra de um contemporâneo de Baudelaire, Petrus Borel, na Madame Putiphar (1839). Borel fundou, poucos anos depois, em 1884, um jornal quotidiano com o título de Satã.

A França conhecia já um outro livro ainda mais satânico, o Testament do abade Mellier (ou Meslier), falecido em 1729, do qual publicaram alguns fragmentos Voltaire (1762) e d'Holbach (1772). Lia-se no Testament a frase macabra, que se tornou famosa no tempo da Revolução Francesa, na qual o abade Mellier dizia que era preciso «estrangular o último padre com as tripas do último rei».

Também a obra-prima de Max Stirner, O Único e a Sua Propriedade (1843), que veio a ser nos nossos tempos o texto sagrado da anarquia absoluta, pode levar a pensar, mormente na primeira parte, na tétrica insuflação do Adversário.

Várias pessoas piedosas ressentiram o hálito e o sopro de um ditado luciferiano na obrazinha de Frederico Nietzsche O Anticristo (1888), uma das últimas escritas pelo filósofo antes da loucura e na qual volta a confirmar-se a condenação da moral cristã da piedade. Todavia, entonações e rasgos ainda mais satânicos se poderiam relevar no Zaratustra e em outras obras de Nietzsche.

Na literatura contemporânea são inúmeros os livros que parecem insuflados pelo Príncipe das Trevas. Contudo o mais aterrador, não obstante a aparente pacatez da narrativa, que não contém nenhuma exibição de desafogos infernais, parece-me ser a Metamorfose (1916) de Franz Kafka. Na história desse homem medíocre, que se torna imprevistamente verme e que vive horrivelmente, mas silenciosamente, a sua vida de verme até ao dia em que o seu húmido cadáver é despejado no caixote do lixo, descubro a mais sinistra burla que o demónio jamais imaginou para humilhar e torturar o homem. No Processo, do mesmo Kafka, vislumbram-se as cruéis intenções de um diabo clandestino e anónimo, que perturba as almas de modo indirecto mas implacável, repisando uma misteriosa culpa, que tanto pode ser o pecado original como o pecado de todos nós em todos os dias da vida.

Eis o problema que se põe: os autores das obras aqui citadas tiveram ou não a consciência, clara ou obscura que fosse, de uma total ou parcial inspiração satânica? É provável que à maior parte a coisa passasse despercebida, já que uma das mais famosas astúcias do Diabo é precisamente a de não se denunciar, como o traidor do dito popular «que atira a pedra e esconde a mão».

Dos autores a que aludo, só um deles, André Gide, teve presente

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esse problema e solucionou-o concluindo que em todas as obras de arte é necessária a participação demoníaca. Ele afirmou, com efeito, com uma franqueza que suscita admiração e medo, qu’il n’est pas de véritable oeuvre d’art où n’entre pas la collaboration du démon32.

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A Terra Prometida De Satã

Tem-se escrito copiosamente, desde Júlio César para cá, sobre a «douce France», mas ninguém, creio, até hoje, fez, sobre esse país, a estranha descoberta que aqui anuncio. A França é a terra prometida do satanismo.

Não entendo esta palavra no sentido vulgar, pitoresco e anedótico. Entendo-a e emprego-a num sentido mais justo e profundo: a arrazoada complacência do mal pelo mal, o gosto da perversão cruel, a teoria e a prática da revolta contra Deus e contra toda a lei moral, e especialmente a cristã.

Interessa-me, sobretudo, a florescência intelectual, ou melhor, cerebral, dessa paixão satânica, mas não seria difícil trazer a lume, da História de França, exemplos de «satanismo em acção», de real e triunfante ferocidade. Poder-se-iam recordar as gestas (não lendárias) de Giles de Raiz e, em tempos mais recentes, os pavorosos suplícitos de Damiens e de Ravillac, as sanguinárias bravezs de Cartouche e de Mandrin e, durante a Revolução, os massacres de Setembro, as Noyades do Loire e as carnificinas de Lião. Semelhantes horrores — e até possivelmente mais espantosos — poderiam descortinar-se nas crónicas vermelhas e negras de outros países, mas o que é próprio da França é a justificação filosófica, a deleitação literária, a glorificação poética da crueldade pela crueldade, do mal pelo mal, do delito gratuito e perfeito.

Amo imensamente a França, a sua arte, a sua literatura e a sua civilização; não tenho pois o mínimo intento de a caluniar. E para demonstrar que não falo ao acaso ou por mero jogo, sou constrangido a uma longa enumeração de nomes e obras.

O primeiro escritor que repetidamente e prolixamente enunciou a teoria da superioridade do Mal sobre o Bem e a beleza da crueldade é um francês, o famoso marquês de Sade. Os seus contemporâneos, perfilhando os disparates de Rousseau, pensavam que o segredo da felici-

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dade e da bondade consistia em seguir a Natureza. De Sade tomou a coisa à letra e, com uma dialética infernal, demonstrou que na natureza viva se encontram, a cada passo, exemplos de luta feroz, de assassinínio, de luxúria. Nos seus romances, nos seus diálogos, nas suas obras de pensamento, De Sade propõe-se revelar a legitimidade do tormento e do extermínio, a superioridade do vício e do pecado sobre a virtude, a ridicularia de todo o princípio ético, a volúpia de fazer sofrer o próprio semelhante. Estas teorias desumanas e anticristãs foram por ele quase sempre associados aos prazeres do sexo, mas, na realidade, a sua fértil concepção da vida como exercício e satisfação do mal transcende claramente os limites da luxúria criminosa, é algo de mais vasto e mais geral. A verdadeira substância do sadismo é o satanismo, no seu signfica-

do mais radical e extremo.

A influência de De Sade, se bem que subterrânea, profunda e continuamente se tem alargado. Um contemporâneo do divin marquis, Laclos, elegeu para protagonista das suas Liaisons Dangereuses (1782) uma dama de tâmpera demoníaca, a marquesa de Marteuil, sádica menos vulgar mas ainda mais subtilmente perversa do que certas hórridas heroínas dos romances de De Sade.

Também o Julien Sorel do Rouge et Noir (1830) de Stendhal tem reflexos satânicos no seu sinistro maquiavelismo de ambicioso sem escrúpulos. Tais reflexos avivam-se entretanto, noutros heróis da literatura francesa de Oitocentos. O Vautrin de Balzac, antes da sua última tardia encarnação, é uma das mais famosas manifestações do satanismo literário francês: o misterioso delinquente personifica a atracção do delito pelo delito, a vingança diabólica contra o Mundo e a Sociedade. Dos seus discursos a Rubempré e a Rastignac poder-se-ia extrair um breviário de impudente e demoníaco cinismo.

Seria fácil relevar, nas obras de segundo plano do romantismo francês, outras encarnações do monstro sádico, aparentadas também com as criações byronianas, mas aqui quero apenas ter em conta, por honestidade de juízo, as figuras mais destacadas.

Em Baudelaire serpenteia e aflora de contínuo a inspiração satânica e não somente nas «Litanies de Satan» das Fleurs du Mal, mas ainda em certos frios e cruéis apólogos dos Petits Poèmes en Prose: recordemos, por exemplo, a fantasia cruel do «Vitrier». Baudelaire não teve por mestre unicamente De Sade, meditou o Poe do Instituto da Perversidade.

Um escritor católico, nem sempre conformista, Barbey d’Aurevilly, escreveu um volume inteiro de novelas, Diaboliques, e uma das mais famosas leva este título significativo: «Le bonheur dans le crime.»

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O poeta épico do satanismo francês é o desventurado Isidore Ducasse, que, em plena juventude, publicou os seus Chants de Maldoror (1869), sob o imaginário nome de conde de Lautréamont. Este poema em prosa – considerado o texto clássico do sobre-realismo – é um verdadeiro desfile de visões satânicas. Ducasse tem um despeique pessoal com Deus e representa-O como autor ou inspirador de abominações fantásticas, de assanhamentos torvos, de imundícies atrozes. A sua infernalidade de visionário protervo e sacrilégo faz do suposto Lautréamont o maior herdeiro e continuador do satanismo do tipo sádico.

Com menor violência, mas com intentos polémicos e satíricos, o odioso herói do mal pelo mal reaparece em Villiers de L’Isle Adam, autor dos Contes Cruels. O seu Tribulat Bonhomet, «tueur de cygnes», o inimigo sádico da beleza, da liberdade, da vida, é um dos antecedentes do burlesco, mas bestial, Roi Ubu de Jarry.

O último poema de Rimbaud é Une Saison en Enfer e, como era de esperar, o poeta dialoga sem temor com o Rei do Inferno: «Tu resteras hyène, etc... se récrie le démon, qui me couronna de si aimables pavots. – Gagne la mort avec tous tes appétits, et ton égoïsme et tous les péchés capitaux. – Ah, j’avais trop pris: mais, cher Satan, je vous en conjure, une prunelle moins irritée!» E o poema não é mais que meia dúzia de folhas do seu carnet de damné.

De um satanismo mais propositado e, direi quase, pedante, achamos traços evidentes também num escritor célebre, que se tornou por fim católico: o Huysmans de À Rebours e de Là-Bas. Mas um texto satânico mais genuíno e original encontramo-lo nas Caves du Vatican de André Gide, com a sua teoria deveras diabólica do «crime gratuito», executado pelo herói do romance, Lafcadio.

No último livro escrito por Gide, topamos com esta estranha confissão: «Se eu acreditasse no Diabo (por vezes fingi acreditar nele: é tão cómodo!) eu diria que pactuo imediatamente com ele.»33

A atracção demoníaca é, em França, tão viva e perene, que nem mesmo poupa, como se viu, os escritores católicos. George Bernanos, que se celebrou com o romance Sous le Soleil de Satan (1926), é ob-seSSIONADO, peloS incUbos e Laços diabólicos ao longo de toda a sua obra. François Mauriac, o grande casuísta do pecado, criou, nas suas histórias de famílias infernais, personagens dominados pela paixão selvagem do mal: certas figuras de mulheres, espantosamente perversas, parecem surtas de um báratro de monstros morais.

O pessimismo misógino de Henry de Montherlant é com frequência impregnado de espíritos satânicos, em especial o Démon du bien.

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Citarei desse livro algumas linhas, onde é afirmada, até com demasiada clareza, a superioridade de Satã: «Por tudo o que conhecemos de Deus, pelas palavras, sentimentos, actos, que Lhe têm atribuído todas as religiões, séculos fora, sabemos que Deus é tolo. O demónio, sendo a Sua antítese, podia-se pois julgá-lo inteligente, do que, aliás, ele nos fornece provas múltiplas.»34

O Diabo não aparece no Étranger de Camus (1942), mas o seu tremendo protagonista, Meursault, no qual a indiferença cínica chega até ao delito inútil e ao desesperado repto a tudo que é humano, é a configuração mais horrível do satanismo existencialista. Conquanto Meursault se mova na banalidade de cenários e de factos habituais e realistas e não já na alucinação fantasmagórica e romântica dos Chants de Maldoror, o Estrangeiro de Camus é ainda mais demoníaco do que o herói de Lautréamont e o Lafcadio de Gide.

Satã atravessa apenas como sombra em Le Diable et le bon Dieu (1951) de Jean Paul Sartre, mas o Gotz, o animador irreverente e desapaiedado que tenta em vão converter-se ao bem, pertence à família dos heróis maléficos e ferinos, brotados do viveiro obsceno do marquês de Sade.

Nem sequer o cartesiano e mallarmista35 Paul Valéry pôde subtrair-se à fascinação cerebral que conduz o moderno espírito francês ao Demónio.

No seu drama incompleto publicado em 1946, Mon Faust, ele não se contenta com fazer falar o velho Mefistófeles no estilo irónico de Goethe, mas introduz três repugnantes e vociferantes demónios, Belial, Astaroth, Gungune, que encarecem à compita os seus poderes imundos e ofícios extravagantes na empresa comum da perseguição quotidiana36.

Tenha-se em vista que nesta tétrica resenha das encarnações do mal não citei senão os escritores de maior vulto e renome.

Também noutras literaturas – designadamente as de Inglaterra, Alemanha, Rússia – se poderiam apontar personagens mais ou menos conscientemente satânicas, mas em nenhuma, como na francesa, é assim patente uma continuidade ininterrupta, por quase dois séculos, do tema infernal da malvadez voluntária, em tantos e tão diversos escritores.

Quais são então as causas que fazem da França, como eu dizia no começo, a terra prometida do satanismo?

Uma causa remota poderia achar-se naquela vaga simpatia pelo pecado e pelo delito que aflora nas obras de Villon e Rabelais. A polêmica anti-religiosa, especialmente do século XVIII para cá, encorajou e

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reforçou, por hostilidade à moral cristã, essas tendências, e favoreceu-as o espírito de fronda e de troça inerente aos escritores franceses e que nem sempre se aplacou nos assaltos de esgrima de um Diderot ou na ironia de um Renan. Aquela liberdade intelectual de juízo e de palavra, que é um dos mais admiráveis elementos da literatura francesa, acicatou muitos engenhos para o culto e apologia do Adversário.

Mas há talvez uma outra causa, menos visível porque mais profunda. A França tem sido dominada, a partir do século XVII, pelo espírito cartesiano, que tende a isolar os conceitos puros até ao extremo. Quando a fé em Deus e no bem vacilou e quase se extinguiu – no século XVIII e após o Romantismo – as mentes francesas mais inquietas e temerárias lançaram-se em busca de um sucedânio do Absoluto nas ideias opostas, isto é, em Satã e no Mal. Essa análise, dado o amor da exacta pureza conceptual, não se satisfaz com fantasmas poéticos, mas foi conduzida com rigor até às consequências extremas, isto é, à teoria e à prática do satanismo.

A chave do enigma pode-se encontrar talvez neste esclarecedor pensamento de Huysmans: «Como é muito difícil ser um santo, resta a cada um tornar-se um satânico, um dos dois extremos. A execracão da impotência, o ódio ao medíocre, eis aí talvez uma das mais indulgentes definições do diabolismo.

Pode ter-se o orgulho de valer em crimes o que um santo vale em virtudes.»

O desejo de uma perfeição ao revés, devido ao penchant cartesiano de bem distinguir e bem definir, seria pois a atenuante lógica dessa orgulhosa inveja que precipitou tantos engenhos no rastro de Lúcifer.

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O Diabo E A Arte

Não se espere nesta altura uma lista de todos os diabos belos ou gebos que os pintores pintaram e os desenhadores desenharam da Idade Média em diante. Seria bastante fácil, folheando repertórios e compulsando catálogos, dar corpo a uma tal lista, tão extensa e douta quão inútil e vã. Não se trata aqui de recopi ar molhos de fichas para deleite dos coleccionadores de temas figurativos. Não me interessa o Diabo na arte, mas, outrossim, as relações entre o Diabo e a arte. Não é inútil entretanto advertir que a maior parte daqueles que representaram em

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sinais e cores a imagem do Príncipe das Trevas não tiveram com ele nenhum contacto intelectual e muito menos espiritual. Os mais antigos mosaiciatas e pintores de frescos esmeravam-se em mostrar um pavoroso animalejo todo dentuça, unhas, garras, espinhos e pontas, com o propósito de assustar os fiéis expectantes. Mas na verdade esses bichos horrendos não inspiravam nenhum frémito ou arrepio a quem lhes dava forma, sobre os traços da tradição, por simples dever de mister. É preciso chegar ao Juízo Final de Miguel Ângelo para topar em faces realmente demoníacas, inspiradas no sentimento interior de um génio que acreditava a sério, como o seu Dante, na danação.

Tem-se feito grande ruído nestes últimos tempos, mesmo em Itália, em torno das fantasias diabolescas dos flamengos, dos holandeses e dos alemães renascentistas. Mas é fácil certificarmo-nos de que a maior parte dessas pinturas não correspondem a uma autêntica e profunda visão dos seres demoníacos, considerados na sua tremenda e eterna essência. Trata-se quase sempre de caprichos engenhosos, ora humorísticos, ora macabros, onde domina o burlesco levado até ao grotesco, a invenção heteróclita, a extravagância, ora pueril, ora carnavalesca. Esses pintores divertiam-se e queriam divertir. Não há neles traço de um horror sincero, de um espanto cristão, de um abalo não fingido. Toda essa mascarada de animais bizarros, de monstros mais bufos que monstruosos, de bodes-cervos irrisórios, são testemunhos da fértil e risonha imaginação desses artistas, mas nada têm que ver com a sobrenatural e aterradora majestade de Satã.

E ainda aqueles estranhos seres, entre o humano e o animalesco, que em certas pinturas ou estampas alemãs cercam e atormentam o pobre Santo António, nada têm de particularmente diabólico: parecem funcionários subalternos de uma firma infernal, plácidos e indolentes, que importunam o santo eremita por mero dever de ofício.

Maior importância tem a passagem do Diabo espantalho façanhudo da Idade Média ao Diabo herói sombrio dos tempos modernos. Mario Praz, na sua obra A Carne, a Morte e o Diabo37, demonstrou que essa transmudação fora obra dos poetas e, antes que de Milton, de Gian Battista Marino. Contudo, a Matança dos Inocentes, onde se encontram os versos sobre a tristeza de Satã, foi publicado somente em 1632, enquanto já em 1550 um grande pintor veneziano, Lorenzo Lotto, pintava, no Palácio Apostólico do Loreto, um Lúcifer que desce atónito no meio das trevas mas que nada possui dos atributos repugnantes dos diabos medievais. Lúcifer, nessa pintura, é um belíssimo jovem que sente a ira e a tristeza da queda mas que não aparece de nenhum modo deturpado com imposturas de fera ou réptil. Foi assim um pintor, e um

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pintor italiano, a ver em Satanás, ainda antes dos grandes poetas modernos, o herói vencido, em vez do dragão contrafeito e arreganhado. Dessa imagem poética de Satã, que imperou nas fantasias dos últimos séculos, de Milton para cá, foi vítima, nos alvores de Novecentos, um artista russo, célebre em vida como pintor sacro, o qual, em certo momento, obsessionado pelo Demônio de Lermontov, se pôs a desenhar e a pintar Lúcifer em vários aspectos e cenários. Chamava-se Miguel Alexandre Wroubel e nascera em 1856 de mãe dinamarquesa e de pai polaco. Antes de ser perseguido pela imagem do Demônio tinha realizado obra de vulto na igreja de Kiev, inspirando-se na antiga arte bizantina e nos venezianos primitivos. Mas quando foi arrebatado e convulsionado pela mania de representar Lúcifer, esqueceu e relegou qualquer outro assunto. Parecia um possesso, para quem o único meio de se libertar do seu medonho inimigo era dar forma às proezas dele; e, por fim, ainda jovem, em 1902, teve de ser recolhido numa casa de saúde, onde veio a tornar-se paralítico, cego e finalmente louco; e em tão miserando estado acabou a vida, em 1910, com apenas cinquenta e quatro anos.

Wroubel é o único artista vítima do demônio, que eu conheça, e por essa razão valia a pena recordá-lo, conquanto as suas obras estejam hoje quase esquecidas.

O exemplo do infeliz Wroubel não parece confirmar a famigerada teoria de André Gide, segundo a qual não pode haver obra de arte grande sem a colaboração de Satã. O Diabo colaborou mesmo demasiado estreitamente com o seu sucubo eslavo, mas não se pode dizer que de tal colaboração tenham surgido obras deveras grandes.

Um escultor italiano moderno, Libero Andreotti, recusava ao invés toda a colaboração com o Diabo. Na sua bela biografia do artista, conta Enrico Sacchetti que viu um dia no seu estúdio uma grande cabeça de Cristo e ao lado um esboço, de menor formato, que representava igualmente o Redentor. Sacchetti disse ao amigo que lhe parecia melhor o esboço, mas o escultor «começou a rir de modo estranho, em surdina, a meia-voz e, como se me confessasse um segredo, disse: — Ah, sim agrada-te mais aquela? Mas sabes quem a fez, aquela cabeça? Fê-la o Diabo... Asseguro-te, caro Sacchetti, fê-la o Diabo em pessoa, o Diabo. — E parecia deveras que o tivesse visto ali no estúdio, a modelar a cabeça de Cristo. E ajuntou: — Por sorte, dei pela coisa. E agora estou tranquilo.»38

Andreotti não deu qualquer explicação da suposta paternidade diabólica, mas Enrico Sacchetti dizia-me, há pouco tempo, que julgara perceber a razão que sugeriu ao amigo aquela singular certeza.

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O esboçeto de Cristo era verdadeiramente belo, todavia assemelhava-se muito à cabeça do escultor. Havia pois em Andreotti a legítima suspeita de que a obra, onde era demasiado saliente o ego do autor, fosse de origem satânica e, como tal, devia ser enjeitada.

O egocentrismo, mesmo na arte, é um pecado, cujo motivo é quase certamente a inspiração e a colaboração do Demónio.

Na afirmação de Gide, que citámos, há um elemento de verdade. Todo o artista é a seu modo um revelador da obra divina, mas ao mesmo tempo é também, que o queira ou não, um imitador do Antideus. Sem um empurrão do orgulho. sem uma picada da soberba, não seria possível a criação da obra de arte. Aquele que pretende dar uma visão própria das criaturas e das coisas do Mundo, de jeito a inspirar a comoção ou a excitar a fantasia, sente-se e declara-se, seja embora inconscientemente, superior aos outros homens, isto é, munido de particulares virtudes que o tornam capaz desse milagre, que é arte. E, pois que as artes figurativas são consagradas - ou, pelo menos, assim acontecia até aos nossos dias - à imitação do real, poderia insinuar-se que, seja embora num sentido mais nobre e puro, também o artista pode ser chamado - como foi chamado o Demónio na Idade Média - simia Dei. Hoje, sobretudo na pintura, a empresa de sedução demoníaca tomou outra forma, inteiramente diversa da manifestada até agora. Com efeito, muitos artistas dos nossos dias revoltarn-se tenazmente contra o velho hábito de figuração do real, pretendem tornar-se independentes de toda a forma sensível exterior e como que sonham criar um mundo que não guarde nenhum vestígio ou reflexo do mundo criado por Deus. Aqui já não estamos em face do simia Dei, mas propriamente em face do seu contrário, isto é, o simia Diaboli, já que se busca a imitação do Diabo, no seu carácter essencial, a revolta. A afirmação de Gide poderia parecer confirmada pelo facto de que em muitíssimas obras modernas, especialmente narrativas, os primeiros planos são ocupados pela representação e análise do pecado e do delito, isto é, do Mal. O verdadeiro problema está na participação, mais ou menos activa, do artista nas vicissitudes narradas ou evocadas. O pecado e o delito prestam-se muito mais que os seus contrários a excitar a fantasia dos leitores e sobretudo - como no caso clássico de Dostoievski - a escrutar as profundezas mais obscuras e inquietantes da alma humana. Não se pode negar que alguns romancistas do nosso tempo, inclusivamente católicos - como, por exemplo, François Mauriac e Graham Green - parecem atraídos, e como que encantados, por tudo o que há de mais vicioso e odioso nas criaturas nossas contemporâneas. E pode dar-se que, seja embora no subconsciente, eles procurem na descrição da fealdade e da

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imundície moral uma espécie de libertação, de sublimação através da literatura, como a que Charles du Bos descobriu em Byron. Tem havido poetas que escreveram poemas para reprimir o instinto de estupro ou de morte. Esses escritores católicos, a que aludimos, sentem as costas quentes porque fazem intervir no final a fé e a graça e isso lhes permite entregarem-se livremente à atracção das trevas. Mas um artista não é necessariamente participante e cúmplice do mal descrito nas suas obras. O seu nojo, o seu desprezo, a sua recusa acompanham amiúde a representação dos actos obscenos e malvados dos seus personagens. Dante, por exemplo, não se torna amigo do Demónio enquanto atravessa os fossos dos danados; Shakespeare com certeza nada tinha em si de Macbeth ou de Iago; e em Dostoievski sentimos a cada página o seu arrepio e o seu horror perante os criminosos raciocinantes criados pelo seu génio de escritor e de moralista.

Era preciso chegar ao contemporâneo Jean Genet, ao ladrão unissexual celebrado numa volumosa biografia de Sartre39, para assistirmos ao espectáculo de um degenerado culposo que narra as próprias façanhas e as dos seus iguais com um misto de complacência e de indiferença. Contudo, mesmo nesse recentíssimo caso a teoria de Gide não se verifica plenamente, porquanto Notre Dame des Fleurs e o Journal du Voleur, não obstante a evidente colaboração de Satã, são tudo menos obras-primas.

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O Diabo E A Música

O Diabo entrou pessoalmente na história da música no ano 1713. O famoso violinista e compositor Giuseppe Tartini tinha então apenas 22 anos e era hóspede do Sagrado Convento de Assis. Uma noite, enquanto ele dormia numa cela do convento, apareceu-lhe em sonho o Diabo, que, tendo tomado em mão o violino, começou a tocar num estilo extravagante e desconcertante, conseguindo tirar do instrumento efeitos inauditos de brilho e vigor, ignorados dos concertistas desse tempo. O Diabo gargalhava e contorcia-se enquanto executava com fogo crescente essa música infernal, e, quando terminou, lançou repto ao virtuose adormecido para que repetisse com o instrumento o que acabava de ouvir. O jovem Tartini ergueu-se de supetão e, se bem que

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atarantado pela emoção que nele suscitara o sonho, experimentou repetir e transcrever depois em notas musicais o que o Diabo lhe fizera ressentir. Não logrou, naturalmente, reproduzir por inteiro a diabólica sonata, mas os trechos que pôde recordar permanecem entre as suas obras com o título de Trilo do Diabo; e a composição contém tais e tantas inovações de técnica que os historiadores e críticos a consideram como o primórdio de uma nova era na arte do violino. Tartini executou o Trilo em muitos dos seus concertos, mas a obra só foi publicada durante a Revolução Francesa, em 1790.

Não se trata de uma lenda. O próprio Tartini contou numa carta a estranha aventura da qual achamos de resto uma longa descrição no Voyage en Italie, de Lalande, publicado em 1769. Essa aparição do Diabo parece ainda mais diabólica quando se pensa que aconteceu num convento franciscano, na mesma pátria do maior imitador de Cristo de que se ufana a Cristandade. Foi pois, a de Tartini, também uma tentação, mas de nenhum modo maligna e funesta como as outras, visto que promoveu a fortuna e a glória do jovem músico e realizou um autêntico progresso na Arte.

O Diabo, ao que parece, prefere, entre todos os instrumentos da música humana, o violino. Dele se voltou a falar, com efeito, um século depois, nos tempos dos clamorosos triunfos de Niccolo Paganini. Quem viu o prodigioso violinista, especialmente fora da Itália, e observou a sua figura longa e magra, a sua cabeleira desgrenhada, a expressão extática do seu rosto, os movimentos quase convulsos dos seus membros, foi perturbado e arrepanhado pelos sons frenéticos, originais e infernais que jorravam do seu mágico instrumento, julgou quiçá que Paganini estivesse possuído do Diabo, ou, ao menos, tivesse dele recebido o segredo daqueles extravagantes achados de virtuosismo que assombravam e confundiam, não só as multidões como os próprios músicos. A fama de demoniaco inspirado acompanhou Paganini durante o resto da vida, tanto que, quando morreu, em 1840, em Nice, foi-lhe negada, por essa razão, a sepultura em terra sagrada. À reputação diabólica não foram estranhas certas obras que ele compôs, certas variações que patenteavam um poder diabólico de evocação. Principalmente aquelas Bruxas – uma das suas composições mais célebres, escrita em 1813, um século exacto depois do Trilo do Diabo – conquanto inspiradas na Noz de Benevento de Sussmayer, são inteiramente paganinianas nas suas acrobacias sonoras, e puderam fazer pensar no negro autocrata das feiticeiras.

Na verdade uma tal ou qual cooperação satânica pressente-se em muitas obras de Paganini: em certas insistências ansiosas e evocativas;

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em certos arrebatamentos e rasgos que lembram uma chacota luciferesca; em certas subidas e quedas de sonoridade soluçantes ou estridentes, que parecem sair de uma alma desesperada do Averno. Se o Diabo jamais pensou fazer-se músico, não há dúvida que se encarnou no corpo esguio, espectriforme, de Niccolo Paganini. Mesmo depois dele, quase todos os violinistas – e especialmente os de sangue e estilo zíngaro – têm por momentos, na máscara de olhar sombrio e na violência desdenhosa dos sons, uma aura diabólica.

Satã, sob as vestes de Mefistófeles, fez também a sua entrada como personagem de teatro de ópera, mas nem sempre se prestou a ajudar os músicos que o fizeram cantar. Alguns sons satânicos contêm o Mefistófeles de Berlioz; bastante menos o de Boito; e nenhum o de Gounod. Tão-somente Mussorgski, na cena faustiana da Cantina de Auerbach, conseguiu dar voz musical ao estrondeante gargalhar de Mefistófeles.

Mas toda a música, sendo arte mágica de origem mágica, opera cada dia a mágica transmudação das almas. É quase nigromância, enquanto ressuscita os mortos e dá mais vida aos moribundos; em suma, tem sempre relação, mais ou menos visível, com o Demônio. A música negra ou de imitação selvática é, por exemplo, a mais adaptada ao vil pessoal do Inferno, com as suas eructações insolentes, os soluços enfadonhos e os batuques bestiais. Mas o velho Satã é mais requintado artista. Quando quer desafogar a exultância raivosa do Sabá com um pouco de música, ainda hoje recorre aos violinos de Tartini e de Paganini.

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Xi

Os Diabos estrangeiros

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O Diabo Egípcio

O mais antigo Diabo que apareceu no Mundo nasceu talvez no vale meridional do Nilo e foi na origem um deus totêmico daquelas populações que, depois, dominaram o Baixo Egipto.

Set vem do deserto e simboliza, na teologia egípcia, os dois flagelos mais temidos das tribos agrestes: a seca e a tempestade. É o deus da escuridão, da noite pavorosa e da negra procela, e é por isso o inimigo jurado dos deuses da luz, Rá e Horus.

«Set – escreve Erman – é o enxuto, o que abrasa, a seca. Ele é o irracional e o inconsiderado da alma, a morbosidade e a turbação do Mundo; ele é o Mal»40

É, como todos os diabos que hão-de vir depois dele, o inimigo dos deuses e dos homens. Como aridez e turbação candente, faz secar as colheitas; como furacão, destrói e destroça as searas; quer, portanto, esfomear os homens, condená-los à morte. Como simum41 e como tempestade obscurece o Sol, mata a Lua.

«O terror – diz Moret – é uma grande força; homens e deuses temiam a Set e adoravam o seu poder brutal.» Por isso, não obstante o seu ofício nefasto e funesto, Set foi considerado deus, inclusivamente um dos maiores que formam a enéade42 heliopolitana. Os inimigos dos

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egípcios, os Hicsos, os Reis Pastores, que por longo período reinaram no Egipto, identificaram Set com o Deus supremo.

Set reinava muitos séculos antes de Moisés e de Homero, é pois mais antigo que o Satã hebraico e o Tifeu grego: é o patriarca de todos os Príncipes das Trevas. O seu nome perdurou nos primeiros séculos do cristianismo, associado aos mistérios de Ísis.

Set - e esta é a sua eminente originalidade - não foi só o adversário da divindade da luz, mas também se tornou famoso pelo seu fratricídio.

Instigado pela inveja e pelo ódio, Set matou um dia o irmão Osíris. Fê-lo repousar, com engano, dentro de um sarcófago, em seguida fechou a tampa à traição e arremessou-o ao Nilo. A irmã de Osíris, Ísis, que era também sua esposa, conseguiu descobrir o cadáver, mas Set, aproveitando-se de uma viagem de Ísis, talhou em catorze pedaços o corpo inanimado do irmão.

O resto do mito - a descoberta dos pedaços e a vingança do fratricídio executada por Hórus, filho de Osíris e Ísis - não importa narrar aqui. Mas vale a pena relembrar que o tema do fratricídio, inaugurado por Set, se encontra amiúde nas lendas e nas histórias do mundo antigo. O fratricídio, depois de Set, desaparece para sempre do código da criminalidade diabólica, mas transfere-se aos costumes humanos e lá impera.

A História da Humanidade começa com o fratricídio de Caim, que reaparece com frequência na História do povo hebraico: Absalão mata o irmão Amon, Salomão o irmão Adónias, Iokanan o irmão Iesna. A Grécia antiga conta-nos do duplo fratricídio de Etéocles e Polinice, de Timoleão matador do irmão Timófanes, do rei cita Sáulio assassino do irmão Anacársis.

A História de Roma começa com o fratricídio de Rómulo e recorda que Lucio Catilina, depois de ter abatido o irmão Marco Sergio, mandou assentar o nome dele na lista das proscrições de Sila. Omito, por amor da brevidade, os fratricídios dos séculos depois de Cristo.

O fratricídio é indubitavelmente um dos crimes que mais  desonram a espécie humana e pode ser devido, em muitos casos, ao suborno satânico.

Set é hoje apenas conhecido dos egiptólogos, mas era necessário discorrer sobre ele, pois esse furibundo demônio africano aparece-nos como o patriarca e o patrono dos fratricidas.

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O Diabo Persa

Aquele grande Espírito do Mal que em Itália foi louvado por Leopardi com o nome de Ariman e por Carducci com o nome de Agramainio, e que se chama, no Avestá43, Amramainiu, tem um pai mortal, certo e célebre: Zaratustra. Ele transformou os Devas do primitivo paganismo iraniano em uma horrenda legião de demônios e colocou à cabeça, como generalíssimo, Amramainiu, o «insensato cheio de morte».

Em qualquer manual da história das religiões se podem encontrar notícias da sua natureza selvática de atormentador e assolador. A nós interessa-nos apenas ver em que modo se assemelha e se opõe ao nosso Satã.

Descobrimos uma diversidade essencial. Lúcifer é uma criatura de Deus que se rebela contra Deus e da sua desdita se vinga apoquentando os homens. Amramainiu, ao invés, como o deus malvado dos gnósticos cristãos, é uma espécie de demiurgo, um criador antes de ser um destruidor. Obra dele, segundo a teologia zaratustriana, são as terras e as águas, as plantas e os animais. O mundo da matéria e da vida não é pois, como no Cristianismo, a efusão de amor do Omnipotente, mas outrossim, manufactura do Maligno. Conquanto Amramainiu não seja um verdadeiro deus mas o Antideus, a ele poderia ser aplicada a famigerada blasfêmia de Proudhon: Dieu c’est le mal.

Amramainiu, naturalmente, teme e odeia Zaratustra, o profeta e o operador do Deus bom, Ahura Mazda. Mas não se propõe, no início dos tempos, tentá-lo, senão suprimi-lo. Do orco do Setentrião o Príncipe do Mal manda um dos seus despiadados acólitos, Drugia (a peste), para que faça morrer o profeta. Mas Zaratustra, que está junto às águas sacras adorando Ahura Mazda, não treme ante a ameaça e Drugia, estarrecido, aparta-se dele sem lhe tocar.

Então surge Amramainiu em pessoa e recomenda a Zaratustra que não pretenda destruir as obras por ele criadas. Se abandonar Ahura Mazda, o profeta obterá os dons e os privilégios que já tivera Vadaghma, «o senhor das terras».

Nesta proposta do Adversário está talvez, envolta em sombras, a terceira tentação de Satã a Jesus. Este é o único ponto de semelhança, e todavia incerto, já que pouco ou nada sabemos do misterioso rei Vadaghama.

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Essas duas tentativas, uma bestial e a outra tola, mostram de qualquer modo que o Diabo persa é talvez mais feroz que o Diabo cristão, mas de certo um pouco menos inteligente. As tentações de Jesus provam mais subtileza de engenho. Satã, com a sua astúcia diabólica, colaborará na morte de Jesus, mas só porque essa morte estava nos desígnios da Redenção.

Zaratustra, de qualquer modo, resiste à imploração e às tentações de Amramainiu e este continuará a combater, com todos os meios, os fiéis de Ahura Mazda até ao fim dos tempos. Mas quando tiverem decorrido os doze milênios concedidos ao Mundo, um outro filho de Zaratustra, Chaochiant, o Salvador, vencerá para sempre Amramainiu e abrirá uma era eterna de paz no Bem.

Até esse dia o adversário tenaz de Ahura Mazda estará presente, como Satã, em toda a parte, e desencadeará contra os homens os bandos de todos os seus mafarricos desgrenhados e furibundos.

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O Diabo Indiano

Também a Índia conheceu um Satã, mas bem diverso do hebraico e do cristão. Na idade das Upanichad chamou-se Mrtyu, termo que em época posterior deu Mara, célebre sobretudo por ter tentado rudemente o Buda, nas vésperas da sua revelação da verdade libertadora.

A palavra Mara deriva da raiz Mr, que significa morrer, e os teólogos indianos chamaram-no também, com efeito, o Demónio da Morte. Mas, atente-se, em acepção inteiramente diversa da que admitem os ocidentais. Mara não é aquele que mata os homens, mas aquele que estimula o desejo do prazer e sobretudo o amor carnal, aquele que perpetua os nascimentos e daí, necessariamente, a morte.

Ao passo que o nosso Satanás encarna a ideia da rebelião, da soberba, do ódio, do repúdio do Bem e do desafio a Deus, Mara, ao invés, é essencialmente o deus do Amor. Ele representa a ânsia do gozo erótico, a embriaguez e a exultação dos sentidos, o domínio daquelas ilusões que enchem a vida e conduzem à morte. Freud chamá-lo-ia, na sua linguagem, o nume da Libido.

Compreende-se agora a razão por que Mara se assusta à ideia de que o príncipe Sidharta, ao alcançar a descoberta da verdade suprema, se propõe ensinar aos homens a doutrina da libertação, que consiste,

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como é notório, na abolição do desejo, daquele desejo que é o próprio fundamento do poder de Mara. Empenha-se por isso em combatê-lo com todos os meios de que dispõe e acerca-se de Sidharta, que está meditando sob a árvore sagrada, a fim de o tentar. Essas tentações são narradas em vários textos budistas, indianos e chineses: a narrativa mais ampla e poética é a que se encontra no Budhacarita do famoso Asvaghosa, no primeiro século a. C.

Os presumidos e insolentes críticos europeus - orientalistas, comparatistas, ocultistas e anticristas - estremecendo de júbilo à ideia de poderem destruir a fé na unicidade de Cristo, apressaram-se a descobrir a todo o custo semelhanças e paralelos entre as tentações referidas no Evangelho e as dos livros budistas. E também desta vez se viu que o ódio leva à cegueira. Entre as tentações de Mara a Buda e as de Satã a Jesus não existe, para quem saiba ler os textos, qualquer afinidade.

Antes de tudo, Mara contenta-se em apostrofar orgulhosamente o príncipe acocorado em meditação debaixo da figueira, lembrando-lhe que é de estirpe guerreira e que a sua verdadeira missão é a de aniquilar os inimigos e não de filosofar. Buda, naturalmente, não é de nenhum modo abalado por essa intimação irrisória.

Mara, então, recorre a um expediente que julga infalível. Com o seu arco de flores dispara contra o jovem uma flecha, a flecha que atinge homens e deuses e os torna frenéticos de desejo, doidos por abraços e volúpias. Mas a seta libidinosa não arranha sequer a carne, nem o ânimo do impassível asceta, não obstante as procazes filhas de Mara, Volúpia, Exultação, Concupiscência, adejarem em volta dele. Buda, segundo outra lenda, contenta-se em transformá-las em três velhas decrépitas e repugantes.

Mara fica atónito e iracundo ante a resistência de Sidharta. Vendo que a exortação ao heroísmo e as lisonjas dos prazeres não o dobram, cuida de apelar para o terror. Chama a recolher um infindo e horrível exército de monstros e feras, de demónios e de gigantes, que rodeiam Buda para o ameaçarem e aterrarem. Mas o sublime Iluminado nem deles se apercebe. Baixam à Terra as trevas, ouvem-se estrondos, ribombos e fragores. Os ferozes servos de Mara tentam então ferir o príncipe, golpeá-lo com aguilhões e flechas, percuti-lo com mocas e troncos de árvore, esmaga-lo com massas de pedra. Mas as flechas ficam-se no ar, os troncos e os pedregulhos recaem sobre os assaltantes, os tições em brasa tornam-se flores rubras de lótus, as serpentes são encantadas, os leões e as hienas não ousam morder, os demónios permanecem atónitos e impotentes. E uma voz arcana desce do Céu a admoestar Mara para que não continue e se reconheça vencido. Buda

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superou as tentações diabólicas e anunciará aos homens a verdade, que há-de pôr termo, se for praticada por todos, ao reino de Mara.

Eu queria saber agora que identidades ou semelhanças é possível encontrar entre essas tentações e aquelas por que passou Jesus no deserto. Satã tenta Cristo de dois modos: convite ao milagre (transmudação das pedras, voo do pináculo do Templo) e oferta dos reinos da Terra. Deve operar prodígios e aceitar o império do Mundo.

Mara, ao contrário, quer vencer Buda, mediante a luxúria e o medo. Tenta lançá-lo nos braços de fêmeas, ou exterminá-lo com as armas dos seus horrendos sequazes. Os malignos adversários de Cristo, nesta escaramuça foram igualmente vencidos, como foi o seu patrono Mara.

Mara resignou-se, na ocasião, à derrota, porém mais tarde quis tirar desforra singularíssima. Num poema hindu do ciclo de Açoca, o Açocavadâna, conta-se que Mara, um dia, assumiu tão exactamente a forma e o aspecto de Buda que aconteceu que um eremita piedoso, conhecendo embora no seu coração que se tratava de um demônio, se prostou diante dele.

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O Diabo Grego

A «classe média» da cultura, instruída com as lendas liceais da «Hélade serena» e do «Olimpo solar», supõe e pensa que o Diabo seja um espantalho fabricado nos desertos do supersticioso Oriente, estranho ao mundo luminoso e racional da Grécia antiga. A maioria pensa mesmo que ele seja um tosco fantoche medieval, inventado pelos sacerdotes cristãos para melhor manterem submissas as agrestes plebes urbanas. A pátria de Sócrates e de Euclides, o albergue jovial das Graças e das Musas, não podia imaginar um Lúcifer nem possuir um Satã.

A ignorância do vulgo semioculto é também neste caso ridiculamente vergonhoso. A Grécia, a Grécia de Anacreonte e de Aristófanes, teve os seus diabos hóridos e pugnazes, conheceu um Grão Demônio, adversário feroz dos deuses e dos homens.

A revolta dos titãs contra o Deus do Céu, contra o sumo Zeus, é a transfiguração helénica da rebelião dos anjos contra Jeová. A queda de Prometeu e de Tísio, precipitadas do alto e encadeados nos tormentos, é a versão grega da condenação dos arcanjos rebeldes.

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E um destes titãs, o último e o mais terrível, Tifeu, assumiu na mitologia clássica a parte e o ofício de Satã. Tifeu, hoje, tornou-se um nome comum, o do vento medonho que assola os mares da Ásia; e deu o título a um dos mais afortunados romances do ex-capitão Conrad. Mas na antiguidade helênica, Tifão ou Tifeu foi um autêntico demônio, um poderoso e iracundo símbolo do Ódio e do Mal.

Segundo alguns, era filho de Gea e de Tártaro; segundo outra tradição, o seu nascimento foi devido à discórdia conjugal do supremo par do Olimpo. Hera, irritada contra Zeus, gerou Tifeu sem a união com o esposo. Tifeu foi assim o filho do ódio e usou da sua força para disputar a Zeus o domínio do Universo. A guerra do imane titã contra o rei do Céu foi longa, sagrada e terrífica; a Terra foi sacudida até às entranhas. Zeus finalmente conseguiu fulminar o arrogante rival e do corpo de Tifeu jorraram torrentes de fogo e avalanches de chamas. Ele não foi morto, no entanto, mas reduzido a gemer, encarcerado, nos abismos subterrâneos da Terra.

Todavia, mesmo após a derrota o seu poder maléfico não se extinguiu. Tifeu, à igualha de Satã, foi o Deus das trevas e da morte, o inimigo da luz e das divindades solares, o autor dos cataclismos atmosféricos e telúricos que conturbam os elementos e ameaçam e dizimam a débil raça dos homens. Quando se debate, com a sua mole de colosso inquieto, nas trevas dos reinos inferiores, a Terra treme, ruem as cidades, os mortais fogem na noite por entre clamores. As crateras dos vulcões são as bocas pelas quais Tifeu vomita o fogo que devasta os campos e sepulta as casas dos homens. Mas uma que outra vez rompe do cárcere e sacode os ares; ele é o deus das tempestades funestas, dos temporais diluvianos, dos formidáveis ciclones. Os raios são as suas flechas, o silvo furioso do vento é a sua voz. Na sua ira destruidora Tifeu querria desconjuntar o Cosmos e ferir de morte os filhos de Deus.

Também ele, como o Satã do Gênesis, é associado à serpente. Os artistas representam-no com busto de homem e cabeça de cobra. Escolheu a sua esposa Echidna, a Ví­bora, e com ela gerou vários monstros, a Quimera, Cérbero e as Harpias, que voltaremos a encontrar no Inferno dantesco.

Nós conhecemos um Lúcifer devorador de mortos somente no poema de Dante. Nenhum comentar da Divina Comédia se apercebeu de que a Grécia antiga teve, ela também, um diabo mastigador de cadáveres. Temos disso notícia segura na descrição que Pausânias, na sua Periegesis, ou Itinerário da Grécia, fez das pinturas de Polignoto no recinto sagrado de Delfos. O artista quis representar, nessa famosa decoração, o Averno, e neste aparece Eurinomo, «que come as carnes

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dos mortos, deixando apenas os ossos». «É representado pelo pintor – prossegue Pausânias – em cores entre cerúleo e negro, quais são as moscas poisadas sobre a carne. Mostra os dentes, uma pele de abutre está debaixo do seu banco, estendida.»45

Dante não conheceu por certo a obra de Pausânias, mas é bom fazer constar aos ignaros fantasidores de uma Grécia serena que, num dos mais famosos santuários da Hélada, um dos mais célebres pintores fizera campeã a figura sinistra, negra e azul, de um demónio canibal.

Eurinomo é, provavelmente, o símbolo da putrefacção, assim como Tifeu é o mítico responsável das convulsões aéreas e telúricas. São, portanto, dois diabos naturalistas, bem distantes da malícia da «serpente antiga» e das artes atentatórias de Mefistófeles e dos seus companheiros. São monstros violentos e cruéis bastante mais que insidiadores requintados e astutos, como o Maligno dos tempos modernos. Mas existem neles, todavia, os caracteres essenciais do Diabo cristão: a rebeldia contra Deus, a vontade de molestar os homens, a monstruosidade do aspecto, a tenebrosa residência subterrânea.

Todos os outros «demónios», que aparecem amiúde nas antigas obras gregas, são de bem diversa natureza e origem.

O daimon grego, que convivia deliberadamente com os homens, pouco se assemelha ao demónio dos cristãos. Também Sócrates teve o seu daimon familiar, mas era antes um sugestionador benéfico do que um sedutor malvado.

E contudo, no demónio socrático já eu descubro também alguns traços do futuro Mefistófeles goethiano: há já aí qualquer coisa do juiz sarcástico. Quando o filho de Sofronisco está no cárcere e se avizinha da morte, aquele seu demónio diz-lhe misteriosamente ao ouvido: Sócrates, estuda música; Sócrates estuda música.

Tal conselho, dado a um velho de setenta anos condenado a beber a cicuta, tem todo o ar de uma burla diabólica. Mas há qualquer coisa a mais: um escárnio e um juízo. O Demónio, segundo o que me parece, queria dizer duas coisas em nada laudativas. Primeiro que tudo, censurava Sócrates por ter abandonado a arte para se entregar à estéril dialéctica. E além disso lembrava-lhe que à sua vida e ao seu pensamento tinha faltado o dom divino que melhor caracteriza a música: a harmonia. Sócrates, com efeito, tinha sido um obstinado disputador e perseguidor bastante mais que bom cidadão e bom pai de família. E pouca harmonia houvera também no seu apostolado filosófico, pois se comprazera demasiado nos jogos das definições e das deduções, tudo concedendo ao árido intelecto racional e nada, ou quase nada, ao que há de mais humano no homem.

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O demônio de Sócrates tornou-se por último o seu juiz e, se bem se reparar, juiz diabólico.

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O Diabo Muçulmano

O Diabo não tem no Islão um papel de protagonista como entre nós. Iblis (ou Saitan) revela, nos nomes, a sua descendência do hebreu Satan e do cristão Diabolos.

Também ele é um revoltado contra Deus, um tentador dos homens, um chefe dos maus espíritos. Num único aspecto - mas essencial - Iblis distingue-se do nosso Diabo e só por essa diferença paga a despesa recordá-lo.

Trata-se da razão pela qual se rebelou contra Alá e foi escorraçado do Céu. O Corão (VII,. 10-17) conta como sucederam as coisas. É o próprio Alá quem se dirige aos homens: «Nós vos criámos. Nós vos demos a vossa forma. Então dissemos aos Anjos: Prosternai-vos diante de Adão. Eles se prosternaram, excepto Iblis, que não era dos que se prosternam. Deus disse: Que coisa te impede de te prosternares, quando eu mesmo to ordeno? - Iblis respondeu: Eu sou melhor do que ele. Tu me criaste com o fogo e a ele criaste-o com lama. - Deus dise: Vai-te daqui. Que motivo tens para te orgulhares? Some-te! Em verdade, tu és do número dos desprezados. - Iblis disse: Dá-me um pouco de folga, até ao dia em que eles (os homens) ressuscitarem. - Deus disse: Em verdade terás essa trégua. - Iblis disse: E pois que me induziste em erro eu os hei-de espiar para ver se vão no recto caminho. E irei seguramente sobre eles, atrás e adiante, à esquerda e à direita, e não se hão-de mostrar muito gratos para contigo. - Deus disse: Sai daqui, desprezado e escorraçado. E quanto àqueles que te seguirem ... eu encherei o Inferno com todos vós.»

Um outro passo do Corão (XVIII, 48) refere-se à recusa de Iblis, mas sem nada acrescentar de novo. Segundo Maomet, portanto, a expulsão do anjo Iblis seria devida à desobediência, à inveja e ao orgulho. Iblis não se revolta contra Alá por querer igualar-se a ele, mas só porque não quer ajoelhar-se diante do primeiro homem, que ele considera um ser inferior. Alguns Padres da Igreja, como vimos, tinham atribuído a queda de Satã à sua inveja de Adão; no Corão todavia aparece mais que a inveja, um rebate de altivez suspeitosa, um ímpeto de orgulho,

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que encontra a sua justificação num princípio de justiça: a minha natureza é mais alta, por que motivo devo prostrar-me aos pés de Adão?

Desta sua superioridade ele aduz uma única prova: Iblis é feito com fogo. Adão com lama. E esta razão - mesmo segundo a antiga hierarquia dos elementos - parece fundamentada e legítima. Os espíritos angélicos também na nossa teologia são feitos de luz e de chamas, isto é, de um elemento mais nobre do que o «lodo da Terra». O fogo aspira a elevar-se ao Céu; a lama é sinónimo de imundície e vergonha.

Alá no entanto não cuida de responder ao argumento de Iblis. Por que misterioso desígnio o Deus de Maomet exigia que as criaturas angélicas se prostrassem aos pés de Adão? O Corão não o diz e ficamos reduzidos às conjecturas. Talvez Alá soubesse que na verdade o homem - como tinha dito S. Paulo - é superior mesmo aos anjos? Ou então quis pôr à prova as criaturas angélicas impondo-lhes um sublime acto de humildade?

De qualquer modo Alá, se bem que irado pela desobediência de Iblis, não o despreza: «não era daqueles que se prosternam», diz o Corão; e estas palavras podem ser entendidas em dois sentidos: era demasiado soberbo para prostrar-se, ou então: a dignidade consciente da sua prosápia tornava-o avesso a uma homenagem tão humilhante.

Alá, com efeito, não trata Iblis com severidade inexorável. Concede-lhe acto contínuo, a trégua que o desobediente lhe pede e nem sequer lhe proíbe a proclamada vingança. Iblis espiará os homens e persegui-los-á de todos os lados, para demonstrar a Deus que não são dignos dos benefícios que tiveram. Alá contenta-se em advertir que todos os demónios e seus sequazes irão povoar o Inferno.

A influência da Bíblia é manifesta - também no Livro de Job vemos Satã que indaga os comportamentos dos homens - mas a explicação da queda do Diabo dada no Corão é bastante diversa da que achamos nas tradições hebraica e cristã.

O Diabo muçulmano depara-se-nos, por conseguinte, numa luz assaz diversa da que circunda o Diabo cristão. A sua figura é menos grandiosa e majestosa, mas é também menor a malícia do seu pecado. Na sua desobediência há sem dúvida um fermento de orgulho, mas a sua recusa de adorar o homem não é aberta revolta contra Deus, como a de Satã no Evangelho. E é estranho que o Islão, que surgiu como reacção a toda a forma de idolatria, nos mostre Alá, o Deus único, que impõe aos Seus anjos um acto idolátrico em honra de um ser feito de lama. Do ponto de visto do rigorismo muçulmano Iblis mostra-se, de certa maneira, mais devotadamente muçulmano, do que o próprio Alá.

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Xii

Aspectos e costumes do Diabo

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A Fealdade Do Diabo

Durante toda a Idade Média, e em diante, pregadores e pintores têm competido representar a hórrida fealdade de Satã; era, ao começo, o mais belo dos Anjos; tornou-se, em seguida ao acto de rebeldia, o mais feio dos monstros. É Dante quem diz do seu Lúcifer:

S’ei fu si bello com’elli è or brutto...

E está bem. Era justo que o Senhor do Mal fosse privado de toda a beleza, inspirasse horror. Mas na Bíblia encontramos outra criatura que se lhe assemelha na fealdade. Lemos no profeta Isaías estes versos:

«Não tinha forma nem beleza que atraísse os nossos olhares nem aspecto que o tornasse amorável» (LIII, 2). «... muitos, ao vê-lo, experimentaram um sentimento de horror, tão desfeito era o seu semblante, tanto o seu aspecto já não parecia de homem» (LII, 14).

Qual é a personagem assim apresentada em modo tão pavoroso e tão semelhante ao Satã dos cristãos?

É, como todos sabem, o «servo de Jeová», o futuro libertador de Israel, o «Homem das Dores», em suma, o Messias. Toda a Cristandade sempre acreditou que nesses eloquentes vaticínios de Isaías fosse anunciado e prefigurado o Redentor, o Cristo. Tanto isso é verdade

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que muitos supuseram, baseando-se nessas palavras do grande profeta, que Jesus não fosse belo como O imaginam os povos e O pintam os pintores, mas de aspecto tosco e quase disforme.

Esta inesperada semelhança entre Cristo e Satã é, como as outras, sumamente misteriosa e quiçá inexplicável. Mas das palavras de Isaías é lícito tirar uma consequência segura: a fealdade de um ser não é sempre sinal e argumento da sua malvadez.

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A Beleza E A Nobreza De Lúcifer

Dante, como bom católico que sempre foi, não obstante certas opiniões não de todo ortodoxas, viu com horror, no fundo do Inferno, um Lúcifer gigantesco e horrível, mas não tão feio como o representavam os pintores do seu tempo.

Os poetas - e isto daria ensejo a longo e subtil arrazoado - tiveram sempre uma secreta simpatia por Lúcifer e no mesmo Dante, por cristão e medieval que fosse, tal simpatia algumas vezes aflora, pois no seu poema ele é levado a recordar o estado originário do Arcanjo caído, o seu esplendor e a sua nobreza, de preferência ao seu hediondo aspecto presente.

Quando pela primeira vez o avista, acode-lhe à memória, com efeito, a sua antiga e maravilhosa beleza:

S'ei fu si bello com'elli è or brutto.

(Inferno, XXXIV, 34)

("Se ele foi tão belo como agora é feio.") E alhures:

Vedea colui che fu nobil creato

Piu ch'altra creatura...

(Purgatório, XII, 25-26)

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(«Vede aquele que foi criado nobre – mais que qualquer outra criatura ...») E ainda:

il primo superbo

Che fu la somma d’ogni creatura

(Paraíso, XIX, 46-47)

(«... o primeiro soberbo, que foi a súmula de todas as crianças.») Dante está pois dominado pelas imagens do que foi Lúcifer no princípio, mais do que pela sua pavorosa figura presente: pensa na sua estupenda beleza, na nobreza da sua condição primitiva, na superioridade sobre todos os seres criados.

O mesmo ofício que Dante atribui a Lúcifer não é, quando se pondera, um argumento e uma prova de autêntico desprezo. O poeta considera os traidores como os mais condenáveis dos danados, e imagina que Lúcifer tem três bocas para mastigar os mais execrandos dos pecadores: Judas, que trai Cristo, Bruto e Cassio, que traíram César. Lúcifer é destarte para ele um instrumento da justiça de Deus contra aqueles que mais gravemente pecaram. Instrumento monstruoso e feroz, mas sempre instrumento de Deus, que entregou às suas fauces o próprio traidor do Seu Filho encarnado.

O Lúcifer de Dante não chocarreia nem gargalha, como outros o viram, mas chora: «Com seis olhos chorava». Não chora decerto sobre a sorte dos três malvados que está abocanhando. Chora sobre si mesmo, sobre a sua sorte ruim, talvez sobre o espectáculo de dor que o rodeia; chora talvez de raiva, mas talvez também pelo remorso da sua louca rebelião. E o pranto é sempre sinal de sensibilidade e nobreza. Lúcifer, no modo como o descreve Dante, não tinha pois perdido todo o reflexo e traço da primitiva nobreza. E que Dante neste particular não errou, é-nos confirmado por um douto príncipe da Igreja, pelo cardeal Ildefonso Schuster, arcebispo de Milão. «O demónio – escreve ele – é um espírito que nada perdeu da nobreza da sua natureza.»46

E se não perdeu a sua nobreza originária, não pode ter perdido de todo nem mesmo a sua beleza. Os poetas modernos, com efeito, de Milton em diante, apresentam-nos um Satã sombrio e amargo, mas não destituído de dolorosa e majestosa beleza. Milton vê-o como um arcanjo abatido, mas sempre esplendente como um serafim.

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Recordais-vos?

... his form had yet not lost

All her original brightness, nor appear'd

Less then Arch Angel ruind, and th'excess

Of Glory obscur'd ...

(O Paraíso Perdido, I, 591-594)

("... a sua forma não perdera ainda ... Todo o seu brilho original, nem parecia ... Menor então o Arcanjo abatido, e o excesso ... De glória obscurecida ...")

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Satã Como Raio Celeste

Quando os setenta e dois Apóstolos tornaram da missão de que os incumbira Jesus e narraram como tinham vencido em Seu nome os demônios, a primeira palavra que Ele disse foi esta: «Eu vi Satã cair do Céu como um raio.» (S. Lucas, X, 18).

Alude-se aqui à ruína de Satã, qual consequência natural da pregação do Evangelho.

Pode parecer todavia surpreendente a imagem escolhida por Cristo: Satã cai do «Céu». Ao tempo da Encarnação já Satã não habitava, e de tempo imemorável, no Céu, de onde foi precipitado após a revolta, nos primeiros dias da Criação. Como podia, pois, agora, cair novamente do Céu? Teria lá tornado porventura? Mas ninguém sabe coisa alguma acerca desse retorno, que estaria em contraste com tudo o que sabemos da queda dos anjos rebeldes. Teria sido mais natural que Jesus, em seguida às vitórias dos Apóstolos obtidas em Seu nome, o tivesse visto mergulhar ainda mais vertiginosamente no abismo, que é a sua morada.

E é notável também a comparação com o raio. O raio, à semelhança de Satã, queima e destrói, mas é no entanto sempre uma das manifestações da luz, coisa divina, e por isso não apropriada a significar o Tenebroso habitante das Trevas.

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Assim como cada palavra de Cristo é palavra divina, e, como tal, mais verdadeira do que a própria verdade humana, deve haver nessa poética imagem um significado recôndito que nós não chegamos plenamente a penetrar. Talvez algum antigo Doutor já tivesse descoberto esse significado, mas quanto a mim desconheço-o e o meu espanto perdura.

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O Diabo E O Fogo

Tem-se acreditado que o elemento próprio do Diabo seja o fogo: a queimadura das tentações, a aura sulfúrea que a acompanha, as labaredas do Inferno.

Pode todavia observar-se que o Fogo não é associado unicamente à figura e à morada do Maligno. Este prodigioso e pavoroso elemento aparece também nas manifestações do seu vitorioso Antagonista.

Deus remete as Tábuas da Lei em meio do fogo da sarça ardente.

Deus desce a consumir as vítimas do sacrifício sob a forma de fogo.

Deus chama a si o profeta Elias sobre um carro de fogo.

O Espírito Santo baixa sobre os Discípulos, no cenáculo do Pentecostes, sob a forma de línguas de fogo.

Deus, portanto, pode ser identificado com o fogo, como Satã. Diversas são as naturezas do fogo divino e do diabólico, mas trata-se, no entanto, sempre do mesmo elemento. O amor de Deus, consome tanto quanto o ódio do Diabo.

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O Diabo Como Serpente

A primeira veste assumida por Satã nas suas encarnações terrestres foi a pele da serpente.

Segundo o Gênesis (III, I) a serpente é o «animal mais astuto». Mas já algum dia indagámos as razões dessa astúcia – que é esperteza e cálculo, isto é, inteligência – da Serpente? A serpente é o animal mais

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astuto porque é também o mais mísero, o mais desventurado. O Criador foi para com ela avaríssimo até à crueza. Não tem asas para voar, não tem barbatanas nem penas, não tem pernas nem braços, nem mãos. Por isso ela deve, por força, encerrar toda a sua capacidade ofensiva e defensiva na cabeça: no veneno dos seus dentes, na inteligência do seu cérebro chato.

Há no entanto compensação para toda a miséria. A serpente deve rojar o corpo no pó e na lama do chão, mas é, outrossim, o único animal que possa formar de si mesmo um cerco, que possa fechar e encerrar a superfície do Mundo dentro de um limite, como faz a inteligência.

A Serpente não é pois, a priori, um animal ignóbil; é desgraçado, mais do que desprezível. Tanto é certo que quando Moisés, no deserto, viu a sua turba errante afligida por um mal abrasador, mandou fabricar uma serpente de bronze e quem a fitava, sanava desse mal. Esta serpente de Moisés, alçada numa haste, foi interpretada, muitos séculos depois, como uma prefiguração simbólica do Cristo Salvador.

Isaías viu, numa visão, dois serafins com seis asas que estavam junto do Senhor. Mas nós sabemos que a palavra saraf, em hebraico significa «o que queima» e também serpente e, no sentido de dragão, usa-o o próprio Isaías. É pois provável que o nome dos serafins — a ordem mais alta dos anjos — derive de saraf, que significa também serpente.

A serpente do Génesis era pois um serafim — o fulminado serafim Lúcifer — em forma de réptil rastejante? O que não seria inacreditável, porquanto Lúcifer, o mais alto dos anjos, devia certamente ter pertencido à ordem mais elevada, isto é, à dos serafins.

Jesus não amava as serpentes. Ele deu aos Apóstolos, entre outras faculdades taumaturgicas, a de caminhar sobre as serpentes (S. Lucas, X) e chamou raça de víboras aos escribas e fariseus. Mas uma vez, como se disse, exortou os Discípulos a imitarem a prudência da serpente.

Resta por explicar a profecia que o Senhor endereçou à serpente, após a queda do primeiro par humano.

«Pois que isso fizeste, sê maldito entre todos os animais da selva e dos campos! Tu caminharás sobre o teu ventre e comerás pó todos os dias da tua vida» (Génesis, III, 14-15). Isto significa que a serpente não era, no momento da tentação, qual nós hoje a vimos. Se foi condenada a rojar sobre o ventre e a alimentar-se de pó, quer dizer que até esse dia ela podia caminhar como os outros animais e que o seu alimento não era o pó da terra, mas algo melhor. Também a serpente é um ser decaído, mas Deus não diz, pelo menos no citado passo, que ela viria a ser o chefe dos demônios e o «príncipe deste Mundo».

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Retratos Modernos Do Diabo

O que haja sido o Diabo nas fantasias e nas pinturas da Idade Média, e ainda em pleno Renascimento até ao século XVII, sabemos-lo muito bem. Um monstro bestial, hirsuto e disforme, com os olhos de fogo e rangendo os dentes, quase sempre nu, provido de cornos e de longa cauda, com patas de caprídeo ou de equídeo, e que espalhava em redor de si fedores fecais ou acridões sulfúreas.

Mas no século XIX tudo mudou. O Diabo deixou de aparecer como o horrendo animalejo medieval e nem é já sequer uma criatura que conserva traços da sua origem sobre-humana. Transforma-se, desbestifica-se, toma forma e figura de homem, de um homem um pouco singular, um pouco excêntrico, um pouco enigmático, mas que no entanto não se distingue demasiado da nossa espécie, salvo pelos seus actos e discursos. Não já anjo e não já besta, mas quase sempre um homem mais ou menos bem vestido, que pode ser tomado, na primeira impressão, por um dos tantos homens estranhos que giram e em quem se topa nas nossas cidades.

Um dos primeiros escritores, que o viram em tal moderno e familiar aspecto, foi Adalberto von Chamisso, na sua Maravilhosa História de Pietro Schlemil (1813). O Diabo apareceu-lhe como «um homem de idade, pálido, grácil, magro e de pequena estatura», que trazia «um antigo gibão de tafetá cinzento». O seu traço distintivo essencial é a magreza, tanto é certo que um interlocutor de Pietro Schlemil o compara «a uma agulhada de fio que escapou da agulha de um alfaiate».

Muitos outros escritores do Oitocentos representam o Diabo em aspecto todo humano, mas a descrição mais completa e apurada é a que encontramos nos Irmãos Karamazov de Dostoievski.

O Diabo que aparece a Ivan Karamazov, no capítulo IX da quarta parte do extenso romance, tem uma figura bizarra de gentil-homem pobre e arruinado. «Era um senhor ou, para dizer melhor, uma espécie de gentleman russo, não já moço, qui frisait la cinquentaine, como dizem os franceses, com um pouco de névoa nos cabelos escuros, presentemente ainda bastante longos e fartos, e uma barbicha talhada em ponta. Envergava uma curta jaqueta cor de canela, talhada evidentemente por um óptimo alfaiate, mas já coçada, feita há dois anos talvez e completamente fora de moda, tanto que na boa sociedade já ninguém as usava desse talho há um bom par de anos. A roupa branca e a longa gravata, laçada à maneira de charpa, eram dignas do mais elegante

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gentleman, mas aquela, a examiná-la de perto, aparecia um tanto suja e a larga charpa muito gasta. As calças aos quadradinhos ficavam-lhe à maravilha, mas eram, por sua vez, demasiado claras e estreitas, como já se não usam, assim como o chapéu mole e claro, de feltro, que ele trouxe consigo e que destoava da estação. Em resumo, um aspecto de decoro, associado a uma grande míngua de patacas ... Não trazia relógio, mas no lugar dele uma luneta com aro de tartaruga, apenso a uma fita de nastro negro. No dedo médio da mão direita destacava-se um anel de oiro maciço, com uma opala de pouco preço.»

Em 1904, num conto fantástico intitulado Il Demonio mi disse, quis eu também descrever o Diabo em humana aparência. «O Demônio, ao menos como até agora me apareceu é uma figura que sai do ordinário. É alto e muito pálido: é ainda bastante jovem, mas daquela juventude que viveu demais e que é mais soturna que a velhice. À sua face alvíssima e alongada nada tem de particular senão a boca subtil, apertada e cerrada, e uma ruga única e profundíssima que se ergue perpendicularmente entre as sobrancelhas e se perde quase na raiz dos cabelos. Nunca percebi bem de que cor são os seus olhos, porque nunca pude olhá-lo mais de um instante, e tão-pouco sei a cor dos seus cabelos porque um grande gorro de seda, que ele nunca abandona, os esconde por completo. Ele traja decentemente de preto e as suas mãos estão sempre rigorosamente enluvadas.»

Muito diverso destes diabos humanizados é o que apareceu, em nossos dias, ao músico Adrian Leverkuehn (talvez decalcado sobre Arnold Schoenberg) e que é descrito por Thomas Mann no seu Doctor Faustus.

«É um homem enxuto, não alto e até mais pequeno do que eu, com uma gorra desportiva puxada sobre uma orelha, enquanto sobre a outra os cabelos arruivados pendem da fonte. Tem as sobrancelhas ruivas, os olhos inflamados, a cara cor de cera, com a ponta do nariz um pouco curva para baixo. Sobre uma camisa de malha de riscas transversais, traz um jaquetão aos quadrados, com as mangas demasiado curtas, de onde pendem as mãos com dedos grossos. Tem as calças apertadas e os sapatos amarelos, usados ao ponto de não lhes poder dar lustro. Um rufiâo, um alcoviteiro, com uma voz de actor de teatro.»

Mas no decurso do longo colóquio com Adriana este ser tão vulgar transfigura-se: «Durante o seu último discurso o indivíduo que eu tinha diante de mim fora-se transfigurando. A olhá-lo bem, parecia-me diferente do que era antes. Não tinha já o aspecto de um rufião ou de um caftem, mas parecia melhor: tinha o colete branco, a gravata ajus-

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tada, trazia sobre o nariz adunco óculos com aro de corno, por trás dos quais brilhavam dois olhos espertos e escuros um pouco inflamados; tinha na face um misto de pureza e delicadeza; o nariz duro, os lábios duros, mas o queixo suave com uma covinha e outra covinha nas bochechas; a testa pálida e arqueada da qual tinham desaparecido os cabelos, ao passo que eram fartos dos lados, negros e lanosos... Além disso tinha as mãos delicadas e subtis, que acompanhavam com gestos finamente desajeitados as palavras que dizia e passeavam, de quando em quando, delicadamente sobre os cabelos fartas das fontes e do occiput".

Muitíssimas outras figurações do Diabo humanizado se poderiam achar nos escritores do século XIX e do XX, mas bastarão as citadas para nos apercebermos da radical transmudação operada sobre o Príncipe das Trevas no nosso tempo. Estamos longe, longíssimo, do Lúcifer dantesco, colossal e tricéfalo, e dos animalejos peludos e enfurecidos, rangendo os dentes e flamejantes, dos pintores de frescos e dos miniaturistas da Idade Média.

No Renascimento tardio de Milton em diante, Lúcifer reaquiru uma tétrica beleza heróica e conservou sempre no aspecto algo da sua origem sobrenatural. Mas hoje o Diabo desceu resolutamente à esfera humana; fez-se homem, à imagem e semelhança do homem; um homem que pode parecer, uma vez ou outra, um burguês bem instalado na vida, um gentil-homem caído na miséria, um poeta vagabundo, um vulgar rufião, mas não diverso, em suma, desses homens, transviados ou estranhos, que se podem encontrar cada dia nas ruas de uma grande cidade.

Esta moderna transformação do velho horrendo Satã não é devida apenas a motivos estéticos. Os homens hoje sentem que o Demônio está continuamente no meio deles, que representa o mal e o tormento que neles mora, e que por isso semelha em tudo, até no vestuário, a eles próprios, é um companheiro dos trabalhos e da vida, uma hipóstase deles, um sósia, um duplo, um irmão carnal. O Diabo encarnou-se, fez-se homem, é o homem.

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O Diabo Com Falas Doces

Não é verdade que a Idade Média - a santa e profunda Idade Média - visse no Diabo tão-somente o feroz monstro obsceno, peludo e de

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unhas em riste. Muitas vezes, especialmente na literatura, o Anjo abati­

do apresenta-se como uma criatura polida e benigna, como um gentil­

-homem que conhece a arte de fazer a corte às damas e aos varões.

Mostra, quando quer, ser um hábil conviva, um adulador obstinado.

Bastarão dois exemplos. O primeiro é tirado de um texto francês

sobre assuntos sagrados, mais precisamente um texto normando do sé­

culo XII, Le Jeu de Adam. O Diabo aproveita-se do afastamento de

Adão para falar a Eva. Os seus juízos sobre Adão são estranhos e con­

traditórios: é louco, duro e ao mesmo tempo servil. E continua dirigin­

do-se à mulher: «Se ele não quer cuidar de si, que ao menos cuide de ti.

Tu és coisa fraquita e tenra, e mais fresca do que a neve; tu és mais

branca do que o cristal, do que a neve que cai sobre o gelo, no vale. O

Criador fez de vós dois um par mal ajeitado: tu és muito tenra e ele

muito duro; no entanto tu és quem tem mais juízo, porque submetes o

teu coração à razão.»

A arte de Satã é aqui mais subtil do que é costume. Ele finge acredi­

tar que a suave beleza de Eva sofrerá ao contacto com a dureza de

Adão; parece um amante desejoso de arrebatar a esposa gentil a um

marido tosco e rude. E fala realmente como um apaixonado, com ima­

gens dignas de um trovador, e não louva só a beleza de Eva, mas o seu

juízo. O anónimo autor do Jeu de Adam, um astuto normando, quis aí

explicar o que o Génesis não explica: isto é, por que enleios foi Eva

conquistada e convencida.

O outro exemplo é inteiramente diverso. Satã, desta vez, toma por

alvo um convertido, um asceta, um meio santo. A tentação é narrada

por quem a sofreu e superou, o grande poeta Jacopone da Todi.

Na quadragésima sétima lauda (da edição de 1490) intitulada «Da

Batalha do Inimigo», o frade todino refere os desentranhados elogios

que Satã lhe endereça, na esperança de o fazer cair no pecado capital da

soberba.

O Inimigo desta sorte me diz: frade, frade, tu és santo

de grande fama e renome – o teu nome está em cada canto

Mas, como Jacopone não tropeça em tais alçapões, o Diabo recor­

re a outros argumentos e censura-o então por ter sujeito a tão graves

penitências o próprio corpo «que está velho e cansado».

Tu devias amar o corpo – como amas a tua alma,

que é de grande utilidade – é a tua prosperidade.

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A disputa prossegue vivíssima, e Satã, apesar de insistir na primeira tentação, chega a confessar-se vencido:

— Frade, frade, venceste-me — não sei mais do que dizer verdadeiramente tu és santo — pois assim te sabes guardar de mim.

Mas tão-pouco desta vez Jacopone se deixa envolver pelo Inimigo e, ao invés, descobre motivos para ficar galhardamente em guarda contra ele.

Mas é claro que os poetas — o francês do século XII e o italiano do XIII — bem se apercebem de que a arma mais insidiosa do Diabo não é a violência ou o terror, mas a doçura e a lisonja. Na mulher bela louva a beleza; no santo frade, a santidade. Satã é feio e perverso, mas não obstante faz-se cantor daquilo que lhe falta: a beleza e a santidade.

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Os Contentamentos Do Diabo

Giambattista Marino foi o primeiro poeta moderno, talvez, que interpretou a tristeza de Satã.

Nos olhos, onde alberga aflição e morte...

Os demais poetas, de Milton em diante, encareceram a dose e o Diabo foi representado, especialmente pelos românticos, como o ser condenado a uma perene angústia.

Esta dor soturna existiria, contudo, somente no caso em que o Diabo lamentasse a felicidade perdida. Mas disso não estamos nada certos. Lamentar significa sentir pena, dar valor ao que nos foi tirado; se Lúcifer lamentasse ter perdido o amor de Deus e a beatitude celeste, poderíamos pensar que dá importância a esses bens, que os reconhece como felicidade e, por consequência, deseja reavê-los. Mas semelhante desejo bastaria talvez para o salvar, para o redimir, pois seria sinal de remorso, avia mento ao amor.

Pode dar-se que ele tenha a memória da primitiva beatitude, mas a simples memória, acompanhada do desprezo que é o efeito do seu or-

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gulho, não bastaria para lhe incutir a tristeza. Seria necessário sentir pena, e se a pena fosse sincera poderia talvez voltar ao Céu.

Mas, se uma tal dolorosa nostalgia nele não existe – ou, pelo menos, disso não temos provas – pode razoavelmente supor-se que não faltem na existência do Diabo razões de júbilo.

O seu objectivo supremo, para se vingar d'Aquele que o baniu, é o de acrescer o número dos danados, isto é, roubar as almas a Deus. E assim como tal aumento, a ajuizar por aquilo que sucede na Terra, é contínuo e crescente, o Diabo deve ter sobejos motivos de alegrar-se com tamanhas vitórias. Nas almas que ele consegue tornar suas o Demónio vence o seu rival, isto é, Deus, e isso deve proporcionar-lhe não pequeno gáudio.

Em certas horas da história humana, quando a colheita das almas é mais fácil e copiosa, é lícito imaginar-se um Satã refulgente de perversa volúpia.

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O Diabo Pode Perdoar?

Se o Diabo, como se viu, é capaz de júbilo, podemos arriscar a hipótese de que ele seja capaz de perdão.

A embriaguez da vitória inclina em geral à clemência. Isto acontece nas almas humanas, até selváticas. Poder-se-á, pois, admitir que Satã, num momento de jubilosa satisfação, seja levado à indulgência, tenha qualquer movimento de generosidade, se induza a poupar alguns dos que estão para sucumbir às suas tentações, deixando-os em paz?

Que ele retraia as ávidas unhas, da vítima já quase vencida, parecerá incrível. Satã, dir-se-á, não é capaz de perdão, porque o perdão supõe a piedade e a piedade nasce do amor, que lhe é negado; mas poderia supor-se que o Diabo se comporte de tal modo, não já por misericórdia mas por mero capricho, por um impulso extravagante suscitado pela torrencial abundância das presas, ou talvez pelo desprezo que lhe inspira uma alma demasiado inerne.

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Xiii

Utilidade do Diabo

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O Diabo É Necessário?

Satã é o grande apóstolo e cúmplice do pecado e é por isso execrado e combatido por todas as religiões dos povos civilizados. Mas seremos verdadeiramente justos nessa universal e total condenação?

Se nós indagarmos com método realista, fora dos esquemas simplistas do branco e negro, a vida comum dos homens, tal como se manifesta cada dia a observadores não prevenidos, devemos reconhecer que a nossa vida, ou ao menos a da maior parte, não seria possível sem qualquer pactuação com o pecado, logo, com o Diabo.

Sem um elemento de orgulho, algumas vezes admitido e confessado, não existiriam nem poetas, nem artistas, nem filósofos, nem grandes chefes de povos, nem heróis. Dante, que no entanto é considerado o sumo poeta católico, não esconde a alta ideia que tinha do seu génio. O que se chama, por vezo indulgente, o «amor próprio», o «justo sentimento do próprio valor», não é senão uma forma— seja embora atenuada e enobrecida — do antigo orgulho, do pecado de soberba.

E sem o estímulo da libído, da concupiscência carnal, interromper-se-ia o desabrochar de almas sobre a Terra: sem um mínimo de luxúria não nasceriam as virgens, nem tão-pouco os santos.

A ira— sob os nomes de «generoso desdém», de «legítima indignação» — leva ao desejo e ao cumprimento da justiça.

A preguiça é realmente um dos pecados capitais, mas o fundador

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do Taoismo - esse Lao-Tsé, que muitos julgam superior a Confúcio -

pôs a sabedoria do «não fazer» como base da sua doutrina.

A própria avareza, conquanto seja o mais sórdido dos pecados,

contribuí para a virtude da economia e a prosperidade dos povos. O

famoso médico Mandeville demonstrou, na sua Fábula das Abelhas

(1705), que os vícios privados são indispensáveis à prosperidade pública.

Certos pecados, portanto, seja embora em pequena dose e afinados e sublimados, contribuem para a conservação da espécie humana.

A verdadeira malícia do Diabo consiste, mais que em sugerir os pecados, em querer agigantá-los, em incitar aos excessos.

Mas a intervenção do Demónio é útil, poderia dizer-se necessária,

ainda noutro sentido, negativo e não já positivo. Todos os manuais de

moral e de ascética ensinam a táctica e a estratégia do «combate espiritual», isto é, da diuturna defesa do homem piedoso, contra as emboscadas e os assaltos de Satã. A tentação diabólica é a pedra de toque do

autêntico «homem de Deus». Uma criatura frouxa, fria, insensível, que

não praticasse o mal por mera indiferença ou impotência, por simples

preguiça ou penúria de imaginação e, por isso, não tivesse de repelir as

tentações nem lutar com o Diabo, jamais alcançaria mérito verdadeiro

junto de Deus, que elege, justamente, os vitoriosos e não os mediocres.

A actividade do Diabo é pois uma ajuda à salvação das almas, visto que tão-somente quando são postas à prova e logram superá-la se

tornam merecedoras do prémio de beatitude. As tentações diabólicas

- quando são rebatidas e não obedecidas - colaboram na obra de salvação. Sem a vitória sôbre o Demónio não há mérito autêntico, não há

paz derradeira. As artes e as armas de Satã são, pois, instrumentos que,

contra a sua vontade, levam à salvação; instrumentos cruéis mas, em

certos casos, imprescindíveis. Satã, com o seu ódio tenaz, povoa o Inferno, mas ao mesmo tempo também o Paraíso. Muitos, se não tivessem superado felizmente a prova das trevas, não viriam a gozar a alegria da luz.

Isso é manifesto, com magnífica evidência, na santidade. A santidade é mal vencido e repelido; se não fosse o Mal (Satã), os santos não

seriam. Satã tem pois tarefa insuprimível, missão providencial. E neste

sentido pode-se afirmar que o Diabo, por vontade divina, é um coadju-

tor de Deus. Satã é o Adversário, mas sem o Adversário não haveria

batalha, e sem batalha não haveria vitória e glória.

Quem quisesse tirar ao Demónio a sua justa parte, tiraria qualquer

coisa também a Deus. Que o não constituiu Príncipe deste Mundo sem

uma finalidade e um desígnio, do qual podemos vislumbrar, se não

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plenamente compreender, a sageza sobrenatural. O Diabo é ódio, mas por último o seu ódio — e eis aqui um dos dramáticos paradoxos do Cristianismo — é necessário ao triunfo do Amor.

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Todo O Mal Vem De Satã

Estamos realmente seguros de que todos os pecados dos homens sejam devidos às provocações e maquinações do Diabo? Não poderá acontecer, ao menos algumas vezes, que o Caluniador seja caluniado?

Sabemos que em nós é comum e forte a relutância — mesmo a repulsão — a reconhecer as nossas culpas, a aceitar a nossa responsabilidade. A todos agrada imensamente, cristãos e não cristãos, bater o mea culpa sobre o peito dos outros. E quando o pecado é todo nosso e não transferível, achamos sempre entidades cômodas e de recuo, para descarregar de nós sobre elas as somas mais torpes. Ora é o destino e o determinismo, ora a fatalidade histórica, ora a prepotência do instinto e do irracional; e as mais das vezes, e não apenas entre os crentes, as instigações de Satã. Se dermos ouvidos aos pecadores — tanto aos que estão reclusos nas prisões, como aos que andam à solta — todos são inocentes. Todos são cándidos como anjos, vítimas das insídias alheias ou de forças obscuras.

Os antigos hebreus tinham dado forma visível e ritual a esta recusa da culpa e todos os sete anos rechaçavam ignominiosamente no deserto o bode éspiatório, ao qual haviam sido transmitidos, mediante cerimónias mágicas, todos os pecados do povo. O seu nome, Azazel, veio a ser um dos nomes do Diabo e o bode é associado amiúde ao culto mágico de Satã.

O Diabo também nos nossos dias desempenha muitas vezes o papel de bode expiatório. Esquecem-se de bom grado os maus fermentos do nosso sangue, as concupiscências nativas da nossa carne, as disposições perversas do nosso ânimo, as reincidências mórbidas do nosso espírito e de bom grado se endossam todos os nossos erros e furores às artimanhas de Satã.

Não há dúvida, o Maligno cumpre dia e noite o seu terrível e fraudulento mister nas almas dos homens e com bastante mais frequência do que os «espíritos fortes, livres e iluminados» estão inclinados a admitir. «O Demónio — dizia justamente Huysmans — não precisa exibir-

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-se sob traços humanos ou bestiais para atestar a sua presença; basta, para que se afirme, que eleja domicilio nas almas, que exaspere e incite a crimes inexplicáveis; em seguida pode subjugar-las mediante a esperança que lhes insufla de que, em vez de habitar nelas, como faz, e como elas muitas vezes ignoram, obedecerá às invocações, aparecerá, tratará juridicamente das vantagens que há-de conceder, em troca de certos lucros. É suficiente pór vezes o desejo de pactuar com ele, para motivar a sua efusão dentro de nós.»

A técnica do Adversário é requintada e complexa, tanto que ele sabe tirar partido de uma fantasia fugaz, e até do ceticismo, para levar os homens a consentir nas suas vontades. Mas seria perigoso para nós e injusto para ele atribuir-se à operosidade demoníaca todo o volume dos pecados humanos. Se o diabo é, em quaisquer casos, mais forte do que o homem e se toda a obra do Mundo é obra sua, daí resultaria que todo o homem é, no fundo, inocente e que toda a condenação é inconcebível.

Reconheçamos outrossim que o pecado original degradou a natureza humana e tornou-a acorrentada ao Tentador, mas também é verdade, ao menos para os cristãos, que Cristo veio para restituir aos homens a possibilidade da salvação, para os libertar da vassalagem de Satã. Quando se fala em Resgate, esta palavra deve ser compreendida e sentida no seu significado concreto: Cristo pagou por nós, desligou as criaturas escravas do Mal e restituiu-lhes a plena liberdade. E é demasiado cômodo, depois da Paixão e da Redenção, acumular todas as nossas culpas sobre os ombros do Demónio. Não reparamos, agindo desse modo, que fazemos do Diabo um fac simile de Cristo. Este é o Cordeiro que assume todos os pecados do Mundo; Satã é a Serpente que vem carregada de todos os pecados do Mundo. O homem ficaria des­tarte reduzido a um campo de batalha do Bem e do Mal, do Amor e do Ódio, do Salvador e do Tentador: era a teoria de Lutero, mas não pode ser a dos católicos.

O homem, sem mesmo ter em conta a queda de Adão, tem uma certa índole, uma certa lei de conduta que não podem ser obra de Satã. Este é um destrutor, não um criador. Ele corrompeu o homem, mas não o modelou por suas mãos. Os sentidos e os órgãos do homem não foram fabricados pelo Diabo; há qualquer coisa que nos pertence, que está no nosso cerne e que nem sempre é estranha aos desvios do pecado. A vulgarmente chamada «carne», isto é, o corpo humano com os seus imperativos e os seus desejos e que tantas vezes turba e arrebata a nossa alma, não é invenção de Satã. Ele tira disso proveito, mas não poderia tirar se a matéria de que somos feitos se mantivesse mais sã e

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resistente, se a nossa vontade fosse mais vigilante e aguerrida. A nossa desventura, antes de tudo, é não resistir às suas tentações, mas, desta incapacidade, desta tibieza, teremos acaso o direito de atribuir as culpas, sempre, ao Tentador? Aquele que endossa a responsabilidade de todos os pecados ao Demónio faz deste — embora sem que o saiba — um ser omnipotente, isto é, um outro Deus.

O «combate espiritual», de que falam os moralistas e os ascetas, não é uma expressão vã, uma metáfora platónica. Nós somos chamados a guerrear contra Satã: neste sentido deve talvez ser entendida a palavra famosa de Cristo, segundo a qual Ele não vem trazer a paz, mas a espada. Se nessa guerra nós somos vencidos tão amiúde, será lícito afirmar que a culpa reside sempre na força de Satã, e nunca na nossa fraqueza, ou, para o dizer à maneira latina, na nossa imbecilidade?

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O Diabo Como Libertador Do Mal

«O Diabo — escreve Weininger — é a objectiva e genial personificação de um pensamento, que facilitou a milhões de homens a luta contra o elemento malfazejo encerrado no peito de cada um, ajudando-o a projectar o inimigo para fora de si mesmo e a distinguir-se e a separar-se dele⁴⁷.

Quer dizer, Weininger não crê na existência real de Satã — conquanto fosse hebreu de nascimento e depois convertido ao protestantismo — e todavia atribui à crença nele um valor catártico, que embate singularmente contra a opinião dominante.

O Diabo, por conseguinte, não é já aquele que inspira ou acresce a malvadez na alma humana, mas uma entidade mental, escogitada pelo homem a fim de melhor combater o Mal, isto é, para deste diminuir em si o influxo e à potência. O Satã imaginário de Weininger não é já o Tentador, mas, em certo modo, o Libertador do pecado.

Se esta estranha teoria fosse verdadeira, devia verificar-se um efectivo decrescimento do mal entre os que de facto acreditam no Demónio. É é bem verdade que os santos crêm na existência real do Demónio e que neles, mais que nos outros, se atenuam e apagam os vestígios do pecado original.

Contudo, crêm nele sobretudo os que se ufanam de manter com ele relações de intimidade, como os mágicos, os bruxos, e certa espécie de

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ocultistas. E no entanto a moralidade do povo, mesmo nos países cristaos, tem sido sempre bastante baixa. E, quanto à estirpe dos satanistas, sabemos ou adivinhamos a torpeza dos pensamentos e dos costumes.

Weininger é um racionalista e um cientista que, seguindo as ideias de Feuerbach, faz do Diabo um ser irreal, projecção e ficção pragmatista do instinto e da faculdade «efabulatória» do homem. Mas semelhante hipótese, bem que assaz difundida, é desmentida peremptoriamente pela experiência e pela História.

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O Diabo E O Pão Sem Suor

Deus, como sabemos do Genésis (III, 19), tinha condenado Adão, depois da culpa, a ganhar o sustento, com dura fadiga, extraindo-o do solo árido e espinhoso: «Comerás o pão com o suor do teu rosto.»

Pense-se agora na primeira tentação de Satã a Jesus: «Faze que estas pedras se tornem em pães.» O Tentador queria portanto que o pão fosse produzido, com um milagre, pela súbita transformação das pedras. Queria pois que Jesus libertasse os homens da longa fadiga e do suor; queria, em suma, a abrogação da ordem divina. Satã, que é o Antideus, queria que um antigo decreto de Deus fosse abolido e que o homem deixasse de ficar constrangido a comer o pão com o suor do rosto.

Trata-se neste caso de uma velhaca tentativa para levar a infringir por Deus mesmo, na pessoa do Filho, o que o Criador tinha resolvido para castigar o desobediente?

Ou não poderia tr a t a r-se, antes, do desejo de vir em ajuda do homem, condenado por culpa sua à milenária expiação do trabalho, convidando Deus a fornecer-lhe o pão mediante um prodígio? Teria havido na alma de Satã um rebate do remorso por aquele suor na face humana, gotejando por milénios, em seguida à sua instigação maligna?

Satã, neste caso, aparecia sob uma luz inteiramente nova: como um libertador, um resgatador do homem. Ao preço de contrariar a lei divina, ele quer redimir os filhos de Adão de, ao menos, uma das consequências do pecado. Satã apareceria - ao lado do Redentor espiritual - como um redentor material, um amigo do homem.

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Xiv

O fim do Diabo

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O Diabo Volta A Ser Anjo?

Na Segunda Epístola de S. Paulo aos Coríntios encontramos uma afirmação em extremo surpreendente. «O mesmo Satã – escreve o Apóstolo – disfarça-se em anjo de luz» (XI, 14).

Se estas palavras não fossem de um santo inspirado por Deus, poderiam parecer assombrosas e quase incríveis. Sabemos, da Escritura e da tradição cristã, que Satã se tem apresentado em vários aspectos e disfarces: como um réptil, um cão, uma mulher, um sátiro, um monstro. Mas é porventura concebível que ele possa retomar o seu primeiro aspecto de «anjo azul»? É sequer pensável que, depois de se ter tornado indigno daquela veste esplendente com a sua rebelião, possa eventualmente revesti-la de novo para enganar e trair mais facilmente os homens?

E contudo as palavras de S. Paulo não deixam margem à dúvida. Ele insiste mesmo sobre o referido conceito e assim prossegue: «Não é aliás grande façanha, se até os seus ministros se disfarçam em ministros da justiça ...»

S. Paulo referia-se claramente a esses falsos apóstolos que, em nome de Cristo, tentavam deslumbrar e confundir os fiéis com as pare-

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cenças de uma falsa santidade, mas permanece no entanto sempre obscuro o mistério de tão terminante afirmação.

Se o Diabo se mostrou algumas vezes em forma de anjo de luz, não se levanta necessariamente a dúvida acerca de que alguns daqueles cristãos que tiveram visões e aparições de anjos tenham sido mistificados pelo próprio Príncipe das Trevas?

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O Diabo Será Salvo?

A teologia católica ensina que as penas infernais são eternas e que Satã, por isso, jamais será de novo admitido nos coros angélicos. Mas opinião diversa tiveram alguns teólogos dos primeiros séculos cristãos e alguns poetas dos tempos modernos.

O grande Orígenes – inspirando-se na doutrina estóica dos ciclos cósmicos – acreditou e sustentou que a Redenção era o início do retorno de todos os seres criados, agora divididos e corrompidos, ao seio infinito da perfeição divina.

A Redenção, segundo Orígenes, não dizia respeito somente aos homens, mas sim a todas as coisas do Mundo. Houvera, no princípio do tempo, a expiração de Deus – a Criação – mas com a Encarnação começara a aspiração, isto é, o grande retorno do baixo para o alto, da matéria para o espírito, do mal transitório para o bem eterno. A História do Universo, nesta grandiosa concepção, era dividida em duas idades, assinaladas por dois momentos da imensa respiração de Deus: a efusão criadora e a reassunção redentora. A descida de Cristo à Terra era o centro do drama cósmico: Deus que se expande nas criaturas, as criaturas que regressam a Deus. O último escopo da Redenção era o grande retorno, a reconciliação universal, o que Orígenes chama a Apocatastasis.

O teólogo alexandrino era conduzido por esta sua ideia a admitir igualmente a salvação final do Diabo. Com efeito, ele acredita que os demônios voltarão a ser Anjos. «Uns primeiro, os outros mais tarde, após longos e severos tormentos, regressarão às fileiras dos anjos, em seguida elevar-se-ão até aos graus superiores e alcançarão as regiões divinas e eternas….» (De Principiis, I, 6, 3). E o próprio chefe dos demônios será, por fim, redimido. Orígenes, que era cônscio do atrevimento da sua teoria, não chama o Diabo pelo verdadeiro nome, mas

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designa-o por Morte, lembrando que, segundo a palavra de S. Paulo, a morte entrou no Mundo com o pecado. Mas o texto origeniano mostra que se trata verdadeiramente do Diabo: «O último Inimigo, que se chama Morte, será destruído, e não mais haverá tristeza, e não mais haverá oposição, pois que o Inimigo terá desaparecido. Este último Inimigo não será destruído no sentido que a sua substância, feita por Deus, será aniquilada, mas no sentido que a perversidade do seu querer, que é obra sua e não de Deus, desaparecerá» (De Principiis, III, 6, 5).

A opinião de Orígenes foi aceite por S. Gregório de Nissa, se devemos fiar-nos em dois passos do seu Discurso Catequético (XXXVI, 5, 9). Ele afirma que Deus, mediante o laço tendido ao Diabo com a Crucifixão de Cristo, «não fez o bem somente à criatura perdida, mas também ao autor da nossa perdição». E mais abaixo confirma que Deus, por meio das armadilhas que terminam com a prova da morte, «libertando o homem do vício, curou também o mesmo autor do vício».

S. Jerónimo foi, na juventude, grande admirador de Orígenes e no seu Comentário à Epístola aos Efésios (16) declara crer na salvação final do Príncipe deste Mundo. «Na época da universal restauração - escreve S. Jerónimo - quando o verdadeiro médico, o Cristo Jesus, vier para restabelecer o corpo da Igreja, hoje dividido e lacerado, cada um [...] retomará o seu lugar e voltará a ser o que foi na origem [...] O Anjo Apóstata voltará ao seu primeiro estado e o homem entrará de novo no Paraíso, de onde foi banido.»

Um último eco dessa misericordiosa esperança encontra-se num escritor do fim do século IV, conhecido hoje sob o nome de Ambrosias-ter, que, no comentário à Epístola aos Efésios (III, 10) repete que todas as criaturas, no fim, serão salvas, inclusivamente os demónios.

Mas, depois dessa época, nenhum outro escritor eclesiástico ousou retomar o amoroso vaticínio de Orígenes. Talvez um dos principais obstáculos à aceitação da teoria origeniana fosse o famoso verseto contido no discurso de Jesus sobre as últimas coisas, onde Ele, falando aos bodes, que hão-de ficar à sua esquerda, assim os ameaça: «Ide embora, longe de mim, malditos, ao fogo eterno, que está preparado para o Diablo e os seus anjos» (S. Mateus, XXV, 41).

Esta ameaça pareceu uma prova irrefutável da eternidade das penas infernais, mas trata-se de uma interpretação demasiado fácil e com demasiada facilidade acolhida.

Na realidade a palavra eterno, no texto original grego    αἰἰωνιος, tem o significado de «sempre», isto é, algo de perene no tempo, mas não indica de facto - como resulta também da acepção mais antiga,

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que se referia à duração da vida humana — um conceito absoluto e metafísico de eternidade, isto é, do que transcende por definição o tempo.

O fogo, por conseguinte, queimará enquanto exista o que S. Paulo chama «a figura deste Mundo», queimará sem interrupção enquanto permaneçam as realidades presentes, mas quando, depois do fim dos tempos, tivermos novos céus e novas terras, e o tempo chegar ao termo, também o Inferno deverá desaparecer. O Inferno tem pois duração perpétua, mas no sentido estritamente temporal, isto é, num plano inferior, toto caelo diverso da eternidade.

Baste-nos pensar que uma coisa deveras eterna não tem, nem pode ter, princípio nem fim, ao passo que sabemos que o Inferno foi criado e, por consequência, teve princípio e deverá ter necessariamente um fim.

Repugna á mente humana a ideia de uma eternidade que tenha tido um começo; o eterno pressupõe, de qualquer modo, um «sempre», tanto em direcção ao passado como em direcção ao futuro.

O Inferno não existiu sempre, pois que teve início com a queda dos Anjos rebeldes e nada nos impede esperar que tenha um fim, junto com todo o remanescente mundo criado.

É licito acreditar que uma das consequências desse fim será também o termo da rebelião, isto é, o feliz retorno de Satã e dos seus, ao fulgor da eternidade.

Nos tempos modernos conheço um único testemunho desta opinião na obra inédita de um catolicíssimo e ortodoxo escritor italiano, Gustavo Benso di Cavour, irmão do célebre Camillo. No arquivo Cavour de Santena conserva-se, manuscrito, o seu Essai sur la destination de l’homme, onde, em certa altura, é dito que a misericórdia de Deus é tão grande que poderia libertar mesmo os danados do Inferno. Cavour, que era discípulo e amigo de Rosmini, submeteu a sua obra ao exame do grande filósofo de Rovereto, o qual, numa apostilha autógrafa escrita a lápis, que se lê no manuscrito do Essai, aprova e justifica o parecer de Cavour e acrescenta que, «ainda que não possa haver nos danados esperança de redenção em algum mediador ou mensageiro qualquer, todavia não deve admitir-se necessariamente a consequência de que Deus, como Seu poder e a Sua bondade, esteja impossibilitado de arrancar querendo, as almas ao Inferno».

Este pensamento de Rosmini não é rigorosamente o de Orígenes, mas muito se aproxima dele, pois admite que Deus, em virtude da Sua omnipotente caridade, possa interromper as penas eternas; e esta sua opinião, natural em quem fundou o Instituto de Caridade, tem grande importância porque provém de um dos mais puros e profundos católi-

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cos dos tempos modernos. Talvez se pudessem encontrar outros testemunhos concomitantes nas obras de filósofos e teólogos, mas sabemos que tal doutrina não faz parte do ensino oficial da dogmática.

A ideia de Orígenes entretanto foi retomada, do século XVI em diante, pelos poetas.

Um primeiro toque já se pode encontrar em Joost van den Vondel (1587-1679), grandíssimo poeta dramático, justamente considerado o Shakespeare holandês. Na última cena do acto IV do seu Lúcifer (1654) o coro dos Anjos fiéis pede a Deus o perdão do Rebelde: «Tu, Pai [...] fonte de tudo o que existe, Tu, vê como o chefe dos espíritos ousa erguer-se contra os Teus mandamentos, como faz ressoar o tambor e a tuba e, obcecado pela ambição, Te desafia do alto do seu carro. Tem piedade deste acto sacrílego.» E o Arcanjo Rafael une-se a esta imploração: «Perdoa, na Tua misericórdia. Oh, perdoa àquele que queria cingir a sua fronte com a coroa das coroas...»

Neste momento da tragédia de Vondel ainda não sobreveio a batalha entre as milícias angélicas, que terminará com a derrota de Lúcifer, mas já houve a rebelião: o pecado máximo do Arcanjo já foi consumado, e contudo os Anjos ainda esperam que o perdão possa vir.

Mas, para se encontrar a ideia da redenção final de Satã é preciso aguardar os românticos de Oitocentos. Alfred de Vigny compôs, em 1824, Eloa, onde imagina que uma mulher, por amor do Maldito, consente em viver com ele no Inferno. Mais tarde De Vigny pensou escrever uma continuação de Eloa, com um Satan sauvé, do qual apenas restam alguns apontamentos, publicados póstumos no Journal d’un poète. O poeta imagina que um dia Eloa, mergulhada no Inferno, ousa erguer os olhos para o alto e sorrir. Satã pasma. E ela responde-lhe:

«Ouves? Ouves o rumor dos mundos que rebentam e caem em pó? Acabaram os tempos. Tu estás salvo.

Ela toma-o pela mão e os labirintos do Inferno se abrem para os deixarem passar... Eles vêem, passando, todos os mundos abismados. Céu. Deus, quando eles chegaram, já tinha julgado tudo num olhar. Os Anjos estavam sentados. Um lugar estava vazio no meio deles: o primeiro.

Uma voz inefável pronunciou estas palavras: Foste punido no tempo; sofrest e muito porque foste o Anjo do Mal. Contudo uma vez amaste: entra na tua eternidade. O Mal já não existe.»

Poucos anos depois, em 1856, um poeta italiano, Giuseppe Montanelli (1813-1862) publicou em Paris, onde estava exilado, um poema dramático, A Tentação. Lá aparece Satã, que, depois de ter tentado alguns homens célebres, se converte e, quando Cristo lhe perdoa,

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torna a ser um esplendente querubim.

Alguns anos depois o tema de Satã perdoado reaparece num poeta de bem maior estatura e fama do que Montanelli, em Vítor Hugo. Num poema da velhice, La Fin de Satan (publicado, póstumo, em 1886) ele imaginou que, graças ao anjo Liberdade, também Lúcifer é redimido. Bastará citar os últimos versos, onde Hugo faz falar Deus:

L’Archange réssuscite et le démon finit.

Et j’efface la nuit sinistre et rien n’en reste.

Satam est mort; renais, o Lucifer céleste!

(O Arcanjo ressuscita e o demônio acaba. E eu apago a noite sinistra e dela nada resta. Satã morreu; renasce, ó Lúcifer celeste!) Em Itália, nos nossos tempos, o poeta Ferdinando Tirinnanzi (1879-1940) tornou à grande visão de Orígenes e nalguns escritos seus — sobretudo no Beijo de Judas, que largamente citei noutro capítulo — fez sua a esperança, esperança cristã, de uma não impossível e não longínqua redenção de Satã.

Esta concórdia, a tão grande distância de tempo, entre teólogos dos primeiros séculos cristãos e poetas dos últimos séculos, pode surpreender, mas faz igualmente meditar. Não deveria, de algum modo, escandalizar.

A doutrina da reconciliação total e final de todos os seres em Deus não faz parte do ensino da Igreja de Roma, mas quem conheça a história do pensamento cristão, sabe que tem havido, aqui e além, pelos séculos fora, mudanças e enriquecimentos em torno dos maiores dogmas da Fé. Certas opiniões por muito tempo ensinadas, foram, com o andar do tempo, obliteradas, se não condenadas; outras novas as substituíram e uma renovação análoga poderia e deveria repetir-se nos próximos séculos. Desde que a essência do dogma não seja alterada ou negada, são sempre possíveis interpretações e demonstrações mais autênticas e profundas do que as antigas. Devemos observar que, enquanto muitos cristãos deixaram extinguir ou desertaram a sua fé, outros há, seja embora em menor número, que têm profundado sempre mais o sentido do cristianismo pelo simples facto de o viverem em toda a sua plenitude, sob a guia dos preceitos mais absolutos do Evangelho. Estes cristãos têm-se tornado sempre mais intimamente cristãos segundo o espírito do cristianismo eterno, mesmo se algumas vezes lêem de outro modo e com outro estilo a letra.

Até há alguns séculos atrás a ideia da chama devoradora de homens — seja a das fogueiras, seja a do Inferno — não turbava a sensibili-

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dade e a mente dos bons católicos. De há tempos, ao contrário, nota-se nos melhores de entre eles um sentimento bastante diverso: estão renitentes a aprovar quer a morte dos herejes, quer as penas eternas dos pecadores. Estes cristãos, que se tornam cada vez mais cristãos, não negam a existência do Inferno, mas crêem e desejam que o antro da expiação possa vir a ser despovoado, quase deserto. O cruel calvinismo do Quinhentos está hoje, para essas almas mais amorosas, como que virado do avesso: vazio o Inferno e concorrido o Paraíso.

Pensam eles que um Deus verdadeiramente Pai não pode torturar eternamente os seus filhos; consideram que um Deus todo, Amor, como por Cristo foi revelado, não pode negar eternamente o seu perdão, nem sequer aos mais obstinados rebeldes. A misericórdia no fim dos tempos, isto é, do Mundo actual, deverá superar mesmo a justiça. Se assim não fosse, deveríamos pensar que o próprio Pai de Cristo não é um feito cristão.

Nós não pretendemos que estes sentimentos e estas ideias venham a ser aceites hoje pela doutrina oficial da Igreja docente e ainda menos pretendemos falar em seu nome. Mas o que não é lícito ensinar como verdade certa e segura, pode e deve ser admitido como cristã e humana esperança. Os tratados de teologia continuarão a rejeitar a doutrina da reconciliação total e final, mas o coração – qui a ses raisons, que la raison na connait pas – continuará a ansiar ardentemente e a esperar o sim. Na escola de Cristo aprendemos que sobretudo o impossível é crível.

O Eterno Amor – quando tudo for cumprido e expiado – não poderá renegar-se a si mesmo, nem sequer ante a negra face do primeiro Insurrecto e do mais antigo Danado.

Novembro, 1953.

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Apêndice


 

Xv

O Diabo Tentado

Radiodrama Em Três Tempos


 

Primeiro Tempo

Praça imensa, deserta. No meio uma catedral gigantesca, com torres e agulhas, que mal se vislumbram no céu nevoento de um crepúsculo de Outono. É o dia 29 de Setembro, festa de S. Miguel Arcanjo. Do alto portal de bronze, entreaberto, sai um canto doce e solene. Satã caminha de um lado para o outro, meditabundo, diante da catedral negra. De quando em quando estaca, pondo-se à escuta junto ao portal, como se aquele canto o atraísse. Ouvem-se, com bastante nitidez, as palavras do coro:

Contra ducem superbiae

Sequamur hunc nos principem

Ut detur ex Agni throno

Nobis corona gloriae

Enquanto Satã escuta, absorto, o canto em louvor do seu vencedor, chega, quase correndo, um diabo em forma humana, Uriel.

URIEL - Príncipe! Que fazes? Os nossos procuram-te. Lá em baixo.

SATÃ (estremecendo) - Lá em baixo? Onde?

URIEL - Sim, lá em baixo, no teu reino, no nosso reino.

SATÃ - Também este é o meu reino. Acaso não foi escrito que eu sou o «Príncipe deste Mundo»?

URIEL - Não te estou a reconhecer, senhor. Tu falas, hoje, com as palavras dos teus inimigos? Que aconteceu?

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SATÃ (novamente se ouve o coro) — Deixa-me escutar esse canto.

URIEL — Mas não sabes então que hoje a população dos que ajoelham celebra a festa do teu vencedor? E tu estás aí no portal, a escutar como uma criança que tivessem escorraçado do teatro e se contentasse em ouvir as vozes através da fenda da porta!

SATÃ — Desde quando os alunos se permitem dar lição ao mestre? Tu não podes compreender. Pois não sabes que o vencido pode ficar ligado ao vencedor, mais do que a um irmão?

URIEL — Não, não compreendo. Sei que lá dentro uma turba de ovelhas está balindo para festejar a tua derrota. E tu, Satã, o Grande, dignas-te escutá-las?

SATÃ — Uriel, julgava-te mais astuto. Se eu antes tivesse imaginado de que espécie seriam os meus sequazes, não teria talvez... Escuta-me. Se eu tivesse vencido o exército do Grande Chefe não teriam sido levantadas para mim estas torres? E as multidões dos homens, sempre prontas a seguir os vitoriosos, não cantariam agora em meu louvor? Apesar de vencido, sinto-me próximo de Miguel bem mais do que julgas.

URIEL — Nunca te ouvi falar assim. E não pensava ter alguma vez de ouvir semelhantes palavras.

SATÃ — A companhia dos danados imbecilizou-te. Jamais te ocorreu, bruto das trevas, que se eu tivesse vencido Miguel, nós seríamos agora os dominadores do Céu, os legítimos representantes do Bem?

URIEL — É coisa em que não quero pensar. Essa fantasia seria mais uma tortura. Há de resto uma terrível voluptuosidade na nossa condição de malditos. O império do Mal é tão vasto como o do Bem e tu mesmo no-lo ensinaste.

SATÃ — Mas não te disse ainda uma outra verdade: que o Inferno não é senão o reverso do Paraíso. Uma espada reflectida na água toma a figura de uma cruz. Um incêndio espelhado no mar parece uma festa de archotes. Apesar de tudo, somos ainda irmãos daqueles que nos abateram, daqueles que deixámos lá em Cima.

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URIEL – Desculpa, mas não posso seguir-te. És realmente tu, o imperador do Abismo, quem assim fala?

SATÃ – Eu cuidava falar a um génio do fogo e reparo que tenho diante de mim um tição apagado. Nada te lembras do nosso estado primitivo? Do nosso esplendor, que vencia o dos sóis, da nossa felicidade, que era semelhante à de Deus? Já não sentes, seja embora por um instante, a nostalgia da altura, da luz, da alegria? É mesmo que essa alegria fosse um acréscimo de tormento, deveria acaso assustar-nos, a nós que somos atormentados e atormentadores, nós que somos, por essência e por condenação, nada mais do que dor?

URIEL – Tu confundes-me. Terias por acaso, após tantos milénios, o remorso da tua rebelião? Não foste tu que nos persuadiste a todos à revolta e foste a causa da nossa ruína? E agora, tu, falas, o soberbo, como uma mulherzita repudiada que sente a nostalgia da pacatez do velho lar! Essas vênias religiosas perturbaram-te. Torna a ti mesmo. Abandona este lugar de pestilência.

Ouve-se de novo o canto dos fiéis

Não ouves como exultam ao recordarem a tua humilhação? Vem. Não os ouças mais.

SATÃ – Tu não comprehendes. Se em mim houvesse um verdadeiro arrependimento daquilo que ousei, eu já não estaria aqui – eu seria digno de subir de novo à minha antiga pátria, eu estaria próximo da salvação. Não se trata de remorso, mas de recordação apenas; recordação o ofuscada e desesperada da felicidade perdida. O orgulho não abrandou no meu espírito: eu não renego nada. Eu não perdoo ainda Àquele que não quis perdoar-me. Não quis servir e contudo devo servir, condenado como sou à mais horrível servidão: a de roubar a alma aos homens. E que há de estranho se ao escravo, recluso na escuridão do ergástulo, se antolha por momentos, a visão do Céu aberto, onde um dia foi beijado pelo Sol? Não foste tu também, outrora, somente luz?

URIEL – Essa recordação não pode ser para nós senão afronta e suplício. Não nos basta o que temos? Deita isso fora. Torna a ti mesmo e segue-me lá onde te chamam.

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SATÃ — Vai-te. Deixa-me. Eu não tenho medo, como tu, de redobrar a dor.

Ouve-se uma música dulcissima que

já não vem da catedral, mas do Céu.

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Segundo Tempo

Aparece num rasgo o Arcanjo Rafael, todo branco, circundado de luz. Aproxima-se dos dois Diabos. Satã, interdito, cala e não se move.

URIEL - É um fiel d’Ele, um inimigo nosso; é o companheiro de Miguel. Fujamos, Satã. Não quero vê-lo.

SATÃ - Tu, aqui?

RAFAEL - Sou eu, sim, Rafael, aquele que no princípio foi o teu irmão.

SATÃ - Procuras-me? É a mim que procuras?

RAFAEL - Foi Ele quem me ordenou que te procurasse.

SATÃ - Ordenou-te que procurasses a mim? A mim, o réprobo, o maldito, o escorraçado, o rebelde, o vencido?

RAFAEL - Sim, precisamente a ti, o desventurado.

SATÃ - Mas que acontece lá em Cima? Por certo algo de inaudito. Passaram séculos de séculos, milhões de noites e de solidões, e nenhum de vós me procurou. Depois da vossa vitória nenhum ousou acerar-se do monstro que foi precipitado nas trevas do Abismo.

RAFAEL - Eu já antes teria vindo, se me tivesses chamado.

171


 

SATÃ - Chamado? Devaneias. Quem é que chamou?

RAFAEL - Tu próprio, Satã. As palavras que disseste há pouco ao teu compamheiro de desgrça foram dar lá acima, foram ouvidas por Ele. E Ele me enviou junto se ti.

SATÃ - As minhas palavras? Que terei eu dito? Eu nada disse que assemelhasse uma queixa, nada que pudesse ser tomado por uma abjuração. Quis ser o Primeiro e sou o Primeiro, embora num mundo diverso do teu. Mas a monarquia do Mal é sem limites, precisamente como a do teu Senhor.

RAFAEL - Tu não tens ainda o remorso. Mas despertou em ti uma recordação, e nessa recordação há uma ponta de nostalgia, e na nostalgia há uma sombra de desejo, e no desejo um acúlio de dor, e na dor há já um princípio de expiação, e a expiação é...

SATÃ - Basta, basta! Vê-se que na minha ausência te tornaste um palrador, tu também. Poderias ser um suportável pregador da Quaresma, se não andasses ocupado em melhor mister. Doce é a tua palavra, mas eu não sou mosca para cair em semelhante mel.

RAFAEL - Deixa a zombaria, Lúcifer. Tu não falavas nesse estilo ao teu obtuso companheiro, há pouco. Deus aguardava, desde a primeira hora da tua condenação, as palavras que pronunciaste, o despertar da tua memória, a memória daquele fulgor que te embriagou. E se dessa vez mandou contra ti Miguel, com todas as suas espadas de fogo, hoje me enviou a mim com as palavras do convite.

SATÃ - Prefiro Miguel. Miguel é um gerreiro e pode por isso compreender a minha violência e a minha humilhação. Como vês, eu estava escutando a este portal o hino em Seu louvor.

RAFAEL - Miguel será o primeiro a acolher-te quando voltares, se quiseres voltar. E todos os teus antigos companheiros esperam, comigo, que antes da morte dos tempos, voltarás. A saudade da tua primeira glória te incita a recuperá-la. Na certeza dessa saudade Aquele que te amou e te amaldiçoou me mandou procurar-te.

SATÃ - O velho Senhor age sempre com demasiada pressa; agora como então. Talvez eu não fosse digno de uma pena tão inexorável,

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assim como talvez não seja digno desta piedosa solicitude. Dize-Lhe que aguarde: é o Seu mister.

RAFAEL – O sarcasmo é a máscara da tua angústia. Atira fora a máscara e escuta-me. Deus sofre por ti e não de hoje. O Seu amor te espera desde o próprio dia em que a Sua justiça te feriu.

SATÃ – Deveras? Deseja realmente tornar a ver-me? Não posso acreditá-lo. Por que não deu então sinal antes de hoje, sabendo embora quanto é horrenda a minha sorte e que estragos eu faço no meio dos homens, dos Seus filhos amados?

RAFAEL – Deus não podia dar e não pode dar o primeiro passo. Por ti mesmo, pela tua soberba, foste precipitado; por ti mesmo, com a tua humildade, tornarás a subir.

SATÃ – Mas, se não erro, foi Ele Quem me criou. Criou-me, portanto, capaz de soberba, de raiva e de todo o mal. Qual é o pai que castiga um filho seu, se este nasce escamoso como a cobra ou peludo como um urso?

RAFAEL – A tua mente ainda está entenebrecida pela queda. Tu esqueces que d’Ele recebeste, entre outros, um dom verdadeiramente divino: a liberdade. Se abusaste dessa liberdade para te revoltares, a culpa é tua e só tua.

SATÃ – De acordo. Se a uma criança ignorante eu faço o dom divino do fogo, a culpa é sua se incendeia a casa.

RAFAEL – Não blasfemes. Tu não eras um rapazito ignorante, mas o mais perfeito, o mais sapiente, o mais alto dos anjos.

SATÃ – E precisamente por isso fui tentado a igualá-Lo. Se me tivesse feito simples de espírito, como Miguel e como tu, eu não teria caído.

RAFAEL – Repara, mesmo nessas palavras aflora, sem que o queiras, o arrependimento. Não o escondas; em vez de sufocá-lo, confessa-

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-o. Tens diante de ti alguém que te amou e queria salvar-te. E pensa na dor de Deus, infinita como Ele é infinito. Na Sua dor de ter de transmu-

dar em Príncipe do Mal aquele que, mais que todos, Lhe era semelhan-

te e próximo.

SATÃ - A dor de Deus? Mas Deus pode sofrer? O Perfeitíssimo pode ser turbulado pela imperfeição?

RAFAEL - Deus é Amor e não há amor sem dor. Se Ele não tivesse sofrido pela infelicidade humana, teria porventura feito descer à Terra o Seu Primogênito para ser o Homem das Dores?

SATÃ - Conheci-O em pessoa, o teu Homem das Dores, alguns séculos atrás. Tivemos mesmo juntos algumas conversas, lá no deserto da Judeia. De facto, não me desagradava aquele Homem Deus ou aquele Deus Homem. Devo até concordar em que Ele me tratou assaz cortesmente, e não brutalmente como tinha feito o teu fogoso Miguel. Más se deveras era Deus enviado por Deus, por que não me ofereceu a Sua paz? Por último disse-me: «Vade retro.» E eu pus-me a recuar, e tanto recuei que agora me apetece refazer o caminho andando em fren-

te.

RAFAEL - Deus aguardava um sinal teu, como te disse. Mas tu, ao contrário, demonstraste que eras sempre o mesmo frenético de orgu-

lho, tanto assim que pediste a Cristo, ao Filho de Deus, de Se prostrar a teus pés e adorar-te.

SATÃ - Mas não viera Ele para perdoar a todos? E não pregava o amor para com os inimigos? Eu era o Adversário, o Inimigo por exce-

lência, e pertencia-Lhe dar o exemplo, oferecendo-me o Seu perdão e o Seu amor.

RAFAEL - Ele tinha descido à Terra para salvar das tuas garras as tuas vítimas, os homens, e não por ti. E tu na verdade, entraste em Ju-

das e sob a figura do discípulo, vendeste-O aos Seus algozes.

SATÃ - Também dessa vez perdi a partida. E agora não quero recomeçar.

RAFAEL - Tu, que és o Enganador, queres enganar-te a ti mesmo. Deus, porém que é só amor, a ninguém abandona, nem mesmo a ti, que

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foste o primeiro a abandoná-Lo. Se a Paixão do Filho resgatou os homens, a paixão do Pai poderá resgatar os anjos rebeldes. Se à Sua dor responder a tua dor, serás salvo.

SATÃ - E por que espera então o Misericordioso? Não sou todo eu dor, porventura, e não mais do que dor, desde o dia em que fui abismado na grande treva?

RAFAEL - Enganas-te. A tua não é verdadeira dor, mas um enroscar de serpentes, feito de soberba ferida, de cólera impotente, de rancor servil, de vingança furibunda. Tu sofres, e com justiça, mas ainda te não alçaste à tristeza purificadora. Uma vibração de verdadeira dor percorreu no entanto as palavras que dizias ao teu subalterno relutante, quando recordavas a beatitude perdida, quando pensavas que terias podido ainda estar, sem aquela louca insurreição, à direita do trono de Deus.

SATÃ - As tuas palavras produzem em mim um estranho efeito. Eu acostumei-me a tentar essas míseras criaturas humanas, que não pedem mais do que ceder, e agora tu roubas-me o emprego e queres tentar-me com as tuas lisonjas. O Tentador tentado: belo título para um drama dos meus amigos românticos.

RAFAEL - Não reparaste ainda que os homens, de há tempos, pouco ou nada se preocupam com a tua pessoa, embora seguindo a tua doutrina? Não estás cansado de tentar quem não te resiste? Se experimentas uma amarga volúpia em arrastar os outros para o Abismo, não poderias experimentar uma alegria infinitamente mais profunda em fazê-los abalar para o Alto?

SATÃ - Precipitar para baixo, precipitar para cima. Eternamente precipitar. Não haverá então, jamais, um remanso de paz para mim e para todos os seres?

RAFAEL - Não há repouso senão no seio do Eterno. Recorda, uma vez ainda, a tua antiga felicidade, a tua breve exaltação, o êxtase que te envolveu mal surgiste do nada. Não olvides; recorda sempre, recorda tudo: a luz que te vestia como um manto de oiro e de safira, o canto silencioso que brotava do teu coração puro, o amor que te abrasava e, em vez de consumir-te, te dava asas, a presença perene do Criador, que te fazia semelhante a Ele, precisamente a ti, o Arcanjo predi-

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lecto. Considera que um movimento único de arrependimento poderá restituir-te a essa plenitude de dons e poderá consolar a dor d'Aquele que te quisera venturoso. Não terás por fim compaixão de Deus, do Deus que sofre por tua causa?

Satã — Que dizes? Pedes piedade ao desapiedado? Deus tornou-se assim tão pobre que reclama a caridade do Seu maior inimigo?

Rafael — É o mais misterioso dos Seus mistérios e, todavia é tal como acabas de dizer. Deus é infinita prodigalidade de amor e contudo é o eterno Mendicante, que a todos pede a esmola do seu amor; e por pouco que haja quem lha recuse, o Imperador do Universo será o pobre infatigável que bate à porta da primeira e dá última das Suas criaturas. Satã, tem piedade de ti e d’Ele!

Satã — Tarde demais. Ele fulminou-me, reduziu-me a cinzas, e queria agora que desse monte de cinzas negras jorrassem centelhas? Não percebes que a minha dor mais atroz consiste precisamente na minha incapacidade de ressentir essoutra dor que tu me pedes, na minha desesperada impotência de amar, de amar, afinal, a mim mesmo?

Neste momento as portas da catedral abrem-se. A multidão dos fiéis sai, como um rio. Rafael e Satã recuam, acercando-se de uma tília gigantesca que se ergue na praça.

A multidão passa e dispersa-se murmurando. Por fim, solitária, sai uma mulher, que olha em redor. É uma mulher jovem, de rosto pálido emoldurado por uma mantilha negra. Satã observa-a e dela se aproxima. Rafael desaparece na sombra.

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Terceiro Tempo

A mulher está só, na praça deserta. Detém-se, como se hesitasse no caminho a tomar. Satã aproxima-se.

SATÃ — Senhora, começa a cair a noite e estes lugares talvez vos sejam desconhecidos. Se vos posso ser útil em alguma coisa, estou às vossas ordens.

VIRGIA — Estais enganado, senhor. Não preciso de guia nem de companheiro. Agradeço-vos.

SATÃ - Talvez não confieis em mim por ainda não me terdes encontrado. Mas nada deveis temer, senhora, sou um gentil-homem, um velho gentil-homem, muito mais velho do que podeis imaginar.

VIRGIA — Não me interessa a idade dos outros. Pode ser que sejais velho, mas gentil-homem receio que não. Um verdadeiro gentil-homem não aborda as pessoas como acabais de fazer.

SATÃ — E contudo, bela senhora, garanto-vos que sou o primogénito de uma família antiquíssima, de uma família principesca, a primeira que habitou o Mundo. E se não tivesse havido uma certa loucura...

VIRGIA — Poupai-me, por favor, a história da vossa ilustre prosápia e deixai-me seguir o meu caminho.

Faz por mover-se, mas não consegue dar um passo

SATÃ — Reparastes, senhora, que não sou um qualquer. Ainda guardo restos do antigo poder, e a vossa imobilidade é a prova disso. Não vos podeis mover enquanto não for da minha vontade.

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VIRGIA - Compreendi, vós não sois um gentil-homem, mas sim um

dos tantos feiticeiros que correm Mundo para mistificar os cristãos.

Mas o jogo durou já bastante; peço-vos que me deixeis seguir.

SATÃ - Gentil senhora, a vossa definição não é rigorosamente

exacta, mas há nela qualquer coisa de verdadeiro. Eu estou um pouco

acima dos feiticeiros vulgares; e mesmo, se quereis sabê-lo, todos esses

figurões são meus servos e subalternos. Não podeis fugir-me.

VIRGIA - Vós... Será possível? Quereis fazer-me acreditar que

sois Ele?

SATÃ - Quem será esse Ele?

VIRGIA - Quereis enganar-me. Aproveitar-vos da minha creduli-

dade. Que pode haver de comum entre eu e Ele?

SATÃ - Mais do que presumis, amável senhora. Começa pelo fac-

to de existir, isto é, soffrer. Depois a queda: há quem tenha caído on-

tem, há quem caia amanhã, mas todos somos destinados a tal sorte.

Não vos assusteis: não é coisa tão terrível como contam os padres.

VIRGIA - Não acredito no que dizeis. Não quero acreditar. Dei-

xai-me seguir. Não me importa saber quem sois. Eu estou com Deus e

conversas estranhas não procuro.

SATÃ - Também a primeira dama com quem tive o prazer de

conversar - há muito, muito tempo - era próxima de Deus. O seu belo

corpo tinha até sido modelado pelas próprias mãos de Deus. E todavia

ela me escutou com extrema benevolência. Não se irritou, como vós

fazeis, mas ao invés, foi cortês ao ponto de seguir uma modesta suges-

tão ... Não ouvistes falar no caso?

VIRGIA - Agora te reconheço, mas não tenho medo de ti. Tu és o

Maldito, o Adversário, o Tentador. Mas Deus te condenou e Miguel te

abateu. Cristo libertou-nos do teu domínio. Não quero ter nada de

comum contigo. Deixa-me passar.

Debate-se; tenta fugir, mas não consegue.

SATÃ - Finalmente comprehendeste quem eu era e eu sei quem tu

és. Tu és Virgia, a filha do famoso poeta, aquela que jamais conheceu

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um homem e deseja tornar-se esposa de Cristo. Agora que as apresen­

tações estão feitas, conversa-se melhor. Quebrou-se o gelo e a confian­

ça pouco a pouco há-de vir.

VIRGIA – A confiança? Queres a confiança: té-la-ás. Aceito o rep­

to. Disse-te já que não tinha medo de ti. Na minha alma tenho um alia­

do bastante mais forte do que tu.

SATÃ – De tal não duvido, cara donzela. Aqui estou para o teste­

munhar. Mas bem sabes que em toda a criatura humana há dois parti­

dos: o partido do espírito e o da carne. E este segundo partido quase

sempre é o mau aliado. Tu és bela, tu és jovem, tens as veias plenas de

sangue fluente, os olhos cheios de imagens, as tuas mãos fremem de

impaciência por acariciar. Todas as esperanças não estão perdidas.

VIRGIA – Apesar de seres um demônio, a tua inteligência diabóli­

ca desta vez está em falta. Eu não sou daquelas mulheres que pasmam

ou desmaiam às primeiras investidas dos teus iguais. Mas, visto que me

tens aqui pregada ao chão, na tua presença, vou falar-te com a confian­

ça que, parece, desejas. Permitirás a uma humilde mulher falar livre­

mente ao «Príncipe deste Mundo»?

SATÃ – Com grande prazer. Eu fui sempre guloso de novidades.

As mulheres, até hoje, ou me obedeceram ou me fugiram. Estou curio­

so de ouvir o que queres dizer-me.

VIRGIA – Agradeço-te a condescendência. Quero dizer-te o que

nenhum homem, talvez, pensou ou desejou dizer-te. Tu és a encarna­

ção do Mal e eu não posso amar o Mal. Mas neste momento vou esfor­

çar-me por ver em ti somente o antigo arcanjo. A tua alma foi criada no

princípio por Deus, e essa alma eu posso amá-la sem pecado.

SATÃ – Uma declaração de amor? A mim?

VIRGIA – Esquece por um momento seres o Maligno e escuta-me.

Contempla, tu que o podes fazer melhor do que nós, o espectáculo do

Mundo. Tu sabes que o género humano se tem tornado sempre mais

louco e que as suas loucuras têm multiplicado as suas misérias e que

essas misérias multiplicam as loucuras. Desde que os homens começa­

ram a descrever da tua existência, têm-se ido tornando cada vez mais teus

servos. Já nem sequer precisas de os tentar. Vêm ter contigo aos enxa-

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mes, como de noite os insectos em redor da lâmpada. Praticam as tuas máximas sem o saberem, aceitam o teu código mesmo antes de o terem lido. Não te peço compaixão para eles: sei que és incapaz de compaixão. Dirijo-me a ti somente, à tua dignidade de príncipe: não estás cansado de tanta docilidade? Não te causa enjoo tão fácil obediência? Tu foste sempre um batalhador, um herói a teu modo: sempre te agradou persuadir, vencer. Que satisfação podes tirar dessas turmas de ovelhas ferozes, que nem ao menos te reconhecem como pastor ou como lobo e se tornam tuas escravas antes que abras a boca ou que levantes um dedo? No teu caso eu até me envergonharia dessa universal passividade e me afastaria do jogo, que já nem é jogo, à míngua de resistência e luta.

SATÃ – Há verdade no que dizes. Confesso-te que me aborresco cada vez mais sobre a Terra, no meio desses rebanhos domados e murchos. No entanto a vitória, em qualquer modo que seja obtida, dá sempre prazer. Outros prazeres não me são concedidos, do tempo em que ...

VIRGIA – Que tempo? De quando eras inocente e belíssimo e estavas junto ao grande coração de Deus? E não poderias lá tomar? Deus me inspira neste momento a revelação de um grande segredo. Ele não pode perdoar-te porque pecaste contra ele, mas os homens podem, sim, perdoar-te, porque aquilo que fizeste e fazes contra eles é um efeito da tua condenação e não da tua vontade. Se os homens te perdoassem, do fundo do coração, todo o mal que lhes fizeste e quiseste fazer, terias a coragem de pedir perdão a Deus? Responde sem zomares de mim, imploro-te em nome da tua primeira essência celeste.

SATÃ – Perdoar-me? Parece-me já ter ouvido na Judeia, há muitos séculos, uma palavra semelhante, mas não encontrou lugar no meu dicionário. Deixa-me que eu me recomponha da surpresa e talvez te responda.

VIRGIA – Não recorras às grosseiras escapatórias, tu, inimigo de ti mesmo, mais que dos homens. Fizeste cair o género humano por meio de uma mulher e agora é uma mulher que se propõe levantar-te. Não sou realmente senão uma simples mulher, desconhecida, débil, pobre de sabedoria e de experiência, e contudo estou certa de que Deus me dará a força de manter o que te prometo em nome de todos: os homens te perdoarão se prometes deixá-los em paz e reconciliares-te

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com Deus. Nenhum jamais te fez esta oferta, mas eu ouso fazê-la porque o amor me torna temerária e porventura imprudente, mas o amor não tem dúvidas nem medos. O Filho de Deus ordenou-nos que amemos até os nossos inimigos, e não és tu o mais encarniçado e cruel dos nossos inimigos? Tens assim o direito de ser por nós amado mais que outro qualquer.

SATÃ - Mulher, estás desvairada? Lembra-te quem é aquele a quem ousas fazer tal oferta! Os homens, bem sei, amam o Mal, mas será possível a um cristão amar o próprio soberano do Mal?

VIRGIA - Já to disse. Eu não amo o Mal. Mas tu és igualmente uma criatura de Deus e foste um dos filhos predilectos de Deus. Hás-de conservar alguns traços da tua natureza primitiva. Bastava que tivesse ficado em ti um infinitésimo da recordação e do desejo dessa luz: eu amo em ti o que foste no tempo feliz, amo em ti o futuro filho pródigo que voltará um dia à casa do Pai.

SATÃ - Amar. Amor. Perdão. São palavras estranhas e esquecidas – dos meus ouvidos e ainda mais da minha alma. Nenhum homem, nenhuma mulher jamais me falou como tu me falas. Estou como alguém despertado em sobressalto e que não consegue apreender claramente o que lhe dizem.

VIRGIA - Acorda, pois, e escuta. Os Céus estão abertos diante de ti, outra vez. Tu fizeste cair o homem e o homem, para se libertar a si e a ti, há-de erguer-te do abismo em que te afundas. Todos havemos de orar pela tua salvação, como nunca até hoje orámos. Basta que haja um vislumbre de saudade, um rebate de remorso, uma centelha de amor. Nós faremos o resto.

SATÃ - Mas poderá existir uma criatura humana capaz de amar-me? Os homens, até agora, têm sido meus escravos ou meus inimigos, cederam-me ou odiaram-me: nenhum me chegou a amar, porque nenhum consegue sequer imaginar que me ama. Amar significa a identificação com o amado. Quem quererá ensimesmar-se com a criatura mais malvada e infeliz do Universo? Devaneias, Virgía, não sabes o que dizes e o que prometes.

VIRGIA - E contudo entrevi nalgumas das tuas palavras uma sombra de pena, um tom de nostalgia. Tu não esqueceste de todo a infi-

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nita felicidade que foi tua; tu confessaste ter chegado ao tédio do teu domínio, demasiadamente fácil. Tenta dar outro passo, só mais um; e hás-de compreender-me.

SATÃ – Deixa-me. És livre. Já te não retenho. Não poderei mais esquecer-te, mas deixa-me agora – foge!

VÍRGIA – Não, não quero fugir. Agora, que rompeste o cerco de encanto que me prendia ao chão e que posso livremente ir para casa, não quero abandonar-te. Aquela que não esquecerás tem ainda qualquer coisa a dizer-te.

SATÃ – Deixa-me. Deixa-me só com a minha incurável dor.

VÍRGIA – Mas é precisamente essa dor o meu ponto de apoio e o meu penhor de esperança. Eu poderei falar-te das inúmeras dores que fazem delirar os homens e que são obra tua. Poderia falar-te dos furores dos povos, do sangue que alaga dia a dia a Terra, do infindável pranto nocturno dos feridos e dos pecadores, da infâmia que enfilece e corrompe almas sem conta, da aflição que tritura e torce tantos corações, das incuráveis epidemias, do ódio, da cupidez, da vileza e do pecado, de tudo o que humilha, mortifica, dilacera, infecta e consome os meus irmãos por culpa tua. Mas eu não quero falar-te na dor dos homens. Eu faço apelo à tua dor, ao teu desejo inconfessado de tornar à Glória. Eu faço finca-pé na tua memória não de todo abolida, na tua saciedade milenária, na tua desesperação por ter de sempre desesperar. Eu chamo-te em socorro de ti mesmo.

SATÃ – Vai-te, repito. Ofereces-me o impossível. As tuas palavras redobram a minha tortura. Tu própria, que dizes amar-me, não me amas, visto que me fazes sofrer.

VÍRGIA – Se tiveres coragem para te regenerares a ti mesmo, eu prometo-te o perdão do género humano. Se tiveres força para tornares a ser o que foste, eu prometo-te o amor do género humano. E entretanto, como infimo sinal, aceita o meu amor.

SATÃ – Eis o Tentador tentado! O que não conseguiu um Arcanjo, conseguirá porventura uma mulher? Seria demasiado absurdo acreditar no que me ofereces! Pôes a lampejar diante dos meus olhos o impossível. Como poderei crer em ti? Também eu fiz tantas promessas

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- e não eram senão laços e alçapões. Poderei jamais crer em ti? Vai-te, digo-te. Deixa-me.

VIRGIA - Vou deixar-te. Mas tu mesmo há pouco disseste uma palavra que conforta a minha esperança. Disseste que não poderias esquecer-me. E não me esquecerás. Tu hás-de ir em minha procura e eu conseguirei salvar-te, porque a tua dor será doravante cúmplice do meu amor.

Aparta-se Virgia e sobrevêm Uriel.

URIEL - Estás só, finalmente? Então, vamos.

SATÁ - Vamos? Mas aonde?

Minha Impalpável Biblioteca

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Notas

1 Il tragico Quotidiano, Florença, Humachi, 1906, pp. 39-51. Em 26 de Abril, 1903, fiz uma comunicação sobre os Adoradores do Diabo (Yezidi) à Sociedade Italiana de Antropologia de Florença. Pode encontrar-se notícia a propósito no Arquivo para a Antropologia e Etnologia desse ano.

2 M. J. Scheeben, Os Mistérios do Cristianismo. Ed. P. Innocenzo Gorlani, O. F. M., Bréscia, Motcelliana, 1949, p. 231.

3 S. Mateus, IV, 3-10; S. Lucas, IV, 3-12; S. João, VIII, 44; XII, 31; XIV, 30; XVI, ii; III, 8; Apoc. II, 13; XII, 13; XIX, 20; S. Pedro, V, 8.

4 Migne, Patrologia Latina, LIX, 1007-1078.

5 Migne, Patrologia Latina, CLXIX, 1215-1502.

6 Pietro Gasparri, Catechismus Catholicus, Roma, Tipografia Poliglota Vaticana, 1930, p. 25.

7 Carducci, Opere, IV, 91.

8 Manzoni, I promessi Sposi, XXII.

9 S. Ireneu, Adversus haereses, V, 24, 4.

10 S. Gregório de Nissa, Discurso Catequético, VI, 5.

11 «Não só quis todavia ser igual a Deus, já que presumiu ter vontade própria, mas também quis ser maior, querendo o que Deus não tinha querido, porquanto sobrepôs a sua vontade à vontade de Deus.» (N. do T.)

12 Otto Weininger, Em torno das Coisas Supremas, Turim, Bocca, 1932, p. 244.

13 Summa, I, quest. 64, ar. 1; De Malo, 9, 16, art. 6,7,8.

14 Summa, I quest. 110, art. 4; De Malo, 9, 16, art. 9, 11, 12.

15 Verso de Dante, já citado: Contro il suo Fattore alzo le ciglia.

16 Ferdinando Tirinnanzi, Il Narratore forse di se stesso (O Narrador talvez de si mesmo), Florença, Sansoni, 1942, p. 159-162.

17 Tasso.

18 Liutprando, Liber de rebus gestis Ottonis Magni Imperatoris (in Pertz, Mon. Germ. Script. -III, 343). A intimação do Sínodo é reproduzida também em F. Gregorovius, Storia della Città di Roma nel Medio Evo, trad. de R. Manzato, Turin, Sten, 1925 (vol. II, t I, p. 51). Veja-se igualmente A. Graf, Miti, leggende e superstizioni del Medio Evo, Turim, Chiantore, 1925, p. 297.

19 Ser uma tíbia de santo – expressão equivalente a: estar em cheiro de santidade.

20 A obra de Benone foi publicada a primeira vez por Ènea Silvio Piccolomini (Basileia, 1520), o futuro Pio II. Lê-se agora in Mon. Germ. Libell. Hanôver, 1892, t. II. pp. 379-403.

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²¹ Dante, Inferno, IV, v. 53-57

²² Dante, Paraíso, XXVI, 114-118.

²³ S. Tomás d'Aquino, Summa Theologica, II, 163, 1, 2.

²⁴ Francesco Quaresmio, Elucidatio Terrae Sanetae historica, theologica et moralis, Antuérpia, 1639, 2 vol.

²⁵ Vede o curioso e raro libelo de Pietro Giordani Il pecado impossible, Pedone Lauriel, 1889.

²⁶ Lembramos, por exemplo, Mons. Don Giovanni Neuschel, bispo de Borgo S. Donnino (Florença, 1836-1843) e o Pe. Angelo Domenico Ancarani.

²⁷ Antonello Gerbi, II Peccato de Adamo ed Eva, Milão, La Cultura, 1933.

²⁸ Paul Valéry, Mauvaises Pensées, Paris, Gallimard, 1942, p. 95.

²⁹ Algumas palavras e frases foram completadas na tradução, para permitir a leitura. (N. do T.)

³⁰ Giacomo Leopardi, Scritti Vari, Florença, Sucessores Le Monnier, 1910, pp. 114-115. (Os editores dos Scritti Vari atribuem a este esboço a data de 1835, mas torna-se evidente, do contexto, que foi composto antes de 28 de Junho de 1833.)

³¹ Louco, talvez no sentido etimológico, do latim elucus ou helucus: folgazão, gracejador, por ter bebido muito. (N. do T.)

³² A. Gide, Dostoievski, Paris, Plon, 1923, p. 253.

³³ A. Gide, Ainsi soit-il ou les jeux sont faits, Paris, Gallimard, 1952, p. 83.

³⁴ H. de Montherlant, Le démon du bien, Paris, Grasset, 1937, p. 278.

³⁵ Adjectivo formado com o nome do poeta Mallarmé. (N. do T.)

³⁶ Paul Valéry, Mon Faust, Paris, Gallimard, 1946, pp. 117-120

³⁷ Mario Praz, La Carne, la Morte e il Diavolo, Florença, Sansoni, 1948; p. 58.

³⁸ Enrico Sacchetti, Vita d'Artista, Milano, Tréveros, 1935.

³⁹ Jean Paul Sartre, Saint Genet comédien et martyr, Paris, Gallimard, 1952. Um volume de 573 páginas.

⁴⁰ Erman, La religione egizia, Bérgamo, Instituto d'Arti grafiche, 1908.

⁴¹ Vento abrasado, que sopra no Sara. (N. do T.)

⁴² Alusão às Eneades, enciclopédia filosófica de Plotino. (N. do T.)

⁴³ Zendavertá, conjunto de textos sagrados da Pérsia antiga, atribuídos a Zoroastro. (N. do T.)

⁴⁴ Em português, tufão. (N. do T.)

⁴⁵ Pausânias, Viagem na Grécia, X, 28, 7. (Trad. S. Ciampi, Milão, Gonzogno, 1841).

⁴⁶ Ildefonso Schuster, Liber Sacramentorum, vol. VIII, p. 286, Turim, Marietti, 1927.

⁴⁷ O. Weininger, Acerca das Coisas Supremas, Turim, Bocca, 1923, p. 54.

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